Guerra de Natal
1 Guerra de Natal
Guerra de Natal
No dia 23 de dezembro de 2013 o Papai Noel desapareceu. Na verdade todos os Papais Noeis sumiram. Todos eles, cada um de um país, foram convocados para uma missão nível S.
Era uma noite insuportável, quente. Os insetos aproveitavam o calor terrível para se reunir e chuparem o máximo de sangue possível. O cheiro de doces de natal impregnava-se em todos os cantos da sala. Na sede da magia estavam os Noeis reunidos – os que foram convocados -, de vários países, esperando pelo Senhor Chaun.
– Por Odin! Que demora daquele diabrete verde! – Gritou o Noel responsável pelo Canadá.
Todos esperavam pelo líder do conselho da magia do Natal, o Leprechaun. Desde a queda do antigo líder Papai-Noel, em 2004, durante a Guerra invisível de Natal, toda a humanidade ficou ciente da existência física dele. Mas já era tarde, os Natais nunca mais seriam os mesmos com o Noel morto. Então Leprechaun assumiu o comando da magia do dia 25. Ele foi aceito e encarregado da data mais mágica e importante para o equilíbrio da humanidade com a magia. Seu trabalho não seria fácil, afinal de contas, controlar seu exército de duendes seria quase impossível, já que ele também é um duende. Então ele decidiu criar a Legião de Magia Natalina, no qual escolheu um responsável por cada país para representar o Papai-Noel e cuidar para que o Natal daquele país ocorra perfeitamente.
– Tenham paciência guerreiros. O Senhor Chaun chegará em breve. –Disse um dos duendes ajudantes.
– Calma? Eu tenho pelo menos duzentos mil brinquedos para terminar e entregá-los á tempo! Sem falar que o meu país pode estar sofrendo um ataque neste momento, quem mais pode salvar o Natal da Bolívia? – Gritou um dos Noeis.
– Calem a boca todos vocês, amigos. –Gritou o Senhor Chaun, em um tom cômico enquanto entrava na sala acompanhado por duas belas elfas com as menores roupas possíveis permitidas pelo conselho. Ele se sentou em sua poltrona aveludada, ajeitou a jaqueta de linho verde e pôs-se á falar: — Vocês devem estar se perguntando porque diabos os chamei aqui. É claro que sou ciente de suas tarefas e ocupações, mas a informação que tenho á passar é bem importante para o Natal perfeito que vocês devem cumprir. Na verdade vocês foram convocados para uma missão.
– Ah, não me diga que é Hogwarts pedindo nossa ajuda novamente? – Gritou um dos Noeis do fundo do salão. – Ou aquele tal de Luke tentando nos recrutar novamente pro ser exército de monstros? Não vamos ajudar á ressuscitar nenhum titã dessa vez.
– Não, não, não. Cale a boca. Não é nada disso. – Gritou Senhor Chaun, fazendo um gesto com a mão para seus servos. Três duendes puseram-se á correr e ligar os aparelhos para a apresentação dos slides. – Então, como eu estava falando, o Natal já era. Os caras do Rússia ferraram com tudo. – As imagens nos slides mostravam civis russos em treinamento. Depois mostravam homens de jalecos brancos fazendo experiências com seres humanos, os soldados mais jovens que se alistaram.
– Mas o que é isso? – Perguntou um guerreiro polar.
– Essas são cenas do que estava acontecendo no terceiro batalhão do exército da Rússia. Os soldados mais jovens, que se alistaram por último estavam sendo cobaias de experiências com o corpo humano. É lógico que essa porcaria não poderia dar em menos que uma grande treta. Pelo o que eu pude entender, houve uma grande explosão e uma liberação de resíduo químico, todos que estavam lá ficaram presos e sofreram uma mudança radical no corpo e blá-blá-blá. Resumindo: existem pelo menos 150 soldados zumbis presos neste batalhão, e eles não querem ficar lá por muito mais tempo.
– E o que exatamente você quer que nós façamos? – Perguntou o Noel dos E.U.A.
– Simples. Impeçam aquelas coisas de fugirem e livrem-se de qualquer outra ameaça de infecção generalizada, ou caso ao contrário o continente asiático inteiro estará em caos em pouco tempo.
– Mas por que colocar os Noeis Americanos pra salvar a Rússia? Isso não é tarefa nossa.
– Sim, sim, é sim. Este Natal está sendo o mais problemático de todos, o mundo quer mesmo acabar e quer que seja no Natal. Todos os outros Noeis estão ocupados em outra missão, então só sobraram vocês mesmo. E pensem caras, essas epidemias costumam se espalhar em menos de um dia pelo mundo todo. Isso quer dizer que as Américas, por serem tão populosas, tão riquinhas, serão destruídas antes mesmo do Natal. É isso o que vocês querem? –Perguntou Senhor Chaun, dando um pulo de sua cadeira.
