Guerra do Caos: No Limiar do Desespero
2 Registro de Guerra N.1
FORTALEZA CEARÁ, BRASIL. 10HRS47MIN
BANCO DE FINANCIAMENTO LOSANGO
Meus dedos estralam à medida que os entrelaçam um no outro. Sinto uma pequena fisgada no pescoço, fazendo-me massagear a área dolorida. A minha frente, um computador com uma enorme lista de pessoas e números para ligar e arquivar, além de canetas em um copinho e alguns pertences pessoais. Ao meu lado, outras pessoas se encontravam na mesma situação, cada um nos seus gabinetes, fazendo ligações ou digitando no teclado. Olhei para o relógio e marcava 10:47hrs, o que me dizia que faltava um pouco para o almoço. Por mais que estivesse entediante, eu tinha que continuar a ligar para os clientes, informando-os sobre algumas mudanças nos planos e se iam continuar conosco. É claro que levei vários nãos, e já tinha perdido a conta de quantas vezes tinham xingado minha mãe — coitada — mesmo assim, tinha que continuar. Era isso, ou...
— Anderson, meu chapa! E aí, como vai?
Esse era Carlos. Tinha se esgueirado até meu gabinete e quase levei um susto, se não o tivesse visto de soslaio. Carlos era um homem gigante, careca, com seus músculos marcando a camisa social, a gravata apertando seu pescoço, a calça segurando as costuras para não estourar com as pernas grossas. Mas, tirando isso, ele não valia o cocô do cavalo do bandido. O pior disso tudo é que ele pensava que era meu amigo. Mas só pensava.
— O que foi dessa vez, Carlos.
— Qualé brother, até parece que só te procuro pra fazer favor pra mim..., mas já que mencionou, tu pode dá uma olhada no meu computador? Estava vendo uns e-mail e pá! O bicho morreu! Dá pra acreditar?
— E-mails... Sei. Já te falei pra não ver vídeos pornôs aqui na empresa, isso enche os computadores de vírus... Carlos?
Como de costume, ele não me ouvia, ou não ligava, para o que eu falava, distraído com uma mulher que passava nos corredores. Olhando em direção, me deparo com um belo rosto, marcado de uma maquiagem delicada, enquanto seus cabelos ruivos pulavam timidamente com seu andar. A mulher olha em nossa direção, e penso em desviar o olhar, mas seu vislumbre já tinha me encantado, e então, nossos olhares se encontram.
— Oi Anderson.
— Oi Agatha. Está muito bonita hoje.
— Obrigado, você também. Carlos...
— Eai gatinha. Bora tomar uma hoje?
— Hoje não. Agenda lotada.
Nisso, ela desaparece pelos corredores.
— ‘Você está muito bonita hoje?’ Que merda de cantada foi essa parça?
— Não foi cantada. Foi um elogio, coisa que parece que você não sabe fazer. — Na verdade, foi muita idiotice minha falar aquilo, mas não admitiria pra Carlos.
— Sei. Mas e aí, vai consertar meu computador ou não?
— Vai adiantar de alguma coisa?
— Não sei, mas um soco nessa tua cara feia vai.
Nessa hora, congelei. Já tinha ouvido algumas coisas ruins que aconteceram com pessoas que não fizeram o que ele queria, e Carlos tinha uma fama de ameaçador. E no aprendizado da vida, descobri que, se não pode com o inimigo, junte-se a ele. Pelo menos no meu caso. De repente, Carlos ri, provavelmente vendo meus olhos esbugalhados.
— Tô brincando Brother — dando uns tapinhas nas minhas costas, ao qual tinha certeza de que mancharam meus pulmões — Tô brincando... Te espero na minha mesa.
CENTRO ESPACIAL JOHN F. KENNEDY
O astronauta já estava pronto. O visor no capacete mostrava como estava o oxigênio de seu traje, bem como seus batimentos cardíacos e pressão sanguínea. Também, a Central abria o canal de comunicação e estava testando-o naquele exato momento.
— Central para Capitão da Aplexus 119, Patrick Rosenfeld. Na escuta?
— Aqui é o Capitão Patrick, recebendo a transmissão da Central em alto e bom som.
— Ótimo. Iniciando Missão de Reconhecimento a Marte. Fale tudo o que vê, Capitão. Você será nossos olhos e ouvidos.
— Entendido Central. Abrindo escotilha de Pressurização agora.
