Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
9 9 - Participo de uma partida de luta-livre
Eu entrei no prédio vazio, que parecia há muito abandonado. Subi as escadas mais uma vez, não me cansando nem um pouco. No apartamento, meu tio estava sentado em sua poltrona, voltado para a janela. Quando ouviu eu fechar a porta, ergueu sua cabeça para me ver.
– Franklyn... – Falou, erguendo-se da poltrona de couro marrom. – Como foi lá?
– Partiremos amanhã às 13:30. – Murmurei, aproximando-me dele. – Vim me despedir, caso não tenha uma viagem de volta.
– Terá uma viagem de volta. – Falou, segurando em meus ombros. – Franklyn, me prometa uma coisa.
– O quê? – Eu o olhava atentamente.
– Se tiver que matar, mate. Mas não se esqueça do seu “eu” verdadeiro. Não deixe sua outra personalidade te corromper.
– Como você...?
– Sua mãe me contou sobre isso três anos antes da Guerra Mutante começar. – Ele me largou, voltando à poltrona. Ele pegou uma garrafa de vinho já aberta e tomou um gole. Só agora havia percebido seu bafo. Mas ele não parecia bêbado. – Isso não é uma maldição, Franklyn, mas também não é uma benção. Isso é uma outra parte sua tentando sair de dentro de você. E quanto mais espaço der à ela, mais ela irá tomar conta de seu corpo, até seu verdadeiro “eu” sumir.
– Obrigado por falar isso na véspera de minha primeira missão. – Murmurei, sentando-me no sofá. Ele tomou outro gole de vinho.
– Desculpe-me, Franklyn. Mas você precisa saber disso. Use sua outra parte somente quando necessário. Mas você já é forte por si só.
– Mais cedo você havia dito que eu...
– Era fraco? Sim, você é fraco. Mas, para um garoto de nível 1, você é muito forte. Você sabe usar seus poderes. Eu segui você mais cedo, e vi o que fez com Kennedy. Você quase o matou, mas não o fez. Isso prova que ainda tem bom coração.
– Eu não quero matar mais ninguém, tio. – Falei, olhando para o chão. – Eu já fiz isso uma vez, e às vezes tenho pesadelo com aquilo. O rosto dele completamente amassado... E aquilo foi causado por mim.
– Ei, ei... – Ele tocou em meu ombro, tentando em ajudar. – Isso é uma guerra, Franklyn. Você sabe que pessoas morrerão. Algumas devem morrer para outras viverem. Infelizmente, é o ciclo da vida, e temos que conviver com isso.
Eu fiquei quieto, pensando naquilo tudo. Mas então me deparei com uma coisa. Em meu sonho, Torrance Upton havia aparecido, e ele sorria para mim. Uma coisa que eu não tinha percebido antes era que ele estava com uma das mãos sem luva, e um de seus dedos brilhava.
E eu olhei para meu bracelete, que se transformava em uma manopla.
– Tio, por acaso a Espada Dourada tem a habilidade de se transformar em um anel? – Perguntei, e ele olhou para mim atento.
– Sim, Franklyn, por que?
– Acho que sei quem a roubou, então.
– Sério? – Ele se levantou, olhando para mim com atenção. – Quem?
– O assassino de Willian e meu pai. – Falei, com um frio na barriga. – Torrance Upton.
– Tem certeza disso, Franklyn? – Falou, com certo receio, e eu assenti.
– Ele podia emanar chamas e lançá-las. Deve ter sido com isso que causou aquela explosão. Sem falar que ele era muito veloz e podia voar. Talvez tivesse escapado por alguma janela e voado para fora do Abrigo pelos buracos na parede. Quem sabe ele entrou por aqui através de lá.
– Você pode estar certo. – Falou meu tio, abrindo os olhos, como se tivesse despertado de um transe. – Sim, é claro! Pode ter sido mesmo Torrance! Ele tem mais motivos do que qualquer outro Mutante para querer um Item como a Espada Dourada.
– Tem?
– Mas é claro! A Espada Dourada é um dos Itens Mágicos mais antigos, e um dos mais adaptáveis. A cada época ela se tornava em uma arma branca que coincidia com o tempo em que estava. Durante a época da Grécia e Roma, era uma lança dourada. Durante as Cruzadas, tornou-se uma espada. Quando foi para o Egito, tornou-se uma cimitarra. Na época do Japão Feudal, era uma katana. Quando alcançou a mão dos piratas, virou um sabre. Durante a Revolução dos Estados Unidos, uma espada de capitão. Durante a Terceira Guerra Mundial, uma faca de exército. E agora voltou a ser uma Espada, por algum motivo.
– E o que isso tem a ver com os motivos de Torrance a querer?
– Torrance e os motoqueiros de sua gangue sempre foram gananciosos. Tinham muito, mas queriam mais. Estavam sempre à procura de riquezas e poder. Quando Willian destruiu a base deles, acabou com tudo o que eles tinham. Torrance talvez pegou a Espada Dourada para recuperar tudo novamente e tornar-se o Mutante mais forte do mundo.
– O mais forte do mundo? O quê? A Espada fará isso?
– A espada foi forjada por um dos Mutantes mais fortes que já existiu. Ela é praticamente divina, Franklyn. E, agora que está em mãos erradas, pode trazer a verdadeira destruição do mundo.