Todos os Noeis presentes murmuraram entre si e alguns instantes depois todos já estavam de acordo com a missão. “Já que nós não temos escolha mesmo...”
– Pois muito bem, vocês serão enviados de avião pra lá. Já tem um esperando por vocês á cinco quilômetros daqui. Levem munição e os frascos de mana. É melhor não falharem.
*
– Eu odeio aviões. – Disse um Agente Noel, chamado para missões como esta por todos os continentes. Ele era gordo e barbudo, como todos os outros. Foi escolhido como Noel por ter um coração bom e livre de ganâncias. Nasceu em Pernambuco e sofreu a seca com sua família. Quando ainda jovem viu todo o seu esforço debaixo do sol quente se perder quando sua mãe e irmãos não aguentaram mais o sofrimento da vida no Sertão. Depois de chorar a água que não caía do céu, ele decidiu seguir a vida, se mudou para São Paulo e recomeçou tudo trabalhando em uma loja de brinquedos. Trabalhou o suficiente para poder ter sua própria loja e planejava passar o resto de seus dias criando brinquedos diferentes, mas foi escolhido pelo Senhor Chaum, e, depois do treinamento virou seu Agente Noel.
– Eu odeio Zumbis. – Disse José, o duende principal do exército desse Noel. José trabalhava para o Papai-Noel até este ser derrotado na guerra. Então viu-se depressivo, mergulhado nos jogos de videogame, com uma duende azeda como esposa lhe arruinando os dias mandando-o arrumar um novo emprego. ‘Quer que eu vá para algum circo, mulher?” – Ele sempre respondia á ela. Algum tempo depois voltou para o mercado de trabalho da magia como chefe de produção natalina, onde encontrou este Noel.
– Ok, atenção pessoal, estaremos chegando dentro de cinco minutos. Preparem-se para um pouso turbulento por que Moscou está quase completamente em ruínas. – Disse um duende da cabine.
– Cinco minutos? Dá tempo de ver TV. — Disse José, o duende. Ele ligou a pequena televisão no banco da frente e viu a seguinte manchete no noticiário: “Os Noeis do mundo inteiro desapareceram.”- Olha isso cara!
O Noel olhou para TV e imagens de caos começaram á passar, crianças chorando á procura de seus pais, arruaceiros destruindo vidraças de lojas, confrontos entre policiais e bandidos... isso e mais no mundo todo. As autoridades mundiais estavam loucas atrás deles, não tinham recebido nenhuma informação sobre os presentes ou qualquer outra coisa
– Espera ai, como isso é possível? Eu pensei que a mídia soubesse dessa nossa missão. – Disse o Noel desacreditado.
– O Leprechaun mentiu?
– Não, espere. Isso não faz sentido, provavelmente ele não avisou á mídia para não criar pânico, mas de que adianta agora?
– Temos que avisar á todos os outros. – Disse José com firmeza.
– Não! Isso só iria piorar as coisas. Vamos cumprir essa missão o mais rápido possível e depois voltar pra ajeitar as coisas. É o melhor á ser feito.
José ficou pensando se aquilo era mesmo o certo á ser feito, mas não tinham escolha, impedir um apocalipse zumbi era mesmo importante pro Natal do mundo inteiro. Sim, mundo inteiro. Depois do total desequilíbrio entre a magia e a tecnologia que ocorreu na descoberta do Papai-Noel, o mundo todo – incluindo mundos mágicos – entrou em concordância absoluta de celebrar o Natal na mesma data, o nosso 25 de dezembro. É claro que este acordo realizado pelos líderes mundiais trouxe polêmica e até revoltas, mas nada que a Força da nova ordem mundial não fosse capaz de apaziguar.
Alguns minutos depois o avião havia pousado com dificuldade nas ruas esburacadas e vazias da capital da Rússia. Todos os Noeis desceram do avião, incrédulos com a paisagem: A cidade que outrora fora linda, repleta de palácios e enfeites esplendorosos agora estava em ruínas. A explosão de fato havia sido grande. — Não há relatos de mortes, senhor. –Disse José. – Houve uma evacuação realizada pelo governo antes da catástrofe.
Noel olhou em volta e sentiu um grande alívio por todos terem escapado á tempo. Agora eles precisavam cuidar dos que restaram.
– É uma pena que um lugar tão bonito termine assim. – Disse.
– Não se entristeça senhor, lembre-se que tudo aqui pode ser reconstruído com facilidade pelos russos.
– Isso se tivermos sucesso.
