Notas iniciais
Parte dos americanos ainda acreditam que os EUA venceram a Guerra do Vietnã (Guerra Americana, para os vietnamitas) mesmo que nem ao menos saibam os motivos por trás do conflito.

Corram. O caminhão ainda se arrasta pelo terreno lamacento quando os primeiros homens tocam o solo. Zumbidos vindos de longe abrem buracos no encerado que cobre a caçamba apinhada de jovens sedentos por glória. O cheiro de sangue se faz presente. Corram. Armas em punho e espanto nos rostos. Jovens do Tenesse, sonhos do Texas, esperanças de uma pequena cidade do Alabama. Chafurdam na lama, reduzidos a um estado quase inumano. Lutem. Armas são o que são. Um toque e rajadas quebram o silêncio rural de mais um país. Terroristas ou revolucionários? Atirem. Anarquistas ou inocentes? Matem.

Reduzidos à engrenagens defeituosas de um holocausto. Guerras são o que são. Erros transformados em certezas vermelhas. O medo sobrejugado pelo poder. Jogos infantis levados às últimas consequências. Na ânsia de esquecer setembro, ele nunca termina.

Vantagem numérica é o grande trunfo. Cada soldado mata dez inimigos antes de perecer. Onze vidas ceifadas. Mate dez e morra como herói. Nove corpos e morra como covarde. Calouros heróis de Nova York, covardes inúteis da capital.

Ande. Atire. Conte até dez e já pode morrer. Botas seguiram seus passos. Aliados, inimigos ou até antigos amigos. Conhecidos e desconhecidos. Velhas idéias com sangue novo.

Se a coragem faz soldados, o medo os transforma em assassinos. E é isso que queremos. A boa e velha violência sobrejugando tratados de paz, mentiras juramentadas em papel timbrado. O medo da paz armada abre espaço para a certeza da guerra. Homens se matam em tempos já determinados. Hoje são nossos jovens. Amanhã, às crianças. Sangue continuará correndo e escorrendo nos campos, nas ruas, nas casas. Em nossas almas. A paz mais perto e, ao mesmo tempo, mais longe, a cada tiro disparado. A cada vida salva e, consequentemente, ceifada.

Se arrastem pelos corpos. Sintam o cheiro pungente das histórias brutalmente finalizadas. Jovens e histórias com inícios diferentes e fins iguais, sem ao menos um meio para interliga-los.

E assim seguimos. Matando recrutas, fabricando heróis póstumos nesse embate de forças desmedidas. As mortes são o que são. Apenas atirem. Corram. Matem e morram. Apenas os muito corajosos, ou igualmente tolos, pensam. E esses morrem primeiro. Precisamos de covardes. Corajosos questionam, se rebelam, buscam sentido. Os covardes apenas matam e morrem. Voltem para suas casas. Sejam venerados por suas feridas e insanidades. Coragem e covardia são distorcidos e trocam de lados. Covardia é estimulada e coragem reprimida.

Seguimos criando novos setembros. Seguimos com os mesmos atos esperando que o próximo dia 11 seja diferente. Mas nunca é. Tudo se repete. O sangue e a vergonha continuam os mesmos. Damos de ombros e seguimos com medo, real ou imaginário, que outubro traga algo pior.

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