O som do vácuo escapando é ouvido pela sala enquanto Patrick passa pela porta. Mesmo ainda estando no complexo, o astronauta conseguia sentir uma leve mudança de peso de seu traje. Do outro lado do vidro, seus Superiores o viam, observando a chegada do homem até o Portal.
— A gravidade está afetada — começa a falar, sua voz sendo transmitida para todos que o olhava. — Um pouco que seja, mas está. Estou vendo Marte logo após o Portal, mas parece que já está escuro por lá.
— Vá o mais rápido e volte em segurança Patrick.
— Entendido Senhor.
Sua respiração estava um pouco acima do normal, de acordo com os computadores da Central. Patrick anda em direção ao Portal, lentamente como o seu traje possibilita. A pouca luz que sai pelo Portal reflete em seu capacete à medida que se aproxima, e então, o homem para bem diante da estrutura circular.
— Se algo acontecer comigo, diga a minha família que eu os amos muito.
— Entendido Capitão. — Fala o Engenheiro-chefe — Prossiga.
— Entrando no Portal... Agora.
O homem coloca o primeiro pé pelo Portal. Do outro lado, a bota resistente amassa o solo barroso e amarelado. O homem atravessa sem dificuldade, como se passasse pela porta de casa, e logo, ele se vê em Marte, olhando para o planeta com os olhos esbugalhados. Porém, o que lhe chama a atenção não é o planeta.
— Meu Deus do céu!
E numa visão aberta, o homem vê uma gigantesca estrutura, como se fossem prédios em ângulos estranhos.
— Patrick para Central.
— Na escuta. E então, realmente conseguimos?
— Sim. Mas, vejo estruturas estranhas.
— Estranhas? Explique-se.
— Não sei. É como... Prédios, algo construídos.
— Construído? O que quer dizer Capitão?
— Acho que Marte já está civilizada.
BANCO DE FINANCIAMENTO LOSANGO. 12HRS
Não estava entendendo o porquê o computador de Carlos não ligava. Não que entendesse muito de computadores, já que minha área não era essa. Já tinha feito tudo o que podia, mas nada. Parecia que o sistema tinha sido corrompido, e para voltar tudo ao normal, eu tinha que formatar. E nem isso estava conseguindo fazer.
— Mas que merda você fez aqui Carlos?
— Eu não fiz nada! Juro! Tava só olhando meus e-mails.
— Clicou em algum e-mail estranho? Com foto de gatinho ou sei lá?
— Talvez... Foto de mulher conta?
Levei minhas mãos a cabeça. Com certeza tinha sido um vírus.
— Tenho que tirar o HD e tentar eliminar o vírus de forma externa. Na verdade, o cara da T.I.
— Não. Quero que você faça. Nada de T.I.
— Eu não posso fazer isso!
— Pode, e vai. Não me queira como inimigo aqui. Vamos fazer assim, só dessa vez e pronto. Nunca mais te perturbo pra mais alguma coisa. Combinado?
Respiro fundo. Eu sabia que se fossemos pegos, correria o risco de perder meu emprego. Por outro lado, não fazer isso seria muito pior.
— Tá, mas só dessa vez.
— Show. Vai, te dou cobertura.
Comecei a fazer tudo rápido. Abri o gabinete, tirei o Hd, levei-o para meu pc e comecei a trabalhar nele. Umas clicadas aqui e acolá e de repente, o antivírus no meu computador acusou do malware. Porém, o estrago que o vírus tinha feito foi mais longe do que tinha pensado. O sistema do banco logo acusou várias transferências de arquivos indevidas, e então, à medida que levava a mão a cabeça, a ficha caia: Os dados dos clientes tinham sido roubados.
— E ai, vai dá pra consertar?
— Se vai dá pra consertar? Você sabe o que fez? — ele dá de ombros — cara, tu abriu uma porta para invadirem o sistema e roubar os dados dos clientes!
— Mas dá pra recuperar, né?
— Recuperar? Já deve estar na deep web! – Carlos olha por cima do gabinete.
— Eita, os nerds engravatados tão vindo aqui. Fui!
— O quê? Espera!
Não adiantou. Num minuto, Carlos tinha ido. E num minuto, o pessoal da T.I estavam em pé diante de mim.
— Eu posso explicar. Não fui eu!
— O nosso sistema acusou um fluxo de dados sem autorização para um IP desconhecido, vindo daqui.
— É, eu sei.
— Sabe? Muito bem, se afaste do computador agora.
— Calma, mas não fui eu. Estava tentando concertar! — Falava enquanto um segurança me tirava da cadeira.