Logo depois os Noeis adentraram no longo caminhão negro blindado do Senhor Chaun. Passaram por uma curta rodovia embaixo de uma ponte metade desmoronada e chegaram á uma rua sem saída e isolada, onde uma parede de tijolos estava no chão, em pedaços. O longo caminhão com adesivos de chamas e estacas de aço no capô adentrou no terceiro batalhão, onde as cenas de desastre eram ainda maiores. O chão estava coberto de cinzas das pequenas explosões que ocorreram respectivamente e as crateras ficavam cada vez maiores conforme avançavam. Não havia uma estrutura em pé, somente o grande palacete com paredes revestidas de aço.
Noel e José chegaram mais perto. As placas de avisos estavam cobertas por cinzas. Havia um limite de segurança que eles preferiram não ultrapassar. Prestaram bastante atenção e conseguiram ouvir ruídos e gemidos vindos de dentro. Logo, todos os Noeis e os duendes presentes se aproximaram e se apoiaram para ouvir melhor. Havia alguma coisa arranhando o aço do lado de dentro e os gemidos mórbidos continuavam. O som de unhas arrastando contra a parede começou á mudar de direção e as cabeças dos velhos a seguiram até uma janela de vidro blindado manchado pela explosão. A sala estava escura, mas eles podiam enxergar uma parte iluminada por uma lâmpada defeituosa que piscava ao contato. Os ruídos aumentaram, como se alguma coisa estivesse lutando para se pendurar no vidro. De repente uma cabeça surgiu ao fundo. Era um homem com o chapéu militar russo. As luzes piscaram atrás dele e permanecia imóvel. Um duende se aproximou e tentou ter contato com o homem, mas nesse momento ele saltou pela janela, com a pele negra, já morta á algum tempo. Um líquido esverdeado escorria de sua boca e grudava no vidro. O duende caiu para trás com o susto.
– Pra mim já chega, vamos logo detonar essa porcaria! – Gritou um dos Noeis.
– E como pretende fazer isso? O lugar já não explodiu antes porque é revestido até o pé por aço. – Gritou um outro.
– Simples, nós entramos e colocamos a dinamite incineradora lá dentro e acabamos logo com o problema.
– Por mim o plano é perfeito! Vamos temperar o problema e deixá-lo assando! – Berrou um outro, quase um bárbaro de vermelho. Todos os outros urraram e aceitaram o plano.
Enquanto os outros preparavam seus equipamentos e as estratégias, Noel e José estudavam o zumbi.
– Tem alguma coisa errada. Não gosto da ideia de detonar todos eles. – Disse Noel.
Nesse momento José viu algo se mexer á alguns metros. Era um homem debaixo de escombros. Eles correram em direção á ele e o ajudaram á se sentar, retirando as pedras que o cobriam.
– Você está bem? – Perguntou o Noel.
O homem parecia estar meio confuso, sua perna estava quebrada e estava coberto pela fuligem negra. Usava uniforme militar e distintivo de cientista. Ele ajeitou os óculos, desolado. Parecia ter se lembrado.
– Eles... eles não resistiram não é mesmo? – Perguntou, esfregando os olhos.
– Viraram zumbis. – Respondeu Noel.
– A experiência de mutação obteve resultados negativos e catastróficos... a culpa é minha, eu errei os cálculos. Todas essas vidas perdidas... culpa minha.
– Não, talvez haja algum meio de reverter a mutação. – Disse José.
– Não, a mutação foi criada para ser irreversível e absoluta. O projeto foi criado para nunca existir cura. Vocês vão eliminá-los, não vão?
– Infelizmente. – Respondeu com pesar.
O homem se esforçou para levantar, mas voltou á cair.
– Eu preciso arrumar um jeito de salvar...
– O que?
– Existem... Tem mais pessoas lá dentro. Quando a substância vazou, eu fui o primeiro à sair com segurança. Então, liguei para meus companheiros cientistas e eles se protegeram à tempo. Dentro do batalhão, na ala de experimentos, existe uma câmara de segurança. Alguns oficiais e empregados conseguiram refúgio também. Caso vocês detonem tudo, eles também morrerão.
Noel se virou, todos os outros Noeis e duendes estavam ocupados com os equipamentos e nem os viram.
– O que diabos vocês estavam fazendo lá dentro?
– Experiências com o corpo humano. O objetivo era criar um soldado perfeito, afinal, você já deve ter notado que uma guerra catastrófica se aproxima. O governo nos pagava muito caro pra isso, eu sinto muito. Mas, como pode ver, a experiência deu errado e a mutação no corpo de um soldado teve consequências surreais. Ele... Estava morto e... Depois vivo de novo. E aí toda substância vazou. O impacto foi grande o suficiente para arrasar com tudo... Por sorte a câmara de segurança funcionou. — Neste momento Noel se levantou.
– Fique tranqüilo, pelo o que depender de mim, essas pessoas serão salvas. – Disse.
– Noel, como pretende...
– Vamos fazer isso juntos, José, nós dois, já que não podemos confiar neles para isso.
