Guardiões
26 Murchando.
Acordei sobressaltada pelo berro histérico de uma criança em seguida o barulho de uma porta batendo atrás de mim. Não tinha a menor ideia de onde estava e uma dor de cabeça lancinante parecia que iria rachar meu crânio ao meio. O pior era a sensação de está esquecendo alguma coisa e não saber o quê.
Olhei em volta tentando me localizar. Aquela rua era familiar. Estava sentada no beiral da porta Do orfanato em que vivo. Ouvi mais uma vez a porta dessa vez rangendo ao ser aberta.
— O Jesus Salvador! Elizabeth querida onde esteve esse tempo todo? – Ainda meio grogue ergui a cabeça encontrando as feições rechonchudas e enrugadas da senhora Allen. – Lizie querida. O que aconteceu? Onde esteve? – Levantei desajeitada enquanto os braços da mulher de meia idade sustentava-me e guiou-me para dentro.
— Eu... Saí daqui? — Franzi o cenho confusa.
— Oh Céus! Você não lembra? Você desapareceu sem deixar pistas. Procuramos por meses; mas parecia que Elizabeth Aan Turner havia evaporado.
— Por quanto tempo... — Sentei em uma das poltronas acolchoadas de seu escritório sentindo-me tonta e fraca. — Fiquei desaparecida?
— Quase dois anos.
— Céus! — Exclamei em pânico.
Minhas lembranças estavam um caos não tinha a menor ideia de onde estive e nem como voltei. Era como se houvesse uma parede impedindo que eu acessasse minhas memórias a sensação era angustiante.
— Calma querida. Vai ficar tudo bem. – A senhora afagou meus cabelos ternamente. Essa simples afirmativa me atingiu em cheio como se significasse mais do que conseguia lembrar. Dentro do meu peito senti uma pontada incomoda e uma vontade súbita de chorar. — Venha, descanse um pouco mais tarde quando estiver mais calma conversaremos. Apenas assenti ainda tentava forçar minha memória a dar as respostas que precisava foi um esforço inútil.
Guiada pelo braço dela em minha volta subi para o segundo andar cambaleando, lá havia várias portas entre abertas por onde olhinhos curiosos nos viam passar. Paramos em frente a uma no final do corredor.
— Está da mesma maneira que deixou. — Ela abriu a porta revelando um cômodo pequeno, mas arrumado. Havia uma cama de solteiro quase encostada a janela uma cômoda simples e uma escrivaninha.
Sobre a comida três porta-retratos enfeitavam o móvel. Sentei na cama sentido-me esgotada.
— Se precisar de algo só basta chamar.
— Obrigada senhora Allen. — A diretora do orfanato saiu me deixando sozinha.
Deitei na cama e fechei os olhos. Gradativamente o incomodo no peito se tornava cada vez maior. Transformando a se em um buraco pulsante e dolorido como uma ferida aberta. Mais uma vez senti vontade de chorar sem saber o porque.
Três dias após meu aparecimento repentino nada havia melhorado, era justamente o contrário. Não via graça em mais nada... Era como se minha vida tivesse perdido as cores. Mesmo o pouco sol que a nublada Londres possuía não conseguia me aquecer. Sentia-me vivendo em um eterno inverno monocromático.
Acho que “viver” não é a forma correta de definir minha existência atualmente. Existo, mas não vivo é a melhor definição. No dia seguinte a minha chegada a senhora Allen trouxe o psicólogo que faz visitas periódicas aos órfãos recém-chegados para tentar descobrir o que há comigo.
O médico fez um monte de perguntas que já nem lembro mais e me diagnosticou com estresse pós traumático. De acordo com ele algum trauma fez com que bloqueasse as lembranças. Segundo ele muitas pessoas conseguiram se recuperar com o tempo.
Essa noticia me animou por alguns segundos. Mas logo a dor afastou esse pequeno contentamento. Queria saber qual o motivo para está dessa forma. Era como se uma peça importante de mim houvesse se desprendido e não soubesse onde foi parar.
Arrastei-me para fora da cama sentia-me meio entorpecida e febril. Continuava tão cansada quanto ontem à noite quando deitei para dormir. Encarei-me no espelho, meu reflexo abatido. As olheiras escuras debaixo dos olhos evidenciavam a péssima noite de sono. Mais uma vez o pesadelo que vinha me perturbando desde que retornei era o responsável.
Gostaria de saber o que esse sonho significa. Noite após noite me via parada em uma imensidão nevada, o vento gélido rugindo ao meu redor. Olhava em volta procurando por algo e a minha frente via uma silhueta afastando-se. Não conseguia ver quem era, mas sentir que tinha que impedir sua partida; porém mal conseguia sair do lugar, pois minhas pernas pareciam pesar uma tonelada. Não importava o quanto corria não conseguia alcançá-lo. Era assim até acordar suando frio e tremendo e com a dor no peito ainda maior.
Sacudi a cabeça e engoli a vontade de chorar que ameaçava submergir mais uma vez. Tomei banho sentindo a água cair sobre mim como se fossem agulhas aumentando assim meu suplicio diário. Arrumei-me sem prestar atenção no que estava vestindo e finalmente desci. A maioria das crianças e adolescentes que vivam no Orfanato Sant Louis já haviam saído para a escola. Sentei sozinha no refeitório obrigando-me a comer.
