Guardians I - The Divine Stones
16 XVI - The Selk Curse
Notas iniciais

Fomos acompanhados pela alcateia, liderada por Lupa, que nos levaram até o topo da colina, onde havia uma caverna escondida.
Todos os lobos, que não eram poucos por sinal, se afastaram de nós assim que entramos no esconderijo.
A caverna era úmida e quente, e me dava uma sensação claustrofóbica, apesar de ser grande o suficiente para caber todos ali. A escuridão desapareceu quando Kendall usou seus poderes para criar labaredas na ponta dos dedos, iluminando o lugar.
– Preferia o outro esconderijo. – Comentou Teseu ao observar.
Lupa emitiu um som semelhante a uma risada, mas eu não tinha total certeza se realmente era a intenção.
– Não há lugar melhor que Roma, isso eu tenho que concordar.
De repente Logan se mexeu desconfortavelmente ao meu lado, dando a impressão de que havia se lembrado de algo.
– Espere um pouco. – Falou meu amigo, fazendo todos olharem em sua direção. – Você é Lupa? A mesma Lupa do conto de Rômulo e Remo?
Os olhos da loba brilharam ao ouvir aqueles nomes, o que deu a entender que ela os conhecia de algum lugar ou alguma época.
– Exatamente meu filho. – Assentiu o animal com uma voz grave e canina. – Vejo que entende do assunto.
Logan riu.
– Na verdade não muito... – Confessou. – Meu pai vivia contando essa história para mim e minha irmã, mesmo nunca entendendo o motivo, mas ele gostava.
Percebi que a expressão de Lupa mudou, fazendo com que ela caminhasse até Logan, o contornando e sentindo seu cheiro. Ele não entrou em pânico, mas demonstrou surpresa.
– Você é filho de Gary Diamond? – Perguntou Lupa surpresa.
Meu amigo deu um passo para trás sem saber o que fazer.
– Como sabe?
– Você tem o mesmo cheiro que seu pai. – Bob estava quieto em seu canto, mas ele não parava de encarar Lupa, como se estivesse preparado para enfrenta-la caso fosse necessário.
– Você o conheceu? – Perguntou Logan, ainda intrigado com a situação, aliás, todos ali demonstravam surpresa, talvez por conhecer um lobo falante.
Lupa voltou ao seu lugar com passos firmes e precisos.
– Sua mãe também. – A loba olhava para Logan com um brilho no olhar. – Ensinei a eles como controlar a habilidade licantropa deles, assim como todos os outros que nos acompanharam até aqui, embora ainda não saibam como.
De repente tudo se encaixou...
Teseu havia nos levado até Lupa porque sabia como “cura-la” e talvez até mesmo como encontra-la.
– Então você pode ajudar minha irmã? – Perguntou Logan tendo o mesmo pensamento que eu.
Lupa olhou para Teseu em busca de respostas e rapidamente o homem se pôs a explicar o que havia ocorrido.
– Compreendo. – Falou ela assim que ouviu a história atentamente. – Mandarei alguns dos meus filhos atrás de sua irmã, meu jovem. Mas creio que isso levará pelo menos um dia.
– Pode levar o tempo que precisar, contando que a encontre. – Era visível que Logan havia conseguido se acalmar diante daquela situação.
– Vejo que tem um bom coração, assim como seus pais. – Observou Lupa, se virando logo em seguida. – Creio que não tenham um lugar para passar a noite, estou certa?
– Não. – Teseu guardou o arco em suas costas, sem mesmo que eu tivesse notado que ele o estava segurando. – Tinha esperança de que você permitisse a nossa estadia esta noite, se não for abusar muito da sua hospitalidade.
Lupa sorriu.
– Claro que não. – Disse ela. – Estou sempre com as patas abertas para um amigo.
♦
Patrick e Kendall arrumaram um canto naquela escura caverna para que pudéssemos passar a noite, embora ainda fosse cedo.
Acompanhamos Lupa que ordenou que alguns de seus lobos procurassem por Luna. Logan implorou que fosse junto a eles, pois queria ver se sua irmã estava bem e se fosse necessário conversar com ela.
– É arriscado, mas se você insiste... – Foi tudo o que ela disse, permitindo a ida de meu amigo com eles.
