Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
17 17 - Dou um nome à um psicopata
Após a repentina mudança de nome do grupo, decidi que seria melhor encontrarmos um lugar para descansarmos mais tarde. Primeiro, iríamos enterrar o corpo de Yordle. Criamos um caixão improvisado usando o poder de alguns, ao menos para não o jogarmos na terra como fizemos com o garoto que foi morto por Torrance.
Logo depois disso, criamos sua cova e lá depositamos com o maior cuidado o caixão em que Yordle estava. Jake tinha os olhos cheios de lágrima, mas recusava-se a chorar. Enquanto tampavam a cova, ele veio falar comigo.
– Franklyn... – Murmurou, olhando para o chão.
– Sim? – Perguntei, falando baixo.
– Eu consegui... Eu mudei. Não sinto mais aquele impulso assassino dentro de mim. É como se...
– Fosse uma maldição libertada pelo Yordle? – Ele confirmou, e eu obriguei-me a sorrir. – Então, isso significa que...
– Serei como era antes. – Ele observou a enorme árvore atrás da cova de Yordle. Era a maior e mais bonita da floresta, com as folhas brilhando por causa da pouca luz do sol, que descia pelo céu até oeste. – Poderei ser feliz novamente. Mas isso só quando vingar-me de Mith. – Então ele me encarou. – E eu te ajudarei a se vingar de Torrance, caso ajude-me a me vingar de Mith.
Eu sorri, pensando o quão diferente ele podia ser agora. E, num flash de luz, eu tampei meus olhos. Quando voltei a abrir, palavras tremiam em cima da cabeça de Jake, que grunhiu.
– O quê é isso? – Exclamou, um pouco surpreso. Todos os outros se aproximaram.
– Seu novo poder e subpoder. – Murmurei, lendo as palavras que pairavam sobre sua cabeça. – Personificação Psíquica e Ofuscação. – Falei, lendo-as.
Quando sumiram, Jake emitiu um sorriso. Todos também sorriram, alguns até riram.
– Quem diria. – Falou James, sorrindo de determinação. – Dois Mutantes extremamente raros em nosso grupo.
O anel de Jake, que anteriormente era de Yordle, começou a brilhar novamente, e uma energia cobriu-lhe o corpo. Não, era uma luz. O poder de Yordle. Uma armadura de luz transformou-se no corpo de Jake, misturada com partes negras que eram as sombras do próprio poder dele. Parecia com uma armadura leve de couro. Uma foice de luz e sombras também se criou em sua mão, brilhando.
– Me sinto mais forte. – Jake brandiu a foice, erguendo-a. Um feixe de luz estendeu-se no ar, atingindo as várias nuvens no céu. – Eu irei me vingar, irmão! Eu irei fazer o quê me pediu! E irei ajudar a Franklyn e a todos! Olhe por mim, irmão, onde quer que esteja!
E após um breve momento, a armadura e a foice sumiram. Ele estava cansado demais. Todos olharam para mim, que por fim disse:
– Vamos encontrar um abrigo para esta noite.
Encontramos uma enorme gruta quando já era muito tarde. Caminhamos durante cerca de meia hora, e já não era possível ver as montanhas ao longe devido a escuridão. Conseguiríamos dormir lá tranqüilamente, e não teríamos risco de sermos descobertos. Já era de noite, e muitos estavam com fome. Vendo isso, resolvi sair para caçar.
Preparei meu arco ao sair da gruta, olhando para todas as direções, reconhecendo o lugar de tal forma que não me perdesse. Caminhei então pela grama molhada da chuva que há algum tempo já havia parado.
Ouvi sons de passos e puxei a corda, virando-me para trás, quase disparando em Demetria, que ergueu os braços em sinal de paz.
– Calma! – Exclamou ela, e instantaneamente baixei o arco. – Não sou um animal.
– Da próxima vez, não chegue tão sorrateiramente perto de mim enquanto caço. – Murmurei, voltando a olhar para a floresta, caminhando novamente. Ela veio ao meu lado. – O que foi?
– Ah... Bom... É que... – Ela gaguejou. Seu rosto corou, e ela tentou não olhar para mim. – Eu queria que me ensinasse a caçar. – Sussurrou.
Eu ri, e suspirei. Depois a olhei, um pouco alegre, e falei:
– Eu te ensinarei o básico. Depois, é por sua conta.
