Notas iniciais
Criticas, sugestões e opiniões serão sempre bem-vindas, desde que feitas com educação.
Espero que goste da leitura.

O quente clima daquela ilha incomodava os não habituados, ainda mais na hora de dormir, ter uma boa noite de sono era quase impossível. Mas para os moradores de Tassos aquilo era cotidiano e em nada os atrapalhava, e isso era algo ainda mais claro tendo em vista aquela criança, que dormia tranquila e pesadamente mesmo com o calor.

— Emrys,... Acorde, Emrys.

Emrys acordava lentamente, os raios de sol que atravessavam a janela ao lado de sua cama só pioravam a visão turva que ele normalmente tinha ao acordar tarde, ele não pôde enxergar muito bem quem estava acima dele, mas era impossível não reconhecer aquela voz e os cabelos longos e cacheados fazendo cócegas em seu rosto.

— Só mais cinco minutos, mãe — pediu Emrys.

— Nada de "só mais cinco minutos", já está tarde e eu estou de saída. Não quero que você fique dormindo.

Como alguém poderia falar com ternura e autoridade ao mesmo tempo?

— Para onde a senhora vai?

— Estou indo para os arredores da cidade, só vou colher algumas uvas e voltar, não devo demorar. — Ela disse já caminhando em direção a porta.

— Tudo bem, já vou levantar, mas quero ir com você.

— Dessa vez não, fique em casa e se vista. Eu já estou saindo. — Respondeu, já fechando a porta atrás de si.

"Nossa, ela parecia com pressa" pensou Emrys surpreso, ainda olhando para a porta "bem, mesmo contra a vontade dela, que tipo de filho eu seria se não a ajudasse? Mas pra isso não posso deixar que ele me veja, é claro". Com um sorriso no rosto e esfregando os olhos para limpá-los, Emrys vestiu uma camiseta azul e uma calça escura, calçou seus sapatos e saiu apressado de casa.

Já acostumado a correr por aquelas ruas irregulares, não demorou muito para Emrys encontrar e reconhecer a mãe de longe, usava uma camiseta branca ,e uma longa saia preta com flores desenhadas e segurando uma pequena cesta. Emrys a observava de longe caminhar calmamente, mas por vezes ela parava para conversar com alguém que a chamava. Nesses momentos ela simplesmente olhava para trás e por vezes Emrys quase foi visto.

"Desse jeito ela pode acabar me vendo. Mesmo sendo um caminho mais longo acho que não me resta escolha a não ser ir pelo porto" Pensou Emrys, mudando o caminho.

O porto, e as ruas que levavam em direção a ele, eram uma das coisas mais bonita daquele lugar. Casas feitas uma do lado da outra eram apertadas em largura, mas compensam em altura, sendo que quase todas possuíam dois andares, além das cores fortes e vivas que contrastava com o horizonte azul-escuro do mar se encontrando com o azul-claro do céu. Emrys sempre corria por aquelas ruas em direção ao porto para se sentar em qualquer mureta e assistir a movimentação das pessoas, o pôr do sol e se perder em seus pensamentos. Enquanto se aproxima do alto barulho das vozes no porto ele começou a lembrar de como sua mãe parecia agitada mais cedo e quando foi a última vez que ele havia a visto assim. Já fazia alguns anos: Emrys e sua mãe sempre viveram sozinhos, o pouco que ele já ouviu de seu pai foi em uma noite quando mexia em um baú velho. Lá ele encontrou uma adaga com um leão entalhado em seu cabo, mas antes mesmo de conseguir perguntar a sua mãe sobre aquilo ela a tomou de sua mão e gritou para que ele nunca mais mexesse em suas coisas. Não era a primeira vez que levava uma bronca (afinal de contas ele não era exatamente "comportado"), mas foi a primeira vez que ele viu a mãe gritar daquele jeito e não conseguiu evitar que seus olhos se encherem d'água, a mãe vendo aquilo guardou a adaga de volta ao baú e tomou Emrys no colo.

— Aquilo era do seu pai, ele a deixou comigo para quando voltasse. — Agora era nos olhos dela que as lágrimas começavam a surgir. — É incrível sua semelhança com ele, os olhos escuros, a pele morena e até mesmo o cabelo é parecido.