Enquanto isso fiquei com Teseu e Cleo, esperando o dia passar, já que não havia nada o que fazer além de aguardar o retorno dos lobos.
– Acho que nunca vou me acostumar com essa nova vida. – Comentei quando Cleo sentou ao meu lado do lado de fora da caverna, apenas vendo a bela vista que o dia estava nos proporcionando.
Percebi que ela riu do meu comentário.
– Também pensei isso quando meu pai morreu, mas aqui estou, ouvindo o mesmo que dizia para mim. – Murmurou, tentando me aconselhar. – A verdade é que as pessoas se preocupam muito com o fato de se vai conseguir se adaptar a algo ou não e nem sequer tentam. Está me entendendo?
– Mais ou menos. – Confessei.
– Se há algo que posso dizer é para deixar as coisas fluírem como um rio, não importa o que aconteça, você não pode mudar o destino, portanto deve se acostumar com o fato de que ele sempre segue em frente e se você parar nunca vai conseguir realmente se adaptar. – Tornou a falar. – O que estou tentando dizer é que o que aconteceu já foi, você deve seguir em frente, independente do que for e isso eu digo por experiência própria.
As palavras de Cleo me tocaram de um jeito que me fez realmente pensar no quão dramático estava sendo. Eu precisava esquecer tudo o que aconteceu e deixar as memórias boas como nostalgia. Ver meus avós morrerem, assim como os pais de Logan e Luna, além de dezenas de pessoas inocentes foi bastante traumático a mim, mas aquilo faria parte da minha vida a partir de agora e se eu não me adequasse à nova situação nunca poderia ajudar meus amigos como desejava.
– Muito obrigado. – Agradeci com um sorriso. – De coração.
Cleo também exibiu um sorriso encorajador e alegre.
– Não precisa me agradecer. – Falou, dando-me uma piscadela. – Sempre que você precisar conversar com alguém pode me procurar, não importa a hora.
– Digo o mesmo...
Em seguida olhamos para a paisagem a nossa frente e vi o sol se pondo aos poucos, uma vista tão bela quanto vê-lo se por na roda gigante do parque em Santa Mônica.
– Eu nunca me canso de ver isso. – Disse ela com os olhos brilhando.
♦
Hades surgiu em meus sonhos mais uma vez, mas desta vez ele estava sorrindo, algo extremamente estranho e assustador de se ver.
– Vejo que aprendeu a utilizar os meus dons. – Observou o deus. – Você é igual a sua mãe.
Naquele momento eu me senti perdido.
– Esta pedra pertenceu a minha mãe?
Não sei se ele revirou os olhos aos ouvir minha pergunta, mas sua expressão foi idêntica a de Luna quando eu fazia alguma pergunta estúpida.
– É, acho que você não é tão igual a ela assim. – Comentou.
Nunca havia passado por minha cabeça que a Pedra de Hades poderia ter pertencido a ela, mesmo a tendo encontrado em seu baú.
– Então você sabe o que aconteceu a ela? – Perguntei na esperança de que ele pudesse explicar a morte misteriosa de minha mãe.
De acordo com meus avós ela teria morrido num acidente de carro, mas diante de tudo isso que estava acontecendo eu duvidava muito de que realmente havia sido isso a causa de sua morte.
– Gostaria muito meu jovem. – Hades expressou melancolia. – Sua mãe era uma pessoa incrível e guerreira, trabalhávamos juntos constantemente, até que um dia ela simplesmente desapareceu. Nem mesmo em sonhos eu podia me comunicar com ela, o que me levou a crer que ela havia morrido.
– Mas você é o deus dos mortos, como não consegue explicar isso?
Hades riu levemente, mas algo nele me levava a crer que aquilo o havia deixado aborrecido.
– Eu era o deus dos mortos. – Sua voz era mais melancólica ainda. – Desde que me aprisionaram nesta pedra eu não posso exercer influências sobre seu mundo. Meus poderes foram reduzidos drasticamente. Sua mãe tentou me ajudar a sair deste lugar, mas não havia nada que ela podia fazer. Esta prisão de pedra é minha vida há muito tempo.
Naquele momento me veio em mente algo. E se minha mãe morreu tentando ajudar Hades? E se ela descobriu algo que poderia ter mudado a história? Sim, isso poderia ser um exagero de minha parte ou uma fantasia, mas eu já não sabia se isso seria ridículo.