— Não é sua função. Deveria ter falado imediatamente para nós. Me acompanhe.
— É serio isso?
— Serio. Serissimo. Você sabe o que aconteceu? Quinhentas contas e dados de clientes foram roubadas e colocadas na internet. Estamos tentando agora desesperadamente bloquear as contas mas sabe-se lá o que já foi feito com elas. Se você não foi o autor com certeza foi o cúmplice. Agora, me acompanhe.
Tudo estava desabando. Eu não sabia o que estava de fato acontecendo, ou minha mente se recusou a saber. Todos me olhavam enquanto eu andava pelo complexo, meu rosto queimando de tanta vergonha. Até que o homem que eu acompanhava parou em frente ao gabinete onde tudo tinha começado.
— Carlos, — fala o homem — venha também. Sabemos que foi no seu IP que tudo começou.
MARTE, LOGO APÓS O PORTAL
— Civilizada? — o transmissor ressoava pelo capacete de Patrick — Mas nossas missões mais recentes indicam que não há nenhum indício desse fato. Não tem como estar civilizada.
— Talvez não tenha vida aqui, — responde Patrick — mas as estruturas existem, vai por mim. Estou indo em direção a elas. Permissão para fazer reconhecimento do local.
— Concedido.
Patrick começa a andar pelo chão barroso. O traje agora pesava bem menos, e se ele pulasse, com certeza iria ter a sensação de voar, já que a gravidade do planeta era bem diferente da Terra. Provavelmente ele estaria pulando e se divertindo naquela hora, se não fosse por aquelas estruturas tão complexas em Marte, o que estava tirando toda a sua atenção. De repente, seu capacete apaga, fazendo o holograma em seu visor desaparecer. Ele olha para trás, mais preocupado em ver o Portal fechado, mas o buraco circular ainda estava lá.
— Patrick para Central... Patrick para Central, na escuta?
Nada. A comunicação tinha caído. Ótimo, pensa Patrick. Pelo menos a lanterna exterior de seu capacete ainda funcionava. Agora o ele tinha duas opções: voltar pelo Portal ou continuar a missão. Ele olha primeiro para o Portal e depois para as estruturas a três quilômetros dele.
— Patrick para Central: Se estiverem me ouvindo, vou prosseguir com a missão. Estou atualmente sem comunicação, e meu sistema falhou. Assim que conseguirem restabelecer conexão, imediatamente entrem em contato. Desligo.
Patrick suspira com um ‘vamos nessa’ na mente, e retorna sua caminhada. A cada vez que avançava, mais próximo ficava, e mais ele via a magnitude daquelas estruturas. Aquilo tinha pelo menos uns dez andares, enquanto os ‘prédios’ tinham pontas afiadas. Alguns menores eram na diagonal, transpassando uns nos outros. Patrick estava fascinado com aquilo tudo; tão fascinado que não viu algo se mover na areia atrás de si.
O astronauta finalmente chega perto das grandes estruturas. Ao olhar atentamente, ele podia deduzir que o material das colunas era feito de um metal diferente da Terra, ou até mesmo algum tipo de rocha. Grafitadas nas colunas e paredes, Patrick podia ver um tipo de simbologia diferente, desorganizada e sem padrão algum.
— Meu Deus!
Entrando mais adentro, Patrick é obrigado a ligar uma lanterna, pois a escuridão já tomava conta do planeta. O som de seus passos era diferente, como se quase não houvesse algum, e com certeza se alguém se esgueirasse atrás de si, ele não ouviria. Sua lanterna ilumina tudo que pode ver: As paredes marcadas, o teto abundantemente alto, desenhos estranhos e símbolos que não significavam nada pra ele. Mas uma coisa o chama a atenção, um pouco mais a frente dele, marcando o chão como uma trilha, o único padrão que ele tinha encontrado: buracos. Pequenos buracos jaziam ali, vários deles, mas se olhasse bem claramente, podia ver até mesmo semelhanças de...
— Pegadas? — a voz soa em seu ouvido.
O coração de Patrick vai a boca quando ele toma o susto, vendo um corpo humanoide a seu lado. No desespero, ele solta a lanterna e a peça faz uma sombra, enquanto ele vai ao chão de bunda.
E a forma tinha um corpo humano, mas a cabeça era desproporcionalmente grande.
— Calma, calma Patrick! Sou eu, Washington!