Lembrei-me da selva reduzida às cinzas em meu sonho. Eu tinha certeza que havia sido mesmo Torrance que a roubou. E eu tinha que recuperá-la. E eu iria me vingar pelo que ele fez com meu pai e Willian.
– Ei, tio, como sabemos que Torrance não está mais aqui no Abrigo? – Perguntei, depois de um tempo.
– Se ele estivesse, mais pessoas teriam entrado em coma devido o poder da Espada. Mas, como não aconteceu, ele já foi embora.
– E quantas pessoas há no Abrigo?
– Três mil Mutantes e mil humanos.
– Sério? Então duas mil pessoas estão em coma?
Ele assentiu com a cabeça. Em somente alguns minutos aquele Item havia causado aquilo. Talvez ele fosse mesmo muito poderoso, e Torrance devia saber o que estava fazendo.
– Tio, irei preparar minhas coisas e voltar para a base, preciso avisar os outros sobre isso. – Falei, por fim. Levantei-me, e ele fez o mesmo.
– Não precisa. – Ele se estendeu para atrás do sofá, e puxou minha mochila. Ele a entregou para mim. – Está tudo aí, eu acho. Dê uma conferida. – Eu abri todos os bolsos, e de fato estava tudo lá: Blusas, camisetas, aparelhos e acessórios para escalada, armadilhas e outras coisas. Além de alguns alimentos que meu tio havia colocado.
– Tudo do que eu preciso está aqui. – Eu fechei a mochila e coloquei-a em minhas costas, então abracei meu tio. – Obrigado por tudo que fez por mim.
– Traga todo o grupo de volta, está bem? – Ele falou, e eu senti um breve frio na barriga.
– Eu trarei.
– Eu até te daria um outro Item Mágico, mas você não precisará. Afinal, já é forte por si só. – Ele sorriu para mim, e eu retribuí com outro sorriso. Antes de deixar o apartamento, dei uma última olhada para trás. Meu tio estava sentado no sofá. Ele murmurava algo para si mesmo, chorando. Ele repentinamente parou de murmurar e me chamou. – Franklyn.
– Sim? – Falei, virando-me para olhá-lo.
– Sabe por que colocamos o nome do abrigo de Hope?
– Não...
– Hope significa esperança. – Ele enxugou suas lágrimas, sorrindo para mim. – Naquela época, tínhamos esperança de que a Guerra terminaria em breve. Poucos dos fundadores continuam com essa idéia, e eu sou um deles. E sabe no quê eu tenho esperança?
– Em quê, tio?
– Tenho esperança que será você aquele que parará essa guerra. – Ele sorriu para mim, e eu deixei uma lágrima escapar. Virei-me para sair.
– Tio. – Eu senti ele olhando para mim. – Cuide de todos daqui, está bem?
– Eu farei isso. – Eu sorri e saí do apartamento.
Lá fora, eu percebi o quanto de fome que eu estava. Comi uma maçã que havia dentro de minha mochila enquanto caminhava até a base dos Anjos e Demônios. Não demorei muito para chegar lá, agora que sabia o caminho. Eu entrei, e James me cumprimentou na entrada. Ele afiava seu machado de duas lâminas.
– Já se despediu? – Perguntei, observando seu machado. Ele era bonito. A lâmina era prateada, com algumas partes azuladas. Diamante, pensei.
– Não tem ninguém para eu me despedir. – Falou, e eu me senti um pouco triste. Mas ele disse aquilo como se não tivesse muita importância.
– Ah, me desculpe. – Falei, desviando meu olhar para o corredor.
– Não tem problemas. Se quer saber onde é seu quarto, suba no andar de cima e vá ao último quarto próximo à escada.
– Ah, valeu. – Eu dei um tapa leve em seu ombro, e subi as escadas.
Fui até o quarto que ela havia falado para eu ir, e abri a porta. Estava tocando um rock alternativo lá. Havia um guarda roupa enorme na parede da direita. Uma mesa de computador se encontrava na parede da esquerda, e ao lado dela tinha uma beliche. Ao fundo havia uma janela aberta, e uma pessoa estava olhando a paisagem debruçada nela.
– Demetria? – Falei, fechando a porta, e com o barulho ela se assustou e virou-se para mim.
– Franklyn? – Exclamou, ofegante. Ela me olhava com medo. – Meu Deus, nem ouvi você entrar. O que está fazendo aqui?
– James falou que esse é meu novo quarto. – Murmurei. – Mas, se estou te incomodando, posso dormir no sofá. Vou dormir aqui só hoje, pelo jeito.
– Ah, não, não tem problema! – Gaguejou, ajeitando seu cabelo. Ela correu até o beliche, ficando nas pontas dos pés para pegar seu celular e desligar a música. – A minha cama é a de cima, aliás.
– Tudo bem... – Murmurei. Fui até o beliche e coloquei minha mochila na cama de baixo. Demetria me observava.
– Então... – Ela falou, voltando à janela. – Como é que você veio parar no grupo? Digo, como você o conheceu?
