Guerra Mutante: A Relíquia Roubada
2 2 - Um louco me fala como fugiu do orfanato
Willian e eu ficamos andando pelo parque durante cerca de duas horas, procurando o que fazer. Nós às vezes ficávamos apostando quem escalava cada árvore que havia no parque mais rápido, e embora eu seja ótimo em escalada, ele acabou me vencendo todas as vezes. Depois de 10 rodadas e 10 derrotas, decidimos tirar um tempo para descansar em uma das árvores, em um tronco grosso o bastante para nos sustentar e não se quebrar, e ele ficava a uns seis metros acima do chão.
– Precisa de uma ajuda aí, maninho? — Falou Willian, que alcançou o galho tão rápido que eu nem pude ver ele escalando a árvore.
– Como chegou aí tão rápido?! — Exclamei, pasmo, enquanto ainda escalava a árvore.
– Ah... — Ele me encarou, e depois olhou para o céu através dos vários galhos e folhas, com poucos espaços entre elas. — Prática.
– Sei... — Murmurei, quando finalmente pude alcançar o galho e subir nele. Eu olhei fixamente para ele, que por sua vez parecia tentar não me encarar. Willian era assim: não era muito de ficar encarando os outros, e quando alguém o encarava durante muito tempo ele começava a gaguejar.
– Dá pra parar de me encarar?! — Falou, por fim. — Você sabe que eu odeio isso.
– Só você me falar como escalou tão rápido. Onde aprendeu a ser tão rápido em parkour?
– Eu aprendi coisas na escola. — Foi então que me lembrei que ele estudava em uma escola particular. Embora eu também estudasse em uma, mas no caso de Willian parecia ser uma escola muito melhor. Ele passava o ano letivo inteiro lá, e quando o via nas férias ele sempre havia uma cicatriz em alguma parte do corpo, alguns ferimentos leves e cortes. Nunca entendi o motivo daquilo. Talvez fosse por isso que eu não estudava na mesma escola que a dele. – Isso foi uma dessas coisas.
– Eu queria poder estudar em uma escola como a sua. — Falei, frustado. — Ela parece ser tão legal...
– Quem sabe um dia?
– É... Quem sabe...
Depois de ficarmos um tempo naquela árvore jogando conversa fora, ouvimos algumas vozes abaixo de nós. Eram nossos pais.
– Ah, aí estão vocês! — Exclamou minha mãe. — Estávamos ficando preocupados. Procuramos vocês por toda a parte.
– Desculpa, mãe. — Respondi, descendo a árvore com cuidado. Eu limitava meu tom de voz, temendo que fosse tomar uma bronca. Willian desceu logo após de mim. — Acho que perdemos a noção da hora.
– Tudo bem, filho. — Falou, lançando-me um olhar misericordioso. — Não estou brigando com você. Só viemos chamar vocês para irmos almoçar.
– Almoçar? Ainda está cedo.
– São meio dia e quarenta e um agora, Franklyn. — Falou meu pai, checando seu relógio. — Poderíamos ir almoçar em um restaurante que fica próximo daqui.
– Não é aquele restaurante italiano, é? — Disse minha mãe, parecendo preocupada.
– É, algum problema? — Respondeu meu pai, curioso.
– Sim, Kenneth. Ou se esqueceu que foi lá que nós tivemos aquela discussão? — Meu pai pareceu ter um momento de flashback como se vê nos filmes antigos.
– Ainda se lembra daquilo? Aquilo é passado, Helen! Não fará mal algum para nós.
– Mas o passado ainda me assombra! — Houve um silêncio longo entre nós depois disso. — – Ah... — Ela olhou para mim e para Willian, percebendo que ainda estávamos ali. — Bom... Que opção eu tenho? Vamos lá.
– Certo, vamos. — Disse por fim meu pai, dando uma palmadinha em meu ombro esquerdo. Nos dirigimos até a saída leste do parque, onde seguimos reto pelas ruas repletas de pessoas bebendo e rindo.
Eu não sabia o que falar. Eu sentia que eles escondiam algo de mim, algo que havia acontecido no passado. A conversa que meus pais haviam acabado de ter sobre uma discussão no restaurante, minha mãe dizendo que o passado ainda a assombrava, e sobre o diálogo que eles tiveram antes, em que eles pareciam querer sigilo absoluto.
Embora eu estivesse feliz por estar todos juntos, um clima de tensão ficou entre nós, principalmente sobre mim. Eu queria poder perguntar sobre o que eles queriam dizer na conversa há pouco, mas eu tinha receio de algo... Era como se a pergunta que eu fizesse causasse uma discussão entre eles. Então percebi que minha mãe e meu pai estavam um pouco afastados de Willian e eu, os dois conversavam entre si tão baixo que eu não podia escutar sobre o que falavam.
