Guerra Sem Paz

1 "War Pigs" - Black Sabbath


Por que se contentar com uma vida boa, quando ela pode ser excelente?

Eu nasci para a excelência. Não posso me contentar com menos que isso.

O poder da conquista é o que dá sabor à vida. Um sabor cada vez mais raro e mais difícil de ser alcançado.

Uma taça de vinho para terminar a noite.

Essencial. É o toque final, para fechar bem.

O delicioso sabor, no entanto, só existe se o dia tiver sido bom.

Hoje foi. Excelente. Como sempre.

Movo um peão sobre meu tabuleiro de xadrez. Sozinho, sou perfeitamente capaz de escutar meus pensamentos ecoarem por toda a imensa sala.

Vitória. Uma vez mais, vitória.

Um brinde a mim...

— CHEGA! Agora chega!!

Olho surpreso na direção da porta da sala de reuniões, que acabava de se abrir abruptamente. Meu único movimento foi um discreto levantar de sobrancelha. Pensei que não houvesse mais uma viva alma nesse prédio militar.

— Agora, você vai se entender comigo! – grita o homem, agressivo, vindo em minha direção – COMIGO! Entendeu?? – a enorme mesa se interpõe entre nós e ele se inclina por cima dela.

— Senhor!!! – mais passos, mais barulho. Tanto barulho. Odeio barulho – Senhor, desculpe-nos! Este homem não vai mais incomodá-lo! Vamos! Para fora daqui! – os soldados seguram à força o invasor, que se debate, resistindo aos braços que o dominam agora.

— NÃO! NÃO!!! Ele vai me ouvir! Ele não vai mais continuar com isso! Não sem me ouvir, não sem saber!!

— Cale-se!! – com o cano de um imponente fuzil, um dos soldados golpeia fortemente as costas do rapaz, que cai sobre os próprios joelhos. Um pouco abatido pelo súbito golpe, ele se cala por um instante e os meus homens aproveitam sua momentânea fraqueza para começarem a puxá-lo pelos braços, arrastando-o para fora do salão de reuniões.

— Um momento. – minha voz se faz ouvir no local, imobilizando a todos – Deixem-no falar.

O rapaz levanta um olhar algo desconfiado para mim. Eu sorrio de canto e ergo minha taça de vinho, como se brindasse aquele momento.

— Ele parece ter algo importante a dizer. Então, deixem-nos a sós. – eu falo com calma e então bebo um pequeno gole do líquido rubro, que depois aprecio com um brilho no olhar.

— Senhor... Não acreditamos que seja boa ideia... Este homem...

— Ele está armado? – pergunto de forma incisiva.

— Não. – é o próprio rapaz quem me responde. Desafiador com seu olhar. Eu gosto disso – Eu não vim armado.

— Ótimo. Podem sair então. – dirijo-me aos soldados, que olham atônitos para mim e para o visitante que, agora, torna-se um convidado meu.

— Senhor... – um dos meus homens ainda tenta argumentar. Lanço para ele um olhar significativo e característico meu. Todos sabem que não devem me confrontar. Nunca. Jamais. É uma batalha perdida.

Os soldados fazem um sinal de respeito, demonstrando acatar meu pedido, e se retiram. Fecham as portas do grande salão, mas eu sei que eles estão ali fora, esperando por qualquer ordem minha, que pode surgir a qualquer momento, para que venham retirar esse homem daqui.

Contudo, eu não creio que isso será necessário. Quando for a hora de ele sair, ele sairá e não terá de ser forçado a isso.

Sei julgar uma pessoa à primeira vista. Toda relação humana é um jogo e eu domino esse jogo como ninguém.

— Aceita algo para beber? – eu pergunto, com a voz gentil. Levanto-me e vou até um pequeno bar, que se encontra a um canto da enorme sala de reuniões. Levo comigo minha própria taça, a fim de enchê-la novamente.

— Eu não quero nada que venha de você. – o rapaz, agressivo, ergue-se e me acompanha com os olhos.