O homem os entregou a planta do batalhão, contendo a localização da câmara e de todas as outras alas. Os dois deixaram o jovem cientista e foram de encontro aos outros. Nas caixas de armas haviam espadas e katanas com o punho feito de doce vermelho e branco, armas pequenas e grandes com balas explosivas sabor chester – coisa de papai Noel — , metralhadoras giratórias de... doces. Noel decidiu pegar uma clava branca e vermelha, fazia mais o seu estilo. José escolheu duas 38 verdes.
– Então, esse é o plano! Agora precisamos de um pequeno grupo para entrar e cumprir a missão. Cinco devem ser o suficiente, o restante fica na retaguarda e como equipe de apoio, caso as coisas escapem. – Gritou um dos Noeis, com um tapa olho preto no olho esquerdo.
– Eu e meu duende entraremos. – Gritou Noel. Todos os outros o fitaram, atônitos.
– Você tem certeza que quer ir?
– Sim.
– Ok, então precisamos de mais...
– Não, somente eu e o duende. Eu juro que sei o que estou fazendo. Nos dêem um minuto. Entramos, colocamos a bomba e saímos.
– Por que confiaríamos em você? Já lutou com Zumbis alguma vez? – Perguntou, ameaçador.
– Sim. – Mentiu – E além do mais, por que vocês trouxeram essas armas pra lutar com zumbis? Qualquer um que já tenha assistido The Walking Dead sabe que não se mata zumbis com doces.
Todos os outros Noeis se entreolharam e depois olharam para o Noel com o tapa-olho.
– Pois que seja. Se você quer se arriscar, vá.
*
Os dois estavam encostados nas paredes, cada um de um lado do grande portão da entrada. Noel estava com a bomba incineradora equipada nas costas. José tinha certeza que aquilo não iria dar certo, eles iriam morrer, mas desde que a mulher o abandonou, ele não tinha nada á perder.
– Preparem-se, no já! – Gritou o outro Noel, com o tapa-olho. –Um, dois, três, já! – E um duende disparou um tiro de energia cinética certeiro no cadeado codificado, estraçalhando-o e criando um enorme buraco no portão. A porta se abriu e uma multidão de mortos-vivos começaram á sair, correndo ou se rastejando. – Atiradores, agora! – Gritou, e quatro Noeis armados com as metralhadoras giratórias dispararam. Uma chuva de tiros aromatizados desceu sobre os zumbis, espirrando sangue por todos os lados. Os tiros duraram mais alguns segundos até a área estar completamente limpa. – Agoraaaa!
Noel e José se fitaram, balançaram a cabeça e correram para dentro, passando pelos corpos dos militares zumbis. Eles só precisavam armar a bomba e sair enquanto os atiradores cuidariam dos zumbis que chegariam, mas os dois avançaram e continuaram entrando, para além do combinado.
– Por Odin, o que eles estão fazendo? – Perguntou um duende, desacreditado.
– Idiotas!Não avancem mais! – Gritou.
Noel e José continuaram correndo sem dar ouvidos aos outros.
– Tem um bem ali! – Gritou José.
Noel rosnou e bradou sua clava, atacando com toda força o zumbi á frente.
– Economize suas balas e seja silencioso. Eu cuido desses! – Disse á José, golpeando outro zumbi na cabeça. Seus dentes voaram junto com o sangue negro.
Mais á frente havia uma escada curta. Eles subiram depressa, não havia nenhum zumbi á frente. Noel se agachou e entregou á José um óculos escuro, que na verdade era um acessório perfeito para combate na escuridão. Eles olharam em volta, estudando o ambiente. Havia três daquelas coisas no andar de baixo, á esquerda, e, ao caminho á direita estava livre. Eles pularam para direita, silenciosos e atentos. Caminharam até uma porta com sistema de identificação de digitais.
– Essa não! Como vamos entrar? – Sussurrou Noel.
José olhou em volta e havia um corpo num canto, com uniforme militar e insígnias que indicavam seu cargo superior. Os dois trataram de arrastá-lo até a porta. Seu corpo estava cinza como os dos outros. Noel pegou a mão do agente e separou seu dedo indicador, mas neste momento os olhos do militar se abriram, com um brilho morto e uma expressão de predador. No momento em que ele arreganhou a bocarra para morder Noel, este o empurrou para longe com toda a força. José se preparou para disparar enquanto ele ainda estivesse no chão, mas foi impedido por Noel.
– Silêncio, lembra?
O zumbi se ergueu e rodou sua cabeça até as costas para olhar para os dois. Abriu sua boca mais do que qualquer humano seria capaz de abrir e gritou um agudo e estrondoso guincho, que alertou á todos os outros zumbis.
– Esquece o silêncio José! – Gritou.