– Thomas me falou sobre ele. Então, depois do incidente da Espada Dourada, meu tio Joseph falou que eu podia tentar recuperá-la, mas se eu fosse com um grupo. Foi quando eu me lembrei que aqui tava com uma vaga, e eu tentei entrar. E consegui, por sorte. E acabou resultando nessa confusão de missão repentina. Mas e você?
– O que tem eu?
– Como entrou no grupo?
– Ah. Bom, não aconteceu nada de interessante, para ser franca. Uma semana depois de eu vir para cá, fiquei sabendo sobre essa coisa dos grupos, em que os Mutantes saiam em missão e tudo mais. Foi então que conheci Royal, que me falou que tinha um grupo, e eu resolvi entrar.
– Então está aqui faz pouco tempo, não faz?
– Duas semanas. – Ela falou, abrindo um sorriso pequeno.
– Duas? Então até esse tempo Klaus ainda estava no grupo?
– É, ele estava. Como conhece Klaus?
– Uma história confusa. Você sabe por que ele saiu?
– Na verdade, foi Royal que o expulsou. Klaus estava ficando louco, falando sobre idéias de dominação de mentes, fugas de orfanatos e coisas do tipo. E sempre ria de uma forma assustadora, não importa o assunto. Royal pensou que fosse a Guerra que tivesse feito aquilo com ele, mas ele estava errado. Klaus tem Dupla Personalidade, e quando descobrimos aquilo já era tarde demais, e Klaus resolveu não voltar.
Eu me senti desconfortável. Klaus havia sido expulso por causa de coisas que não era ele que dizia. Talvez a Dupla Personalidade fosse uma maldição, diferente do que meu tio achava.
– Entendo... – Falei, e ela continuava a me olhar. Quando a encarei, ela desviou o olhar para a porta fechada. – Eu tenho outra pergunta a te fazer. Qual foi o motivo daquela pergunta que você fez mais cedo?
– Ah, bem... – Ela estava desconfortável. Colocou o peso do seu corpo em um de seus pés. – Eu estou com muito medo de ir.
– Sério? – Falei, e ela assentiu.
– Tenho medo de não voltar mais. De não poder ver como será o mundo quando essa Guerra terminar. Uma hora ou outra, ela terá que terminar, não é mesmo?
Eu fiquei quieto por um tempo, olhando para ela. Há muito eu percebi o quanto a Guerra estava afetando as pessoas. Havia encontrado com algumas que, mesmo parecendo mais fortes do que eu, sentiam medo de morrer. Outras que eram muito fracas, mas lutavam para proteger aquilo que amavam. E também haviam aqueles que mudavam por completo: ou enlouquecia, ou tornavam-se rígidos demais ou piedosos demais. Eu voltei a encará-la, e por fim falei.
– Sim, você tem razão. Ela terá que terminar. E eu mesmo a farei. – Ela olhou para mim, e sua desconfiança sumiu. Eu me levantei, sorrindo, e coloquei a mão sobre meu peito, próxima ao coração. – Eu darei um basta nessa maldita dor. Trarei a paz de volta para o mundo, e o primeiro passo para isso é recuperando a Espada Dourada. E para isso, precisarei de sua ajuda. – Eu estendi minha mão para ela. – Aceita me ajudar?
Ela olhou para mim, hesitante. E então agarrou minha mão.
– Eu, Demetria Salvatori, ajudarei você a se tornar um salvador. – Ela sorriu, e largou minha mão o mais rápido que pôde. – Ah, me desculpe. Não gosto muito de contatos físicos.
Um vento forte e repentino invadiu o quarto, balançando sua blusa de moletom preta, que alcançava suas coxas. Em seu pescoço, pude ver uma marca que parecia ser uma tatuagem. Aquilo me intrigou.
– O que é isso? – Falei, apontando para a tatuagem. Ela rapidamente fechou a janela e cobriu o desenho em sua pele puxando a gola de sua blusa preta.
– Ah, é algo que eu ganhei durante essa Guerra. – Falou, indo em direção da porta do quarto. Eu sabia que ela estava mentindo. – Nada demais. Preciso ir à cozinha falar com a Mally.
– Tudo bem, eu ficarei aqui... – Murmurei, e quando ela saiu, eu fui até a janela e observei a cidade. Estava quase na hora do jantar, eu acho. Eu não havia almoçado ainda, e nem queria. Fiquei no quarto, deitado em minha cama, pensando no dia seguinte.
Demetria foi ao quarto na hora do jantar para me chamar. Eu olhava para o meu colar mágico, lendo as letras que eu não sabia de qual língua eram. Talvez eu devesse tentar falar com Chloe, já que ela possuía Linguística como subpoder. Demetria e eu descemos a escada juntos, mas não trocamos palavras. Quando chegamos ao térreo, ela virou para trás, seguindo o corredor que levava ao cômodo em que a mesa de jantar estava. Todos estavam sentados lá, até mesmo Jake, embora ele não conversava com ninguém. Yordle de vez enquanto tentava fazê-lo se juntar às conversas, mas era tudo em vão.
Quando sentei-me, Royal acenou com a cabeça.
– Gostou de seu quarto, Franklyn? – Falou, em meio às várias conversas incessantes.
– A cama é confortável, eu acho. – Falei, sentando-me em uma cadeira desocupada. Demetria sentou ao meu lado. Mally e Trissy entraram na cozinha trazendo panelas com a comida. Era espaguete, e o cheiro lembrou-me do dia em que a Guerra começou.