— Entretanto, veio até aqui apenas porque queria falar comigo. – eu digo, pacientemente, enquanto volto ao meu lugar – Quer que eu o escute; então, sim. Você quer algo de mim. Pois fale. Estou ouvindo.

Percebo que consigo desconcertar o jovem com minha aparente docilidade. É tão fácil, que quase perde a graça...

— Você... Você é o culpado... Você é o culpado! Todos vocês!! TODOS VOCÊS!!! – ele volta a vociferar e minha aparente tranquilidade se desfaz por um minuto. Eu não gosto de barulho.

— Pare de gritar. – minha voz é mais fria – Eu disse que vou ouvir o que tem a dizer, mas apenas se não elevar seu tom de voz. – fui categórico e meus olhos souberam transmitir perfeitamente o recado. As coisas têm de acontecer do meu jeito. Sempre.

O rapaz pareceu compreender como tudo ali deveria funcionar. Respirou fundo. Sem retirar os olhos ferinos de mim, ele recomeçou a falar:

— Sabe quem é meu irmão? Sabe que...

— Ah, por favor. – ergo minha mão, em um gesto de interrupção. Transmito em minha voz um tom de enfado – Sem nomes. Não faço questão, não quero saber. Não me interessa o nome do seu irmão, ou o seu.

— Entretanto, eu sei o seu nome. Tenho obrigação de saber.

— Claro. A vida é assim. Pessoas importantes são conhecidas, pessoas como você... Bem, você devia me agradecer por estar dando ouvidos ao que tem a dizer agora.

— Agradecer? – ele ri, sarcástico – Vai querer que eu agradeça por estar vivo também?

— É um bom começo. – começo a me arrepender de tê-lo deixado falar. A busca por um passatempo às vezes me leva a cometer erros. Pensei que seria um jogo interessante, mas acho que é apenas mais um caso perdido.

— Acontece que você, e todos da sua laia, são responsáveis apenas por morte! Meu irmão morreu! Morreu hoje, em combate! E por quê? Para quê??

— Você sabe muito bem para quê.

— Não, eu não sei! E nem ele! Ele achava que sabia. Ele lutava porque acreditava! Ou porque queria acreditar, eu já nem sei mais... – o rapaz passa a mão pelo rosto, demonstrando cansaço, tanto físico quanto mental – Ele acreditava nas suas mentiras. Ele vivia acreditando nisso, mas morreu desacreditado disso tudo...

Não respondo nada. Começa a ficar interessante. Levo minha taça à boca, mas apenas mantenho-a assim, próxima aos lábios, sem sorver qualquer gole.

— Ele veio lutar nessa guerra suja e estúpida porque acreditava! Ele veio até aqui e lutou entregando a própria vida porque achava estar fazendo o bem! Achava estar defendendo algo importante! Ele quis vir, mas eu nunca quis estar aqui! Eu vim para protegê-lo; eu sempre soube que isso tudo era errado, muito errado...

— Errado, meu rapaz? Você acha que as causas em que seu irmão acreditava são erradas? Que bela forma de honrar a memória dele...

— Eu não preciso honrar a memória dele acreditando nessas mentiras! Vocês nos enganaram, ficam querendo nos vender essas mentiras, obrigam-nos a comprar falsas verdades, belas fachadas que escondem tanta podridão que... que...

No fundo, há ideia interessantes ali. Mas bem no fundo. Ele mal consegue formular uma frase coerente, quanto mais argumentar. Está longe de ser um duelo interessante.

Tedioso. Vai ser mais fácil do que pensei.

— Se bem entendo, esse seu irmão morreu hoje. Em combate? No campo de batalha? – pergunto como se falasse a respeito de um assunto qualquer, como se fizesse uma pergunta corriqueira sobre o clima – E você o viu morrer?

— Ele morreu nos meus braços, seu desgraçado!! – o homem volta a gritar, trazendo-me novamente uma careta de desgosto à face – Ele morreu olhando para mim! Olhando apavorado para mim!!! Ele tinha medo nos olhos! E sabe de quê?

