Guardião
7 Alguma coisa maligna
Notas iniciais

Julia entrou na casa furiosa. Willa estava sentada no sofá quando viu a filha gritando com Bruno. Os dois discutiam severamente, como a mãe nunca tinha visto na vida.
— O senhor não tem o direito de fazer isso comigo! — a garota falou — Eu não sou mais uma garotinha, droga. Eu tenho dezoito anos e não pode controlar com quem eu saio ou não.
— Enquanto você ainda estiver sob o nosso teto, você vai obedecer ao que eu e sua mãe mandar, Julia — Bruno retrucou.
— A senhora concorda com isso? — os olhos azuis estavam marejados de lágrimas de raiva. — Concorda que deve ter um rastreador em meu celular ou que é melhor vocês escolherem minhas amizades?
— Nós amamos você, Julia, mais do que você possa imaginar — Willa se pronunciou.
— Só pedimos para que se afaste desse garoto — o pai completou.
— Ele ajudou a nossa família. Foi ele que impediu que o Bill desse um golpe no senhor e mesmo assim o odeia ao ponto de machucá-lo? Eu nunca vou perdoar o senhor pelo que fez ao Dylan hoje. Pode escrever minhas palavras.
— O que você fez com o rapaz, Bruno? — Willa perguntou.
— Ele o esmurrou, mãe. O agrediu em plena praça, só porque estávamos sentados em um banco e conversando.
— Você não fez isso — a mãe olhou para o marido. Expressava tremenda reprovação pela atitude.
— Vai ficar contra mim? Nossa filha estava em Boston com ele.
— Boston é ali do lado, Bruno — Willa comentou alterando um pouco a voz — E ela estava com Dylan. Ele pode protegê-la e você sabe disso.
— Não acredito que você está dizendo isso, Willa. Justo você que sempre o culpou pelo que aconteceu.
— Pessoas mudam — ela comentou e o homem franziu o cenho — Porque culpamos o Dylan por machucá-la se somos nós que estamos fazendo isso perfeitamente bem? — a mulher a abraçou, seguindo com ela para o andar de cima. Não esperou a resposta do marido, porque sabia que estava certa e que não havia como ele responder. Levou a filha até o quarto e a fez deitar-se na cama. Marie e Tina não estava em casa. Tinham ido ao shopping com as novas amigas.
Willa lhe acariciou os cabelos vermelhos enquanto Julia chorava e molhava o travesseiro com as muitas lágrimas.
— O que sente por esse rapaz, Julia? — perguntou, ainda lhe fazendo um carinho.
— Não sei, mãe — respondeu respirando fundo para que parasse de soluçar. — Eu gosto da companhia dele e gosto de como ele me conhece e me trata. Me sinto bem quando estou com ele, sabe? Não pareço sequer comigo mesma quando Dylan está ao meu lado. Me sinto viva e livre.
— Isso é porque você o ama — Willa constatou. — Sempre foi assim, antes mesmo que pudesse esquecê-lo. Você costumava cantar, enquanto me ajudava na cozinha, e o sorriso nunca saia do seu rosto quando o encontrava. Dylan sempre te fez bem. Não importa se foi nessa vida ou em outra, ele sempre causa esse efeito em você.
— Como assim “nessa vida ou em outra”? Eu não entendi.
— Nossa família diz que temos duas vidas: uma antes do acidente, que quase matou você, e uma depois — explicou e a garota assentiu —, mas o que nos preocupa, meu amor, não é o Dylan. É o Bill.
— O que eu tenho a ver com o Bill?
— Você acha que Dylan o teria traído se não fosse por você? Ele entregou a própria família porque te amava — Willa abaixou a cabeça por um tempo, observando as suas próprias mãos. A ruiva sentou-se na cama, encostando na cabeceira, antes que a mãe começasse a chorar. — O nosso medo é que Bill queira descontar em você. Ele é um homem mal, Julia, e não teria nada que o fizesse parar se quisesse se vingar. Temos medo que ele consiga te tirar de nós e por isso pedimos tanto que se afaste de Dylan.
— Dylan jamais me entregaria ao irmão, mãe.
— Eu sei que não, mas o que impede que Bill o encontre? Se você estiver com Dylan na hora, não sei como seria a reação dele. Ele odeia o irmão pelo que fez e nada o daria mais prazer do que vê-lo sofrer. Nada traria mais sofrimento ao Dylan do que te perder.
— Então não me afastem dele — Julia pediu, abraçando Willa que ainda chorava. — Por favor, mãe. Não faça isso.
— E se acontecer Julia? — Willa desabou-se em lágrimas outra vez, alisando o rosto da ruiva. — O que eu vou fazer se perder você de novo? — Julia franziu o cenho, mas lembrou-se do acidente e sobre ela ter ficado em coma por alguns meses. A culpa foi de Dylan, ele estava ao volante. Acabou que Julia entendeu a preocupação dos pais.
