Guardians I - The Divine Stones
7 VII - The Book of Sorcery
Notas iniciais

Bob acabou gostando de ficar na traseira da caminhonete, com o vento refrescando seu corpo, pois ele estava a todo o momento com a língua para fora, aproveitando a diversão canina.
Decidimos fazer uma pausa para comprar suprimentos para nossa viagem, além de roupa apropriada, pois desde que fugimos de Santa Mônica ainda estávamos com aquelas camisetas do parque. Além do mais, eu realmente precisava de roupas novas, pois as minhas estavam rasgadas por conta da batalha contra os ciclopes.
Luna encontrou um motel barato próximo à rodovia que percorreríamos rumo à Los Angeles e nos hospedamos por uma noite.
– Finalmente limpo... – Murmurou Logan após um longo banho, limpando todo o sangue e a sujeira que estava presa em sua pele. – Acho melhor se apressarem enquanto a água está quente.
O gerente havia nos avisado que a noite era desligada a energia elétrica que percorria nos banheiros, por motivo de segurança e economia.
Fui o último a entrar no banho, mas felizmente a água ainda estava quente.
Pude respirar aliviado por não estar correndo perigo naquele momento. Sentia a água atingir minha pele lentamente, enquanto meus pensamentos se esvaiam por tantas coisas e acontecimentos.
Lembranças do passado surgiam em minha mente. Memória de meus avós me ensinando a ler e escrever, ou até mesmo brincando comigo. Memórias de quando eu era criança e saia para brincar na rua. Memórias de quando conheci Logan e Luna na escola. Todas as recordações me atingiram de uma só vez...
Lágrimas se misturavam com a água que saia do chuveiro enquanto eu processava todas as informações daquele dia. Era muita coisa para ser aceita de uma vez, ainda mais aquilo.
Sempre fui fascinado por monstros e poderes, mas isso se resumia e se limitava aos jogos de videogames e filmes, não ao mundo real. Nunca passou por minha cabeça que aquilo pudesse ser real e eu ainda tinha esperanças de que quando acordasse tudo voltaria ao normal e meus avós ainda estariam vivos.
Fechei o registro do chuveiro e esperei a água escorrer lentamente enquanto eu ainda pensava em como seria minha vida a partir de agora.
Por fim peguei a toalha, enxugando minhas lágrimas e a mim. Sai do banheiro já vestindo uma camisa vermelha e sem nenhuma estampa, assim como uma bermuda confortável.
– Alguma novidade? – Perguntei olhando para Logan que assistia ao jornal na pequena TV do quarto.
Ele parecia sério e algo me dizia que não eram boas notícias.
– Veja por si mesmo... – E então ele aumentou o volume da televisão.
A imagem mostrava o Yokuts Park, com muitos policias investigando a área.
“...as autoridades não tem nenhuma informação do que pode ter ocorrido no parque, mas tudo leva a crer que esses homens foram atacados por um grupo de jovens rebeldes e ativistas que atuam na região.” A repórter parecia assustada.
Logan então desligou a televisão, olhando para o teto e refletindo sobre alguma coisa.
Estava claro que nossa hipótese de que pessoas normais não viam a verdade estava certa, por isso a notícia se tratava de homens e não de ciclopes. Aquilo de certa forma era bizarro e tranquilizador.
– Precisamos sair daqui rápido. – Falei, bocejando. – Mas acho que é melhor amanhã, estou exausto. Onde está Luna?
Ele apontou com a cabeça para uma porta ao lado do banheiro.
– Dando um trato no Bob. – Percebi então que ele estava com uma lata de cerveja na mão e em seguida deu um último gole, amassando-a com a própria força.
– Desde quando bebe cerveja? – Perguntei com as sobrancelhas levantadas.
Meu amigo me exibiu um sorriso maroto.
– Desde que descobri que sou filho de um lobisomem.
♦
Logan rapidamente pegou no sono após tomar meia dúzia de latinhas, ficando um pouco alterado por não estar acostumado.
– Vem me pegar au-au. – Dizia ele, rosnando para Bob.
Tudo bem, ele estava completamente bêbado. E vê-lo naquele estado era uma cena muito engraçada.
– Ainda bem que ele dormiu. – Resmungou Luna ao observar seu irmão jogado no chão ao lado do cachorro, que também estava dormindo.
Luna e eu estávamos sentados na mesa da sala, conversando sobre tudo o que vinha em nossas mentes, desde a escola até o futuro.
– Dê um desconto ao seu irmão, ele também está abalado com tudo o que está acontecendo.
– Eu também estou... – Comentou Luna com o olhar baixo e sobre a mesa. Ela vestia uma camisa que ia praticamente até os joelhos e um shorts curto que não era possível ver. Sua pele branca estava mais do que o normal, embora ela ainda tivesse um pouco de cor de tanto se queimar pelo sol. Os cabelos castanhos e ondulados desta vez estavam soltos, e pendiam até os peitos.
Lembrei da conversa que havíamos tido na lanchonete e então levantei, indo pegar a minha mochila que estava jogada na cama.