— Não.

— Medo de ter morrido em vão! Medo de não ter vivido por algo que valesse a pena!

— Bem, quanto a isso, fique tranquilo. Não foi em vão.

— Quem me garante? Você? Ou os outros que se sentam nessas cadeiras, enquanto decidem nossas vidas?

— Sim, eu garanto. – respondo de forma assertiva – Assim como eles também. Nós garantimos que não foi em vão. Falo por todos quando, inclusive, volto a dizer para que agradeça por estar vivo. Não sabe que estamos em guerra já há um bom tempo? Pensa que é fácil evitar que uma nação entre em colapso? Meu rapaz, você é jovem. Sabe pouco da vida; quase nada. No entanto, se hoje você está aqui, podendo chorar a morte do seu irmão, é porque existem muitos, como ele mesmo, lutando para que você possa reclamar de tudo quanto deseja. Porque, afinal, é sempre isso o que ocorre. Você quer reclamar; muito bem. Reclame. Basta estar vivo para reclamar, não é mesmo? Mas lembre-se disso: Se não fosse pelas decisões que eu e outros homens diariamente tomamos, você não estaria aqui exercendo seu direito de me agredir e acusar.

— Não inverta o jogo! Não se faça de vítima e nem me faça de tolo, eu sei que as coisas não são como você diz! Esse seu discurso não me convence; não mais!

— Não mais...? Então, já convenceu algum dia? E o que mudou, posso saber?

— Eu parei de acreditar em tudo o que me falam e comecei a pensar por conta própria! Comecei a enxergar pelos meus próprios olhos! Comecei a ver, de fato!

— Não é incrível a relatividade de todas as coisas? – falo com olhar filosófico e tom ameno – Ontem, a verdade lhe parecia mentira e hoje a mentira lhe soa como verdade. E quem pode garantir o que é certo ou não?

— Eu... – o jovem parece ficar um pouco atordoado pelas minhas palavras. Sorrio ligeiramente e então prossigo:

— Você agora está optando por acreditar que o que eu digo não é verdade. Está bem, faça como achar melhor. No entanto, perceba... Quem está alterado aqui? Quem parece querer provar um ponto, com tanto desespero? Quem parece mais necessitado de uma comprovação de que a sua verdade é a correta?

— Eu estou nervoso porque acabei de perder um irmão!!! E eu o perdi injustamente!! Ele não precisava ter morrido!

— Enquanto você quiser continuar acreditando nisso, será mais difícil para você. Você prefere enxergar seu irmão como alguém que perdeu a vida de forma leviana. Você quer achar que foi em vão. Ora, mas isso é terrível. Não, meu rapaz... Por que deseja criar tanta angústia para si mesmo, por que busca se castigar dessa forma, tendo pensamentos tão cruéis a respeito da realidade?

— Porque ela é cruel! Porque vocês a fazem cruel!

— Veja a infantilidade em suas palavras. Da forma como diz, você me dá muito mais poder do que eu realmente possuo. Acha mesmo que eu tenho tanto poder sobre a vida e a morte das pessoas? Acha mesmo que eu sou o grande causador das desgraças do mundo? Meu jovem, quem me dera ser assim tão poderoso...

— Não se faça de desentendido! Você manipula as pessoas! Você brinca com vidas humanas, sem qualquer escrúpulo ou remorso!

Encaro friamente os olhos do rapaz à minha frente. Procuro enxergar exatamente o que existe ali. E, sem grandes dificuldades, noto logo o sentimento preponderante. Desespero.

Sim, seria muito mais fácil do que eu pensava.

Ainda não é um desafio à altura.

— Meu rapaz, venha comigo. – eu me levanto e faço um gesto para que o homem me siga até uma das grandes janelas do local. Ele vem, com os olhos ainda queimando de fúria – Olhe. O que vê? – eu aponto para fora.