José obedeceu a ordem e disparou uma vez contra o militar morto. Este levantou de supetão, fazendo o tiro atingir seu braço e não sua cabeça. O zumbi correu na direção deles e pulou para atacá-los, mostrando suas garras e dentes apodrecidos. José disparou novamente e Noel o rebateu com a clava, fazendo-o ir ao chão.
– Depressa!
José sacou um canivete, “pegou” o dedo do zumbi e correu até o identificador de digitais. Um “Beep” alertou o destravamento do sistema. Os dois entraram e bateram a porta no momento em que os outros zumbis pularam sobre eles. Noel ativou o sistema de segurança novamente e se dirigiu até José que olhava para baixo, pendurado nas barras do corrimão. A vista não os agradou: Havia corpos e zumbis espalhados por todo o andar de baixo. Pelo menos cinqüenta mortos-vivos famintos. Era o campo de treinamento e mira e havia um arsenal de armas “grandes” á direita.
– Tem outro caminho? – Perguntou Noel, com um sorriso forçado entre a barba.
– De acordo com o mapa, se nós descermos pela escadaria á esquerda poderemos correr até aquele portão, que leva á um corredor, que vai nos deixar perto da câmara de segurança. Mas é bem provável que não conseguiremos chegar até lá com tantos zumbis aqui.
Noel olhou em volta e disse:
– Eu tenho um plano. É o seguinte, você vai pela esquerda e distrai os monstros, fazendo muito barulho. Corre e chega o mais perto possível da porta, enquanto eu vou pela direita e corro mais depressa até o arsenal. Então eu limpo a área e corremos para o corredor.
– Agora. – José respondeu de imediato, pulando habilmente em meio aos zumbis, com os braços cruzados, deixando ar armas tocar-lhe as bochechas. Fogo escapou dos canos, fazendo os zumbis ficarem com a metade da cabeça. José avançou, pulando sobre os corpos, ziguezagueando entre os zumbis e atirando em todos ao redor.
“Isso ae José” – pensou Noel, correndo e saltando as escadarias do lado direito. Noel usou a clava para limpar o caminho repleto de zumbis e aproveitou o fato de todos estarem voltados para José para correr ainda mais veloz.
Depois de percorrer todo o trajeto e chegar ao portão, José percebeu que não poderia arrombar a porta com aquelas armas. Os mortos-vivos ainda eram muitos e estavam chegando perto. Ele abriu fogo novamente eliminando os mais velozes. Noel estava demorando. Se falhasse, ambos morreriam ali. Os monstros continuavam avançando, chegando cada vez mais perto, muito perto. De repente um dos zumbis saltou á frente dos outros, José pressionou o gatilho, mas a arma estava descarregada. O zumbi estava muito perto, não havia tempo de recarregar a arma. Neste momento José pensou em sua ex-esposa. Não sabia o que sentia por ela, se ainda a amava ou se a odiava, mas pensou nela. O zumbi correu em sua direção, ele usava calças militares e uma regata manchada de sangue. Arreganhou suas unhas negras como a morte e no momento em que ia cravá-las na pele do duende foi arremessado pro lado com força total pelo tiro do Noel. Os zumbis se voltaram para ele e uma saraivada de tiros explodiu sobre a mortalha.
– HK MP7. Submetralhadora. Sistema de operação a gás com ferrolho rotativo. Calibre 4,6 x 30 mm. – Berrava Noel enquanto disparava loucamente sobre os zumbis. – Coronha rebatida. Cano de sete polegadas. Miras ajustáveis. Trilho picatinny com opção de miras eletrônicas e ópticas, além de miras a laser; mas eu prefiro mais a convencional.CAPACIDADE DE 950 TIROS POR MINUTOS!
José correu para a porta e apontou o cadeado revestido para Noel, que mudou o alvo da arma por um instante e disparou, estraçalhando-o.
– Vamos trocar de modo de combate José! – Gritou, chutando um mangual pesado (Arma branca. Maça feita de correntes de ferro. Nesse caso, com uma ponta esférica com pequenas estacas de ferro pontiagudas) para ele.
José sacudiu a cabeça pegando a arma. Havia alguns zumbis pelo corredor que gemeram ao percebê-los. José correu na direção deles, atacando com movimentos circulares e dilacerando um por um. Noel veio logo atrás, disparando nos zumbis que os seguiam do salão anterior. Continuaram assim até o fim do corredor que dava no laboratório de experiências. A porta protegida por um sistema avançado se abriu e os dois entraram. A porta se fechou em seguida, deixando as feras loucas e famintas, arranhado e gritando do outro lado.
Quando se viraram havia pelo menos quinze pessoas com equipamento de segurança olhando para eles. Dentre os cientistas estavam também alguns militares e empregados que conseguiram se salvar.