Ao olhar direito, Patrick vê que a forma na verdade era de um dos astronautas de sua equipe, em um traje da Nasa.
— Mas que merda Washington! — ele tenta se levantar — Que merda está fazendo aqui?
— A Central perdeu comunicação com você, então me pediram pra te buscar.
— Ainda estou sem comunicação, pode avisá-los que estou bem. — Se erguendo.
— Não dá, também fiquei sem contato com eles... Vem cá, que Diabos é isso? — olhando a estrutura como um só.
— Eu não sei. — Patrick olha para cima — Mas com certeza alguém fez isso. — Ele olha pra seu companheiro — Vamos, fiquei tempo demais aqui. Meu oxigênio não deve durar muito.
Patrick toma a frente de seu companheiro e começa a voltar pelo caminho que tinha vindo, orgulhoso de si mesmo e dos milhares de engenheiros que trabalharam naquilo. O portal era a resposta da humanidade. O problema agora era aquelas estruturas. Se naquele planeta houvessem marcianos, será que as duas raças coexistiriam pacificamente no mesmo planeta? Quem sabe a tecnologia deles ajudasse o planeta Terra e os humanos não precisassem mais sair... Mas essas preocupações já não era dele. Sua missão era somente verificar se o Portal funcionava, e aquela resposta ele já tinha.
— Que doideira. — Fala Washington — todos aqueles malucos estavam certo, nós não estamos sozinhos no universo.
— Eu sempre acreditei que havia vida fora da terra, que não somos os únicos... — Patrick houve um som estranho, como se alguma coisa tivesse atravessado algo atrás de si — por isso me tornei um astronauta. — Patrick se vira — E vo... Meu Deus!
A lanterna de Patrick captura algo sair do peito de Washington, como se fosse uma lança, enquanto o oxigênio sai do buraco no traje. Atrás do astronauta atingido, um ser branco surgia, bem maior que o homem, enquanto firmava sua arma pontiaguda no corpo de seu companheiro.
— Jesus Cristo!
Washington tosse sangue, que mancha o capacete por dentro, enquanto sua carne congela rapidamente. O ser que Patrick não via inteiramente lança o amigo morto em sua direção, e ele tenta sair da frente: sem sucesso. A gravidade do local o impede de saltar a tempo, e então ele é atingido. Os dois corpos flutuam na horizontal, atravessando o corredor mais rápido que se fosse correndo, e então finalmente acertam o chão, quicando três vezes antes de pararem completamente. Desesperado, Patrick se levanta com dificuldade, jogando o feixe de luz da lanterna para todos os lugares.
E vendo vários deles.
Com um olhar arregalado, Patrick dá meia volta e corre — na verdade, pula — em direção do portal. Suas pernas fazem o máximo de força, a gravidade dando conta de cobrir os mil metros rapidamente, sua respiração queimando oxigênio. De repente, o homem vê projéteis passando por si, fincando no solo como pequenas lanças. Alguns longe, outras quase o acertando. O portal estava mais longe do que queria, e Patrick pula mais uma vez. Porém, um projétil atinge o traje no braço esquerdo, rasgando-o. Patrick põe a mão direita em cima do buraco, a fim de tentar tampar o escapamento de oxigênio, que calculara não ter muito, enquanto salta mais alguns metros.
— Por favor, por favor!
O portal estava ali; mais um pulo e passaria. As botas amassam o solo enquanto ele salta com todas as forças. Seu corpo flutua para sua saída. E de repente, uma voz soa em seu capacete, que mostra novamente o holograma no visor.
— ...tral para Capitão Patrick! Central para...
— Tô aqui! Tô aqui! Há forma de vida em Marte! Estou correndo perigo de vi...!
Patrick sente algo transpassar seu corpo, enquanto lhe dá o impulso que precisava. Ao olhar para baixo, ele vê algo pontiagudo e branco, porém sujo pelo seu próprio sangue saindo de seu peito. Seu corpo flutua até o portal, passando pela passagem circular enquanto a gravidade da Terra o puxa para baixo, com um baque. Patrick aterrissa no chão do complexo da NASA, enquanto arrasta no piso por causa da velocidade que vinha antes.
Sua respiração é sofrida, o visor mostra que seu oxigênio estava quase no fim. Ele sente seu sangue sair pelo buraco do peito, assim como sente a estranha lança em seu corpo. Ele olha para escotilha. Por muito pouco, ele conseguiria passar por ela e se salvar, mas seu corpo não movia um músculo. Ele sente seus olhos pesados, quase fechando. Ele sente suas forças acabarem.