Senti-me tonto, e quase caí da cadeira, mas Dave me ajudou.
– Cara, tudo bem? – Murmurou. Eu assenti. Tinha que me esquecer daquilo. Era passado. Mas, por mais que eu tentasse me esquecer, mais eu me lembrava. Principalmente da forma que eu havia conhecido Klaus. Aquilo me perturbava desde então.
Foi que, por fim, Mally serviu os pratos e sentou-se ao lado de Trissy. Eu encarei a comida, meu estômago revirava. Eu não serei derrotado por uma comida, pensava. Ah, mas eu não serei mesmo!
E, finalmente, eu havia terminado de comê-lo. Estava ótimo. Nas últimas garfadas, já havia me esquecido de todos os meus problemas. Estávamos todos rindo, Esmond contava piadas e sempre fazia com que Hector engasgasse com o refrigerante, o que resultava em mais risadas. Eu sentia-me em uma nova família. Jake foi o primeiro a terminar, e logo que terminou foi ao quarto dele.
– Por que ele sempre age assim? – Perguntei a Yordle, quando a mesa se acalmou. – Me refiro ao Jake.
– Ah, ele não é muito social. – Respondeu, com um pouco de desapontamento na voz. – É uma antiga maldição da nossa família. Sempre quando nascem irmãos com alguns minutos de diferença em nossa família, eles são opostos.
– Na forma de agir?
– Em tudo. Desde a forma de agir e pensar até os genes. Que é aí que vem o pior. Quando um irmão tem poder de fogo, o outro tem poder de água. Quando um tem poder de gelo, o outro tem poder de fogo. Quando um tem o poder de se mimetizar em anjo, o outro tem poder de se mimetizar em demônio. E, no nosso caso, eu tenho o poder de usar a luz ao meu favor.
– E ele tem o poder de usar a sombra... – Murmurei. – Mas por quê isso?
– Há 57 gerações atrás, foi um homem da nossa família rival quem criou isso. Ele amaldiçoou nossa família para que sempre que houvesse irmãos, isso acontecesse. Não importa se fosse um casal ou de sexos iguais, era sempre a mesma maldição.
– Que coisa triste...
– É, é triste. Mas eu não me importo. Isso não afeta minha maneira de viver. Jake escolheu ser excluído por que quis seguir esse destino.
– Bom, vamos parar com essa conversa, sim? – Falou Anne, por fim. Ela se levantou. – Irei tomar banho e dormir, estou cansada e preciso me preparar para amanhã.
– Ela tem razão. – Falou Royal. – Acho que todos devíamos ir descansar agora. Amanhã acordaremos cedo para realizarmos os preparativos finais para a nossa partida. – Ele se levantou e subiu para ir em direção do quarto dele. Nós fizemos os mesmos.
Quando cheguei no quarto, Demetria veio logo atrás de mim e virou à direita. Reparei que havia uma porta ali que dava a um banheiro. Como não havia visto-a antes?
– Eu irei primeiro, tudo bem? – Falou, e eu concordei. Tentei permanecer acordado enquanto ouvia o som da água caindo no banheiro, mas eu logo fui dominado pelo sono. Dei uma última olhada na cidade lá fora, iluminada pelas luzes dos prédios, e fechei meus olhos.
Sonhei com o mesmo sonho de antes. As cenas eram as mesmas. Nada havia mudado: o anel nos destroço da construção de mármore, em um lugar extremamente escuro que eu havia descoberto que era o museu. A selva queimando, Torrance sorrindo para mim com o anel brilhando em sua mão, e todo o resto.
No entanto, a frase havia mudado. As vozes agora diziam outra coisa.
– “A morte é iminente, em chamas tudo acabará. E com um sorriso impotente, o ódio se erguerá” – Falei para Demetria, logo depois de nós acordarmos. – O que isso quer dizer?
– Eu não sei, Franklyn. – Ela falou, descendo de sua cama vestindo seu pijama. Ela abriu o guarda-roupa e retirou sua mochila de lá de dentro. Antes de fechá-lo, deu uma última olhada em uma porta presa à porta. Era ela com uma mulher. Talvez fosse a mãe dela. – Eu irei me trocar. E depois você pode ir, tá? Tente falar sobre o sonho para Royal.
– Certo... – Murmurei, esfregando meus olhos. Bocejei, erguendo-me da cama. Eu bati a cabeça na madeira da cama e eu a xinguei em um sussurro. Puxei a minha mochila debaixo da cama e a coloquei sobre o colchão, abrindo-a e separando minhas roupas. Estava fazendo muito frio agora. Talvez eu devesse colocar meu casaco.
Quando Demetria saiu, eu entrei para me banhar. Ao terminar, troquei-me com as minhas roupas mais quentes, colocando minhas amadas luvas de meio-dedo. Demetria não estava no quarto, e a porta estava aberta. Ela havia arrumado tudo, até mesmo minha cama. Minha mochila estava em cima da cadeira do computador. Eu a deixei ali, e quando saí do quarto eu fechei a porta calma e silenciosamente.