Foi então que uma breve dor nos ouvidos me deixou um pouco desnorteado, e ela passou repentinamente, da mesma forma que ela havia chegado.
– ...me preocupa. — Falou meu pai. Eu me assustei, pois eu consegui ouvir aquilo tão perfeitamente, mesmo entre as várias pessoas conversando ao redor de nós. — Algo vai acontecer hoje.
– Eu também tenho a mesma impressão. — Disse minha mãe. Eles conversavam como se não tivessem discutido antes — Por isso devemos proteger Franklyn, custe o que custar.
Me proteger?, pensei. Me proteger do quê?
– É importante que ele ainda não saiba sobr... — A dor de ouvido aconteceu novamente, e quando ela parou eu já não podia ouvir a conversa dos dois. Mas que merda havia acontecido?
Eu coloquei as mãos em meus ouvidos, ainda um pouco desnorteado por causa daquela dor repentina. Era como se eu pudesse ouvir qualquer coisa, qualquer ruído que eu não podia ouvir antes. Mas agora eu sabia de uma coisa: Com certeza eles estavam conversando sobre minha segurança esse tempo todo. Desde aquela conversa que eu não pude ouvir no parque até ali. Do que eles queriam me proteger? O que é que eles sentiam que ia acontecer? Eu não conseguia mais me ligar ao mundo, e aquelas questões sem respostas ficavam vagando em minha cabeça como um cego em um deserto: sem qualquer orientação ou dica do que está acontecendo, somente o nada.
– ...Franklyn? — Falou Willian. Ele me balançava, tentando fazer com que eu ouvisse-o. — Você está bem?
– Ah... Sim. — Respondi, tentando me recuperar daquilo. — Estou.
– Você parece tenso. Alguma coisa te preocupa?
– Hã? — A forma que ele me olhava me fazia pensar que ele soubesse o que eu estava pensando, mas mesmo assim quisesse ouvir as palavras saindo de mim. — Ah... Não. Só estou um pouco cansado.
– Tem certeza?
– Eu já falei que estou bem! — Exclamei, saindo mais alto do que eu queria. — Ah... Me desculpe, Willian. Não devia ter gritado.
– Não esquenta. — Ele fez um sinal de "OK" com a mão. — Mas se precisar falar com alguém, estou aqui.
Eu queria poder falar para ele sobre o que havia acontecido, sobre eu ter conseguido ouvir a conversa de meus pais. E também queria perguntar por quê eu precisava ser protegido. E do quê. Mas eu tinha receio de acabar ouvindo algo que eu não quisesse, como um "eu não sei" ou um "melhor esquecer isso, é uma bobagem", então eu simplesmente respondi:
– Tá.
E assim seguimos nosso caminho até o restaurante.
O restaurante era bem bonito, até: Um prédio de dois andares, sendo o térreo onde ficava o caixa. As paredes eram vermelhas e verdes, e hologramas de vários alimentos ficavam girando sobre a placa flutuante que dizia "RESTAURANTE ITALIANO SPADE & SCUDE — O MELHOR DA REGIÃO". O estranho é que ele não estava tão cheio. Acho que a placa estava precisando ser atualizada. Meu pai deu um leve suspiro e foi em direção da porta transparente, que abriu-se para os lados quando ele pisou no tapete com as cores da bandeira da Itália onde havia um sensor, permitindo a nossa entrada.
Ao entrar eu pude sentir um forte cheiro de pizza, spaghetti e lasanha, que me deixou com mais fome ainda. Sempre gostei de comida italiana, embora fosse raro eu comer.
– Sentem-se ali, — Meu pai apontou para uma mesa que flutuava, com os quatro lugares vazios, próxima à escada que levava ao primeiro andar. — eu irei pedir pizza para nós. Do que vocês querem?
– Frango. — Eu e meu irmão falamos ao mesmo tempo. Pizza de frango era o nosso tipo de pizza preferido.
– Certo... E você, Helen?
– Pode ser calabresa. — Respondeu minha mãe.
– Ok... Uma pizza metade calabresa e metade frango. — Meu pai retirou sua carteira de couro, abrindo-a e verificando o quanto de dinheiro tinha. — É, vai sobrar um pouco — Murmurou para si mesmo, enquanto caminhava para o caixa. Nós três fomos nos sentar na .
Willian e eu sentamos nas cadeiras encostadas na parede, e minha mãe sentou-se ao lado de Willian, de costas para a porta. Ela colocou sua bolsa sobre a mesa, suspirando. Nós três ficamos trocando olhares, sem sabermos sobre o quê conversar.