– Eu sinto muito. – Foi tudo o que disse.
Hades tornou a exibir seu sorriso.
– Não sinta. – Disse ele. – Compaixão é um sentimento ridículo.
– Por que diz isso?
O deus simplesmente se virou, não respondendo minha pergunta. Algo me dizia que ele não iria me contar tão cedo o motivo de achar aquilo.
– Acho melhor você acordar.
♦
E então abri meus olhos, fitando o teto escuro da caverna. Ao meu lado estava Kendall, que dormia feito um bicho preguiça, enquanto Teseu e Patrick faziam o mesmo, mas não na mesma intensidade.
Levantei-me, evitando fazer barulho e olhei ao redor, mas não havia nada além deles, nem mesmo Cleo ou Lupa estavam ali.
A luz da lua iluminava, mesmo que pouco, aquele lugar, o que me permitiu caminhar sem tropeçar em nada.
Sai da caverna, sentindo o ar puro e frio me atingir de uma vez. Meus pelos se eriçaram, obrigando-me a encolher. Mas algo acabou me fazendo esquecer aquela sensação desconfortável.
Lupa estava deitada, com a cabeça erguida, enquanto observava a paisagem abaixo daquela colina. Ela não se mexia por nada, a não ser por sua respiração lenta e sincronizada.
– Não está conseguindo dormir? – Perguntei ao me aproximar da loba.
Ela me respondeu sem ao menos olhar para mim.
– Não quando meus filhos estão correndo por aí. – Disse ela. – Uma mãe sempre se preocupa com seus filhos. E você pequenino?
Eu nunca cheguei a saber se aquilo era verdade, mas minha avó sempre foi super protetora comigo, portanto aquilo já podia me dar uma base.
– Já faz um tempo que eu não consigo dormir, portanto nem me preocupo mais.
Sentei-me ao lado dela e comecei a observar a paisagem da mesma forma que ela. A lua estava ao centro, iluminando tudo abaixo, inclusive a floresta que havíamos atravessado para chegar onde estávamos. No entanto, meu olhar parou ao ver algo que chamou minha atenção.
Um vulto familiar que se movia rapidamente abaixo da colina, criando feixes de luzes que eram disparados em alta velocidade e praticamente imperceptíveis.
– Cleo... – Murmurei assim que a reconheci.
Lupa mirou seu olhar para a garota também.
– Ela está treinando há duas horas sem parar. – Comentou a loba.
– Ela não pode dormir. – Ainda estava intrigado com aquele detalhe.
Lupa franziu sua testa, virando sua cara para me observar.
– Como assim?
– Ela me contou que possui uma maldição que não a permiti dormir, mas não entrou em detalhes e eu também não vou perguntar.
O animal voltou a encarar Cleo com uma expressão intrigada.
– Ela me parecia familiar mesmo. – Disse Lupa.
– Do que está falando?
– Cleo descende de uma linhagem antiga de magos egípcios, conhecidos como Selks. – Explicou a loba. – Eles reinaram o Egito durante um curto período de tempo. Os Selks desejavam acima de tudo o poder, a imortalidade e acabaram conseguindo o que queriam. O único problema é que eles não conseguiam dormir, pois não gastavam energia como os humanos normais e isso acabou enlouquecendo-os, causando inúmeros suicídios.
“O tempo passou e, apesar de possuir pouquíssimos descendentes, eles foram passando de geração a geração a maldição da imortalidade.”
– Então você está querendo dizer que Cleo é...
– Imortal. – Concluiu Lupa.
Aquilo era algo inacreditável, mas ao mesmo tempo explicava muita coisa sobre a garota, inclusive o fato de ela saber tanta coisa para sua idade.
Continuei a observando, tentando entende-la, mas percebi que ela havia parado seu treino, fitando um lugar entre as árvores.
E ela não era a única, pois Lupa rapidamente se levantou, ficando sobre as quatro patas, enquanto suas orelhas viravam para aumentar o campo de audição.
Tentei procurar por algo, mas não havia nada em nenhum lugar. Até que ouvi um uivo cortar o céu noturno, fazendo com que Lupa saltasse e começasse a correr em alta velocidade em direção ao som. E aquele som estranhamente era familiar a mim.
– Luna...
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