Guerra entre Mundos
12 Manuseá-la é machucá-la.
“O sentimento é uma flor delicada; manuseá-la é machucá-la.” – (Larra)
Assim que saiu da casa, se arrependeu amargamente. Mas agora era tarde demais para voltar.
A verdade era que estava com muita raiva de James. Eles eram amigos há tanto tempo e jamais havia mencionado Christopher.
Quanto valia sua amizade para James? Provavelmente nada.
No momento, a única que estava ao seu lado era Mary. Ao contrário do que Annie e James pensavam, ela o fazia muito bem. Tirando o episódio em que o tentara beijar, Mary era quase uma irmã para Peter. Sentia que podia contar com ela.
Embora houvesse ficado ao lado de James quando ele o contou que Mary tinha atacado Annie, não acreditava nele. Ainda não acreditava. Fizera isso somente para preservar a amizade, nada mais. A verdade era que não gostava de Annie. A única coisa que fizera desde que chegou foi trazer problemas e acusar Mary. Logo Mary, que era tão delicada. Com toda a certeza, Annie havia ajudado James. E Peter seria eternamente grato a ela, mas não sabia se seus sentimentos por passariam da gratidão. Ela tinha um ar sombrio e misterioso, o que Peter julgava ser ruim para todos ao seu redor.
Mary fazia Peter se lembrar de Lena. Ao menos na aparência. Mary era simpática, embora não gostasse de pessoas. A verdade era que Lena também era assim, mas não deixava ninguém saber. Era amigável com todos, mesmo não gostando de mais da metade das pessoas que conhecia. Dizia que o mundo era hostil por si só, e ela não queria fazer parte disso.
Grande parte de Peter não se afastar de Annie era porque Lena o havia dito que ela era uma pessoal espetacular, e que mudaria muitas coisas.
Lena seria um eterno mistério, até mesmo para ele.
Agora que a vira sã, suas esperanças haviam se renovado. Sabia que poderia ajudá-la, mesmo não sabendo como.
Quando percebeu que já estava muito distante do orfanato, parou e tentou se localizar. Conseguiu sem precisar olhar duas vezes. Estava em frente ao lugar onde ele e Lena se beijaram pela primeira vez. Eram inocentes naquela época, mas ele jamais esqueceria.
Reconheceria aquele lugar de longe. Seus enormes pilares antigos sempre seriam inconfundíveis. A construção era enorme, podia até mesmo ser uma igreja.
Estava com a mão na maçaneta, o que o fez se afastar rapidamente. Não se esqueceria tão rapidamente do que aconteceu com ele da última vez em que estivera ali.
Certamente não era muito comum um castelo no meio da Califórnia, mas... Esse certamente não era qualquer castelo.
Enquanto encarava a parede vazada, ouviu um sussurro vindo de dentro do castelo.
E não era um sussurro comum, era uma voz conhecida. Algo nunca soou tão familiar para Peter como naquele momento. A voz sussurrava seu nome.
Peter quase pôde ouvir o estalido de reconhecimento em sua mente quando a voz sussurrou mais uma vez. Era claramente a voz de Lena. Sem pensar mais, entrou correndo na casa.
Quando entrou, pôde apenas ouvir o silêncio. Mesmo abandonada, o cheiro era o mesmo.
Estava parado no primeiro degrau da escada principal quando ouviu mais um sussurro, dessa vez mais perto.
Quase saiu correndo quando sentiu uma mão tocando seu ombro. Virou-se rapidamente e empurrou o que quer que fosse para trás. Viu algo esvoaçando e caindo no chão.
Era uma mulher.
Correu até ela e tentou ajuda-la. Enquanto pegava em sua mão, viu sua visão girar e enxergou o chão, com sua mão presa atrás do corpo e um braço em volta de seu pescoço.
– Quem é você? – a voz da garota era melodiosa, e fez o corpo de James relaxar, o que rapidamente foi interrompido com o apertar de seu braço contra seu pescoço. – Responda-me!
– Mas que droga! Eu apenas vim visitar um lugar ao qual não vinha há muito tempo! Será que você poderia me soltar agora?