– HO-HO-HO! –Disse Noel, em um tom irônico.
Todos os sobreviventes deixaram um suspiro de alívio escapar, agradecendo em seguida com o dialeto russo do qual eles não entendiam uma palavra se quer. Um dos cientistas pôs-se a examiná-los. Por fim eles estavam bem, sem nenhum sinal de infecção.
O laboratório estava repleto de engenhocas e peças que quase foram destruídas na explosão. A câmara de segurança onde eles haviam se protegido ficava bem perto e era blindada e revestia por qualquer metal resistente. Noel sentiu raiva quando percebeu como a câmara era pequena. Os quinze sobreviventes deveriam ter se espremido para que todos coubessem. “Se fosse maior, haveria mais pessoas vivas e menos zumbis pra matar” – pensou Noel.
Mais á frente havia uma área restrita. Era o experimento principal. Havia um gigantesco painel com cabos e fios que se ligavam á um corpo em uma cama. Seus músculos eram tão grandes que quase rompiam a pele. Seu rosto estava completamente desfigurado, como se estivesse coberto por uma máscara negra, inchada e pisoteada.
– O que é isso Senhor? – Perguntou José, tampando a boca com a palma da mão.
– Bem... – Disse Noel, buscando as palavras – Se lembra de Resident Evil?
– Ah, claro. Ele é tipo o Nemesis?
– Sim. Vamos sair logo daqui.
Noel se aproximou da porta de saída e os ruídos dos zumbis continuavam.
– Então, qual é o plano senhor? – Perguntou José.
Noel se abaixou e colocou a bomba incineradora no chão.
– Teremos sete minutos para sair daqui. – Disse, iniciando os sistemas de configuração do detonador. – Começando de agora.
Os dois se preparam para abrir a porta. Armas carregadas, lâminas e maças posicionadas.
Noel retirou uma pedra vermelha do bolso e derramou uma poção incolor sobre ela. Em seguida a jogou no chão, fez um gesto com os braços e recitou algumas palavras de magia. A pedra começou á vibrar e rodopiar no chão e logo se dividira ao meio. As duas pedras dançaram e começaram á crescer. Listras brancas nasceram delas e quando já estavam do tamanho de um carro, pernas e patas brotaram das listras brancas. Depois um focinho e as presas. Os ursos polares se esticaram e rugiram de animação.
– Eu adoro os Ursos-Polares-Bestiais – Disse José.
– Ah! Já ia me esquecendo. Você tem aí a música Down With The Sickness?
– Claro senhor! – Respondeu José, sacando um aparelho e colocando a música para ser reproduzida em volume máximo.
A música o animou, o fez sentir mais forte. Precisava liberar aquela vontade louca de reduzir os monstros á pó.
– Agora sim. Vamos, o feitiço não dura muito tempo! Está na hora de chutar esses zumbis!
A porta foi aberta, revelando os mortos-vivos. Os dois ursos avançaram e atacaram com golpes violentos, estraçalhando-os como se fossem de pelúcia. Noel e José avançaram com os sobreviventes logo atrás.
Ursos Gigantescos atacavam com fome de guerra. Noel atirava com precisão e habilidade. José dilacerava com velocidade e frieza. Zumbis corriam e pulavam com suas garras e presas, na tentativa de devorar cérebros.
Em fim chegarão ao último salão, a grande portaria estava aberta e os outros Noeis estavam do lado de fora, bravos; mas esperando por eles. Os poucos Zumbis que sobraram foram eliminados sem mais dificuldades. A missão estava cumprida e ainda faltavam pelo menos três minutos antes da detonação. Noel e José correram para a retaguarda para impedir que zumbis atacassem logo agora. Os sobreviventes correram para fora. No momento em que o último cientista passou uma parede foi destruída atrás deles. Quando olharam lá estava o super-soldado, em pé, com seu uniforme militar de honra, segurando o que sobrara da bomba incineradora. Ele havia destruído o detonador então, a bomba não poderia mais ser acionada. O monstro olhou fixamente para eles, com um sorriso perturbador no rosto. Seus músculos se enrijeceram, enormes montanhas negras. Ele deveria ter pelo menos três metros de altura.
– Oh droga! – Exclamou José.
Todos os Noeis olharam atônitos para criatura.
– Fo... Fogo! – Gritou o Noel com o tapa-olho. Noel e José pularam cada um para um lado e os tiros vieram em direção ao zumbi. Os tiros passaram sobre sua carne sem tirar o sorriso maldoso de seu rosto. O Noel com o tapa-olho fez um gesto e os tiros cessaram. O monstro alongou o pescoço e as feridas se fecharam.
– Ele... Ele se regenera! – Gritou um duende.
O zumbi correu, seus passos faziam o chão tremer. Atacou, mas os Noeis se esquivaram, fazendo o monstro esbarrar no caminhão, virando-o ao contrário. Zumbis chegavam perto da portaria, eles não podiam escapar.
