Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

7 7 - Roubam um artefato antigo.


O apartamento de meu tio era enorme.

Encontrava-se em um dos prédios no centro daquela caverna. Enquanto andávamos pelas ruas, ele nos dizia como tudo aquilo havia sido construído. Os Mutantes fundadores eram ao todo 30, todos nível 6. Eles, na verdade, eram instrutores e monitores de um antigo Instituto, que foi fechado no ano de 2080. Demorou-se 3 meses para construir o andar da cidade, um mês para construir o andar abaixo de nós, onde se localizava a floresta com as plantações, os lagos e os animais, e uma semana para construir o andar acima de nós, onde era a área de treinamento para Mutantes. Havia ainda outros andares, que alguns eram menores e outros eram maiores. No entanto, nós não ficávamos com falta de ar nem sentíamos frio ou calor porque a temperatura e o nível de oxigênio era mantido nas formas normais.

Quando finalmente chegamos no prédio dele, eu dei um leve “uau”. Ele devia ter cerca de 30 andares. Grande parte dos prédios eram residências, e não era necessário pagar nada para morar em um apartamento, já que aquela caverna servia como um regúio/cidade/fortaleza para todos.

Meu pai abriu a porta do apartamento dele com sua digital, e ela deslizou para o lado. Era incrível como a tecnologia ali era igual à de antes de começar a Guerra. Talvez, até mesmo um pouco mais avançada. A energia era criada a partir do nível abaixo da floresta, onde lá haviam vários reatores de energia limpa, em que era usado uma luz especial criada também pelos fundadores.

– Lar, doce lar. – Murmurou meu tio.

A entrada dava na sala de estar. Um sofá em formato de “U” se estendia na sala, onde havia uma raque com uma televisão de 50 polegadas, com videogames em perfeitas condições, e um computador conectado à televisão.

– Não há mais canais de televisão, — Falou meu tio, abrindo um sorriso pequeno. Toda vez que ele sorria sua cicatriz parecia aumentar, e depois diminuir. – mas dá para se divertir jogando alguns jogos. Se quiser, fique à vontade, Franklyn.

– Para ser sincero? – Falei, olhando para o sofá. – Estou é muito cansado. Não comemos uma comida de verdade há dois anos. Quem sabe hoje mude.

– Ah, você não mudou tanta coisa assim, Franklyn. – Ele riu, e minha mãe também riu um pouco. Era bom vê-la sorrir novamente. E também era bom ver que ainda havia familiares meus vivos.

– Nem sei como te agradecer, Joseph. – Disse minha mãe, abraçando-o mais uma vez.

– Só ver vocês dois em segurança e felizes já me deixa agradecido. – Falou meu tipo, indo em direção à geladeira. Ele a abriu e retirou de lá uma barra de chocolate, e lançou-a para mim. Eu a peguei no ar. – Pode comer, sobrinho.

– Sério? – Falei, trocando olhares entre a barra de chocolate e minha mãe. – Eu posso?

– Sim, filho. – Ela veio até mim e me abraçou. Depois beijou minha cabeça. – Você merece. Mas só não exagere, deixe um pouco para mais tarde. Seu tio irá me mostrar o resto do apartamento, sim? Descanse um pouco agora.

Concordei com a cabeça, e fui em direção da janela da sala. Ela dava para a vista de grande parte da caverna, e podia ver mais coisas ao fundo: Mais ruas, mais colinas de pedra e mais construções. Isso é de fato incrível, pensei. Tive a idéia de passar no andar da área de treinamento mais tarde. Devia ser meio-dia àquela hora. Olhei para as paredes caverna, que tinham vários elevadores que subiam e desciam. Pelo jeito, só podia alternar de andares usando-os. Devia haver cinco elevadores a cada um quilômetro, e tendo em conta que aquela caverna devia ter uns vinte quilômetros, e o andar de baixo quase o quíntuplo disso, eu sentia um frio na barriga. Era incrível o poder dos Mutantes mais fortes. Conseguiram fazer tudo aquilo em menos de um mês.

Comecei a comer a barra de chocolate. Fui até a raque e peguei o controle da televisão. Sentei-me no sofá e a liguei. Alternei entre os canais, mas só conseguia estática. E, antes de me dar conta, eu dormi.

Eu sonhei com algo muito estranho. E não era com minha outra personalidade.

Eu estava em um lugar escuro, com piso de mármore branco como a neve. Havia cheiro de mofo e coisas velhas ali, como se antes tivesse tido uma loja de velharias no local. Havia destroços de paredes, com pedaços de vidro por todo o lado. Um anel flutuava em um pilar pequeno de mármore. Aproximei-me dele, hesitante, e quando tentei agarrá-lo, ele desapareceu.