Ela abriu um sorriso, e colocou parte do cabelo que caía sobre seu rosto atrás de sua orelha. A partir dali, ensinei à ela como caçar de forma perfeita: mover-se o mais silenciosamente possível, ficar atento à todos os sons e vibrações possíveis, por menores que sejam, estar sempre preparado para um ataque surpresa e encontrar sempre algum lugar estratégico para abater o alvo sem danificar muito sua carne.
Então, pude ver um coelho ao fundo da floresta. Falei para ela seguir-me. Nos escondemos atrás de um tronco de árvore, e eu saí da proteção, com a corda já puxada. Ela me observava, concentrada para aprender logo.
‘ Calculei a trajetória da flecha, e disparei. Ela passou pelas árvores e atingiu o coração do coelho – eu sabia que havia atingido o coração, com certeza – fazendo-o cair no chão, já morto. Ela emitiu um grito de felicidade.
Emprestei-lhe o arco para ela tentar abater um animal agora. Tinha que acertar exatamente no coração, expliquei-lhe, pois assim teria menos danos. Ela também não podia puxar muito a corda daquele arco, caso contrário a força seria muito e poderia danificar grande parte da carne.
Por fim, ela avistou uma coruja que olhava fixamente para um certo ponto em um galho de uma árvore. Ela puxou a corda até a metade da capacidade e mirou na ave. Quando disparou, a flecha acertou certeiramente no peito do animal, que caiu morto no chão. Nós comemoramos, e fomos até lá pegar a ave.
– Aprendeu bem rápido, Demetria. – Falei, enquanto colocava a ave em uma sacola improvisada.
– Tive um bom professor. – Murmurou, ironicamente. Mostrei-lhe a língua, e nós dois rimos.
Quando voltamos para a gruta, trazíamos alguns coelhos, lebres, corujas e outras aves, além de alguns peixes que eu havia encontrado em um lago enorme e frutas para quem fosse vegetariano ou tivesse vontade de comer.
Todos novamente elogiaram minha comida. Após terminarmos, começamos a conversar sobre tudo, e eu resolvi lhes contar tudo o que havia acontecido desde que nos separamos. A partir do momento que havíamos nos separado na torre de rádio, até quando eu os reencontrei há duas horas. Contei-lhes sobre a forma que Royal se sacrificou, a traição de Phill, as garotas que me salvaram, como adquiri aquele arco, como achei o Snow e como me encontrei com Mith e Snow quase o matou. Contei todos os detalhes da viagem, tudo o que era importante, mas eles ficaram mais chocados ao saber como Royal havia morrido.
Eles não conseguiam acreditar que Royal havia feito aquilo. Não era por menos, nem mesmo eu queria acreditar. Sentia um sentimento de culpa crescer em meu peito cada vez mais. Mas, por minha sorte, resolveram que era melhor pararmos de falar sobre aquilo. O que estava feito não tinha como ser alternado. E agora, tudo o que nos restava era encontrar Torrance. Mas, para aquilo acontecer, era necessário encontrar alguém.
– Amanhã, sairemos à procura de Mith. – Falei, confiante. Todos ficaram confusos. – Mith é o motoqueiro que matou Yordle. Nós iremos obrigá-lo a contar a localização de Torrance, e então nós daremos um jeito nele. – Olhei para Jake, que sorria em meio à luz das chamas. – Por enquanto, vamos descansar. Ficarei de vigia nas três primeiras horas. Depois, será Mike e logo após ele, Chloe, e por fim Izuqui. Partiremos antes das nove horas, e seguiremos em direção sudoeste. Alguma oposição?
Ninguém falou nada. Todos concordaram, e eu fui até a entrada da grupa, onde fiquei sentado. Jake veio ao meu lado e se sentou. Observávamos a floresta iluminada pela lua no céu com poucas nuvens. Atrás de nós, alguns já iam dormir, preparando seus sacos de dormir. Outros ficavam conversando baixo, por meio de murmúrios. Demetria adormeceu rapidamente, Thomas ficou desenhando algo em seu caderno.
Eu transformei meu bracelete em manopla, e tentei ver a hora, mas ele estava com interferência. Não entendi o motivo daquilo.
