Guerra
1 Nome
Quando Blake viu o homem no topo da colina, sua curiosidade falou mais alto. Os sons de tiros e explosões ecoavam, deixando aquele crepúsculo ainda mais aterrador. O céu tinha uma coloração ligeiramente púrpura, e a vegetação rasteira se movia discretamente por causa da brisa. Blake tinha perdido uma aposta com seus amigos, e teria que tirar uma foto da cidade em guerra do topo daquela colina. Todos aos 14 anos, no ápice da adolescência, não faziam idéia dos riscos de ir a um local como aquele. E Blake realmente estava a ponto de desistir, até ver o homem. Ele usava uma jaqueta negra com um desenho de uma espada nas costas, seus cabelos eram longos e quase tão negros quanto a jaqueta e a calça. Olhava para a cidade.
— Senhor...? — Perguntou o adolescente receoso, se aproximando lentamente até ficar ao seu lado. Em sua mente, apenas havia uma pergunta: Quem era aquele homem? — O que está vendo?
— A guerra. — Respondeu ele se virando para o garoto com uma expressão séria. Seu rosto não aparentava ter mais de 30 anos, apesar de algumas cicatrizes em certos pontos. — E você?
— Perdi uma aposta. Tenho que tirar uma foto da cidade daqui.
— Não tem medo de ser atingido por uma bala ou coisa pior?
— Tenho.
— Então mande esses seus amigos se fuderem e volte. — Não era um tom de censura ou feliz. Era compreensivo. Aquilo tirou parte da tensão do garoto.
— Se me permite perguntar, o que o senhor vê demais na guerra?
— A estupidez humana.
— Então eu não sou o único... — O homem olhou para o adolescente com uma curiosidade contida no olhar. Ele se apressou para explicar: — Não acho que guerras deveriam existir. Você só vê elas causando sofrimento. Se pessoas conseguem inventar coisas tão incríveis quanto a internet, eletricidade e computadores, como não conseguem chegar em um acordo sem matarem inocentes no processo?
O homem riu. A risada parecia descer, atravessando a pastagem a as árvores e chegar na cidade. Ele olhou para o garoto de súbito, com uma expressão dura, e disse:
— Vou te ensinar umas coisas valiosas garoto, e não vou repetir, então preste atenção: Humanos tem o péssimo hábito de quererem ser melhores que os outros. Isso nunca vai mudar. Sempre vai haver um babaca que vai meter ideais falsos na cabeça de vocês para que lutem. Ou alguém com uma sede por poder muito grande para ser saciada por pequenos atos. Basicamente, enquanto os humanos existirem, guerras existirão.
— Eu ainda acredito que um dia todos os humanos consigam chegar num acordo. — Disse Blake com ingenuidade.
— Tocante e estúpido. — Respondeu o homem com rispidez. — Veja bem, humanos são diferentes. Tem crenças diferentes. Ideais diferentes. Isso os fazem lutar por razões diferentes. E as vezes as razões se contradizem, gerando discussões e lutas de pessoas diferentes. E essas lutas ganham proporções maiores. Assim nascem as guerras.
— Mas por que as pessoas não procuram resolver suas diferenças de maneira civilizada?
— Blake, sua mentalidade não é nem suficientemente desenvolvida para perguntas matemáticas, quanto mais perguntas existenciais. Um dia você vai se perguntar sobre essas coisas. Daqui a alguns anos, não sei quantos. Quem sabe não podemos ter uma conversa melhor nesse futuro.
O adolescente agora se afastava alguns passos, abismado.
— Eu não te disse meu nome...
— Durante a guerra, ninguém é poupado. Não importa a religião, a força, a capacidade, a família, o nome... A guerra não tem alvos. A guerra tem vítimas. Ela não se importa com elas, não se importa com a dor e a morte causada, muito menos a miséria e a fome. Acha mesmo que seu nome faz diferença agora, Blake? Você pode correr, mas não pode se esconder. Não de mim.
O garoto caiu sentado a alguns metros do homem, quase molhando as próprias calças e com lágrimas nos olhos. Medo. O homem emanava o medo em sua forma mais pura. Não...Não era possível ser um homem. Era algo a mais. Mesmo tremendo, Blake conseguiu articular uma última pergunta:
— Quem é você?
O homem sorriu e apontou para a cidade. Por um momento, os dois se encararam, com os tiros e explosões sendo o único som ecoando.
— É o melhor nome que pode me dar.
Ele se virou e começou a andar em direção a cidade, lentamente. Blake se levantou quando ele estava a quase dez metros de distância, e viu a cidade: Prédios destruídos, chamas tão altas que alcançavam os céus, e os gritos. O homem disse em um tom alto o suficiente para ele ouvir de onde estava:
— Eu não sou maravilhoso?
Nunca Blake contou essa história para qualquer um. E nunca mais viu o homem. Não pessoalmente. Viu diversas manifestações dele ao longo do tempo. Foi só depois de um ano que aceitou o fato de que sabia o nome dele. Por que?
Porque seu nome era Guerra.
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