Então, vi-me em uma selva, com moitas, arbustos e cipós, além de vários animais. Mas todas as árvores começaram a queimar de forma repentina, e foram reduzidas ao pó em instantes, sobrando somente uma planície imensa coberta de cinzas. Qualquer forma de vida havia sido dizimada naquele lugar, exceto a mim. Eu estava todo sujo com as cinzas, e sentia meus pulmões lutando para conseguir ar. O cheiro de mofo fora substituído pelo de queimado. No céu, pude ver uma moto voando, e reconheci o homem que a pilotava. Era Torrance Upton, sorrindo para mim. Tentei gritar, mas não consegui.

E, repentinamente, estava agora em um quarto muito moderno. A porta era transparente, e estava com meus pés e minhas mãos presos. Sentia meu corpo todo doendo. Ao meu lado havia um vulto de fumaça que me assustou.

Ele desapareceu em uma nuvem de fumaça, e eu agora estava em uma clareira, onde haviam duas correntes entrelaçadas. Uma delas era branca e brilhava como o sol, a outra era negra e sombria. Elas balançavam, como se estivessem lutando uma contra a outra, e podia sentir ambas enfraquecendo, a ponto de se quebrarem.

Foi quando tudo simplesmente desapareceu, e me vi caindo em uma escuridão total. O vento era forte, e fazia todo o meu corpo se arrepiar. E algo me assustou mais que aquilo.

– O artefato deverá ser recuperado, antes que o prazo seja esgotado. – Repetiam vozes, em unisolo. Não sabia de onde vinham, mas me assustavam. Foi quando eu acordei.

– Franklyn, acorda. – Falou minha mãe, acariciando meus cabelos. – Bom dia.

– Bom dia? – Murmurei, levantando-me. – Que horas são?

– Oito da manhã. Você dormiu aqui no sofá. Nem ao menos almoçou. Estava em um sono muito profundo.

Eu lembrei-me do sonho. Era tudo tão estranho. Um lugar escuro com piso de mármore e paredes destruídas, com um anel flutuando que desapareceu, a floresta em chamas, Torrance Upton sorrindo para mim, a árvore, as correntes, e a queda. Mas o que mais me assustou foram as vozes, que parecia vir de todos os lados. Eram mulheres e homens falando ao mesmo tempo.

– Você está bem? – Perguntou minha mãe, percebendo minha preocupação.

– Sim. – Respondi, depois de uma breve pausa. – Foi só um pesadelo.

Eu saí do apartamento do meu tio depois de almoçar. Eu havia tomado um banho de água quente, coisa que há muito não fazia. Fiquei encarando-me no grande espelho do banheiro, que estava um pouco embaçado devido o vapor que era sugado aos poucos pelo pequeno duto de ventilação no teto. Meu cabelo estava grande e bagunçado. Ele cobria toda a minha nuca, e ameaçava chegar aos meus ombros. Mas eu não ligava. Nunca liguei para minha aparência, para ser sincero. Depois daquela não tão boa noite/dia de sono, eu estava um pouco menos cansado.

Claro que ainda estava cansado por causa do dia anterior, pois corri durante um tempo que parecia horas junto de minha mãe. Olhei para meus braços, que estavam com alguns músculos Em meu ombro direito, estava a cicatriz de dois anos atrás. Vesti minha blusa de inverno branca com zíper, coloquei minhas luvas de meio dedo e saí do banheiro. Quando acordei, dei uma rápida olhada no apartamento. O quarto de hospedes tinha duas camas (minha mão havia dormido lá), um criado-mudo cinza e um guarda-roupa branco. O quarto de meu tio era maior, com uma grande cama de casal, um enorme guarda-roupa e uma mesa de computador. Não havia lavanderia, pois as roupas eram lavadas por um robô criado por um Mutante com “Ciborgue” como poder.

Quando estava saindo de casa, minha mãe perguntou aonde eu ia, e falei que iria conhecer a cidade e dar uma olhada no andar superior. Como sempre, ela falou para eu tomar cuidado e tentar não chegar tarde. Aquilo me lembrou de como eram as coisas antes. Tentei esquecer daquele pensamento. Tudo é diferente agora, pensei. Tenho que me concentrar.

O clima era o mesmo de antes, embora eu pensasse estar um pouco mais frio. Uma névoa muito fina e pouco densa pairava sobre a cidade. Ela vinha das aberturas nas paredes.

Acho que está vindo uma tempestade de neve, pensei.

Olhei para a outra parede, que estava a uns 5 quilômetros de onde eu estava. Os elevadores desciam e subiam, com algumas pessoas neles. Suspirei, pensativo. Será que eu deveria ir lá? Não conhecia ninguém naquele abrigo com exceção de meu tio e minha mãe. Mas eu precisava fazer novas amizades. Então atravessei a rua e comecei a caminhar pelas calçadas, cruzando avenidas nas quais andavam poucos carros, rumo aos elevadores.

