Guerra dos Seres - volume1
3 Capítulo III
Notas iniciais
6º REINO
O manto escuro e estrelado foi caindo sobre a superfície azul diurna corriqueira do Sexto Reino. A grande esfera branca iluminava a copa das árvores que se estendiam por uma longa distância. As torres de vigia posicionadas na estrada iluminavam o caminho com a luz alaranjada das tochas recém-acesas. Nas muralhas do Sexto Reino, arqueiros andavam de um lado para o outro com a aljava presa nas costas e o arco no ombro, o grande portão de entrada estava iluminado por mais algumas tochas e vigiado por dois guardas. Todo o povo já se encontrava recolhido dentro de suas casas, com a exceção de alguns homens que bebiam violentamente em tabernas abafadas. A brisa refrescante ia sendo soprada por todos os lados. No meio do silêncio da noite, entre as grandes sombras escuras, um som de trombeta ecoou.
O rei Journ acordou com as badaladas graves do sino de alarme. Tocavam em um ritmo que simbolizava um ataque inimigo em direção ao Sexto Reino.
O monarca saltou de sua cama de imediato e já vestia sua camisa enquanto caminhava para a porta de seu dormitório. Os olhos ainda despertando e o corpo ainda mole como se estivesse dormindo.
— Onde vai, querido? — perguntou Laila, rainha do Sexto Reino.
— Os sinos estão badalando no ritmo de ataque, fique aqui! — respondeu Journ sem demorar muito.
Depois disso, o rei abriu a porta de seu quarto, dois seguranças estavam o esperando e nem disseram a notícia, pois a majestade já estava descendo as escadas apressado.
O grande portão do castelo já encontrava-se aberto revelando o pátio externo. Criados e guardas corriam de um lado para o outro tentando entender o que estava acontecendo. Uma criada estendia um pano sobre uma poça de água no centro do salão e pedia para que tomassem cuidado, pois ela havia acabado de derrubar um copo de água ali.
Uma grande multidão passava correndo pelo pátio externo e o general já estava montado em seu cavalo. Em sua caminhada rápida até o pátio, o rei foi acompanhado pelo seu melhor amigo: o conselheiro Iun
— O que está acontecendo, Iun? — indagou o rei.
— Um exército de mil pessoas está marchando em nossa direção. Vestidos de preto e empunhando espadas e escudos. Vieram pela estrada principal marchando em uma velocidade média.
— Certo, Iun. Volte para seu posto!
O conselheiro saiu correndo de volta às escadas onde iria até a sacada para monitorar o movimento. Journ chegou até o lado de seu general.
— General! O que faz aqui ainda? Não deveria estar comandando a frente?
— Estava à sua espera senhor.
— A ordem não é de me esperar. A ordem, em caso de batalha, é de que o senhor vá para a frente o mais rápido possível! Vá indo que eu te alcanço depois! — ordenou o rei.
— Sim, senhor! — dizendo isso, o general foi em direção à ponte levadiça que bloqueava a entrada do povo e dos inimigos nas muralhas do castelo e, em outros momentos, servia de ponte para atravessar o fosso.
Journ parou ao lado de seu cavalo enquanto alguns criados o vestiam com uma armadura e seu elmo de penas vermelhas. Depois de vestido, o rei montou em seu cavalo e partiu para a ponte levadiça, mas foi parado por um guarda.
— Senhor, eu recomendo que vá pela passagem subterrânea — disse o guarda — As ruas estão interditadas pelo povo.
— Santo Alev! — reclamou Journ — Obrigado pelo aviso, guarda.
Já era de se esperar que o povo invadisse as ruas. Todos sabiam que o lugar mais difícil de se invadir no reino todo era o lado interior das Muralhas Reais, as quais também eram constantemente vigiadas por arqueiros e soldados.
O rei foi com seu cavalo até a entrada do túnel que já estava com suas portas abertas. Os guardas que estavam lá fizeram uma reverência que o rei mal notou, pois passou correndo de forma muito veloz. Journ percorreu tudo em trinta segundos e saiu próximo a uma rua estreita. O rei seguiu o caminho até o portão. Uma grande multidão organizada estava parada, aquela era a Tropa de Urgência.
A Tropa de Urgência era uma tropa acionada apenas em ocasiões de extrema emergência. Casos de ataques surpresas, como esse, pediam por esses três mil homens. Eles se organizavam em um grande retângulo, todos em silêncio, apenas esperando a ordem do general. Sua organização era estrategicamente vantajosa para eles: as duas primeiras linhas tinham escudos e lanças para poderem atacar em caso de um choque com os escudos inimigos; entre cada coluna dessas linhas havia ruas para outros soldados poderem passar; as outras vinte linhas tinham espadas afiadíssimas e eram essas outras linhas que passavam pelas ruas criadas pelas duas primeiras linhas.
