Guerra das espécies!
2 Premonição
Notas iniciais
Funerais. A morte de alguém querido é sempre uma larga tristeza para toda a gente. Uma pessoa amada que nunca poderemos voltar a ver no nosso tempo de vida. Ao nos apercebermos disso ficamos com um vazio no coração, algo que nunca pode ser preenchido, apenas reparado ao longo do tempo. E às vezes nem chega a se reparar.
Dave olhou mais uma vez para a campa, um pouco ao longe via-se um buraco a ser feito, a última paragem para um ser humano. Choros e gritos vinham de todos os lados. Era como se estivesse na linha que separava a realidade do imaginário. Tudo parecia como se fosse um pesadelo, mas no final sabia-se que tudo era real. A mais pura das realidades que todos os seres humanos tentavam esconder mas que acabava sempre por vir á tona – todos os seres estão destinados a morrer.
Dave já tinha experimentado várias vezes essa sensação em pouco tempo. Nunca quisera ir a nenhum funeral quando era mais novo, mas no ano passado experimentou pela primeira vez devido á morte do seu avô – fora uma sensação terrível, preferia nunca ter experimentado aquilo outra vez, mas a constante morte de muita gente fazia-o sentir-se obrigado a estar lá para ajudar quem pudesse, ainda mais devido ao facto de saber quando as pessoas morrem.
No começo era algo que não acreditava mas cada vez mais as provas se mostravam. Após o funeral do seu avô, quando uma pessoa morria, aparecia um corvo á frente de Dave e, numa hora, uma pessoa morria. Parecia impossível, mas Dave não acreditava que coincidências podiam acontecer tantas vezes. Era um sentimento terrível saber quando uma pessoa poderia morrer. De noite era atormentado por pesadelos onde apareciam os corvos sempre a atormenta-lo. Mesmo a andar na rua sempre olhava para todos os lados á procura de algum. A sua vida tinha-se tornado um autêntico pesadelo.
Outra coisa que o preocupava era o facto de mais ninguém os ver. Era como se fosse algo enviado só para ele. Mas porquê?
Um grito arrepiou-o pela espinha acima. O corpo estava agora a ser enterrado e várias pessoas começavam a gritar para que ele acordasse, elas sabiam que era inútil mas tentavam na mesma, os seres humanos eram assim.
Começou a ser empurrado pelas várias pessoas, acabando por decidir sair dali. Libertou-se do mar de gente e deu um último olhar ao cemitério. Veio-lhe á mente vários contos de terror onde o cemitério estava envolvido. Os seres humanos tinham tanto medo do cemitério que o punham nas histórias de terror, a maioria tinha sempre um cemitério envolvido, desde contos satânicos a contos de vampiros e de mortos-vivos. O que o levava a outra pensamento que o alertou – onde houvesse contos onde corvos entravam, sempre estavam ligados á morte…
Dave respirou fundo tentando esquecer tudo aquilo. Foi então que uma pinga lhe caiu na testa. Levantou o rosto e fitou as nuvens, estava para vir uma tempestade. Um trovão fê-lo mexer em direção a sua casa, a mãe ficaria preocupada se ele demorasse mais tempo.
A chuva começou a cair mais forte e o som do trovão ribombava cada vez mais fazendo Dave acelerar o passo. Nos contos chuva também significava tristeza, e os trovões significavam raiva…
Porque as pessoas tinham começado a morrer cada vez mais? A taxa de mortalidade tinha começado a subir aos poucos, devido a doenças como: AVCs e problemas do género. Algo estava a acontecer, algo muito ruim.
A chuva agora tinha ficado mais forte e Dave mal via o caminho á sua frente, acabando por tropeçar e cair no chão, mesmo em cima de uma poça de água. Fora o suficiente para ficar encharcado até aos ossos. Levantou-se devagar e olhou em frente, mas preferia não ter olhado. Mesmo á sua frente encontrava-se um corvo a fitá-lo nos olhos. Dave começou a tremer e murmurou:
-Não pode ser verdade…
Mas era. E ele sabia. Dave levantou-se e tentou tirá-lo dali, mas o corvo não se mexeu um milímetro. Dave estava aterrorizado. Tinha saído agora mesmo de um enterro, não queria voltar para outro!