No meio do caminho algo em interrompeu. Senti alguma coisa cair sobre mim e me lançar no chão. Olhei o que era, e vi que era um garoto da mesma idade que a minha. Ele parecia ser um emo. Havia um cabelo um pouco rebelde, com uma franja cobrindo seu olho esquerdo. A cor dele era verde, dava para notar através do cabelo e do outro olho que não estava coberto. Ele estava usando somente roupas negras com detalhes verdes.

– Vamos, Thomas. – Falou um outro garoto, de dentro do beco. Ele era enorme. Devia ter uns 2 metros de altura, e um ou dois anos a mais que eu. Era negro e seu cabelo era muito curto. Seus olhos brilhavam como chamas em uma coloração laranja. Usava uma regata branca de zíper e uma calça jeans com os joelhos rasgados. Calçava uma bota marrom. – Atreva-se a me vencer novamente!

– Me desculpe, Kennedy! – Choramingou o garoto que se chamava Thomas. – Não tive a intenção de ofendê-lo.

– Que seja. – O garoto chamado Kennedy agarrou Thomas e o segurou pelo pescoço, erguendo-o do chão a uns 3 metros de altura. O menino lutava para conseguir ar. Ele ficava pálido aos poucos. – Irá sofrer as conseqüências mesmo assim, pedindo desculpas ou não.

Aquilo me lembrou da forma que Torrance havia me levantado com facilidade, e Willian também. Senti um calafrio, e vi que pessoas olhavam todo aquele incidente. Eu me levantei.

– Largue-o. – Murmurei. Eu havia falado aquilo repentinamente, mas não era meu outro “eu” quem falava.

– Ou o quê? Vai me atacar? – Caçoou Kennedy, e eu criei uma faca de exército em segundos, que brilhava em uma luz vermelha. Fiz um corte no braço do grandalhão que erguia o tal Thomas, e Kennedy foi obrigado a largar o garoto no chão, segurando o antebraço musculoso. Só agora havia percebi o quão alto e musculoso ele era, para um garoto de uns 16 anos. Sangue escorria até sua mão, e passava pelos seus dedos. Acho que eu havia exagerado um pouco na profundidade do corte. Ele rangeu os dentes.

– Vai pagar por isso. – Murmurou, avançando contra mim, e eu coloquei minha faca na direção do pescoço dele. Encostei-a de leve em sua pele, e ele estremeceu.

– Vou, é? – Ele me olhava um pouco assustado. – Acho que não. Tente me atacar, e enfio essa maldita faca em sua garganta e a última coisa que você verá será eu, sorrindo por ter matado um lixo como você.

Ele cambaleou para trás, tropeçando em um relevo na calçada e caindo sentado. Me olhava com os olhos arregalados, temendo a mim.

– Quem é você? – Murmurou, afastando-se de mim se arrastando pelo chão.

– Franklyn Thompson, guarde bem este nome. – Falei, ainda apontando a faca para ele, embora não a encostasse em Kennedy. – Agora, vá embora!

Ele fez que sim com a cabeça e se levantou, indo para longe.

– Você está bem? – Falei ao Thomas, desfazendo minha adaga.

– Acho que sim... – Murmurou em resposta. Ofereci minha mão para ajudá-lo, e ele a agarrou e levantou-se. As pessoas que olhavam a briga se afastaram. – Por que me ajudou? Você nem me conhece.

– Gosto de fazer boas ações. Mas, afinal de contas, o que você fez para deixar aquele cara tão irritado?

– Eu o venci em uma partida de xadrez. Kennedy odeia perder. Ele tem o gênio difícil. Por causa disso, ele se sentiu ofendido, pensando que eu havia vencido-o para envergonhá-lo na frente de seus amigos. E então me atacou. – Ele levantou a manga direita de sua blusa até o ombro, e pude ver o braço dele avermelhado, com a marca de um soco. – É isso o que se ganha quando se vence Kennedy Maverick. Se você não tivesse me ajudado, talvez eu já estivesse desmaiado no chão.

– Mas parece que ele tem certo medo de adagas. – Falei, rindo. Thomas abriu um sorriso. – Me chamo Franklyn Thompson, e você?

– Sou Thomas Moore. – Respondeu, sorrindo de volta. — Ei, espera, você disse Thompson?

– Sim, por que?

– Você não seria parente de Joseph Thompson, seria? – Aquela pergunta me pegou de surpresa.

– Sou sobrinho dele. Porque a pergunta? – Ele abriu a boca, como se meu nome tivesse assustado-o.

– Cara, Joseph Thompson é um dos fundadores do Abrigo.