– Franklyn, obrigado por estar me ajudando. – Falou Jake, um pouco tímido, fazendo-me parar de olhar para minha manopla. Eu a transformei novamente em bracelete. – E desculpe-me por ter sido rude com você até você ter desaparecido.
– Não, não te desculpo. – Falei, e Jake baixou os olhos.
– Entendo. – Ele falou, e no entanto eu continuei.
– Eu não te desculpo, pois você não é mais o mesmo garoto que fez aquilo. – Ele me olhou, e eu sorri. – É diferente agora, Jake. Você amadureceu.
Jake assentiu, e levantou-se. Pedi para ele ir dormir, e pensei que negaria. Mas ele aceitou o pedido, e deitou-se. E, pela primeira vez, pude vê-lo dormir, como se um enorme peso da consciência tivesse sido retirado dele após a morte de seu irmão. Como se agora tudo fosse diferente. Quando vi Yordle morrer, não pensei em nada... Mas agora me lembrava de Willian. Eu e Jake éramos parecidos nisso. Vimos nossos irmãos morrerem, e não pudemos fazer nada para ajudá-los. Por isso, iria ao menos ajudar Jake a se vingar.
Iríamos achar Mith e eu iria obrigá-lo a dizer onde estava Torrance, então Jake poderia matá-lo da forma que bem entendesse.
Após eu terminar minha vigia, acordei Mike, que estava sonolento. Mas logo despertou por completo. Fui até uma das paredes da gruta e deitei-me, mas tive medo de fechar os olhos. Tinha medo de ter mais algum Sonho de Profecia.
No entanto, o sono falou mais alto, e eu já estava sonhando. E, para minha sorte, não era um Sonho de Profecia.
Eu estava caminhando por uma estrada de pedra, cercada por cercas de madeira nos dois lados. Enquanto eu caminhava, o cenário à minha volta ia mudando, mas não a estrada com as cercas. No começo, eu estava em uma floresta em que nevava. Logo depois, estava em uma planície completa de neve, e depois em uma auto-estrada, e depois em uma planície sem neve alguma, e mudou novamente para um túnel escuro, e estava agora em uma base destruída, e logo após novamente em uma floresta, e o cenário à minha volta escureceu, e tudo o que eu podia ver além de mim era a estrada cercada em que eu caminhava.
Aquele sonho mostrou tudo o que eu havia percorrido. Tive um refluxo, pensando nas pessoas que matei, nas pessoas que morreram por mim, nas pessoas que vi morrer. Em um mês, havia transformado-me em um assassino. Quando minha mãe e eu fugimos de Torrance, prometi à mim mesmo que nunca mais mataria.
E eu quebrei minha promessa. Matei tantas pessoas. Naquele mesmo dia, quando reencontrei meu grupo, matei mais de vinte homens em minutos. Uma semana antes, Royal havia explodido uma base e destruído o exército dela. E antes mesmo disso, lembrei-me da minha segunda morte. O motoqueiro do mimetismo aquático. Muitas das pessoas que eu matei estavam tentando só proteger algo: fosse algum motivo pessoal, um objeto ou até mesmo pessoas importantes para eles. No fundo, todos lutavam para proteger algo. Eu fazia o mesmo. Desde que saí do Abrigo, estive pensando somente em vingar-me de Torrance. Mas, agora, pensava em salvar todos. A Guerra Mutante havia me tornado arrogante, mas as pessoas me fizeram voltar a ser o que eu era antes, mesmo que em menor quantidade: um protetor.
A estrada no sonho parecia nunca ter fim. Mas eu sabia que estava terminando. Sentia que em breve eu chegaria ao meu destino. Foi então que uma luz apareceu muito ao fundo. Uma luz que me deu calafrios. Eu comecei a correr até ela por instinto. Sentia que eu deveria ir até ela.
E, então, o brilho sumiu, e uma pessoa apareceu.
– Olá, Franklyn... – Falou meu outro “eu”.
– O que... – Falei, e ele interrompeu-me.
– ...Estou fazendo aqui? – Completou, e eu assenti, lentamente. – Bom, vim conversar com você. Você ta mandando ver, Franklyn! Matando pessoas, abandonando outras, tornando-se um líder, sendo salvo várias vezes...
– Eu não abandonei pessoas. – Falei, cerrando meus punhos.
