Guerra dos Deuses: Volume 1 - Prelúdio da guerra
1 Capítulo 1 - Velhos encontros
O dia mal tinha começado, mas Brenton e Viktor tinham de dar um jeito para conseguir dinheiro. Afinal, só Viktor tinha nascido nobre ali e mesmo assim resolveu largar uma vida na aristocracia para viajar pelo mundo em busca de poder. Eles cavalgaram pelas longas pradarias do Continente debaixo de um sol bastante enérgico, o que tornava aquela viagem uma tortura.
— Ei, Brenton.
— Qual foi?
— Você basicamente me arrancou da pousada, pra que caralhos de lugar está nos arrastando?
Os cavalos seguiam a um ritmo constante, porém devagar. Aquela lentidão e o calor fazia com que o tempo se arrastasse mais devagar que uma lesma presa na lama. Para dois aventureiros de alto rendimento como eles, aquilo era semelhante à tortura.
— Sei lá, mano! Eu vi chance de dinheiro fácil, fui lá e aceitei.
— Porra! Mas tu és muito sem-noção mesmo, hein?
— E que diferença vai fazer? Não importa qual missão seja sempre damos um jeito de concluir.
Aquela frase gerou certa sensação agridoce em Viktor, pois isso conseguia ser tão bom quanto ruim. A maioria dos aventureiros seguia seu caminho sozinho, enquanto outros se reuniam em guildas para facilitar os desafios, porém o destino deu um jeito de unir um mago prodígio como Viktor e um combatente genial feito Brenton no momento em que decidiram iniciar as suas vidas como mercenários aos dezesseis anos. Desde então, nos últimos sete anos, eles passaram por diversos maus-bocados e situações complicadas, que trouxeram bastantes tristezas e alegrias, o que os moldaram para se tornarem aventureiros da classe mais alta.
Brenton pegou um pequeno livreto na mochila, de capa amarronzada e com os dizeres "Informativos da missão". Com a fala embolada, Brenton começou a ler com certo desinteresse os detalhes da missão, até que algo o chamou sua atenção.
— Um...Blá, blá, blá...missão perigosa e mais baboseiras...recuperar artefato...Conde de Assueris...Pera, Assueris?
Viktor estava quase dormindo, mas ao ouvir aquele nome ele freou bruscamente, revelando certa tensão e preocupação em seu rosto. Brenton tinha um sentimento parecido, mas o dele era mais parecido com receio.
— Puta que pariu, Brenton! Tinha que ser uma missão para essa merda de lugar?
— Era a única missão que pagava o que valíamos. Foi uma infeliz coincidência, só isso.
— Infeliz é pouco! Antes pegar uma missão mais barata!
Brenton, que estava mais a frente com o seu cavalo, se virou para a direção onde Viktor estava.
— Fica de boas, caralho! A missão nem é lá dentro do reino e sim na floresta.
— Ué? Que floresta?
Brenton se deu conta de que ainda não tinha parado para explicar como era a missão. Ele abriu o caderno mais uma vez e começou a explicar.
— A parada é a seguinte: Na região sul de Assueris, tem um lugar chamado Floresta do Sono Eterno. Lá dentro, há um baú enterrado e aqui tem um mapa explicativo até o local. Nosso objetivo é recuperar o baú e levar até a mansão do conde.
— E isso é uma missão de classe S? A última que fizemos foi escoltar um aristocrata importante. E ele foi atacado três vezes durante o percurso. Isso aí tá parecendo uma missão de classe B, forçando muito e dependendo do valor do item, classe A. Aff, não gostei, cancela a missão!
— Não é bem assim que funciona e você sabe bem disso! Até porque o lugar onde estamos indo não é nem um pouco amigável.
— É a tal da Floresta do Sono Eterno, certo? E o que tem de tão tenebrosa nela?
Brenton deu de ombros, pois saberia explicar muita coisa sobre ela.
— Bem, a primeira coisa a se observar é aquilo.
Ao apontar para frente, Viktor prestou atenção a um enorme paredão de árvores que não parecia ter fim.
— É aquilo? Mas como iremos passar com os cavalos por ali?
— Não vamos.
Apesar de serem um tanto discretos, os cavalos aparentaram certa felicidade de não ter que adentrar em um lugar tão misterioso como aquele. Por razão do destino, o lugar para onde eles estavam seguindo dava em uma parte da Floresta do Sono Eterno.
— Brenton, me diz uma coisa: Como você consegue lidar com isso tão tranquilamente? Tipo, alô? Assueris, bitch!
— O seu engano é achar que eu tô de boa com isso. Eu só quero entrar, pegar o dinheiro e cair fora. Inclusive, você nem precisa bancar a rainha do drama!
— Rainha eu não sei, mas diva sei que sou. Aliás, lembre-se que eu fui expulso de lá, more?
— Primeiro: não me chama de "more". Segundo, você não foi expulso, você fugiu e por motivos puramente egoístas. Terceiro, diferente de mim, você pode entrar lá quando quiser.
— Aff, você é muito realista! E por que você foi expulso mesmo?
Brenton olhou algumas das cicatrizes em seu braço.
— Fui condenado há sete anos exílio por assassinato. Já paguei minha pena faz um tempão, mas não é uma ideia muito boa ficar relembrando, sabe?
— Entendi. E por que antes disso eu não tinha me esbarrado com você lá? Poderíamos ter sido amigos e tals.
— Puta que me pariu, Viktor! Já te expliquei isso umas mil vezes, mas parece que não entra na sua cabeça! Você possui linhagem nobre e provavelmente nunca entrou na região que um imigrante ferrado que nem eu morava! Se continuássemos morando lá, era provável que nunca nos conhecêssemos.
Eles fizeram um longo silêncio de quinze segundos enquanto se encaravam. Depois disso, começaram a rir de todo aquele papo. Mal perceberam quando os cavalos pararam em frente ao enorme paredão. Naquele momento, tanto Brenton quanto Viktor começaram a sentir uma forte aura sinistra emanar do local. Com os olhos vidrados nas árvores, que pareciam se estenderem ao céu sem fim, eles desceram dos cavalos e pegaram suas coisas. Brenton pegou a sua espada de aço temperado nova e suas adagas para emergência, além da sua mochila carregada de apetrechos úteis. Viktor pegou a sua mochila cheia de livros e itens mágicos, além do seu cajado cuja ponta era de Safira, representando sua ligação com o mar.
— Será que todas essas armas são necessárias?
Brenton dispensou os cavalos e pensava se essa tinha sido a decisão correta.
— Tomara que não, mas receio que sim.
Com bastante hesitação, o jovem guerreiro adentrou o enorme paredão de árvores, seguido por Viktor.
— Por que essa Floresta se chama assim?
Após caminharem por cerca de um minuto, Brenton apontou para o alto.
— Veja aquilo.
Ele apontava para um pequeno ponto branco cintilante, que flutuava graciosamente pelo local, junto com centenas de outros.
— Esporos mágicos, certo?
— Sim. Mas aqueles são diferentes, pois são formados de magia do sono, mas foram corrompidas por magia necromântica. Se um daqueles encostarem-se a você, seu destino será aquele.
Ele apontou para baixo, onde havia ossadas humanas presas em árvores.
— Vamos seguir em frente?
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