Eu gelei. Fiquei calado por alguns segundos, tentando entender o que ele havia dito. Meu tio, Joseph Thompson, um dos fundadores? Aquilo só podia ser piada. Mas Thomas parecia sério o bastante para estar brincando.

– Você quer dizer que ele é um dos fundadores dessa cidade? – Falei, agora eu é quem estava boquiaberto

– Abrigo. – Corrigiu-me Thomas. – Não é só uma cidade, Franklyn. Há andares aqui. Andar de armamento, de floresta, de treinamento...

– Eu sei dessa coisa dos andares. Mas ainda não acredito que Joseph seja um dos fundadores. – Então eu me lembrei de uma conversa em que minha mãe e meu tio conversavam, sobre ele ser um dos fundadores de Hope, ou algo do tipo. – Ei, por acaso essa cidad... Abrigo tem nome?

– Sim. É Hope.

Droga, pensei. Eu era sobrinho de um dos fundadores do abrigo. Aquilo poderia trazer riscos à mim.

– Está bem... – Murmurei para mim mesmo, olhando para os prédios. – Meu tio ajudou a construir esses prédios, esses andares... E eu, que sou sobrinho dele e cheguei ontem, descubro isso agora, em um momento inesperado. Mas tudo dentro do esperado, não é? – Falei, em forma irônica.

– Se você diz. – Ele desviou os olhos para os elevadores que estavam muito atrás de mim. – Você estava indo para o andar da área de treino, não é?

– Como sabe? – Murmurei, olhando-o com surpresa.

– Eu também fui lá na primeira vez que explorei a cidade. Vem, eu te guio.

Então, eu e Thomas seguimos caminhos pelas ruas. A névoa se dissipava aos poucos, e cada vez mais nos aproximávamos dos elevadores. Quando faltavam uns 5 quarteirões, eu olhei para um prédio que dizia “Cassino Girassol de Fogo”. Mas o que me surpreendeu não foi o fato de ter um Casino no Abrigo, e sim as pessoas que estavam logo acima dele. Era um grupo de umas 20 pessoas da mesma idade que a minha. Eles conversavam e riam, mas um deles olhava seriamente para nós. Thomas seguiu meu rastro de visão e estremeceu.

– Ah, merda. – Murmurou. O garoto que nos observava saltou do prédio e caiu no chão sem problemas, como se fosse algo normal no dia-a-dia dele saltar de prédios de mais de 10 metros de altura.

– Thomas, por onde você estava? – Falou o garoto, com voz impotente. Seu cabelo era completamente branco e rebelde, e seus olhos eram vermelhos. Sua pele era muito clara. Ele me lembrava meu alter-ego. Quem sabe ele tivesse dupla-personalidade. Mas ele não parecia estar querendo nos matar. Ao menos, não a mim.

– Ah, desculpe-me, Royal. – Royal? Pensei. Isso é o nome de uma pessoa? – Tive problemas com Kennedy e Franklyn me ajudou.

– Franklyn? – Ele me estudou, olhando de baixo para cima, e de cima para baixo. – Ah, o sobrinho de Joseph? – Olhei para ele com medo. Como ele sabia que eu era sobrinho de Joseph? – Thompson, eu sei exatamente o que você está pensando. As notícias correm. Muitos já sabem sobre você e seu parentesco com ele. Mas fique frio, não vai ser tratado como superior por ninguém. Ao menos, não por mim.

– Ei, Royal, pega leve com ele. – Interveio Thomas. Senti meus punhos cerrarem. – Ele chegou ontem, não precisa agir com ele dessa forma.

– Se você diz, Thomas. – Ele me olhou novamente com repugnância. – Mas saiba, Thompson, que eu estou agradecido por ter salvado Thomas, seja lá do que tiver acontecido. Thomas, estamos tendo uma reunião agora sobre a próxima missão de patrulha. Parece que há uns Caçadores de Mutantes pelas florestas próximas.

– Ah, eu vou apresentar o andar superior ao Franklyn. Vou tentar chegar a tempo.

– Está bem... – Ele me encarou mais uma vez. Então se aproximou de mim, e estendeu sua mão. – Prazer, sou Royal. E me desculpe por ter agido com certa ignorância com você.

– Okay. – Falei, apertando sua mão. Então ele me puxou para perto dele.

– Mas, escute-me bem. – Sussurrou em meu ouvido. – Tente não usar seu nome para conseguir coisas, ou você vai conseguir encrencas muito facilmente. – Então, eu vi duas asas se abrindo em suas costas, uma negra e uma branca. A asa branca parecia com as de um anjo, e a asa negra parecia com as de um demônio. Idêntica com as de meu pai, com exceção das cores. Ele voou, deixando eu e Thomas ali.