— Não vai me perder de novo. Não se preocupe.
____ ღ ____
Por mais que Bruno e Willa lutassem contra o relacionamento de Dylan e Julia, ele acabou acontecendo e deram o braço a torcer. Eles não estavam juntos como namorados, apenas se conheciam conforme passavam um tempo juntos. Por mais que sentisse uma atração grande pelo rapaz, Julia sabia que só o conhecia há uma semana e que qualquer atitude além de manter a amizade era desesperadoramente cedo demais. Não era tempo o suficiente para acontecer algo mais sério.
Se o rapaz queria vê-la, ele teria que ir até a casa dela e assim foi pelos três dias depois da conversa com a mãe. Dylan frequentou a casa e conheceu Anitta, em uma das noites de cinema dos jovens. Marie e Tina já o conhecia e então foi apenas rápidos cumprimentos e pouca conversa. Mesmo que os pais tenham permitido a aproximação, elas ainda não confiavam nada no rapaz.
Mas isso durou apenas até o terceiro dia. O rapaz sumiu depois disso. Não respondia aos telefonemas e nem as mensagens deixadas no Facebook. Até chegou a excluir sua conta da rede social. Julia foi até a sua casa, acompanhada de Tina, mas não estava. Nem ele e nem a moto. Simplesmente, desapareceu sem dar notícias.
— Aconteceu alguma coisa, Anitta. Eu tenho certeza — a ruiva sentou-se na cama, ao lado da amiga. Ela tinha ido almoçar na casa da garota e depois ficaram um tempo conversando no quarto dela.
— Não deve ter sido nada, Ju — a morena comentou, apertando a mão de Julia. — Dylan só não tem como entrar na internet agora. Não se preocupe.
— Eu queria muito ter essa fé que você tem. Não sabe como a família dele é ruim. E se pegaram ele, Anitta? E se...
— Não pense essa besteira. A moto não estava na garagem, não é? — Julia assentiu. — Então não se preocupe. Ele deve ter saído ou precisado fazer uma viagem com urgência.
— Se ele realmente teve uma viagem para fazer e foi sem me avisar, eu vou ficar muito chateada — a ruiva respondeu, antes que o seu celular tocasse. Percebeu que havia recebido uma mensagem. Sua mãe lhe comprou outro aparelho e garantiu que ele não estava sendo monitorado — Droga!
— O que foi?
— Uma mensagem da biblioteca. Tenho que devolver um livro que peguei na semana passada — suspirou pesadamente.
— Quer que eu vá com você? — Anitta perguntou.
— Eu adoraria, mas sua mãe ainda está doente. Não vou te fazer sair e deixá-la aí sozinha — sorriu e levantou-se — Eu venho para cá quando eu terminar.
— Está bem, mas venha mesmo — pediu. Julia sorriu ao perceber que Anitta tentava imitar os olhos de um filhote de cachorro ensopado pela chuva.
Desceu as escadas e saiu da casa da amiga. Encontrou com Marie saindo de casa e um carro esperando por ela. Haviam mais duas garotas dentro do carro, percebeu que Tina não estava entre elas.
— Para onde você vai? — Julia perguntou. As duas meninas fizeram cara feia, mas a irmã respondeu com um sorriso no rosto.
— Encontrar o time de futebol na lanchonete do Jack. Quer ir? — convidou eufórica.
— Não, mas vocês vão passar próximo da biblioteca?
— Vamos sim, passamos em frente.
— Me dá uma carona? Preciso ir até lá devolver um livro.
— Claro e como você vai voltar? — Marie a olhava com uma expressão que Julia identificou como preocupação.
— Eu dou um jeito. Venho andando, ligo para a mãe ou pego um taxi. Dylan não trouxe minha bicicleta — respondeu entristecendo-se ao lembrar do rapaz.
— Vai buscar o livro que a gente espera aqui — A ruiva assentiu, entrou correndo na casa e subiu as escadas às pressas. Pegou o livro e a bolsa, que havia deixado em cima do criado-mudo, e desceu novamente. Chegaram na biblioteca poucos minutos depois.
Marie pediu para que ela ligasse, caso precisasse, mas Julia disse que havia levado dinheiro. Para não se preocupar. Despediu-se da irmã e entrou na gigantesca biblioteca.
— Boa tarde — cumprimentou a recepcionista — Eu vim devolver o livro que peguei na semana passada — colocou o volume em cima da mesa e esperou a mulher digitar o código.
— Aqui não consta esse livro, senhorita — ela advertiu.