Emrys nunca viu a mãe daquele jeito e ficou sem reação ao vê la chorar, mas como ela mesma falava "O sorriso mais belo, é aquele que brota depois de uma lágrima"

— Mas não o conheci quando criança e não sei se ele era tão magro como você é agora! — Ela terminou, enquanto fazia cócegas em Emrys e ambos riam. Desde então ele nunca mais perguntou de seu pai, de modo que isso também nunca o incomodou muito, sua mãe era mais do que o necessário para ele.

Estranho essas lembranças lhe voltarem agora, mas isso não importava, ele deveria se apressar para conseguir atravessar o porto e encontrar sua mãe. Porém foi interrompido em sua corrida quando atingiu algo e caiu de bunda no chão.

— Aí, tome mais cuidado por onde anda — disse Emrys para uma grande figura encapuzada. O homem usava um sobretudo musgo com uma toca que lhe cobria da cabeça aos os olhos, porém Emrys conseguiu ver seu rosto.

— Leandro? Ei finalmente você voltou, eu e minha mãe já estávamos nos perguntando se havia acontecido alguma coisa. Como você está? – Emrys perguntou.

Leandro era um homem bem alto, com braços fortes, cerca de 30 anos, pele morena, uma barba negra que lhe cobria toda a lateral do rosto até o queixo e completamente careca.

— Ha ha, se não é o pequeno Emrys! Vejo que depois desses três anos já não é mais tão pequeno assim não é?, Ha ha ha.

— Ainda ficarei maior e mais forte que você Leandro, só não quero ficar careca.

— Ha ha ha, vejo que continua com a língua afiada, apenas sua mãe mesmo para lhe controlar. Falando nela, onde ela está?

Como que se acabasse de lembrar o que estava fazendo, Emrys deu um pulo para o lado e voltou a correr enquanto gritava sobre o ombro.

— Acabei de lembrar que estava seguindo-a, ela vai para os campos colher uvas. Nos vemos depois, Leandro. – E antes que Leandro tivesse tempo de dizer qualquer coisa, Emrys sumiu pelo meio da multidão.

Desviando de turistas, vendedores e mais todo o tipo que gente que era possível de se encontrar num porto, Emrys correu por mais cinco minutos até finalmente sair do porto. Tassos já foi uma ilha muito rica, com boas minas de mineração de prata, mas após anos de confronto entre as cidades gregas e persas, acabaram perdendo seu status econômico, entretanto hoje a ilha vive tempos de paz, então não possui nenhum tipo de divisão entre a parte urbana e rural da cidade. As casas começavam a ficar mais rústicas e afastadas uma das outras até finalmente somente uma trilha de grama e pedras em meio às árvores definir o cenário ao redor. A trilha seguia em direção ao centro da ilha levando para as vieiras no alto de um monte. Emrys não soube dizer se a mãe já havia passado por ali ou não, cauteloso ele se escondeu entre as árvores e caminhou enquanto olhava para frente e para trás procurando por ela.

De repente ouviu um barulho a sua frente, seguindo o som novamente ele encontrou a pessoa que procurava, caminhando apressadamente, já subindo o monte. A subida apesar de larga não possuía muitas árvores em seu percurso, fazendo Emrys ter que tomar alguma distância e também usar de arbustos e rochas para se esconder. Sua mãe olhava eufórica de um lado para o outro, como se estivesse procurando algo perdido, mas não encontrando nada ela bufou em desistência e seguiu para a pequena vieira que ficava a poucos metros da beirada do monte, onde a vários metros abaixo corria um pequeno riacho.

Emrys estava concentrado em sua mãe, não prestando atenção em nada ao seu redor. Algo que ele se arrependeu quando um calafrio correu por toda a sua espinha e o paralisou por alguns instantes, tempo mais que o suficiente para que a sombra que acabara de passar por ele começasse a ficar cada vez maior.

Uma Águia começava a circular os arredores. E sem pensar duas vezes Emrys gritou.

— Mãe. Cuidado!

Sua mãe surpresa em ver o filho correndo em sua direção e assustada com a sombra se aproximando pelo céu, se jogou no chão tentando se defender.