Eu desci as escadas, e vi que todos já estavam se preparando para partir. Olhei em um relógio de parede antigo, que marcavam 9:30, e ainda faltava muito tempo para de fato partirmos. Talvez todos estivessem ansiosos demais, assim como eu estava.
– Royal. – Falei, quando o vi. Ele estava sentado no sofá da sala. – Irei sair para ver minha mãe. Quero verificar como ela está.
– Está bem, Franklyn. – Falou, checando sua mochila. – Não demore muito e nem se meta em encrencas. Esteja aqui antes do meio-dia, aliás.
– Okay, já volto. – Murmurei, saindo do cômodo. Ele parecia uma mãe falando aquilo. Eu ri baixo quando saí da base, e andei pela rua inclinada.
No caminho fui perguntando onde era o hospital em que as pessoas em coma estavam, e em poucos minutos já havia chegado. Era enorme, o hospital. Eram cerca de 20 andares, e dentro dele era tudo muito limpo. Os corredores estavam com pouquíssimas pessoas, quase todos eram médicos, e uma pequena parte eram visitantes ou pacientes feridos.
Fui até a secretaria, onde havia uma mulher de cabelo curto, que lia um gibi estranho, em que as letras pareciam ser gregas.
– Sssim? – Falou, puxando o “s” como uma cobra.
– Vim ver minha mãe, Helen Rockne Thompson. – Falei, nervoso. – Ela está em COMA, da mesma forma que grande parte das pessoas do Abrigo.
– Helen Rockne Thompsssson... – Falou, procurando em um computador o nome dela. – Ah, sssim. Ela essstá no quarto quatrocentosss e doisss, décimo sssétimo andar.
– Obrigado. – Falei, acenando com a cabeça para ela. Em vez de pegar a escada, eu resolvi pegar o elevador. Eu estava com muita pressa. Quando apertei o botão, ele se abriu. Eu entrei e escolhi o décimo sétimo andar. Ele se fechou e subiu.
Ao abrir as portas de ferro, dei de cara com um garoto que eu conhecia.
– Ora, ora, ora. – Falou Kennedy, abrindo um largo sorriso. O braço que eu havia feito o corte estava enfaixado na região do golpe. – Se não é o garoto Thompson?
– Kennedy, o que voc... – Ele me agarrou pela minha blusa e me lançou para fora do elevador com extrema facilidade, fazendo-me deslizar pelo corredor. Tentei me levantar, mas ele pisou em meu peito. Eu senti falta de ar. Ele era muito forte. Ele tinha super força, com certeza. Ou só era forte o bastante, mesmo. Mas ele não fazia nenhum esforço sobre mim, nem pressionava a perna.
– Acho que eu vou me vingar de você pelo que me fez, Thompson. – Falou, cerrando os dentes. Ele ia se preparava para me pisotear, quando uma voz o chamou.
– Eu não faria isso aqui, Kennedy. – Falou um outro garoto. Ele tinha longos cabelos loiros, e seus olhos eram brancos. Ele parecia ser cego, mas só parecia. Aproximou-se de Kennedy, que estava irritado, e murmurou. – Deixe para acabar com ele na saída. Aqui há muitas testemunhas.
– Mas foi ele quem...
– Te humilhou na frente de todos? – Completou o garoto. Ele me olhou com desprezo. – Hora de você humilhá-lo. E por quê não fazer isso na frente dos nossos? – Os dois sorriram, e Kennedy saiu de cima de mim.
– Você tem sorte, Thompson. – Falou Kennedy, apontando o dedo indicador enorme para mim. – Por agora. Atreva-se a tentar sair por outro lugar a não ser pela frente, e eu não te espancarei, eu te matarei.
Ele e o outro garoto saíram, então, pulando por uma janela aberta. Pude ouvir o impacto de eles caindo e pessoas gritando, e me levantei e corri até a janela para ver o que havia acontecido. Os dois atravessaram a rua, e o garoto loiro deixou Kennedy, que me olhou e fez um sinal de corte na garganta com o polegar. Engoli em seco, e voltei para o corredor.
Não demorei muito para encontrar o quarto em que minha mãe estava. Só segui reto pelo corredor vazio, que de vez em quando era preenchido pela presença rápida de médicos, focados em tentar salvar a vida das pessoas em coma. Eu entrei no quarto, e deparei-me com duas camas de hospitais, e só uma delas estava com a presença de uma pessoa. Chorei ao ver minha mãe.
Fui até ela, agarrando em sua mão fria. Ela estava tomando um soro na veia, mas eu podia sentir Energia emanando dele. Estavam tentando prolongar o tempo de vida dela, provavelmente. Talvez de todos os pacientes. Um aparelho apitava os batimentos cardíacos de minha mãe, que eu não me recordava o nome. Fiquei encarando-a durante uns dois minutos, quando resolvi conversar com ela, sabendo que não haveria resposta. Mas quem sabe ela pudesse me ouvir.
– Estou indo recuperar a Espada Dourada, mãe. – Falei, tentando parar de chorar. – Descobri que pode ter sido Torrance quem a roubou. Eu irei me vingar do que ele fez a nós, do que ele fez ao pai e ao Willian. E irei salvar você, mãe. Salvarei você e salvarei a todos os que foram afetados pelo poder desta maldita relíquia. Depois disso, eu juro que tentarei destruí-la, para não ter mais nenhum problema. Não sei se voltarei, mãe, mas se eu voltar, nunca mais te deixarei. Eu prometo.