— Deve estar com outro nome. Foi você mesma que me atendeu e fez o meu scan biométrico. Até avisou que hoje era o dia da devolução — Julia pegou o novo celular e mostrou a mensagem para a mulher.
— Realmente. É uma mensagem da biblioteca — constatou. — Façamos o seguinte: a senhorita pode esperar? Vou ver se encontro esse livro nos arquivos impressos. Vai demorar um pouco, mas é a única forma.
— Espero sim — Julia concordou e seguiu para uma das inúmeras prateleiras de livros, quando a mulher a deixou só. Pegou um que era estudado na matéria Governo e seguiu para as mesas. Começou a folheá-lo enquanto esperava o retorno da recepcionista, o que foi acontecer apenas quando já estava escuro do lado de fora.
— Desculpe, mas não encontramos nenhum registro desse livro — ela comunicou. — Sinto muito tê-la feito esperar.
— Tudo bem, mas o que eu faço com isso? — perguntou.
— Para que a senhorita deixe ele aqui, tem que ter todo um tramite para admissão. Então sugiro que leve de volta para sua casa. Deve ser interessante.
— Não tanto, mas obrigada — agradeceu e colocou o livro na bolsa outra vez. Sentiu o telefone vibrar quando saiu e o olhou rapidamente. Dylan estava ligando. Apertou o botão e se negou a atender. Outra vez o telefone tocou e era ele. Julia sabia que não desistiria se não o fizesse desistir. — O fato de não ter atendido a primeira vez é uma mensagem escrachada que diz “me deixa em paz”.
— Onde você está? — perguntou. A voz parecia aflita e tremendamente abafada. Julia podia ouvir o barulho do vento sendo cortado violentamente. Ele estava pilotando.
— Para que você quer saber? Não bastou sumir sem explicação?
— Julia, eu não tenho tempo para isso. Onde, exatamente, você está? — perguntou a segunda vez. A ruiva sentiu os pelos de sua nuca arrepiarem com o tom da voz com que ele falou.
— Biblioteca da escola. Vim deixar o livro que peguei na semana passada — respondeu desconfiada.
— Está dentro do prédio?
— Não, estou saindo — Julia seguia caminhando pelo estacionamento, em direção à rua. — Vou pegar um taxi aqui na frente.
— Julia, me escuta. Volta agora para dentro e me espera lá — comentou nervosamente — Eu estou chegando em três minutos. Me espera dentro da biblioteca, entendeu?
— O que está havendo?
— Eu te respondo quando estiver aí. Agora faz o que eu mandei.
— Está bem — ela comentou.
— Eu amo você — Dylan concluiu, desligando o celular. Julia olhou para o aparelho e o colocou de volta na bolsa. Estranhou a loucura daquela conversa, mas mesmo assim sorriu ao ouvi-lo dizer aquelas últimas palavras antes de desligar. Ele a amava. Virou-se na direção da biblioteca outra vez e foi quando deu de cara com ele.
Os olhos cinza a encaravam sem nem sequer piscar. Os cabelos eram escuros, levemente cacheados e emoldurava o rosto comprido, juntamente com uma barba rala, de uma semana ou um pouquinho mais. Os lábios finos formavam um sorriso lindo, mas com tanta maldade incutida ali que ficava evidente.
William Norton estava diante dela. Julia deu dois passos atrás quando o reconheceu do livro que leu dias atrás.
— Não achei que fosse tão fácil dessa vez — comentou enquanto se aproximava. A fala era tão macia quanto a de Dylan, mas as intenções por trás de toda aquela tranquilidade chegavam a dar calafrios na ruiva. — Onde está meu irmão?
— Bill — foi a única coisa que a garota conseguiu dizer.
— Vejo que o Dylan falou sobre mim. Qual foi a mentira dessa vez? Só não me diga que ele contou a verdade. Não é do seu feitio — comentou, colocando as mãos para trás e encarando a garota com malícia. Julia paralisou. Não conseguia falar absolutamente nada — O que ele falou sobre mim, amorzinho? — perguntou novamente, mas ela não abriu a boca. Afastava-se lentamente, achando que William não havia notado. O homem aproximou-se quando Julia percebeu que tinha espaço para correr. A segurou com força, pelos cabelos, e a trouxe para perto de si. Passou o braço por sua barriga e a imobilizou junto a seu corpo. — Responda quando eu lhe perguntar, vadia. Das outras vezes não tivemos essa conversa agradável.
— Ele me disse que você e o meu pai eram sócios em uma empresa — respondeu e se perguntou se ninguém dentro do prédio estava vendo aquela cena. Eles continuavam fazendo suas coisas como se nada estivesse acontecendo do lado de fora. Um rapaz chegou a deixar o local, mas pareceu que não os viu.