— Eu vejo morte. O fogo consumindo vidas. Cinzas. Sangue. Desespero. Dor. – a voz dele é engasgada, como se houvesse um nó se formando em sua garganta.

— Pois sabe o que eu vejo? Eu vejo a vida lutando. A vida persistindo. Eu vejo convicção. Eu vejo vitórias. Sim, são vitórias sujas de sangue, mas são vitórias. São pessoas unidas por um ideal. Pessoas que estão dispostas a tudo por uma causa maior. Eu admiro essas pessoas.

— Você não as admira, você precisa delas, para que se mantenha exatamente onde está.

Olho de soslaio para o rapaz e solto um suspiro:

— Pensa que não sofro diante disso tudo? Engana-se. Contudo, está certo se disser que não sofro tanto quanto você. Meu pesar tem um limite. É necessário. Eu preciso ser mais racional. Não é fácil, mas alguém tem de sacrificar um pouco de sua humanidade por um bem maior. Este é o meu fardo.

— Você quer mesmo que eu acredite nisso? Você acha que eu sou idiota? Está realmente achando que...

— Meu rapaz. Apenas considere a seguinte possibilidade: E se eu estiver certo e você errado?

— Eu não estou errado.

— Quanta prepotência, para quem me acusa de me colocar acima de tudo e de todos...

— Não é nada disso! É só que...

— Se eu estiver certo, — interrompo o jovem – estou fazendo tudo ao meu alcance por uma causa justa. Se não meço esforços, é porque não se deve ser contido na luta pelo que se acredita. Mas, se eu estiver errado... Bem, eu errei tentando. Mas foi tentando acertar.

— Acha que é simples assim? Que esse seu discurso vai resolver tudo? Acredita mesmo que essas palavras vazias isentam você de qualquer culpa?

— Eu não disse isso. Mas minhas ações podem minimizar a dor.

— Impossível!

— Será mesmo? Veja bem; você me diz que seu irmão lutou bravamente, que ele acreditava na nossa causa... Ora, eu sou tão crédulo que me basta sua palavra para que eu acredite nisso. E, se seu irmão foi tão corajoso e foi certamente um soldado importante, então eu penso que seu esforço deve ser recompensado. Vejamos... Sua família, imagino, deve passar por algumas necessidades...

— Muitas. Nossa vida é miserável! Por isso eu digo que essa guerra nunca trouxe qualquer benefício para nós! Ela apenas mata, suga tudo o que possuímos e ainda por cima temos de...

— Vou lhe fazer um cheque. – retiro com toda a naturalidade o talão de cheques do meu bolso – Um cheque reparador. Seu irmão merece. Ele foi um bravo homem.

— Você nem o conheceu!

— Mas acredito em sua palavra. – termino de preencher um valor razoavelmente alto. Assino o papel e estendo-o para o rapaz – Aqui está. Sua família receberá, é claro, os devidos benefícios, os nossos respeitos, medalhas de bravura, mas, fora tudo isso, quero que receba esse cheque. É minha forma de reconhecimento a tudo o que seu irmão fez.

Ele pega o cheque em suas mãos e arregala os olhos. Eu já imaginava; ele sequer poderia sonhar com um valor tão alto como aquele.

— Está querendo me subornar?

— Subornar você? E por que eu iria querer tal coisa? Você, por acaso, é uma ameaça a mim? Rapaz, pare de tentar ver problemas em tudo. – eu digo, em uma voz mansa.

— Então não faz sentido.

— Não faz sentido dentro do modo como você quer ver.

— Não; não faz sentido e eu não quero seu dinheiro. – ele joga o cheque de volta, que fica caído sobre a mesa de mogno.

— Você opta então por continuar assim? Amargurado? E com uma família passando necessidade? Muito bem. Sua visão deve ser mesmo a correta. A visão que traz dor, tristeza, carências... sim, ela deve estar mesmo certa. – meu tom de voz é irônico e ele certamente percebe isso – Mas escute... Só por curiosidade, que tal enxergar de outra forma? Que tal ver a realidade pelos meus olhos... Ver um mundo cheio de problemas e pessoas como eu, injustamente acusadas por alguns como você, lutando para querer melhorá-lo. Sim, eu quero fazer a minha parte. Quero ajudar nesse processo de criar um mundo melhor para todos.