– Hariel e Emma... – Murmurou, rindo para mim. – Você as largou naquela montanha, sem se despedir devidamente. A garota que se transforma em elfa poderia ter salvado Yordle. E falando em salvar, também teve Royal. Você podia tê-lo salvado, mas não o fez. Deixou ele ali para morrer.
Eu me irritei, e tentei acertar um murro nele, mas minha mão atravessou seu corpo.
– Não faça isso... – Caçoou ele. – Bom, mas não vim aqui para te culpar. Afinal de contas, eu estive te ajudando. Você, Franklyn, de alguma forma está fazendo com que eu me torne um pouco bonzinho. Nas outras gerações eu nunca fui de ajudar pessoas.
– Outras gerações? – Perguntei, um pouco confuso. – Como assim?
Ele suspirou, e uma cadeira apareceu atrás dele. Ele se sentou, e me olhou com cansaço.
– É, você não sabe de nada... – Falou, por fim, bocejando. – Eu te explicarei tudo. Eu não sou uma Personalidade comum, igual às outras. Diferente das demais, que já “nascem” junto com os Mutantes, eu fui adicionado em você pelo seu tio, e você sabe toda aquela história do restaurante e blá, blá, blá...
– O que quer dizer com isso? – Perguntei, estranhando-o.
– Quero dizer que, diferente das outras, eu não sou uma Personalidade qualquer. Sou uma Personalidade única. Fui criada há muitos anos atrás, na época do Japão Feudal. Um Mutante Samurai criou-me para tornar-se completamente imprevisível em batalha, e calmo quando fora dela, como se fosse uma transformação para combate que o deixasse mais forte, mais veloz e mais resistente. Mas eu saí de seu controle logo quando ele acionou-me, e eu acabei criando uma consciência. A partir daquele momento, a personalidade daquele Mutante e a minha começaram a lutar entre si para decidir quem ficaria com o corpo. No entanto, eu perdi, e ele retirou-me do próprio corpo e me selou em um pergaminho. Anos depois, um outro Mutante achou-me e resolveu me selar nele, e eu ressurgi. Tomei sua aparência, e também lutei contra sua personalidade, e perdi. Durante várias gerações, assim prosseguiu, e eu sempre perdia. Nunca consegui tomar posse de um corpo, nunca pude ter um corpo em que fosse meu. Quando seu tio me aprisionou em você, quando ainda era um bebê, pensei que seria fácil, já que você não sabia me nadar. Mas, quando tive a chance, eu hesitei. Senti algo em você, senti que deveria esperar. E minha espera resultou no aprisionamento de minha personalidade dentro de você, e eu adormeci dentro de você. Mas, depois daquele incidente no dia em que a Guerra começou, eu voltei. E, no entanto, não consegui controlá-lo. Algo me impedia. Pena de você, talvez. Ou simplesmente incapacidade de fazer tal coisa. E, desde então, resolvi te ajudar.
– Mas durante algumas vezes você tomou meu corpo. – Falei, tenso. – Controlou-me, me fez atacar sem pensar. Deu-me idéias que eu nunca teria, de simplesmente atacar.
– Mesmo querendo te ajudar, ainda quero ter um corpo, Franklyn. – Falou ele, cruzando os braços. – Não posso viver aprisionado para sempre...
– Sim, pode. – Falei, inseguro. – Um dia eu te libertarei dessa maldição, pode deixar. Mas, agora, eu preciso que me ajude. Não me dê idéias de fazer loucuras, mas ajude-me a me tornar mais forte.
– E o que eu ganho com isso? – Falou, com ódio. – O que eu ganho se eu te ajudar?
– Nada, mas também não ganhará nada se não me ajudar. – Falei, e ele refletiu sobre aquilo. – Por isso, eu te peço, me ajude ao menos até eu recuperar a Espada Dourada. Por favor.
Ele ficou quieto, e o sonho ficou em silêncio. Eu havia esquecido que estava sonhando, pois aquele sonho era tão... Real.
– Você tem um nome? – Perguntei, e ele me olhou com surpresa.
– Não. – Falou, e eu senti dó. – Nunca tive um nome. Fui criado no intuito de ser um auxílio na batalha, não uma pessoa.
– E qual era o nome do seu criador? – Perguntei, e ele me olhou com dúvida.