Ela respirava profundamente. Sua mão apertou a minha por alguns momentos, e pensei que ela iria acordar, mas nada aconteceu além disso. Uma última lágrima desceu de meus olhos, e lembrei-me que teria um problema quando saísse do hospital. Eu podia fugir, mas Kennedy poderia me encontrar. Eu tinha receio daquilo acontecer.
– Agora, eu tenho que resolver um problema pessoal meu. – Falei, por fim, largando a mão de minha mãe. Eu acariciei seu cabelo durante alguns segundos. – E talvez eu leve a pior.
Quando sai do hospital, dois garotos me agarraram e me levaram até um beco, onde Kennedy me esperava. Eu não reagi, não queria parecer fraco diante deles. Embora eu soubesse que se eu tentasse reagir, pioraria minha situação. Kennedy abriu uma porta ao lado de um prédio, que dava para uma escada mal iluminada que descia. Eles me levaram até lá embaixo, enquanto Kennedy certificava-se de trancar a porta. Podia ouvir gritos de pessoas gritando, pés batendo e grades balançando. Eu estava em um tipo de quarto de madeira que mais parecia uma sauna devido o calor que fazia lá dentro. Até eu, que me adaptava a qualquer temperatura, estava suando agora.
Haviam outras pessoas esperando ali. Haviam garotos da minha idade, outros eram mais velhos, e haviam pessoas muito mais velhas, com uns 30 anos. Eles também suavam bastante, e estavam com alguns machucados que haviam sido feitos recentes.
– Não esperaremos. – Falou Kennedy a um homem que guardava a porta. Ele era enorme, e estava usando um terno que não o fazia suar nem um pouco. – Após essa rodada, irei entrar junto com esse daí. – Ele falou, apontando para mim. O homem, que parecia ser algum tipo de segurança, compreendeu e concordou.
Os dois garotos ainda me seguravam, e não falavam nada. As outras pessoas me olhavam com raiva, como se quisessem me matar ali mesmo.
Foi quando a porta de ferro se abriu, e uma luz cegou meus olhos. Senti os garotos me arrastarem e me lançarem em um chão de pedra. Quando meus olhos se adaptaram à luminosidade, eu me levantei e vi que estava em um tipo de arena redonda, que tinha o tamanho da metade de um campo de futebol. Haviam grades de proteção, e várias pessoas gritavam xingamentos e incentivos. Kennedy havia entrado também. Ele me olhava com um sorriso confiante, enquanto a platéia gritava seu nome com animação.
– Este é Franklyn Thompson, sobrinho de Joseph Thompson! – Gritou Kennedy, e a platéia me vaiou. – E ele fez isto em mim! – Ele ergueu o braço enfaixado, e todos me vaiaram ainda mais. Senti meus pelos do corpo arrepiarem. – E irá pagar por isso, não irá?!
Todos concordaram com gritos. Eles pulavam, e a arena tremia toda hora. Aquilo era uma maldita arena de luta livre? E criada logo abaixo da cidade, para piorar? Como eu não podia ouvir aqueles gritos? Talvez o lugar fosse feito para não emitir sons dali para o andar de cima ou o de baixo, pensei. Afinal de contas, os Mutantes podiam fazer muitas coisas, segundo meu tio.
– Então, Thompson, irá aceitar meu desafio? – Gritou Kennedy, rindo. Seus braços suavam. Sua careca reluzia com os holofotes que brilhavam fortemente. – Eu contra você, sem poderes! Uma verdadeira luta!
Eu pensei naquela proposta. Sem poderes? Talvez eu conseguisse vencer Kennedy. Ele era mais musculoso que mim, mas não parecia ser tão veloz quanto eu.
– Uma luta sem poderes! – Gritei de volta, e ele sorriu maldosamente. – E eu irei te vencer aqui, na frente de todos!
A platéia riu, mas Kennedy fez sinal para pararem.
– Vai sonhando. – Murmurou, e correu contra mim. Eu rolei para o lado quando ele tentou me atingir um soco. De fato, ele era um tanto quanto lento. Percebi que havia marcas de sangue por todo o canto, e alguns pingos recentes.
Ele viu que eu havia me esquivado e tentou me acertar uma cotovelada, mas eu saltei para trás a tempo. Então, girou e acertou-me um chute na barriga, fazendo-me cuspir saliva e rolar para trás. Segurei-me no chão e me levantei, e quando ele tentou atingir-me outro chute eu me lancei para o lado e acertei um soco em seu tórax, e ele deu três passos para trás. Afastei-me dele. A platéia gritava, agitada pela luta. Kennedy sorriu, e tentou me agarrar, lançando-se contra minha barriga, mas eu saltei e o pulei, segurando-o pela sua regata e puxando-o para trás. Juntei todas as forças que tinha para lançá-lo ao chão, fazendo-o rolar alguns metros. Sangue saía de seu nariz.
– Desgraçado. – Murmurou, e avançou contra mim mais uma vez. Ele sorriu enquanto corria, e eu iria me preparar para esquivar.