— Que tal começar saindo de trás dessa mesa para juntar-se aos soldados que você diz admirar?

— Não posso. Alguém tem de ficar aqui e fazer o meu papel. Não é tão fácil como pensa... Mas é necessário. O mal necessário, como alguns diriam. Mas há males que vêm para o bem.

— Não vejo como isso é possível. Você não está lá, no meio da guerra, sentindo o cheiro da carnificina, para entender isso. Meu irmão morreu em uma emboscada. Foi tolice, foi desumano. Mas vocês não se importam; não passamos de peças em um jogo de tabuleiro para vocês. – ele diz, apontando para o meu jogo de xadrez.

— Eu me importo. Do contrário, não estaria conversando aqui com você. Não lhe teria feito esse cheque. Entretanto, eu só posso mostrar meu apreço de vez em quando. Porém, quando o faço, deveria ser devidamente apreciado. Meu rapaz, analise a situação por este ângulo: E se seu irmão não tiver morrido em vão? E se ele for um herói? E se essa causa for verdadeira?

— Seria ótimo, mas essa não é a realidade e...

— Quem disse? E se essa for a realidade que você não quer aceitar? E se eu estiver certo e essa guerra for necessária? E se, sem ela, vidas de inocentes correrem perigo? E se, sem ela, sua família sofrer com perdas ainda mais irreparáveis?

— Se você estiver certo, o que é impossível, eu ao menos estou fazendo o que julgo correto. Estou sendo leal às minhas convicções.

— Assim como eu. Eu também faço o que julgo certo. Ajo de acordo com as minhas convicções. Vê? Não somos assim tão diferentes, pelo visto. – “xeque-mate”, eu penso comigo.

— É diferente, sim! Nós somos diferentes! Eu...

— Sabe o que mais? Você é quem está sendo irredutível e arrogante aqui. Não quer me dar o benefício da dúvida. Mas tudo bem. Eu sou compreensivo. Vou ajudá-lo a pensar sobre o que é certo ou não.

— Eu não preciso da sua ajuda para isso! Eu não...

— Você vai ficar com o cheque. E mais ainda: vou lhe oferecer um cargo mais alto. Você mencionou uma emboscada, não foi? Que absurdo, isso não deveria ter acontecido. Parece-me que você tem bom faro para essas coisas. Vou posicioná-lo como parte do grupo dos estrategistas. Você não precisará mais correr riscos nos campos de batalha...

— Eu não...

— Sua mãe receberá a triste notícia da morte do seu irmão, mas não será mais fácil de aceitar se ela compreender que foi por uma boa causa? Não será mais fácil de assimilar se ela entender que foi necessário? Não será mais fácil se ele for enterrado como um grande herói?

— Eu...

— E que bela notícia para sua mãe, se ela souber que o outro filho agora foi promovido! E que estará em segurança! Além deste cheque que estou lhe dando, você receberá outras gratificações graças ao novo cargo que, imagino eu, como bom filho, você dividirá com seus pais.

— Meu pai já faleceu.

— Então é aí que você se faz mais importante! Da forma como vejo, se você aceitar esse cargo, sua mãe nunca mais terá qualquer preocupação na vida! E tudo terá ocorrido por algum motivo. Nada terá sido em vão. A vida de seu irmão não terá sido em vão.

— ...

— Seu irmão morreu por uma causa em que acreditava, uma bela causa! E você será promovido, e ficará em segurança! Sua mãe ficará feliz. E você também, porque se você aceitar a minha visão da realidade, perceberá que ela faz tanto sentido quanto a sua. Por que não acreditar? Ela ameniza a dor de sua perda, abre espaço para seu crescimento pessoal e profissional... E, se você acreditar, estará tudo certo! Porque, mesmo que estejamos errados ao final... Bem, teremos errado tentando acertar.