– Nasura Misurashi, por quê? – Respondeu, e eu sorri.
– Porque agora esse é seu nome. – Falei, ajudando-o a se levantar. – Você não é só um auxílio de batalha. Você é uma parte de mim. É meu outro irmão, que eu consegui manter vivo. É parte de meu corpo, é parte de minha mente. E é injusto você não levar um nome. Por isso, te chamarei de Nasura.
Ele riu, e me tocou no ombro.
– Que seja. – Falou, por fim. – Eu irei te ajudar, Franklyn.
E então tocou em minha testa, e eu senti um frio na barriga no mesmo instante. A ponte atrás de mim começou a fazer barulhos de rochas se movendo, e eu virei-me para ver o que estava acontecendo, e assustei-me quando vi o caminho que eu havia caminhado desabando para a escuridão sem fim. Virei-me para ver Nasura, mas ele havia sumido. Comecei a correr na mesma hora, até que já não havia mais chão abaixo de mim e eu me vi caindo pelo breu total. E então acordei.
Eu estava suando frio. Ofegava, e vi que todos dormiam. Todos, com a exceção de Izuqui, que fazia sua vigia imóvel. Ele não percebeu que eu havia acordado, então permaneci deitado, mas não me atrevi a fechar os olhos novamente e voltar a dormir. Mesmo que não tenha sido um Sonho de Profecia, estava um pouco assustado com aquilo tudo. Snow viu minha preocupação, e lambeu meu rosto, e eu sorri para o lobo, que parecia estar também preocupado.
Sentia Nasura dentro de minha cabeça. Minha outra personalidade viva, que eu havia dado um nome como um animal de estimação. Era estranho tudo aquilo. O dia amanhecia lentamente. O céu estava nublado, e somente garoava. Olhei em meu braço direito, onde estava meu bracelete, e o ativei, transformando-o em minha manopla. Olhei para o painel embutido no aço de meu antebraço. Ainda estava com a interferência do dia anterior, e aquilo me preocupava. Eu bocejei o mais baixo que pude, e ouvi Izuqui movendo-se e me olhando. Eu decidi me levantar, e ele me observava por dentro de sua armadura. O visor avermelhado de seu capacete branco assustava-me. Fui até ele, e Snow seguiu-me. Fiquei ao lado de Izuqui, e Snow deitou-se no chão.
– Bom dia. – Sussurrou, tentando não acordar os demais. – Por que acordou tão cedo?
– Tive pesadelos. – Respondi, ainda sonolento. Ele não disse nada à respeito.
– Bela manopla. – Falou, observando minha proteção em meu braço que eu havia esquecido de transformar novamente em bracelete. Eu fiquei sem-graça. – Joseph parece ter muitas esperanças em você para dar um Item Mágico desses. Controle de eletrocinese, fácil invasão e hackeamento de sistemas, força aprimorada, um gancho de agarre e outras coisas... É um item muito peculiar.
– Você já viu ele? – Murmurei, surpreso.
– Já vi estilos parecidos... – Falou, e tocou em um botão escondido que eu não havia visto antes. A manopla pareceu crescer pelo meu braço, estendendo-se pelo meu corpo, e me vi completamente protegido por uma armadura de capitão, quase idêntica à de Izuqui se não fosse pelas cores iguais à de que eu havia pego na base. – Um truquezinho para você.
Eu fiquei surpreso, observando a armadura que me protegia. Ela era muito mais avançada do que eu havia vestido. Havia propulsores a jato, alguns acessórios em compartimentos, e nem me sentia mais pesado.
– Como você...? – Murmurei, mas observei sua armadura, tão parecida com a minha. – Também tem uma delas?
– Sim. – Ele falou, rindo. – Essa armadura é da minha manopla, na realidade.
– Então seu poder não é Eletrocinese?
– Na verdade, é. Eu uso a armadura simplesmente para aprimorá-lo. Mas isso não vem ao caso. Pretende acordar os outros já?
– Bom, esperarei dar 8 horas, para então partirmos. Isso é, caso essa interferência sumir...
– Ela também está te deixando preocupado?
– Um pouco. Antes de chegar aqui, minha manopla funcionava perfeitamente. Mas deve ser alguma coisa da área. Não sei. Ei, você podia depois me ensinar como usar as habilidades da manopla?
– Sim, quando retornarmos ao Abrigo eu te ensino.