– Veja isso. – Disse enquanto a abria sobre a mesa e pegava a estátua cristalina do centauro.
Ela a pegou e estudou detalhe por detalhe. Provavelmente seu interesse por arte ainda continuava forte, pois seus olhos brilhavam conforme via o artefato.
– Isto é lindo! – Exclamou ela, devolvendo-me logo em seguida. – Era de sua mãe?
Assenti levemente, guardando-o de volta.
– Isso também... – E então peguei o livro de bruxaria dela. Era grosso, com muitas páginas, e possuía uma capa roxa com o título no topo.
Luna também se interessou pelo livro, abrindo-o na primeira página.
– Poções... – Leu uma das linhas da folha. Ela virava as páginas, cada vez mais interessada pelo conteúdo, enquanto lia alguns dos títulos. – Poção do Amor. Poção para Gripe. Poção da Paz. Poção Repelente...
De repente a garota parou em uma das páginas, lançando um olhar intrigado e girando o livro logo em seguida.
– Veja essa. – A página mostrava um vidro com um líquido verde e brilhante.
– Poção para Ferimentos. – Li em voz baixa.
Passei meus olhos pela página, até encontrar a lista dos ingredientes:
– 10 Folha de Laranjeira
– 1 Maracujá
– 1 Extrato de Raiz de Menta
– ½ Litro de Água
– 5 Gotas de Sangue de Lagarto (qualquer espécie)
Olhei para Luna, que parecia muito intrigada e eu temia que ela fosse tentar qualquer coisa.
– Parece fácil. – Comentou ela. – Digo, é mais fácil do que as outras que estão aqui no livro.
Em seguida ela abriu em uma página qualquer e leu o nome da poção:
– Poção de Potência Energética. – E então me mostrou. – Veja, precisa de um Chifre de Unicórnio!
– É, vendo por esse lado... – E então eu li outro ingrediente, o que me deixou ainda mais intrigado. – Luna, leia o segundo ingrediente.
Ela puxou o livro e franziu o cenho assim que o viu.
– Sangue de Lobisomem. – E então me olhou, mordendo os lábios. – E tem muito mais aqui... Sangue de Vampiro, de Fada, de Orc...
– Meu Deus! – Se aquilo era real ou não eu não sabia, mas diante de tudo o que havia visto naquele dia, eu passei a acreditar. – Isso significa que...
– Todas as lendas são na verdade baseadas em fatos reais.
♦
Luna e eu fomos dormir logo depois de folhear várias páginas daquele livro e nos assustando ainda mais com o que descobríamos. E, como havia somente uma cama de sala naquele quarto, acabamos dormindo juntos.
– Boa noite. – Desejou ela, exibindo seu sorriso encantador e em seguida se aninhou em meus braços.
Nós já havíamos dormido muitas vezes juntos, principalmente quando ela fugia de casa depois de brigar com seus pais, algo que ocorria pelo menos uma vez a cada dois meses. Mas daquela vez era diferente, estávamos vivendo vidas diferentes. Sentir o calor de seu corpo ao lado do meu serviu como uma espécie de paz, na qual conseguiu me tranquilizar e fazer esquecer todos os problemas.
– Boa noite. – Respondi, beijando-lhe a testa.
E então dormi rapidamente.
♦
– Vejo que lutou bravamente hoje, Kevin Wayne. – O Espírito de Hades tornou a surgir em meus sonhos escuros e sem visão, além do próprio espírito.
– Eu quase morri! – Soltei, não acreditando no que ele havia dito.
O espírito me encarou, com seus olhos negros e sem vida.
– Em uma luta não se trata de apanhar ou bater, e sim de não desistir. – Tornou a falar. – Eu senti a sua vontade de voltar à luta e proteger seus amigos. Isso foi algo nobre, Kevin Wayne.
– Me diga como utilizar os poderes da pedra. – Pedi, temendo que o sonho acabasse e não obtivesse nenhuma resposta.
Ele sorriu com a minha pergunta.
– No tempo certo... – Sua voz diminuía lentamente. – No tempo certo, Guardião de Hades...
♦
Abri os olhos, vendo a claridade querendo entrar no quarto pelas frestas da janela.
Espreguicei-me na cama e percebi que ela estava bagunçada. E então sentei na beirada, tentando acordar de vez, piscando forte e esfregando os olhos.
Assim que me senti revigorado novamente, fui ao banheiro lavar o rosto. Olhei-me no espelho e apoiei-me na pia, observando as feridas em meu rosto que começavam a cicatrizar aos poucos. Meu olho estava mais brilhante do que o normal, e era como se emitisse uma luz própria. Vovó sempre dizia que era uma mutação genética, mas agora eu já estava começando a duvidar se realmente era isso. Ainda mais quando, na escola, somente Logan e Luna haviam percebido todos esses anos.
Sai do banheiro após lavar o rosto e observei a cama que estava vazia, e foi então que caiu minha ficha...
– Luna?
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