– O que ele quis dizer com aquilo? – Perguntei para Thomas. Minha voz falhou. Eu senti medo enquanto estava na presença daquele tal de Royal.

– Ele quis dizer que se você ficar falando seu nome por aí, você será caçado por alguns Mutantes fora-da-lei.

Durante o resto do caminho, Thomas explicava sobre as coisas da cidade: O que havia nela, como os Mutantes e os humanos conviviam sem problemas, todos os pontos de interesse, e etc. Mas eu só conseguia pensar naquele acontecimento com o garoto apelidado de Royal, que Thomas disse que era o apelido dele, mas não sabiam seu verdadeiro nome.

Royal era líder de um grupo de Mutantes da cidade, “Anjos e Demônios”, em que Thomas também participava. Ele havia colocado aquele nome por ter mimetismo Nephilim, que segundo as histórias eram filhos de anjos com demônios, ou vice-versa. Mas, no caso do mimetismo, ele só ganhava as habilidades de um Nephilim, mas não era de fato um filho de um anjo com uma demônia, ou uma anja com um demônio.

Haviam vários grupos de Mutantes nas cidades, em que realizavam missões dos mais variados tipos: busca de suplementos, caça à Caçadores de Mutantes ou à procura de sobreviventes. Sempre quando realizavam uma missão, o grupo ganhava prêmios, como armas novas, itens mágicos, novas bases, etc.

O grupo era composto por 19 pessoas ao todo. Eram 20 antes, mas o antigo membro resolveu sair, deixando o grupo com uma vaga livre. Todos os grupos deviam ter no máximo 20 membros, era uma regra da cidade. Os Anjos e Demônios haviam sido criados há cerca de três meses, e todos os membros era de nível 1. Alguns eram mais fortes, outros eram mais fracos, mas todos trabalhavam em equipe. Disse também que às vezes haviam campeonatos quando a região não tinha ameaça, em que os grupos tinham que treinar suas habilidades lutando entre si na floresta. Não havia mortes, mas caso houvesse e tivesse alguma chance, o morto poderia ser revivido.

– Está brincando comigo, não está? – Falei, estranhando aquela conversa. – Os Mutantes também podem ressuscitar pessoas?!

– Só alguns conseguem, e esses alguns são poucos. – Respondeu, colocando as suas mãos nos bolsos de sua calça. – Somente quem é nível 6 pode fazer isso, e tem que ter muita Energia Mutante no corpo.

– Compreendo. Mas, e então, como é o grupo? – Ele me olhou com uma expressão confusa.

– Eu já te expliquei. É um grupo chamado Anjos e Demônios, com 19...

– Não. – Eu o interrompi, e ele me olhou confuso novamente. – Eu quis dizer como que é o grupo. Tipo, as pessoas.

– Ah, quer saber a descrição delas? – Falou, e eu fiz que sim com um aceno de cabeça. – Bom, são muitas pessoas para descrever. E eu sou péssimo em falar a aparência das pessoas. Mas todos trabalhamos em equipe, se é o que quer saber. Se um está em perigo, outro vai ajudar. Se um está caindo, o outro se joga para agarrá-lo e salvá-lo. “Sem trabalho em equipe, o mundo cairá”, é um dos lemas do grupo.

– Não era bem isso o que eu queria saber, mas tudo bem. – Murmurei. Eu queria saber como eram as características das pessoas. Mas se ele não era bom em descrevê-los, parece que eu teria que vê-los por mim mesmo. – Falta muito para chegarmos aos elevadores?

– Na verdade, eles estão logo ali. – Ele apontou para nossa frente, e deparei-me com um tipo de parque em forma esférica, com umas trinta árvores macieiras. Havia bancos de madeira iguais aos de praças e uma fonte grande no centro. Pessoas conversavam. Algumas Mutantes crianças brincavam usando os poderes de forma que quase se machucavam. E, ao fundo, na outra extremidade da praça, estavam os elevadores. Eram como tubos, onde deviam caber cerca de quinze pessoas lá dentro. Eles eram revestidos de vidro, e o piso e o teto eram de um metal com revestimento branco. Alguns desciam para o nível de baixo, outros subiam para o nível de cima, e um deles estava parado naquele andar. – Temos que correr para pegá-lo. – Falou Thomas, indo em disparada para aquele elevador. Eu o segui, correndo.

Por sorte, entramos cinco segundos antes do elevador subir. Havia outros Mutantes junto conosco, completamente suados e machucados, mas nada grave. Eram cortes leves, marcas de golpes físicos e outras coisas. Enquanto subíamos, eu me surpreendi ainda mais com o tamanho da cidade.

– É enorme. – Murmurei, tocando o vidro. Nunca havia visto uma cidade tão bela, em um lugar fechado como aquele.