Mas sua velocidade aumentou repentinamente, e ele me agarrou pelo pescoço, lançando-me contra a grade de proteção, a 5 metros do chão. Eu bati minhas costas e gemi, sentindo ser pressionado contra vários dedos devido o impacto, e algumas pessoas da platéia também gemeram. Eu caí no chão, exausto.
– Trapaceiro. – Falei, olhando para ele, que cruzou os braços. – Usou seus poderes!
– Isso é luta livre, Thompson! – Ele riu, e a platéia também juntou-se à ele. – Nessa arena, vale tudo!
Eu me levantei, fraco. Senti o gosto de sangue cair em minha boca, vindo de meu nariz. Também cuspi um pouco de sangue no chão. Olhei para ele com raiva. Senti meus pelos do cabelo se arrepiarem, e meus olhos arderam. A platéia se calou, assim como Kennedy. Ele me olhou como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo.
– Concordo. – Falei. E percebi que agora meu outro “eu” estava usando meu corpo. Uma aura negra e forte emanava de meu corpo. Aura do Temor, pensei. Sim, falou a voz de meu outro “eu” dentro de mim. Ela estava afetando a todos, até mesmo a Kennedy. Mas não por completo, pois alguns resistiam, embora tivessem parado de me vaiar. Era difícil mantê-las todas quietas, temendo a mim
– Isso não irá fazê-lo me vencer! – Falou Kennedy, com a voz falhando, referindo-se à Aura. Ele correu em minha direção, hesitante. Ele estava com medo de mim.
– Mas acontece, Kennedy... – Falou meu outro “eu”.
Ele materializou uma shuriken, e lançou-a em direção de Kennedy, que se desviou, mas ela atingiu sua bochecha de raspão, no entanto não fez ele parar de correr. Meu corpo avançou, e senti segurando uma adaga. Agarrei ao Kennedy pelo pescoço com facilidade e o joguei ao chão. Minhas mãos estavam mimetizadas, o que explicou a força. Eu estava usando dois poderes ao mesmo tempo, e aquilo estava me desgastando. Além da Aura do Temor ativada. Mas meu outro “eu” não se importava com minha fraqueza naquele momento. Ele pressionou o pé direito contra o antebraço esquerdo enfaixado de Kennedy, que gemeu, e agarrou o outro braço dele com a mão esquerda, enquanto segurava a adaga, preparando-se para matá-lo. Fios de cabelo branco caiam sobre meus olhos, que não paravam de arder. Não!, gritei em minha mente. E eu senti voltando ao controle de meu corpo. Ele é todo seu, falou meu outro “eu” em minha cabeça. E então eu finquei a adaga no chão ao lado de Kennedy, que fechou os olhos, e acertei um murro em seu rosto, fazendo-o cuspir sangue. Ele me olhou, com medo, e eu me levantei.
– ...Que eu já venci. – Completei a frase que antes minha outra personalidade havia iniciado. Todos da platéia se calaram. Kennedy ergueu a cabeça e abriu a boca para falar algo, mas se calou. Desfiz a adaga, voltei minhas mãos ao normal e fiz a aura em volta de mim sumir. Cambaleei, fraco, mas não caí. Andei lentamente até a saída da arena, enquanto vários murmúrios se seguiam na platéia. Percebi que havia desobedecido Royal. Havia me metido em encrencas.
Cheguei à base eram 11:03. Eu havia ajeitado minhas roupas e limpado o sangue saía de meu nariz e de minha boca. Por sorte, minhas roupas não ficaram manchadas. Eu estava um pouco desgastado, alguns de meus músculos doíam, mas prossegui o caminho com esforço.
Ao chegar, eu fui direto ao meu quarto. Verifiquei minha mochila, vendo se estava tudo lá, e Royal bateu na porta, abrindo-a lentamente.
– Você demorou. – Falou, me observando. – Com quem brigou?
– Como é? – Perguntei. Acho que ele sabia sobre o que havia acontecido.
– Você está esgotado. Dá pra ver em seu rosto. Sem falar de suas roupas suadas e sujas. – Ele havia me pegado. Eu abaixei o olhar, envergonhado.
– Contra Kennedy. – Murmurei.
– Ele te levou à arena, não é mesmo? – Falou, e eu só respondi que sim com a cabeça. – Suspeitava disso. E então? O que aconteceu?
– Eu venci. – Respondi, encarando-o.
– Que surpresa. – Falou Royal, encostando-se na porta. – Kennedy perdendo?
– Acho que, com isso, fiz alguns novos inimigos. – Murmurei, lembrando-me do garoto de cabelos loiros que deu a idéia à Kennedy.
– Alguns? Vários. Quem vence Kennedy arrisca a própria vida, Franklyn. Mas isso não tem importância agora. Iremos almoçar e já estaremos de partida, afinal. Mas mantenha isso em segredo. E vá se limpar, está sangrando pelo nariz.
– Como é...? – Eu me levantei e fui até o banheiro, olhando-me pelo espelho. De fato, eu estava sangrando ainda. – Ah, merda.
encarando meu rosto completamente molhado. Eu estava mesmo esgotado. Não sei se posso agüentar à essa missão, pensei.
Ah, você pode sim, respondeu uma outra voz. Você tem que agüentar. Afinal de contas, se você morrer eu também morro, e isso não é legal.