E por fim, ele sente a lança transpassada em seu corpo começar a se unir com seus ossos.
BANCO DE FINANCIAMENTO LOSANGO
Minhas pernas não paravam de balançarem. A ansiedade já estava tomando conta de mim. A meu lado, Carlos olhava tranquilo as pessoas passarem pelo corredor, despreocupado com a vida. Como ele poderia estar tão tranquilo? Nós estávamos na frente da sala do diretor, só aguardando sermos chamados, sem ideia do que iria acontecer a seguir, e ele só... olhando as mulheres. Dou um suspiro e levo minha mãos a cabeça sem saber o que pensar, e meu ouvido esquerdo capta uma risada baixa e desdenhosa de Carlos.
— Fica tranquilo brow. Vai dá tudo certo.
— Vai dá tudo certo? É só isso que você tem a dizer? — ele dá de ombros — Meu deus, como você é babaca.
— Relaxa mano, ninguém aqui vai perder o emprego não. Só vamos levar uns esporos... o criminoso que fez isso é que vai pagar por tudo. Vem cá, você sabe quantos de dados o criminoso roubou?
Pensei antes de dá aquela informação. No princípio não quis dizer, mas, talvez se eu falasse, abriria seus olhos para ver a besteira que tinha feito.
— 500 contas de clientes, se fizer alguma diferença pra você.
—500 contas... — ele refletiu.
Olhando para o seu rosto, parecia que ele não estava espantado com aquilo. Estava mais para... desapontado. Mas desapontado com o quê? Talvez ele tivesse reconhecido o erro que fez? Antes de conseguir falar mais alguma coisa para Carlos, a secretária do Diretor surge da porta, nos chamando. Ela não precisou falar nada; só sua presença me fez tremer dos pés à cabeça. Entrando na sala do diretor, me deparo com seu olhar julgativo, e a seu lado, o chefe da T.I. O diretor era um senhor de cabeça grisalha, mas seu corpo estava mais em forma do que qualquer jovem. As marcas de seu rosto pouco pareciam, talvez por algum produto estético, talvez pela dieta rigorosa que fazia. Seus olhos negros pouco me fitaram; logo estavam passeando pelas letras de alguns papéis a sua mesa. Mais a seu lado, o chefe da T.I permanecia sentado e com seus braços magros cruzados, e seus olhos sim, esses me fitaram até sentar-se.
— Muito bem Senhores, vamos começar. — Carlos se sentou a meu lado, a cadeira reclamando de seu peso — Aconteceu uma grave quebra de segurança, e seus nomes estão envolvidos. Antes de começarmos as acusações, querem acrescentar mais alguma coisa?
— Sim Senhor, eu quero — falei imediatamente — pra começo de conversa, não foi minha culpa...
— Isso mesmo — Carlos me interrompe — a culpa foi minha.
Não consegui segurar o sorriso. Finalmente ele ia deixar de ser um babaca comigo!
— A culpa foi minha por ter deixado ele usar meu computador pra ver seu e-mail.
— O quê? — quase gritei — foi você que fez isso!
— E ainda tem a audácia de mentir....
— Pelo visto não querem acrescentar mais nada de útil. — falou o Chefe da T.I.
— Okay. Já sabemos a verdade, ninguém precisa mentir aqui. Eu tenho provas de que foi você, Carlos, que acessou conteúdos indevidos aqui na empresa, — finalmente alguém tinha pegado ele — mas foi você Anderson, que encobriu tudo.
Nesse momento, minha boca seca e quase não consigo falar as próximas palavras.
— Não, eu não encobri nada!
— E naquele dia em que você restaurou o sistema de Carlos porque ele apagou o histórico de dados? — fala o Chefe — ou no dia que você recuperou sua senha sozinho depois de Carlos tê-la roubado? Sabia que você invadiu o sistema para isso? E teve aquele dia em que peguei os dois abrindo o gabinete de Carlos pra tirar uma peça de pen-drive que tinham quebrado na entrada usb...
— Sim, mas...
— Sem mais Anderson. Estamos de olho em vocês dois a algum tempo. — fala o diretor — Você foi um excelente funcionário — por que ele falou no verbo passado? — mas isso já foi longe demais. Não era seu trabalho concertar as coisas para Carlos. Se tivesse deixado o departamento certo fazer isso, a gente não estaria aqui agora. O que fez... como podemos confiar em você se você não consegue falar o que fazem de errado ao seu lado? O que nos garante que você não vai encobrir uma transação errada, ou um erro no sistema sério feito pelo seu colega? Não podemos nos dá ao luxo de tais erros...