– Sim. – Ele deu uma cotovelada de leve em meu braço. – Espere só para ver o andar da floresta.

– Amanhã eu o verei, pode ter certeza.

Então, ficou tudo escuro. Estávamos dentro da pedra. O elevador ainda subia. Deu vinte segundos, e reaparecemos novamente na luz. Estávamos no andar de treinamento. O elevador parou, e eu saí, admirado com aquilo.

O tamanho daquele andar era o de um campo de futebol. Fazia um pouco mais frio ali, mas eu não me importava. Diferente do nível de baixo, as paredes daquele nível eram todas revestidas de algo que parecia aço, talvez mais resistente. O teto e o chão também eram feitos daquele material.

– Pedra estrelar polida. – Falou Thomas, suspirando. – O material mais resistente do universo.

Eu o encarei, depois olhei para minha mão.

– Tipo esse? – E mimetizei-a, assustando Thomas.

– Você tem Mimetismo Estelar? – Murmurou, olhando diretamente para minha mão, como se fosse algo terrível.

– É um item mágico meu. – Falei, mostrando meu colar. – Ele me dá esse poder e Instinto de Caçador.

– E você ainda tem Armas Psíquicas, não tem? – Ele falou. Acho que se referia ao poder principal.

– Não, é Energia Ancestral. – Murmurei. Ele me olhou com dúvida.

– E que poder é esse?

– Você não conhece?

– Nunca ouvi falar.

– Ah... É um poder em que os Mutantes recebem a energia de seus Ancestrais que tinham o mesmo poder. É raro, mas no entanto é um poder bem forte.

– Não é tão raro quanto Mimetismo Estelar. – Ele fez sinal para seguí-lo. – Eu posso testar uma coisa?

– Hã? Ah, pode. Contanto que eu não saia morto ou ferido, à vontade.

– Tenho certeza que não vai. – Ele parou em frente a um guardador de arma. Pegou uma espada tão rapidamente que nem tive tempo de reagir. Ele atacou minha mão, e eu senti o golpe. Fechei meus olhos e materializei uma adaga. Quando abri, tentei atacar Thomas, mas ele gritou. – ESPERE! OLHE!

– O quê? – Falei, mas olhei para minha mão. Ela não estava ferida. Na verdade, ela não estava com nenhum corte. Mas, no entanto, a lâmina de prata da espada havia se partido em fragmentos. Muitos Mutantes nos olhavam. – O que aconteceu?

– Aconteceu que você é um Mutante extremamente raro. – Falou Thomas, ofegante. Minha adaga sumiu. – Com esse mimetismo, nada fere você.

Eu continuava olhando para minha mão, analisando-a. De fato, não havia nenhum corte. Thomas riu um pouco, colocando a mão em meu ombro.

– Fique feliz por isso, cara. Você tem dois poderes raros, mesmo que um deles seja por um Item Mágico. Eu posso usá-lo para ver?

– Ah... – Eu voltei minha atenção para ele. Fiz minha mão voltar ao normal, e retirei meu colar, entregando-o ao Thomas, que o colocou no pescoço. Ele tentou usá-lo, mas não acontecia nada.

– Não funciona. – Murmurou, frustrado. – Não sinto a Energia dele.

– Que estranho. Eu a sinto perfeitamente. – Ele me entregou o colar, e eu o coloquei em mim novamente. Senti a Energia dele junto com a minha, e minha mão se mimetizou.

– Talvez ele responda somente a você. – Falou, sério. – Você usa bastante os poderes dele, não usa?

– É, eu tenho usado desde que eu o ganhei.

– Está explicado. Ele te vê como legítimo dono agora. – Então ele reparou nos Mutantes que nos olhavam. – Ei, qual é! Perderam alguma coisa?

Alguns resmungaram, outros xingaram Thomas, mas ele não ligou. Parecia já estar acostumado com tudo aquilo. Nós dois analisávamos nosso colar. Um colar mágico só meu, pensei. E dois poderes raros? Eu sou demais.

– Mas, e então? Vai querer treinar? – Falou, e eu olhei para o andar de treinamento. Havia treinos muito variados: Para escalar, lutar contra robôs com armaduras de Caçadores de Mutantes, saltar obstáculos, arenas pequenas em que Mutantes lutavam entre si, pontes presas às paredes estendidas a dez metros do chão, mecanismos que lançavam bolas de chama, outros que lançavam disparos de plasma, e muitas outras coisas.;

– Acho que não... – Respondi, e reparei que estava com muita fome pois meu estômago roncou. Thomas resmungou.

– E lembrar que não tomei café da manhã hoje... – Choramingou. – Quer voltar para lá embaixo? Podemos comer alguma coisa. E quem sabe eu te apresente ao pessoal do meu grupo, se eles já não tiverem saído para a missão.