Lentamente, sentiu a pressão em seu pescoço e costas aliviar, mas não sumir por inteiro.
– Como assim “não vinha há muito tempo”?
– Olha só, seria ótimo lhe contar minha história de vida com você me enforcando e tudo o mais, no entanto seria incrível poder falar com minhas cordas vocais inteiras.
A garota saiu de cima dele e se escondeu nas sombras. Como se o castelo já não fosse um gigante breu. Peter mal conseguia ver um palmo a sua frente.
Ele podia ouvir os passos da garota o rodeando, e conseguia imaginar o lugar exato onde ela estava. Provavelmente, quando o atacou, não contava que ele conhecia cada minúsculo pedaço do castelo.
Quando teve certeza de onde ela estava, deu um passo a frente e apertou seu pescoço.
Lentamente aproximou seu rosto do dela, sussurrando:
– Por deus, não quero machuca-la. Tem como ficar quieta?
A menina olhou desconfiada para ele, mas balançou a cabeça. Sabia que não tinha escolha.
– É claro que não quer. – disse ela quando Peter a soltou – Mas vai, não é? É o que todos fazem.
Peter não conseguia ver o rosto da garota, mas sabia que estava assustada. Cada vez que ela falava, o corpo de James relaxava um pouco mais.
– Todos quem? Qual seu nome?
– Ao menos és gentil, bravo homem. Meu nome não deve e jamais será revelado. Sou reconhecida por diferentes codinomes.
– Quais?
– Realmente importa-se? Ou é apenas uma pergunta vaga de sua pobre alma?
– Seja lá quem for você, o que faz aqui? Onde estão seus pais? Parece ser muito jovem para...
– Basta!
O grito da menina ecoou por vários cômodos. Agora já não parecia mais uma garota. Seu corpo havia se esticado, ficando o dobro do tamanho de Peter. Ainda assim, seus cabelos encostavam-se ao chão. Eles eram do ruivo mais vivo que o garoto já vira.
Ele estava caído no chão como um gato assustado.
Os olhos da garota abaixaram para Peter e ela diminuiu. Simplesmente.
– Me desculpe. Achei que fosse me machucar, sabe. Como os outros.
A garota estava encolhida contra seu próprio corpo, parecendo frágil e indefesa.
“Ela não parece”, pensou Peter. “Ela é”. No fundo, essa garota só tinha medo de se machucar. Isso se já não tivesse acontecido. Tudo o que ela precisava era alguém em quem pudesse confiar.
– Está tudo bem. Não quero te machucar.
A garota se afastou ainda mais. Lógico. Todos dizem isso antes de o fazer.
– Qual o seu nome? – a menina dava mais passos para trás conforme Peter falava – Olha... Não importa o que eu diga aqui e agora, você não vai confiar em mim de uma hora para a outra. Sei que está machucada e que isso está doendo, e sei como se sente. Mas a vida é assim. Não podemos escolher não sermos machucados. No entanto, nem todos no mundo vão querer te fazer o mal.
Ela ficou imóvel, deixando Peter se aproximar.
– Posso tentar te ajudar?
A garota tocou na mão estendida de Peter, mas não a segurou. Já era alguma coisa.
Peter a seguiu por corredores escuros, impelido a fazê-lo sem saber o porquê.
A mão da menina estava parada em uma maçaneta, esperando ele se aproximar. Quando Peter o fez, ela abriu a porta.
Ele sentiu todos os músculos de seu corpo congelar quando viu o que aquela sala guardava.
No centro havia uma mesa com alguns instrumentos médicos ao lado, e ao redor várias prateleiras. A luz estava apagada, mas Peter viu exatamente o que era guardado ali.
Olhos. Olhos dentro de potes. Cada pote era pouco maior que um dedo, e havia um olho em cada.
Ele saiu do transe quando a porta foi fechada contra seu rosto.
Com sua voz melodiosa a menina disse:
– Nunca quis feri-los. Eu jamais faria algo desse tipo com você. – ela olhou para baixo e continuou – Ainda posso confiar em ti?
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