– Que droga vocês fizeram lá dentro? – Perguntou um Noel.
Estavam totalmente encrencados. Os Noeis se dividiam para conter os demais zumbis e para eliminar o super soldado.
– Senhor, tem alguma idéia? – Perguntou José, desesperado.
Noel olhou em volta. Nem mesmo todos eles juntos poderiam impedir aquele desastre. Mas eles tinham que lutar, mesmo se morressem ali. Noel segurou sua arma, sentir seu peso o fez recuperar a coragem. Um grito sufocado se ouviu de um canto. O super soldado havia pegado um Noel. Ele se debatia para escapar de suas mãos, mas era inútil, nem os tiros, nem os ataques mágicos faziam efeito nele. O monstro rugiu, fazendo o gorro vermelho ir pra longe. Em seguida, pegou o Noel com uma das mãos, girou o braço e o arremessou para longe. O Noel bateu com força em uma parede e depois no chão, já sem vida.
– Nããããããõ! –Se ouviu de vários agentes.
Noel não acreditava no que havia visto. José deu um pulo para traz.
– DESGRAÇ... – Gritou Noel, antes de ser atingido por uma máquina arremessada pelo monstro. Noel sentiu uma dor aguda quando bateu com a cabeça em uma parede. Ele sentiu uma raiva enorme crescer dentro de si. Sentiu seus olhos queimarem de ódio.
“Nãããõ! Noeeel!” – Ouviu a voz de José.
Noel lembrou de suas amadas crianças, a quem trabalhava tanto. Pensou em quantas delas seriam feridas por aquela besta. Ergueu-se em um salto impactante. Ele sabia o que fazer.
– José, pegue o máximo de bombas que puder no caminhão. – Disse, se sentindo jovem novamente.
– Sim senhor! – José não sabia o que fazer, mas obedeceu.
Noel respirou fundo e nesse momento se sentiu mais forte do que nunca. Sua aura mágica estava tão alta que iluminou o local. Uma força descomunal cresceu em Noel e ele pôs-se á correr em direção ao monstro.
– Aaaaaaahhh! – Gritou enquanto corria.
O zumbi o viu, abriu um largo sorriso e se preparou para apanhá-lo. Noel correu em uma velocidade sobrenatural e saltou como um foguete contra o monstro. Os dois caíram sobre muros, rolando e destruindo-os. Noel se levantou, ainda tinha forças. José chegou, com os braços cheios de dinamites. O monstro ainda estava de bruços, então os dois trataram enfiar o máximo possível delas em sua pele, perto do pescoço. O monstro rugiu e os empurrou. Os dois caíram de pé.
– Agora José!
Os dois saíram correndo o mais depressa possível e o monstro os seguiram, rugindo de ódio. A área estava repleta de zumbis sendo combatidos pelos Noeis. Noel e José adentraram no batalhão novamente, derrubando os zumbis que aparecessem em sua frente. O Monstro os seguirão, conforme o plano. No momento em que ele ia atacar José e Noel se esquivaram e José acionou o detonador remoto das dinamites. Os dois correram para se proteger e pularam para atrás de uma parede revestida no exato momento em que as bombas detonaram. A explosão sacudiu o lugar e levou muitos outros zumbis junto da cabeça do super soldado.
Uma fumaça negra cobria o local da explosão. Noel e José se esticaram para verificar. Uma sombra se projetava das cinzas, de pelo menos três metros de altura, rugindo e com uma cabeça intacta em cima do pescoço.
– Droga...
O zumbi gigante correu e chutou a parede com força, fazendo José e Noel voarem e se chocarem á uma outra parede. Noel não tinha mais forças, aquela luta estava perdida. Olhou para José e o viu desmaiado, com a boca ensangüentada. O gigante á frente parecia feliz. Avançou com passos lentos, saboreando a vitória. Olhou para Noel com olhos mortos famintos e abriu uma enorme bocarra. Um rugido estrondoso se espalhou e ecoou pelo lugar. Continuou rugindo por mais alguns segundos. Abriu ainda mais a boca até uma estaca atravessá-la por trás, na nuca. O monstro se virou e lá estava um duende com uma jaqueta de couro verde, calças jeans preta, um all-star de cano longo sobre elas e um óculos-escuro esverdeado contracenando com as suíças ruivas que se alongavam até o cabelo longo e liso. O Senhor Chaun sacou seu charuto cubano e o tragou. O monstro berrou e o socou, mas seu punho bateu com força no chão. O Senhor Chaun pulou para trás e saltou sobre seu braço, subindo nele e retirando sua arma mortal – um martelo de aço com a haste cumprida e com a extremidade pontiaguda — de sua garganta e pulando contra a parede. O monstro se virou novamente e o Senhor Chaun saltou sobre seu pescoço, separando-o de seu corpo em um ataque rápido com a parte fina da cabeça do martelo. O monstro permaneceu imóvel, sem a cabeça. Chaun subiu novamente e depositou um objeto aparentemente mágico avermelhado sobre a cratera entre os ombros.