O rei passou na frente do exército e foi até o lado do general. Os soldados o seguiram com os olhos e todos abaixaram levemente a cabeça em uma reverência.
Um grande exército de mil pessoas estava parado na frente de um guarda, esse conversava com um homem que parecia ser o líder. Os arqueiros do Sexto Reino já estavam nas muralhas armados com suas flechas e preparados para atirar a qualquer momento. O líder do exército inimigo recuou e o guarda voltou para o seu posto no portão correndo enquanto gritava: "Eles vão atacar!".
Assim como disse o guarda, o exército inimigo voltou a marchar em direção ao reino, os arqueiros atiraram algumas flechas nas linhas da frente. Alguns poucos homens vieram a morrer, nenhum deles usavam armadura então a flecha espetava-os sem muito esforço. O general gritou:
— Ataquem, homens! Para suas posições!
A Tropa de Urgência começou a marchar, seus pés firmes no chão davam a impressão de que nada poderia move-los do lugar. As duas primeiras linhas com escudos foram correndo sincronizadamente. A noite silenciosa foi preenchida por gritos de pavor do povo do Sexto Reino e pelos passos pesados e metálicos do exército. As flechas voavam para a cabeça dos inimigos levando-os ao chão.
A primeira linha do exército do Sexto Reino chocou-se com a primeira linha inimiga; a segunda linha dos aliados pressionava a primeira para que essa não conseguisse recuar. As lanças caçavam suas próximas vítimas em meio a escuridão da noite, os gritos de batalha enchiam o ar vazio sob o céu estrelado. Os homens que eram mortos pelas flechas, rapidamente eram substituídos por outros.
De repente a ponta de uma lança no meio da fileira atingiu o tronco do inimigo. O sangue foi encharcando o manto negro do homem morto, uma poça vermelha se estendeu no chão sob o novo cadáver. O homem que matara o cara de manto negro tomou seu lugar matando mais soldados. As linhas e colunas do exército oposto ao do Sexto Reino foram surpreendidas com a chacina e perderam suas forças. O exército do Sexto Reino começou a avançar por cima dos inimigos empurrando todos com os escudos, as flechas voaram com mais intensidade. Mas então as duas primeiras linhas pararam e das ruas que mantinham uma coluna separada da outra, vieram mais vinte colunas, mas esses sem escudos, apenas com espadas.
O som metálico de lâminas se chocando marcaram aquela noite para sempre no tempo. Uma poça de sangue escorria por todo o campo de batalha; corpos caíram no chão com os olhos abertos, mas mortos. As pupilas, em sua maioria de cor escura, pareciam vazias.
O rei olhava tudo aquilo com orgulho de seu exército, porém não sentia mais orgulho que seu general.
No meio de toda a multidão, um homem lutava bravamente. Era um soldado do Sexto Reino que corria por todo o campo de batalha ceifando inimigos. Passou sua lâmina pelo pescoço de um guerreiro, o sangue jorrou em sua cara enquanto o cadáver caía no chão sem vida; o soldado virou-se para o lado com a espada em mãos e chocou-a contra uma espada inimiga, o som metálico perdeu-se entre todos os outros sons e o guerreiro do Sexto Reino continuou lutando, gotas de suor escorriam de sua testa, seu braço direito já estava cansado, quase sem forças; de repente sentiu algo o atravessando, a lâmina rasgando sua pele e varando sua carne, sentiu um vazio e, com as energias esgotadas, caiu de joelhos na grama enquanto o inimigo que o apunhalara pelas costas retirava a arma de seu interior, mas o guerreiro do Sexto Reino não desistiu, levantou-se e matou o inimigo à sua frente, depois virou-se para matar o inimigo às suas costas. As energias voltaram a se esgotar e o bravo soldado caiu no chão, a respiração fraca e os olhos semicerrados, em instantes foi pisoteado por alguém que corria. Assim era a vida num campo de batalha: um mar de incertezas, a qualquer momento você pode ser pisoteado, apunhalado pelas costas, decapitado ou ter qualquer outro fim igualmente trágico; os guerreiros mais novos sofriam mais, porém sofriam de medo e de fraqueza, numa guerra, não se escolhe qual grupo de soldados vai lutar, o general manda e eles devem obedecer sem recuar.
De repente, flechas pararam de voar e no horizonte uma grande barreira de fogo surgiu. Uma barreira iluminada por luzes laranjas acompanhada de gritos de guerra.
— Maldito! — xingou o rei — General, fique aqui, tenho que ver uma pessoa.
Antes que o general questionasse a atitude do rei, Journ já tinha saído e galopava velozmente pelas ruas do Sexto Reino, as pessoas saiam do caminho do rei para não atrapalharem-no. O monarca virou em uma rua e continuou galopando, dois guardas corriam no meio da rua com lanças indo em direção ao portão, quando viram o rei, cada um foi para um lado da rua dando passagem à majestade, mas esse diminuiu a velocidade.