Eu ignorei aquela voz, e sequei meu rosto. Ao sair do banheiro, peguei minha mochila e fui para o corredor, fechando a porta novamente. Desci as escadas e fiquei no sofá. Ethan e Rick jogavam algum jogo de tiro, e eu ficava observando-os jogar na TV de 60 polegadas. Depois de algum tempo vendo-os trocar tiros e morrer, Mally veio nos chamar para comermos. Fomos todos à cozinha, menos Jake.
– Você não vem? – Perguntei a Jake, que estava sentado no sofá, com os braços cruzados e os olhos fechados.
– Do que te importa? – Respondeu, com ignorância. Resolvi não persistir, e saí da sala. Aquele lá não seria alguém legal para estar junto em um grupo.
Antes de comermos, Royal deu um breve aviso.
– Esse será o nosso último almoço antes de partirmos. – Falou, e nós trocamos olhares entre ele e a comida. – Aproveitem bem. Talvez não comamos mais esse tipo de alimento durante um bom tempo.
Depois de todos nós comermos, nos ajeitamos. Todos pegaram suas mochilas. Jake permaneceu sentado no sofá, na mesma posição que estava antes, e quando Royal chamou o grupo para partirmos ele se levantou, resmungando.
– Estão todos prontos? – Falou Royal. Assentimos, receosos. Havia uma tensão no ar. Parece que todos tinham o mesmo pressentimento de que seria um mês difícil. – Eu também não estou. Vamos lá.
Saímos da base, e durante o caminho éramos alvejados por murmúrios, olhares e incentivos. Por fim, havíamos chegado à saída da base. Meu tio e outros homens nos aguardavam. Deviam ser os outros fundadores. Meu tio abriu um sorriso desconfortável para mim, tentando me deixar seguro.
– Anjos e Demônios. – Falou o homem que se encontrava no meio dos vários outro. Ele usava um terno social preto, e seu cabelo era curto e branco. Uma barba crescia em seu rosto, e suas sobrancelhas eram tão grossas que faziam sombra nos olhos dele. Seu sotaque era russo, pelo que eu pude ouvir. – Vocês estão partindo para uma missão que deveria ser realizada por Mutantes de nível 6. No entanto, não querem voltar atrás. Essa é a última chance de pensarem bem em sua escolha. Querem mesmo prosseguir nessa missão suicida?
Royal olhou para nós, que assentimos.
– Sim, senhor Mikhivisk. – Falou Royal. – Nós queremos isso. Recuperaremos a Espada Dourada, e salvaremos aqueles que sofrem por causa de quem a roubou.
– Então está decidido. – Ele me encarou, com repugnância. – Podem ir. Voltem todos vivos. E Royal, você é o líder deste grupo. Lidere-o bem.
– Sim, senhor. – Royal seguiu em direção do túnel que levaria à escada, e nós os seguimos. Meu tio sibilou um tchau, e eu fiz um mesmo. Na multidão que nos observava, vi Kennedy olhando-me com ódio.
Enfim, estávamos partindo. Thomas aproximou-se de mim sorrateiramente.
– Está nervoso? – Murmurou, enquanto atravessávamos o túnel.
– Todos estamos. – Falei, abrindo um sorriso forçado. – Só espero que dê tudo certo.
– E dará. Você salvará sua mãe, cara. E eu salvarei meus pais.
– Eles foram afetados também? – Falei, e ele não respondeu. Parecia ter ficado triste repentinamente. – Desculpe-me, Thomas.
– Não encana com isso. Iremos salvá-los. E você terá sua vingança.
– Minha... Vingança? – Murmurei. Pensei que ele soubesse sobre o que havia acontecido entre mim e Torrance há dois anos atrás.
– Sim. Ele deixou sua mãe em coma, não é? Irá se vingar por causa disso, não é mesmo?
– Ah, claro. Eu farei isso, sim. – Suspirei. Eu queria manter aquilo em segredo. Não queria que eles descobrissem que eu já havia me encontrado com Torrance antes; e pior: que eu era irmão da pessoa que fez tudo aquilo começar. Mas sabia que uma hora ou outra eu teria que contar a eles.
Subíamos a escada que nos levaria à saída da caverna em murmúrios. Eu infelizmente não tinha visto por completo os outros andares do Abrigo Hope. Eu queria poder ter visto, mas não consegui. E não sabia se iria voltar para poder vê-los.
Finalmente saímos da caverna, e Esmond soltou um grito breve de alegria. Os outros riram, e Royal virou-se para todos nós.
– É aqui que a nova fase dos Anjos e Demônios se inicia! – Exclamou Royal, e todos nós concordamos. – Nós evoluiremos! Deixaremos de ser Anjos e Demônios, e nos tornaremos um só! Nos tornaremos Nephilins, assim como eu! Agora somos todos do mesmo sangue! Somos irmãos, e em breve, quando voltarmos, seremos heróis! Estaremos brandindo a Espada Dourada, e iremos salvar a todos! Então, meus irmãos, vamos à guerra!
– À guerra! – Gritamos de volta, e começamos a caminhar pela floresta em direção sul. Finalmente, eu iria encontrar Torrance. Eu iria ter minha vingança. Eu traria a morte ao assassino de meu pai e meu irmão.
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