– Então... — Murmurei, tentando puxar assunto com eles. — Belo dia, não é?
– É. — Respondeu minha mãe. — Mas eu pensava que seria mais animado.
– A animação dos outros está me deixando cansado... — Suspirou Willian.
– Somos dois, cara. — Eu também suspirei, encostando meu queixo sobre meus braços que estavam sobre a mesa.
Depois de uns cinco minutos, meu pai finalmente foi à mesa, trazendo a pizza metade frango, metade calabresa. O cheiro estava ótimo. Ele colocou-a sobre a mesa, pegou uma faca que estava em um guarda-talheres que estava embutido na mesa e dividiu-a em oito pedaços, dando dois pedaços para cada um: dois de pizza de frango para mim, dois de frango para Willian, dois de calabresa para minha mãe e dois de calabresa para ele.
– Parece ótima! — Exclamei, pegando uma faca e um garfo, preparando-me para comê-la.
– Sim, parece. — Falou minha mãe, cortando um pedaço de sua parte da pizza e levando-o à boca. — E está! Ela continua a mesma, desde a última vez que nós viemos aqu... – Ela interrompeu a frase repentinamente. – Ah, deixa pra lá.
– Bom, não vamos lembrar do que já aconteceu, certo? — Falou meu pai, enquanto comia seu pedaço.
– Ele tem razão, mãe. — Concordou Willian, bebendo um pouco de refrigerante que meu pai havia trazido junto com a pizza. — Lembrar daquilo só fará as coisas ficarem piores.
– É, vocês estão certos... — Ela olhou para baixo, como se quisesse esquecer do que fez. – Mas, mesmo assim...
– O que diabos vocês tanto falam sobre o passado?! — Eu gritei sem pensar, e todos no restaurante olharam para mim. Literalmente. — O que é tão importante assim que vocês ficaram conversando o dia todo?! Eu estou aqui, sabiam? Não sei de absolutamente nada!
Os três trocaram olhares entre si durante algum tempo, como se estivessem conversando sem usar a voz, apenas com o olhar. Aquilo me deixou nervoso.
– Nada, filho. — Falou meu pai por fim, tentando me confortar. — Somente bobagens que nós fizemos quando você e Willian ainda eram bebês.
– Então como Willian sabe “dessas bobagens”, se ele ainda era um bebê? – Perguntei, e meu pai ficou com uma expressão de dúvida.
– Bom... Nós contamos a ele. – Murmurou meu pai.
– E porque não contaram a mim? – Eu me levantei, confrontando meu pai. – Eu sou da família, ou vocês se esqueceram disso?!
– Franklyn, sente-se. – Disse minha mãe, calmamente.
– Não. – Retruquei, e ela ficou surpresa. – Vou ao banheiro.
– Filho! – Exclamou, mas eu já havia saído de lá.
O banheiro do restaurante era muito estranho.
Havia somente duas luzes que estavam funcionando, e eram as mais próximas da porta. As divisórias dos vasos do fundo estavam quebradas. As mais próximas da porta, pichadas. Fui até a pia, onde abri a torneira e molhei meu rosto. Então me encarei no enorme espelho retangular que estava um pouco rachado. Eu estava com uma expressão péssima de raiva e dúvida.
– “Bobagens que nós fizemos”. – Murmurei para mim mesmo. – Que bobagens misteriosas, essas.
– Problemas com os pais? – Falou uma voz atrás de mim, que me fez congelar.
Eu me virei, e vi que havia uma outra pessoa lá dentro. Um outro garoto. Trajava uma camiseta regata cinza escuro. Havia dois braceletes brancos em seus pulsos, com um quadrado brilhante emitindo uma luz azul fraca. Sua calça camuflada preta estava completamente suja, mas não consegui ver seu rosto, já que a iluminação ali era pouca. Nem mesmo a luz que vinha da janela minúscula podia iluminar o local. No entanto, podia enxergar seus olhos perfeitamente, como se eles brilhassem: Eram de cores azuis, mas eu tive a leve impressão que os olhos às vezes ficavam alaranjados.
– Como sabe disso? – Perguntei, com receio.
– Ouvi toda a discussão. – Ele riu, juntando suas duas mãos. – Quem não ouviria esses gritos? Deveria se desculpar com seus pais.
– Me desculpar? – Meu receio havia se transformado em raiva. – Eles estão me escondendo algo que eu simplesmente não sei o que é, e isso está acontecendo desde quando nos encontramos com meu pai. Eles agem como se fosse algo secreto que ninguém pode saber.
– Se eles não te contam, é isso mesmo. – Caçoou o garoto de mim. Senti meus punhos cerrarem.