– Por favor, só vamos comer. Depois decidimos o que vamos fazer. – Ele riu, e nós começamos a ir até o elevador, mas uma voz chamou Thomas.

– Espere por mim! – Gritou a voz, e nós nos viramos. Eu reconheci o garoto que vinha correndo. Ele olhou para mim, e soltou um grunhido. – Você...

– Você é o garoto do banheiro! – Exclamei. De fato, era ele. O cabelo era o mesmo, e seus olhos azuis ainda brilhavam. Ele não parecia tão louco agora, e as cicatrizes que ele tinha antes de nos encontrarmos sumiram. Usava as mesmas roupas que as daquele dia, embora estivessem muito mais limpas. – Klaus.

– Franklyn Thompson, não é? – Riu Klaus, aproximando-se de nós. – Quem diria que nos encontraríamos novamente. Desculpe-me por ter saído daquela forma. Estava muito cansado depois de ter fugido do orfanato.

– Vocês se conhecem? – Falou Thomas, olhando para nós como se fosse o estranho no trio, e não eu.

– Ah, nos encontramos há dois anos atrás. Foi lá que... – Eu percebi que iria falar sobre minha dupla personalidade. Resolvi manter sigilo sobre aquilo. — ...nós tivemos uma breve discussão.

– Causada pela minha dupla personalidade. – Riu Klaus novamente. Seu sorriso psicótico era o mesmo. – Ah, Frank, eu agora me controlo, viu? Pode ficar frio.

– Está bem... – Murmurei. Seus olhos mudaram para alaranjado, e depois voltaram à azul. – Mas depois de você ter fugido em um portal, eu fiquei confuso.

– Ah, te abalou, não é? – Falou Klaus, olhando agora para Thomas. – Aquilo sempre mexe com as pessoas. Diz aí, Thomas.

– Hã.... – Ele olhou para mim, como se suplicasse por socorro. — Prefiro não comentar.

– Então eu comento. Quando eu também fiz aquela saída no portal, Thomas desmaiou. Cara, quando eu voltei, ele ainda estava desmaiado e pálido. Eu ri no começo, mas depois tive que ajudá-lo. A partir daí, viramos amigos. Entrei no grupo dele, e então eu saí.

– Então você é o ex-membro que deixou uma vaga sobrando? – Falei, e ele concordou com a cabeça.

– Por quê? Quer tomar o meu antigo lugar? Fique à vontade.

– Vamos logo para o andar de baixo, sim? – Falou Thomas. Ele estava corado de vergonha.

Eu e Klaus concordamos, e voltamos ao elevador, descendo de volta para a cidade. Mesmo reencontrando Klaus, eu ainda sentia raiva dele. Podia sentir minha outra personalidade revirando-se dentro de mim, pedindo para deixar que ela saísse e atacasse Klaus. Eu lutava contra aquilo. Épocas diferentes, pensei. Klaus não deve ser o mesmo de antes. Assim espero.

Quando voltamos ao nível da cidade, Klaus não saiu do elevador, diferente de nós.

– Não vem conosco? – Perguntou Thomas, reparando que ele continuava no elevador.

– Não, preciso encontrar uma planta na floresta. Nos encontramos depois. – Ele acenou para nós, e o elevador começou a descer.

– Está bem... – Murmurei, virando-me para a cidade quando Klaus saiu de vista, observando as crianças brincando na praça. – Onde vamos, Thomas? Há alguma lanchonete por perto?

– Sim. – Falou, apontando em direção de um prédio vermelho e amarelo, onde havia uma letra M em um letreiro. – Serve o McDonald’s?

– Com certeza. – Falei, e fomos até lá. Thomas e eu conversávamos sobre coisas que havíamos feito na guerra.

Contou-me que havia chegado no Abrigo faz quase um ano. Ele veio junto com seu pai e sua mãe, e acabaram encontrando o Abrigo quando um grupo de Mutantes os encontraram. Desde então, viveu ali. Ele perguntou como eu havia chegado ao Abrigo, e contei sobre o que houve no dia passado. Ele era um ótimo ouvinte, pois só balançava a cabeça e não me interrompia – Diferente de mim, que ficava interrompendo-o toda hora. No entanto, ele não me falou sobre o que aconteceu no dia que a Guerra Mutante começou, e eu também resolvi que não contaria a ele.

Mas ele também me disse que vivia com seus pais e outras pessoas em um abrigo feito em uma cidade minúscula, que estava só um pouco destruída. Mas quando descobriram que eram Mutantes, Thomas e seus pais tiveram que fugir. Foi no mesmo dia que chegaram ali.