— Dylan está sem criatividade mesmo. Reafirmar a mentira? Ele sabe que isso não deu muito certo da última vez — puxou ainda mais os fios vermelhos.
— Era mentira? — Julia perguntou, sentindo seus olhos arderem por causa das lágrimas que se acumulavam.
— Jamais me uniria a uma raça como a sua. Eu não sou fraco como o meu irmão.
— Deixe-a em paz, Bill — a voz o interrompeu.
— Por falar no diabo... — virou-se, ainda segurando Julia e imobilizando-a. — Dylan, há quanto tempo? Quase um século, se não me falha a memória. Foi em 1923 não foi? Sou péssimo com datas. — Dylan estava logo mais ao longe e encarava o irmão com ódio evidente. Alternava o olhar entre ele e Julia enquanto mantinha sua respiração acelerada. As mãos, cobertas pelas luvas de motoqueiro, estavam apertadas com força. O rapaz beirava a cólera. — Sabe, irmão — essa palavra foi dita com tanto nojo que qualquer um que ouvisse identificaria o asco a cada letra —, por todos esses anos eu tentei entender o que você viu na garota, mas apertando-a contra meu corpo eu posso presumir o que foi. Ela é boa de cama, não é? Te abraçou com as pernas e você perdeu a cabeça.
— Você tem um minuto para soltá-la, William, ou vai morrer lamentando por não o ter feito.
— Cão que ladra não morde, Dylan. Teve mais de duzentos anos para me matar e olha só onde estamos outra vez. A realidade é que você é tão fraco que mal consegue proteger a mulher que ama de sua própria família.
Bill arremessou Julia — com uma força descomunal — em direção a uma árvore onde ela se chocou e caiu no chão arfando. Buscava o ar que lhe faltou com o impacto. A dor do lado direito dizia que ela havia quebrado, no mínimo, duas ou três costelas.
O jovem estendeu a mão aberta na direção do irmão e a fechou com rapidez. William curvou o corpo, sentindo dor, enquanto arfava e forçava a cabeça para encarar Dylan. Quanto mais ele comprimia a mão, mas um gemido excruciante escapava dos lábios do mais velho.
— Sabe o que eu percebi, irmão? — o mesmo nojo estava naquelas palavras — Que a Georgiana não está aqui para te defender. Sabe que sou tão poderoso quanto ela e você não tem chance alguma — William caiu ajoelhado no chão. O sangue escorria de sua boca, antes que colocasse um sorriso maldoso nos lábios vermelhos. Em meio a dor ele gargalhou, permitindo ver os dentes ensanguentados. Dylan o fez curvasse ainda mais, antes que finalmente conseguisse dizer algo.
— Se você... me matar — parou para respirar. — Pode dar adeus ao Thomas.
— Você mente — Dylan respondeu, mas involuntariamente parou de comprimir as entranhas do irmão. — Thomas está morto.
— Acha mesmo que eu iria matá-lo? — o mais velho respirou aliviado quando o rapaz parou por causa do choque. Bill cuspiu o sangue — O garoto é um prodígio. Lembra muito o pai, antes de se rebelar por causa de um rabo de saia — olhou na direção de Julia que se arrastava no chão, para longe.
— Ele morreu há séculos. Você mesmo me disse que ele não era um de nós e por isso o matou.
— Não sou estupido de lhe contar sobre a última cartada que tenho contra você, Dylan. Eu sabia que teria que usá-lo mais cedo ou mais tarde para me proteger.
— Você está blefando.
— Olhe bem dentro de meus olhos e diga se estou blefando, irmão — respondeu e se ergueu do chão. — Estaria disposto a pagar para ver? — Bill ajeitou o terno de linho no corpo e respirou fundo, arrumando seus cabelos outra vez. — Quem você acha que a matou na França? Eu, Charles ou Georgiana? Errou se pensou que foi um de nós. Seu filho fez aquilo, Dylan. Um corte profundo e rápido — ele sorriu. — Embora foi um desperdício, na verdade, mas ninguém é perfeito na primeira vez que mata, não é? Lembra quando foi a sua primeira vez, irmão? Tremia tanto que o corte na garganta da coitada saiu em zig-zag.
— Onde ele está? — Dylan perguntou. As lágrimas nos olhos castanhos se acumulando. Acreditou mesmo que o seu filho, que foi levado ainda com dois anos, estava morto.
— Ah, não é assim que funciona — Bill sorriu. — Nos veremos em breve, maninho. Quando eu voltar, vou querer a vagabunda. Quem sabe não fazemos uma troca? Seu filho por ela. Isso se ele quiser acompanhar o pai desertor — fez um breve aceno de cabeça. — Até lá, Dylan — e, simplesmente, desapareceu.
Fale com o autor