Guerra entre Mundos

8 O abismo também olha para dentro de ti.


“Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

– Friedrich Nietzche

“Mate-os!”

Lena lutava para permanecer forte. Não podia e não queria machucar seus amigos.

A voz que a vinha atormentando durante o último mês não dava trégua. Pela primeira vez, ela estava completamente sã. Algumas vezes tinha flashes do que estava acontecendo, mas era como se enxergasse por uma lente vermelha. Os olhos do monstro. Depois de certo tempo, simplesmente parou de lutar. Não sabia quanto tempo havia se passado, mas sabia que não podia fazer algo mais.

Não se lembrava de algum dos homens ter feito algo além de bater nela quando foi pega. Exceto, é claro, por aquela substância transparente que aplicaram em sua veia. De início achou que fosse algum calmante, mas percebeu que não era quando ficou inquieta. Era como se algo não autorizado estivesse tentado tomar posse de seu corpo. Lena lutava contra esse novo ser e, logo no começo, conseguiu. Parecia mais com uma dor de estômago extremamente forte, facilmente mesclada com os golpes dos homens de preto.

Passara um mês despertando em lugares diferentes, vendo seu corpo ser usado, e não podendo fazer nada.

Agora, naquele lugar, parecia ter total controle de seu corpo.

Despertou amarrada pelas correntes, que facilmente se romperam quando puxou o braço. Eles certamente não sabiam disso, porque provavelmente era a primeira vez que o monstro a havia levado até ali.

Instintivamente saiu correndo e derrubou o homem que estava na porta. Não era sua intenção joga-lo da montanha, mas, aconteceu. A força de Lena estava visivelmente ampliada, o que a chocou um pouco. Ouviu uma voz vinda de dentro da casa e virou-se para olhar o que era no momento em que algo escuro veio contra seu rosto.

Quando despertara, o mesmo homem que a tinha machucado estava correndo em direção à Peter. Sem pensar muito, estendeu a mão e uma chama criou uma explosão. Não sabia o que tinha acontecido, mas ficou preocupada quando viu o corpo de Peter inerte no chão. Teria ela o matado? Lena só queria protege-lo daquele ser repugnante.

Assim que se levantou sentiu uma tontura. De alguma forma, sabia que aquele monstro iria tomar seu corpo novamente.

O que conseguiu falar para Annie era que não sabia por quanto tempo iria conseguir controlar o monstro. A garota não pareceu entender, porém, assim que Lena ia explicar mais coisas, sentiu um fervor sair de seu coração até o resto de seu corpo.

Quando pensara que não era mais si mesma, percebeu que o monstro dentro de si estava fraco. Todo o corpo de Lena estava sentindo dor. Uma dor que Lena não pensara que poderia sentir em toda sua vida.

Lutando contra o maldito monstro que sussurrava para ela matá-los, conseguiu tomar o controle. Mais um momento de dor assolou seu corpo enquanto dizia o que Annie tinha que fazer.

Sabia que não conseguiria mais. O monstro estava possuindo-a, e ambas estava fracas. Lena, porém, era apenas um frágil recipiente. Não conseguiria controlar aquilo para sempre.

Quando percebeu que o monstro estava se apossando dela mais uma vez, saiu correndo. Se não podia controla-lo, ao menos o mataria. Ela morreria junto, mas seria por uma boa causa.

Em seu último momento de sanidade correu até a ponta da montanha e saltou. Nesse momento o monstro já estava no total controle.

Viu o chão se aproximar, e viu a cratera que criou quando bateu contra o solo.

Ela os mataria. Mataria quem fosse para conseguir a caixa. Ela estava ficando mais forte a cada dia e, quando o dia chegasse, conseguiria se juntar aos outros.

Esse dia estava mais perto do que pensavam.