– Isso vai fazer uma bela limpeza. – Disse Senhor Chaun, ajudando Noel á se levantar e carregar José para fora. – Ei velhotes, saiam da frente do show de luzes! – Gritou para os Noeis que ainda batalhavam do lado de fora. Todos correram para longe do batalhão que explodiu em chamas vermelhas.
– Ya-hoo! – Gritou um dos Noeis.
– O que foi isso Senhor Chaun? – Perguntou Noel.
– Bomba mágica. Muito melhor que estes detonadores que vocês usaram. – Respondeu, com um sorriso esticado no rosto.
A bomba havia sido produzida com magia de intenção. É um tipo de magia que se programa para fazer – destruir — algo, não importando o quão resistente isso seja. É uma magia poderosa, que quando bem programada realiza qualquer coisa, mas somente o que for programado. Por isso, todos os demais zumbis foram eliminados juntamente á explosão.
– Calem a boca, todos vocês. Calados! – Gritou Senhor Chaun. Todos os Noeis se viraram para ele. — Arrumem a bagunça. Nós fomos enganados, amigos. Isso tudo aqui foi apenas uma distração. – Disse, limpando a testa. – Mas por hoje, meus parabéns guerreiros, a missão está cumprida.
*
O Natal, apesar de tudo, foi bom. Para todos os países. As crianças tiveram seus presentes e as tentativas de destruir o Natal foram aniquiladas. Os Noeis mortos em batalha foram substituídos e os cientistas e os demais sobreviventes voltaram á seus lares. Os fogos iluminaram os céus, como sempre. As famílias se reuniram, foram feitos votos e tiveram abraços nas festas, como sempre. As mesas estavam fartas e as barrigas ficaram estufadas, na maioria das casas.
Todos os Noeis estavam reunidos novamente na sede da magia natalina, convocados pelo Senhor Chaun. Todos os responsáveis de todos os países e os agentes Noeis – Como o chefe de José – e também todos os duendes e elfos responsáveis.
– Vocês foram chamados aqui para que todos fiquem á par do que realmente aconteceu no dia 23. – Adiantou-se Senhor Chaun – Todos os Noeis e agentes Noeis foram convocados para missões. Enquanto a equipe B precisou impedir um apocalipse zumbi, a equipe A parou uma rebelião de máquinas. Enfim, alguém ou alguma coisa tentou impedir o natal. E não, não foi o Grunch. Como vocês sabem, eu fiz questão que a mídia, os presidentes e trá-lá-lá soubessem dessas nossas missões. Mas isso foi manipulado de alguma forma e a informação nunca chegou a eles. Ou seja, para todos vocês simplesmente estiveram sumidos, ausentes de suas ações natalinas. Minha conexão com o governo foi totalmente cortada, não se sabe por que. Ou por quem. Eu, particularmente não faço ideia do por que isso tudo ocorreu, mas tem dedo de alguém. É bem provável que haja traidores e espiões entre nós. Espero que todos estejam cientes de que qualquer tentativa de traição da aliança de natal é punida com a morte. Não importa o que for, ou quem for que esteja por trás disso, também será punido de forma ainda mais complexa do que a morte. Bom, fora isso, o pagamento de todos vocês está atrasado novamente. Feliz 2014 para todos! – Terminou Chaun, com um gesto alegre para os duendes que trataram de lançar confetes e serpentinas. Nenhum dos Noeis estava realmente satisfeito.
Algumas horas depois da confraternização, Noel e José ainda permaneciam na sede. Estavam agachados, ouvindo uma conversa pelo compartimento de ar.
– Não senhor. Não desconfiam de nada. – A voz estava abafada, irreconhecível – O líder 03 acredita que há alguém por trás de tudo, mas não tem ideia de quem seja. – A voz continuou á dizer palavras que eles não entendiam, algumas em códigos.
José olhou bem por uma fresta, era um homem alto e gordo. A sala estava escura e só conseguiu enxergar isso. O homem olhou para o braço, como se estivesse procurando pelas horas. Remexeu em uma pequena tela e seu corpo começou a se desfazer. Era um tele transporte. Quando a luz da janela entrou novamente, José pode ver seu rosto, pálido e macabro, com um tapa-olho negro no olho esquerdo.
– Senhor... – Sussurrou José.
– Eu vi José. Fique tranqüilo, eu estou de olho. Vamos. – Disse Noel, já se levantando -, temos renas mágicas para escovar.
Fale com o autor