—Eu sei Senhor, mas eu só queria ajudar...
— Você não foi contratado pra ajudar. Foi contratado pra vender. E por causa disso, será demitido. Passe na RH pra assinar seus papéis, e terá o que é seu por direito. Mas a partir de agora você não trabalha mais aqui.
Eu não senti mais o chão. Parecia que estava flutuando. Meu corpo ficou dormente, minha mente mais lenta que o normal. Ainda não tinha entendido que estava demitido. Ainda não entendia por que eu estava demitido. Olhei para o lado e vi que Carlos me olhava de soslaio. Era tudo culpa dele.
— E você Carlos, será afastado de seu cargo, sem remunerações, pra uma investigação policial. Intencionalmente ou não, você colaborou com o criminoso, e tem sorte de sair daqui sem um par de algemas. Estão dispensados.
Pronto, agora era oficial. Não adiantava mais dizer nada. Eu estava oficialmente desempregado.
CENTRO ESPACIAL JOHN F KENNETH
A central estava em desespero. Os engenheiros tinham acabado de ver Patrick atravessar com força pelo Portal, enquanto algo transpassava seu peito. O corpo do homem agora jazia ali no chão, esticado, enquanto o monitor mostrava seus batimentos cardíacos quase no zero. Todos estavam trabalhando apressadamente para enviar alguém pela escotilha a fim de trazê-lo de volta.
Até que, sutilmente, seu corpo se move.
Um funcionário percebe e para em frente a janela de vidro, para ter certeza do que viu. E de novo, o corpo se mexe. Porém, de repente, um osso sai de seu braço, rasgando a carne e o traje, se expondo para fora. O traje é rasgado mais uma vez quando a coluna vertebral se pontiaguda para o exterior do corpo, e o mesmo acontece com as pernas. Outros funcionários param e olham, alguns perguntando ‘o que é aquilo?’, outros dizendo ‘o osso dele tá saindo?’
Os ossos de Patrick o envolvem à medida que aperta o restante do traje. Suas luvas rasgam-se quando os dedos crescem, tomando a cor branca enquanto se transforma em puro osso. O capacete explode, seus cabeça perdendo os cabelos, seu rosto se rasgando enquanto o crânio fica maior e exposto. Seus olhos caem e dá lugar a dois buracos semifundo, seus lábios se juntam e caem, enquanto coisas semelhantes a espinhos saem da cartilagem da orelha. De repente, sua mão se move e se apoia no chão. O braço, que agora é totalmente de osso, faz força para se levantar, enquanto as pernas dão apoio.
E assim, Patrick se levanta.
O resto do traje de astronauta cai aos frangalhos, mostrando seu corpo. Agora, seu tórax era protegido pelas costelas expostas, e em seu peitoral existia duas placas lisas e brancas de osso. O homem tinha ganhado o dobro do tamanho, e suas pernas eram um conjunto de ossos expostos, porém resistentes para os que o viam. Suas mãos eram parecidas com ossos humanos; era como se tivesse tomado toda a carne. Agora, todos admiram a criatura que minutos atrás fora Patrick, enquanto alguns mais ao fundo pega vagarosamente um telefone.
O ser levanta o braço e abre a mão, mostrando aos admiradores a palma branca, e então, um buraco é aberto, mostrando vagarosamente a ponta de algo. O projétil sai vagarosamente, como se fosse uma lança de osso, apontando para a janela onde todos estavam mais atrás. O homem leva o telefone a orelha e fala.
— Aqui é a Central. Precisamos dos militares aqu...
A janela explode em um ponto específico, passando ao lado de um dos engenheiros, o primeiro que viu a criatura. O projétil não estava mais saindo da palma do ser, na verdade, nem estava mais lá. Ao olhar para trás o engenheiro arregala os olhos e fica horrorizado.
Vendo um buraco na cabeça de seu companheiro.
E então, toda a janela explode em estilhaços.
A visão do homem fica como em câmera lenta: ele vê os cacos voando, brilhando sob o efeito das luzes, vê o enorme buraco na janela...
E vê a criatura passando por ela.
O ser pousa na sala, em meio a todos, enquanto os homens o olham, aterrorizados.
E mais atrás, pelo Portal, outro pé formado em osso surge, pisando no piso do complexo da NASA.
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