— Vocês dois — chamou o rei — Venham comigo!
Os guardas deram meia volta e continuaram correndo, mas dessa vez, eles acompanhavam o rei. Quanto mais se aproximavam do castelo, mais pessoas apareciam nas ruas, porém o rei não chegou muito perto da muralha, na verdade ele parou na frente de uma casa e desceu de seu cavalo.
— Me espere aqui — pediu o rei ao cavalo, o equino relinchou.
Journ escoltado por dois guardas aproximou-se da porta da casa que permanecia fechada, olhou para os dois oficiais e acenou positivamente com a cabeça, os pés dos guardas encontraram-se com a porta derrubando-a violentamente. Do outro lado da sala, sentado em uma cadeira, um homem olhava para o rei pacientemente sem demonstrar nenhum medo ou susto.
— Por que não me alertou? — dirigiu-se o rei ao homem.
— Não sou obrigado a nada, Journ — retrucou o homem, os guardas apertaram firmemente os cabos de suas espadas.
— Eu sou seu rei, me obedeça!
— Você não tem a honra necessária para ser chamado de rei, seu pai sim foi um rei; à ele eu cederia grandes informações, mas à você? Não!
Journ sentiu algo queimando-o por dentro, uma sensação de fúria tornando-o capaz de dar um soco naquele rosto calmo, mas o rei segurou-se e não reagiu, ao invés disso, deu uma ordem aos guardas:
— Guardas, prendam-no por omissão de informação!
Os oficiais obedeceram e foram até o homem calmo, este não reagiu contrariamente, apenas ergueu-se da cadeira, colocou as mãos nas costas e ficou de frente para a parede, assim era Louis: um homem calmo, sempre prevendo o futuro.
Louis era o grande mistério do reino, uns afirmavam que ele era um deus que tinha o poder de ver o futuro, outros o acusavam de magia e tinham motivos para isso, mas a grande polêmica era o fato do homem nunca ter sido detido pelo rei. Magos eram vistos como criminosos em grande parte da Pangeia, naquela época. Logo, se o rei encontrasse um mago, poderia decretar sua prisão, porém não foi isso o que aconteceu com Louis. Journ, quando seu pai morreu, foi falar com Louis sobre o futuro do reino, o vidente alertou que em certo ponto ocorreria uma grande guerra; Journ então não decretou a prisão de Louis para não perder o seu grande vidente, porém agora o mago se recusara a falar e omissão de informação ao rei era crime.
Enquanto Louis era levado para as masmorras no subterrâneo do castelo, a batalha estava violenta nos portões.
A parede de labaredas havia sido contida pelo exército do Sexto Reino que avançava triunfantemente pelo campo de batalha ganhando cada vez mais espaço. O exército inimigo apresentava uma grande desvantagem enquanto recuavam, o grupo que avançara carregando fogo já estava todo derrubado e os corpos jaziam no chão mortos. De repente um grito se sobressaiu sobre todos os outros:
— Recuar!
O exército inimigo recuou rapidamente, mas o exército do Sexto Reino continuou atacando e os perseguiu até que os inimigos já estavam no topo do morro. Em pouco tempo, a batalha teve seu fim. O exército inimigo sumiu na noite escura e silenciosa.
***
— Não vou ordenar de novo! — Journ já estava sem paciência — Se você não falar, vou ter que chamar o Martelo!
— Chame quem quiser — desafiou Louis — Não abro mão das informações à você por nada.
O prisioneiro já tinha as costas cortadas pelas cordas do chicote, o rosto molhado pelo suor, mas estava firme como uma rocha.
— Martelo! — chamou o rei.
De repente, entrou na cela um homem grandalhão, musculoso e que carregava um grande martelo, como aqueles de moer carne. O rosto de Martelo era preenchido por uma grande barba que partia de suas costeletas, unia-se ao bigode e terminava no queixo; os olhos não merecem nenhuma menção especial, pois eram como quaisquer outros olhos castanhos.
— Martelo, esse homem não quer me dar informações — Journ olhava para o carrasco — Penso que você pode faze-lo gritar, pelo menos.
O homenzarrão sorriu e aproximou-se de Louis.
O mago ficou com medo, sabia que Martelo era famoso por destruir as pernas de suas vítimas, mas, mesmo assim, não cedeu. Louis afirmou pela última vez:
— Não lhe direi nada.
Journ nem precisou dar a ordem, Martelo desceu seu instrumento de violência sobre a perna do mago.
A visão de Louis ficou vermelha; o mago gritou um som gutural que misturava dor e sofrimento; os ossos de sua perna esquerda estavam totalmente quebrados.
"Amaldiçoados aqueles que punem meus seguidores por fazerem o que peço" — Tânaide.
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