Um bater de asas. Dave virou-se e o seu terror só aumentou. Atrás de si estava um segundo corvo. Duas mortes?! O rosto de Dave ficou branco como a cal, devia ser só uma ilusão. Sacudiu a cabeça e voltou a olhar para os lados, e foi então que apareceram mais dois, dando um total de quatro. Dave olhou para ver se vinha alguém, mas a rua estava deserta. A chuva e o trovão tinha posto toda a gente dentro. As janelas estavam fechadas, e as cortinas também. Estava sozinho. Voltou a olhar para os corvos. E foi então que Dave ia desmaiando. Em pouco tempo estava rodeado por corvos. Já nem se podiam contar de tantos que eram, e cada vez apareciam mais!
Dave não sabia mais o que fazer. Todas as outras vezes só chegava a ver um corvo, como podiam ter aparecido tantos? Iria morrer tanta gente?! Impossível?!
O tempo parecia parar para Dave. Mal sentia a chuva a bater nele. Até o som do trovão parecia ter desaparecido. Era como se tudo á sua volta não existisse. Tudo o que via eram os corvos e os seus olhos a observá-lo. E cada vez apareciam mais! Um súbito pensamento apareceu a Dave. Podia ser algum ataque á cidade? Estaria a sua vida em risco?
Dave deu um soco em si mesmo para se obrigar a pensar. Tinha que pensar primeiro em sair dali e evitar ficar também ele morto por hipotermia. Respirou fundo e desatou a correr. Os corvos levantaram voo e ficaram a vê-lo. Dave fechou os olhos tentando ignorá-los e concentrando-se apenas no seu sentido de orientação. Várias vezes chocou contra muitas coisas que nem chegava a saber o que eram devido a nunca abrir os olhos.
Após um tempo de corrida Dave parou e abriu os olhos. Estava agora em frente a sua casa, e tinha entendido um pouco como os bêbados chegavam em casa.
Antes de abrir a porta olhou para ver se algum corvo o seguia. Não viu nenhum, para seu alívio. Abriu a porta e a sua mãe veio logo a correr:
-Estava tão preocupada com a tua demora…
As palavras fugiram da sua boca ao ver que estava totalmente encharcado. O estilo meigo que tinha tido antes desapareceu e foi substituído por um estilo raivoso:
-Mas que andaste tu a fazer?! Vai já tirar essas roupas e tomar um banho antes que apanhes alguma constipação!
Ele obedeceu com um sorriso. Desatou a correr pelas escadas molhando o caminho por onde passava. Despiu-se rapidamente e pôs-se na banheira.
“Os corvos que tinha visto antes não passavam de um sonho.” Repetia isso a si mesmo. Devia ter sido uma ilusão devido ao facto de estar a pensar nisso antes, e devido á chuva pensou que estavam corvos á frente dele. Histórias assim parecidas já tinham acontecido com muita gente. E devia ter sido o que tinha acontecido com ele.
Já calmo, saiu da banheira e enrolou-se na toalha por um bocado. Foi fazendo cada passo da limpeza e de se vestir o mais devagar que conseguia. Já com o pijama vestido desceu as escadas e foi então que ouviu uma frase da mãe que o fez relembrar tudo porque tinha passado:
-Meu Deus, nem consigo acreditar nisto!
Dave desatou a correr até ela e com ar preocupado perguntou:
-Que é que se passou?
A mãe com ar preocupado apontou para a televisão. Bastou dar uma olhada na notícia em rodapé, que Dave perdeu totalmente a sua cor: “Milhares de pessoas morrem em hospitais devido a um vírus que se está a espalhar rapidamente”.
Um vírus?! Como algo assim era possível? Como um vírus se podia instalar assim tão rapidamente?! E como conseguiu matar tanta a gente!
Dave prestou mais atenção na notícia. O aparecimento daquele vírus estava a acontecer pelo mundo inteiro e principalmente em hospitais. A origem suspeita-se em algumas pessoas terem sido detetadas com uma doença e postas em coma, e do nada tinham morrido e um vírus diferente instalou-se rapidamente nas outras pessoas e matava-as quase instantaneamente. Recomendava-se às pessoas para não saírem de casa, até descobrirem de que se tratava o vírus.
Dave encostou-se para trás. Vários pensamentos vieram-lhe á cabeça: Corvos, vírus, mortes… Era como se fosse o final do mundo, e ele estava no meio!
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