Emrys havia saído em disparada por puro instinto de proteção, mas não fazia idéia de como proteger sua mãe, e agora, a si mesmo daquela águia. Enquanto ele corria avistou aos seus pés algumas pedras que podiam ser arremessadas no animal.

E assim o fez.

— Saia de perto dela! – berrava com certa bravura e ao mesmo tempo certo temor, que já enchiam seus olhos d’água, mas aquele não poderia ser o momento para chorar. Atirou duas, três ou quatro pedras por vez, mas as poucas que atingiram a águia não pareciam criar mais que um pequeno incômodo ao animal, que continuava a sobrevoar eles.

—...Criança insolente... –

Nesse momento, uma voz grave, porém baixa, e aterrorizante veio juntamente com uma sensação que Emrys nunca havia sentido, algo frio, denso e repleto de uma escuridão indescritível. Ele não soube dizer o que era aquilo a princípio, mas inconscientemente qualquer ser vivo saberia o que era aquela sensação... Era a morte. Aquilo fez com que a pobre criança caísse de joelhos com os olhos vidrados e o corpo tremendo.

— Não! – Sua mãe gritou, agora tomando consciência da situação se levantou e correu na direção de Emrys. Pulou para cima de seu filho tentando protegê-lo, porém a águia era ainda maior e mais forte do que aparentava. Em um pequeno rasante e com um simples toque de suas garras fez com que a carne acima do ombro da mulher se rasgasse, um denso filete de sangue espirrou a fazendo gritar de dor. E com um simples girar e bater de asas fez com que cachos de uvas, areia, terra e pequenas pedras saíssem voando em direção ao penhasco, junto de Emrys e sua mãe.

Emrys com um corpo menor, e com isso mais leve, acabou sendo jogado mais forte que sua mãe, e quase caiu do penhasco, contudo sua mãe com o braço que ainda estava bom o agarrou. Agora a única coisa que separava o corpo ainda em choque do garoto da queda, era a mão de sua mãe.

— Emrys, suba! — Ela gritou, mas ao olhar para o rosto de seu filho viu que ele permanecia estático, ela teria que puxá-lo.

Enquanto isso a águia apenas levantava voo novamente e rodeava aquela cena grotesca. Havia algo de estranho com aquele animal, parecia ter consciência do que estava fazendo, e agora estava determinado a acabar com aquilo.

Mas não havia tempo para prestar atenção ao redor, ela tinha que ser rápida e puxar o seu filho, antes que o pior acontecesse.

Depois de tudo isso Emrys começava a recobrar a consciência, e apesar de estar com o corpo meio dormente e a cabeça doendo muito, percebeu que estava suspenso no ar sendo segurado pelo braço por alguém ou alguma coisa. Ao olhar com sua visão ainda turva viu que uma mão o estava segurando pelo pulso, uma mão que ele sabia ser de sua mãe.

— Mã ... e – Emrys disse, com todo esforço que seu corpo lhe permitia fazer.

— Vai ficar tudo bem Emrys, vai ficar tudo bem.

Essas foram as últimas palavras que escutou dela.

Sentiu algo molhado em seu rosto, não eram gotas de sangue de sua mãe, e sim lágrimas. Sua última visão foi sorriso dela, com lágrimas passando por aquele afetuoso gesto, que para ele era o maior sinal de amor do mundo e a maior demonstração de que ele estava seguro.

Mas também havia algo que tirava sua tranqüilidade naqueles últimos instantes, a figura que estava de pé no penhasco ao lado de sua mãe, o contorno de um homem, imóvel, como se estivesse apenas assistindo a uma bizarra apresentação.

E então Emrys caiu, mas não porque a águia o havia atacado, mas a mão que o segurava simplesmente o soltou. E aquela figura permanecia parada, apenas observando. Enquanto despencava, aquela horrível sensação novamente voltava a tomar conta de seu corpo, fazendo com que sua visão novamente ficasse escura. Naquele estado era impossível até mesmo sentir a queda, era como se ele estivesse apenas em um pesadelo, imóvel e sem reação. Mas antes que ele apagasse por completo ele ouviu um grito, achou que poderia ser seu devido à situação: era uma voz feminina, era o grito de sua mãe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.