Eu noto como o rapaz baixa o rosto, pensativo. Está feito. Muito mais fácil do que pensei.

— Eu não vou pressioná-lo. Veja como sou. Quero o melhor para todos. Vá pensar. Descanse. Leve o cheque. Ligue para sua mãe; ela precisa receber a notícia. É uma má notícia, mas depende de você fazê-la pior... ou transformá-la em algo positivo. Tudo depende de você. Agora vá. – a última frase é dita em tom mais autoritário. Eu já estava cansado.

O rapaz não responde. Resignado, ele toma o cheque em suas mãos. A passos lentos e incertos, ele vai deixando o salão. Observo, com um sorriso nos lábios. Eu tinha vencido, eu sabia.

Pensei que seria mais difícil. Não sei se sou eu que estou cada vez mais convincente, ou se são eles que estão se deixando convencer fácil demais.

Está até mesmo perdendo a graça. Não há mais desafio. As conquistas me são tão certas quanto enfadonhas.

A quantia desembolsada por mim nesse jogo foi pequena. Eu sei o que está por vir. Ele vai aceitar minha palavra. Ele vai acabar por se vender, todos se vendem. Todos têm seu preço. Toda consciência pode ser calada, toda consciência tem um valor estipulado a ser pago.

Resolvo me retirar, já estava tarde. Eu precisava ir dormir.

Esse é o pior momento do dia. Evito-o ao máximo.

Todos veem a escuridão quando dormem. Todos são envolvidos por trevas.

Só não sei se as trevas são iguais para todos.

Todavia, não importa. Elas não duram mais que uma noite. O dia seguinte logo vem, é a minha salvação.

Enquanto houver, para mim, o dia seguinte... Estarei salvo.

Mas eu não queria ter de dormir. Não queria fechar os olhos.

Porém... Não posso evitar. E lá estão, novamente.

Escuridão. Frio.

Trevas.

******

War Pigs (Black Sabbath)

Generals gathered in their masses
just like witches at black masses
evil minds that plot destruction
sorcerers of death's construction
in the fields the bodies burning
as the war machine keeps turning
death and hatred to mankind
poisoning their brainwashed minds
Oh, Lord yeah!

Politicians hide themselves away
they only started the war
Why should they go out to fight?
They leave that role to the poor, yeah!

Time will tell on their power minds
Making war just for fun
Treating people just like pawns in chess
Wait 'till their judgement day comes, yeah!

Now in darkness, world stops turning
ashes where their bodies burning
No more war pigs of the power
Hand of God has stuck the hour
Day of judgement, God is calling
on their knees, the war pigs crawling
Begging mercy for their sins
Satan, laughing, spreads his wings
Oh, Lord yeah!

[TRADUÇÃO]:

Porcos de Guerra

Generais reunidos em suas massas

Como bruxas numa missa negra

Mentes diabólicas que tramam destruição

Feiticeiros da criação da morte

Nos campos os corpos queimando

Enquanto a máquina de guerra continua agindo

Morte e ódio à humanidade

Envenenando suas mentes com lavagem cerebral

Oh, Senhor yeah!

Políticos se escondem

Eles apenas iniciaram a guerra

Por que eles deveriam sair para lutar?

Este papel eles deixam para os pobres, yeah!

O tempo vai mostrar a força nas suas mentes

Fazendo guerra só por diversão

Tratando as pessoas como peões de xadrez

Espere até que dia do julgamento deles chegue, yeah!

Agora na escuridão, o mundo para de girar

Cinzas onde os corpos deles queimavam

Sem mais porcos de guerra no poder

A mão de Deus marcou a hora

Dia do Julgamento, Deus está chamando

Ajoelhados, os porcos de guerra estão rastejando

Implorando perdão por seus pecados

Satã, gargalhando, abre suas asas

Oh, Senhor yeah!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!