Eu sorri, e imaginei ele ter sorrido também. Fiz a armadura voltar a ser um bracelete, e eu sentei-me na entrada da gruta. Meu sono já havia passado. O dia já estava tornando-se mais claro, e a garoa parecia cessar muito lentamente.
Depois de um tempo observando a floresta ao lado de Izuqui, resolvi por fim voltar a falar algo.
– Você não pretende revelar sua identidade? – Falei, e ele riu baixo.
– Bom, minha identidade não é algo muito relevante... – Falou, e fez uma breve pausa. – Mas se quiser saber como sou...
Ele pressionou um botão no pescoço de sua armadura, e seu capacete retraiu para trás. Assustei-me com sua aparência. Os seus olhos eram azuis em um tom claro, e sua pele era branca. Seu cabelo era marrom e um pouco comprido. Mas o que me assustou foi a quantidade de cicatrizes que ele havia em seu rosto e em seu pescoço. Era como se...
– Eu ganhei elas em um mês tenebroso. – Falou Izuqui, sem expressar emoções. – Fui capturado por soldados, que queria estudar sobre mim. Me torturaram. Me fizeram me tornar uma pessoa sem muitas emoções. Quase me transformaram em um robô deles. Essas cicatrizes foram resultados das várias sessões de torturas. Vi meus companheiros de meu antigo grupo serem massacrados em minha frente, mas não podia expressar emoções. Não podia chorar ou gritar. Queria fugir, mas eu morreria antes mesmo de começar a correr. Mas, quando a base foi atacada por um grupo de Mutantes, consegui escapar por pouco. Nessa situação, peguei essa armadura.
– E você... – Murmurei, mas hesitei em completar a frase. Ignorei aquela hesitação. — ...Não consegue mais ser como era?
Ele me olhou, e parecia que estava triste. Suspirou, e voltou a apertar o botão, fazendo com que o capacete retornasse à sua cabeça.
– Não. – Respondeu. Sua voz soou fraca. – Não sinto mais alegria, amor, felicidade... Estou fazendo essa missão porque é meu dever com o grupo. Ajudo a todos porque é meu dever como membro. E meu dever, acima de tudo, é proteger quem deve ser protegido.
– Entendo... – Falei, e nós não trocamos mais palavras. Sentei-me ao lado de Snow, que estava dormindo. Izuqui, no entanto, permaneceu de pé, imóvel como um robô.
Já eram 8:00h quando acordei os outros. Descobri isso por causa do sol. Tomamos um café da manhã que eu havia feito– novamente animais e frutas – e então partimos. Durante toda a viagem, não houve muitas surpresas. Lembrei-me que Snow havia mordido Mith, e portanto sabia o seu cheiro, e ordenei-o que mostrasse o caminho, e ele foi na frente, com nós o seguindo. Ele farejava o ar, atento. Quando fizemos uma parada, entreguei-lhe um coelho para que se alimentasse.
Durante o dia inteiro, não houve imprevistos. O mundo estava muito deserto. Em um momento que andávamos por uma estrada, podemos ver uma cidade muito pequena completamente destruída – por um bombardeio, talvez –. Imaginei o quanto de vidas podiam ter sido tiradas ali por causa da estupidez do presidente.
E lembrei-me do presidente, da vaga imagem que eu tinha dele no dia de seu aviso sobre o início daquele maldita guerra. Questionava-me o que teria acontecido com ele. Provavelmente tinha sido morto por algum Mutante qualquer. Ou talvez estava escondido em alguma base ultra-secreta, protegido pelos melhores soldados.
De qualquer forma, não tinha que me preocupar com aquilo. Vivo ou morto, o presidente não podia fazer mais nada. Por sua culpa, o mundo havia praticamente acabado. Todos os países pareciam estar envolvidos na Guerra. Talvez todos os governos tenham feito o mesmo que aconteceu nos Estados Unidos e no Canadá: começaram a lutar contra os Mutantes. Talvez alguns tenham sido contra a decisão do presidente, e unido forças entre humanos e Mutantes. Mas de que adiantava pensar naquilo? Era só uma imaginação qualquer.
Mas alguma coisa me dizia que eu estava errado. Algo dizia que aquela missão não seria minha única. E que também Torrance não seria meu único inimigo.
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