Enfim, havíamos chegado ao McDonald’s. Foi aí que lembrei-me que não havia dinheiro para comprar algo.

– Fica tranquilo, eu trouxe comigo. – Murmurou, retirando a carteira de seu bolso. – Vai querer o quê?

– Um cheeseburger com batata fritas e uma Coca-Cola... – Falei, e ele fez uma leve cara de espanto.

– Só isso? – Falou.

– É. Não sou muito fã dos outros lanches.

– Franklyn, aí está você. – Falou a voz logo atrás de nós. Virei-me e vi que era meu tio Joseph, um pouco ofegante. – Te procurei pela cidade toda. Olá, Thomas.

– Oi, senhor Thompson. – Ele me olhou, animado. – Então ele é mesmo seu tio.

– Sim, de fato eu sou tio dele, Thomas. Mas isso não muda muita coisa.

– É, eu não sou tão forte que nem ele. – Falei, e meu tio concordou.

– Sim e não, Franklyn. Sim, você não é tão forte como eu porque é nível 1. E não, você não é tão fraco porque é nível 1.

Eu e Thomas nos entreolhamos. Ambos tentamos entender o que ele havia dito. Abri a boca para falar algo, quando o prédio tremeu.

– O que é isso? – Gritei, cambaleando, assim como todos.

– Deve ser algum avião decolando. – Ele falou, normal. – São raras as vezes em que aviões decolam, mas sempre que decolam causam esse tremor.

No entanto, aconteceu novamente, agora acompanhando de uma explosão. Pessoas lá foram gritaram. Meu tio correu para fora da lanchonete, e nós fomos atrás dele. Um rastro de fumaça se erguia, e era sugado por dutos gigantes que eu não havia visto antes.

– Um avião decolando, é? – Falei, irônico. No entanto, eu estava tenso.

– Segurem em minha mão. – Falou, entendendo sua mão direita para nós. Thomas a segurou, mas eu hesitei. – Venha, Franklyn.

Respirei fundo e a segurei, e uma explosão de cores borradas aconteceu em minha volta, e estava de repente em um beco, tonto. Thomas e meu tio estavam normais. Eu sentia que ia vomitar.

– O que foi isso? – Faleii, segurando-me na parede de um prédio.

– Teletransporte. – Respondeu meu tio, olhando para uma construção em chamas no outro lado da rua. Mutantes apagavam o fogo com jatos d’água. – Como eu suspeitei, veio do museu. Venham!

Nós corremos, atravessamos a rua e entramos no prédio de mármore que tinha grande parte das chamas apagadas. Dentro dele, havia várias relíquias: armas de milhares de anos, colares mais antigos ainda, e muitas outras coisas que eu reconhecia, e outras não. Algumas relíquias eram antigas, outras já eram recentes. E todas elas emanavam Energia Mutante.

– Itens mágicos. – Falei, surpreso. – E são muitos.

– Quase três mil, para ser sincero. – Falou Thomas, tenso.. – Lembra-se dos prêmios que te falei? Os Mutantes que se destacaram nas missões sempre ganham um item mágico. É aqui que os itens escolhem se vão ou não querer ser dos Mutantes.

– Espera, os itens escolhem? Não é quem deu a missão que escolhe?

– Não. Os Itens Mágicos têm vida, embora não se mexam ou falem ou expressem emoções. Para algum ser ter algum tipo de poder ou habilidade, é necessário que tenha vida para colocá-las em uso. É o mesmo com os objetos, dos quais chamamos de Itens Mágicos. E, o Item que escolher ser do Mutante, assim será.

– E como se sabe se o Item quer ou não?

– Simples: o Item atende somente ao Mutante. Mas isso é confuso agora.

– Sim, é confuso. – Falou meu tio. Ele olhava para todos os lugares. – Parece que nada foi roubado. Isso é estranho. Atacaram o museu, mas não roubaram nada. A não ser que... – Ele olhou para o fim do corredor, onde havia uma escada que descia. – Ah, merda.

Meu tio correu até lá, e nós o seguimos, sem entender o que ele temia. Descemos as escadas, até pararmos em um andar onde os Itens eram fechados por mostruários de vidro que eu sabia, de alguma forma, que eram impenetráveis. Ou nem tanto. No final do corredor, havia um mostruário quebrado, onde não havia nada lá. Havia vários destroços de vidro, e as paredes tinham alguns buracos.

– Merda! – Gritou meu tio, correndo para próximo do mostruário. Ele rodeava-o, procurando por algo. – Merda, merda, merda!

– O que foi, senhor Thompson? – Perguntou Thomas, tenso da mesma forma que eu estava.

– Foi roubada! – Ele exclamou. – A relíquia mais preciosa e poderosa que tínhamos, a Espada Dourada, foi roubada!