– Escuta aqui, quem é você? – Falei. Eu estava com uma raiva intensa dentro de mim. Eu nem conhecia o garoto, mas é como se a presença dele me deixasse irritado. Era como se ele emitisse alguma aura. Não, pensei. Isso não existe. Você está muito fissurado em quadrinhos, Franklyn. – Vamos, responda!
– Sou Klaus. – O garoto aproximou-se, e eu agora pude ver seu rosto. Seus olhos de fato estavam mudando de cor, do azul para o laranja e vice-versa. O cabelo negro dele era completamente bagunçado. Estava pálido, com olheiras e uma expressão de cansaço. Sua pele estava com alguns leves arranhões. Mas mesmo assim ele sorria. Tinha cicatrizes por todo o corpo que antes não podia ver, e havia um corte em sua bochecha esquerda que parecia ter sido recente, pois ainda saía sangue dele. E Klaus não se importava.
– O que houve com você? – Perguntei, curioso. Onde aquele cara havia conseguido aquelas cicatrizes? Talvez fosse algum lutador mirim de luta livre, e aqueles cortes fossem “prêmios” das batalhas. Mas lembrei que Willian também tinha várias cicatrizes que simplesmente aparecia de ano em ano.
– Fugi de um orfanato. – Respondeu, ainda sorrindo. Percebi também que Klaus devia ser uns 5 anos mais velho que eu.
– Orfanato estranho, esse... – Murmurei, ainda analisando aquele corte recente. – E como conseguiu essas cicatrizes?
– Já falei, fugi de um orfanato. – Ele foi até a pia, abriu a torneira ao meu lado e começou a enxaguar seu rosto. – Eles eram muito duros com todos lá. Ganhei essas cicatrizes durante todos os anos que vivi, isso porque eu estive naquele maldito lugar desde meus 6 anos.
– Não era um orfanato normal, suponho eu.
– Claro que não era. As experiências que eles faziam com todos... – Ele se encarou no espelho rachado, e seus olhos azuis agora ficaram alaranjados. – Não sei como sobrevivi.
– Fala como se tivesse sido torturado.
– E eu fui! – Exclamou Klaus, virando-se para mim e agarrando meus ombros. Um sorriso largo se abriu em seu rosto. Seus olhos se arregalaram. – Eu fui torturado desde meus 6 ano! Mas não mais. Matei a todos. – Ele começou a rir, muito alto. – Matei até mesmo meu pai!
– Você é louco! – Exclamei, empurrando-o para trás. Ele tropeçou no próprio pé e caiu. No instante que ele tocou o chão, seus olhos voltaram a ser azuis. Seu sorriso se fechou, e Klaus ficou olhando a mim.
– Talvez eu seja... – Murmurou, olhando para si mesmo. – Me desculpe, Franklyn... Não queria ter dito isso. Sofro com dupla personalidade.
– Ah... – Eu o encarava. Talvez ele fosse mesmo louco, ou sua outra personalidade fosse. Caminhei até ele e o ajudei a se levantar. Ele me encarou. – Mas aquilo que você disse é verdade? Que você matou a todos?
– Eu... Eu não sei. – Seus olhos estavam vazios, como se estivesse tentando se recordar de tudo. – Não me lembro. – Klaus levou sua mão à cabeça e gemeu.
– O quê foi? – Perguntei, confuso.
– Nada... Só uma dor passageira. – Respondeu, ainda com a mão na cabeça. – Tenho isso desde criança.
– Então não é passageira.
– Que seja. – Murmurou, e ele me encarou. Seus olhos ficaram alaranjados novamente. – Nos vemos por aí, Franklyn.
– Como assim? – Perguntei, mas ele caminhou até a parede do fundo do banheiro.
– Vamos nos encontrar novamente, no futuro. – Ele virou-se para mim e voltou a abrir aquele sorriso psicótico.
Então, a parede atrás dele se abriu, mas sem fazer nenhum barulho. Eu me assustei e cambaleei para trás, caindo sentado no chão. Ele voltou a rir, e atravessou o buraco na parede, e então percebi que não era um buraco, e sim um portal. Um portal com a borda alaranjada, na mesma cor que os olhos de Klaus. Quando o atravessou, o portal se fechou.
Fiquei cerca de um minuto sentado ali, tentando compreender o que eu havia visto. Levantei-me, e caminhei até a parede. Eu a toquei, mas nada aconteceu. Tentei empurrá-la, chutá-la, até mesmo refiz tudo o que Klaus fez ali no banheiro (desde abrir a torneira até ele se levantar do chão), mas continuei sem resultado. Foi então que percebi uma coisa, que me deixou mais assustado ainda.
Como Klaus sabia meu nome, se eu não havia falado para ele?
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