O cheiro dos ovos com bacon que anteriormente fazia-me salivar agora embrulhava meu estômago. Remexi com o garfo o conteúdo do prato antes de levar à primeira porção a boca. Mastiguei sem sentir realmente o sabor do meu café da manhã. Tomei um gole do suco para ajudar a comida descer.
Sabia que deveria fazer algo para sair de névoa de letargia que anuviava meus sentidos e pensamentos; no entanto, havia um problema. Não queria fazer nada a respeito disso. Não tinha forças para nadar contra a maré, era mais fácil ser levada por ela.
— Como está se sentindo? — A Senhora Allen arrastou a cadeira ao meu lado e sentou. Seus olhos claros sondavam-me com atenção.
— Melhor. — Era uma grande mentira e ela sabia disso, pois espalmou a mão sobre minha testa, a face enrugada transbordava preocupação. — Como posso ajudá-la hoje?
— Tem certeza Elizabeth? — A senhora franziu os lábios desgostosa. — Pode descansar pelo tempo que precisar.
— Não. — Neguei com a cabeça. — Preciso sentir-me útil. — Não estava tentando enganar a senhora que me olhava preocupada, estava tentando enganar a mim mesma. Aparentemente falharia miseravelmente. — Tudo bem. — Ela suspirou. — Preciso deixar umas correspondências nos correios, mas tenho que preencher a papelada dos novos órfãos.
— Posso ir agora, se a senhora quiser. — Forcei um sorriso, tenho certeza que pareceu uma careta do quê qualquer outra coisa.
— E o seu café?
— Já acabei. — Não conseguia comer mais nada, temia colocar o conteúdo recém adquirido por meu estômago para fora.
— Se é assim... Venha comigo.
Deixei minha reeleição meio comida para trás e segui a diretora do orfanato até seu escritório onde me entregou as correspondências e o dinheiro para fazer o registro delas.
Assim que coloquei os pés na rua. A falsa confiança de alguns minutos atrás foi pelo ralo. Andava de vagar quase arrastando os pés parecia uma repetição real de meu pesadelo. Se continuasse com esse ritmo só iria chegar aos correios no natal. Peguei um ônibus e rumei para o centro. Sentei-me em um dos últimos bancos suspirei e desliguei-me de meus pensamentos estava começando a ficar com dor de cabeça.
Por pouco cometi a proeza de perder meu ponto de parada. Caminhei por mais meia hora antes de chegar Ao meu destino, esbarrei em algumas pessoas mais distraídas do que eu pelo caminho. Todas presas em seus próprios mundos para parar e se desculpar.
Nos correios deparei-me com uma fila interminável, suspirei sabendo que perderia boa parte da manhã ali. Peguei uma senha eu era a de numero 180, haviam chamado a de número 100 ainda. Não tinha saída teria que me conformar e espetar. encostei em um pilar observando a diversidade de pessoas esperando para serem atendidas.
O que mais chamou minha atenção foi o fato de ver idosos de pé enquanto pessoas mais jovens os ignoravam para não ceder o lugar. Em meu estado melancólico questionei-me se ainda havia gentileza nesse mundo ou se estávamos fadados a ficarmos cada vez mais egoístas e insensíveis.
Pouco a pouco as senhas eram chamadas e o lugar parecia não esvaziar temia ficar claustrofóbica a qualquer momento. Quase fiquei feliz ao ser chamada para ser atendida. O processo de registro e envio das correspondências foi ainda mais enfadonho do que a espera interminável pelo atendimento. Assinei meia duzia de papéis antes de poder pagar tudo e finalmente poder ir embora daquele lugar. Acho que nunca mais conseguiria entrar naquele estabelecimento outra vez.
Ao retornar para o orfanato parei em frente em uma loja de música. Lembrava que costumava parar aqui todas as vezes que vinha para o centro e ficava admirando os instrumentos ali expostos. Sempre tive vontade de comprar um violino e aprender a tocá-lo, passava horas olhando para aquela vitrine me imaginando tocar. Dessa vez isso não aconteceu, nem mesmo a visão de meu objeto de desejo conseguiu levantar meu animo.
A voltar para casa fora tão maçante quanto a ida quase fiquei contente com a perspectiva de refugiar-me em meu quarto debaixo de minhas cobertas quentinhas e ficar por lá para o resto da vida. A vida não tinha mais sentido e não queria mais sofrer por isso.
Ao descer do veiculo vermelho rumei para casa estava exausta como se houvesse corrido uma maratona. Apressei-me a alcançar a faixa de pedestres o último obstáculo que me separava de casa. Porém, Ao fazer isso ouvi uma buzina estridente a minha direita assustando-me. Olhei assustada vendo um carro vindo em minha direção e estava perigosamente. Tardiamente percebi que não havia visto que o sinal estava fechado para os pedestres. Minhas pernas travaram no lugar, estava apavorada demais para reagir. Minha falta de atenção me custaria caro e talvez não vivesse para contar a história.
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