Guardians

2 Descobrindo coisas


Notas iniciais
Tenham uma boa leitura

Ela saiu deixando para trás o seu perfume frutado envolto pelas milhares de perguntas que rondavam a sua cabeça. Se não fosse ela, quem mais as poderia responder?

Na sua ida para casa, Daniel conseguia sentir os mecanismos de seu cérebro funcionando atrapalhadamente, para processar tudo aquilo que ouvira naquela manhã. Imaginava varias teorias para o que estava acontecendo. Sabia que não havia uma explicação logica, mas uma parte de si recusava-se a aceitar essas informações como verdade.

Como negar algo que está bem diante de seus olhos?

A pequena pontada de dor que sentira antes começava agora a ganhar mais intensidade tornando-se um adversário temível. Ele sempre achara que uma das suas dores de cabeça, algum dia se revelaria como um dos efeitos colaterais por estar a ganhar poderes, ainda assim não pensou que isso aconteceria num futuro tão próximo.

Tantas perguntas para tão poucas respostas. Como juntar as peças do enigma? Luna dissera que não deveria ser ela a explicar-lhe o que estava acontecendo, então uma das questões principais era “Quem?”. Quem o faria? Ao relembrar-se da breve conversa, tumbinho surgiu em sua mente.

De alguma forma tudo encaixava. O fato de ela ter falado em um gato, o acontecimento estranho, tudo coincidia. Ele certamente gostaria de saber em que coisas estranhas estaria o seu animal de estimação envolvido, então fez uma nota mental para investigar algum comportamento anormal vindo dele.

O vento fresco colidia com a sua pele a deixando ligeiramente mais pálida e fazendo com que seus lábios ficassem nitidamente mais secos. De certa forma era um agradável incómodo que deixava cada um de seus sentidos alerta, para mais qualquer estranha que pudesse vir a acontecer. Suspirou de alívio uma vez que entrou dentro de casa.

Finalmente poderia ter um pouco de paz. Pensar em tudo com a calma que lhe era devida, e depois poder então tirar as suas próprias conclusões. Dentro de casa pairava um delicioso cheiro a panquecas. Uma merecida recompensa pensou ele, enquanto se sentava na mesa. Olhou em redor desconfiado, não queria que outra daquelas criaturas o apanhassem desprevenido, então analisou o ambiente à sua volta. Pouco tempo depois, seus pais se juntaram para lhe fazer companhia e conversar algumas trivialidades. A simples rotina de todas as manhãs.

— Como está correndo o seu trabalho? — Sua mãe perguntou não tirando o olhar da sandes com manteiga que estava preparando.

— O trabalho? Está correndo bem! — Uma mentira inocente. Daniel tinha aquele trabalho de grupo para fazer já há algum tempo, mas aprendeu da maneira difícil que esse é o tipo de trabalho que mais lhe custava fazer.

Supostamente era para ser algo que unisse pessoas. Que lhes ensinasse a colaborar e a ganhar responsabilidades, porém a única coisa que ressaltou nestas últimas semanas é que os seus colegas em vez de fazer o devido trabalho em equipa, acabaram numa grande discussão porque em vez de debaterem o assunto como pessoas civilizadas que eram, decidiram que a sua própria opinião era superior aos outros.

O moreno como boa pessoa que era, optou por os deixar resolver os seus assuntos e adiantar a parte que estava definida para sua pessoa. Neste tipo de casos era melhor não deitar mais lenha na fogueira. Daniel olhou para a panqueca sem fome! A sua dor de cabeça tornara-se um pesadelo. Era preciso ele estar muito mal, para não querer tomar o seu pequeno-almoço favorito, e isso não passou despercebido aos olhos de sua mãe, mesmo ele tentando parecer o mais normal possível.

— Você está bem? Não está comendo nada!

Ela o conhecia bem demais para perceber que estava alguma coisa errada, então não valia a pena sequer mentir, afinal não importa que tão bem a pessoa consegue mentir, ninguém consegue esconder nada de uma mãe!

— É apenas uma pequena dor de cabeça! Não precisa se preocupar!

Ela o olhou inquieta! Obviamente iria se preocupar com o filho, no entanto também sabia o quão teimoso ele era em relação a tomar comprimidos, então limitou-se a preparar-lhe um chá. Se depois visse que não havia melhoras, passaria a usar medidas mais drásticas. Ela também não queria exagerar, podia não passar de uma simples dor de cabeça derivado ao forçar a vista enquanto lia os seus livros.

Uma vez terminada a refeição estavam preparados para começar as tarefas do dia. O moreno estava decidido a acabar a sua parte do projeto ainda naquele dia, uma vez que tinha algumas ideias em mente que queria por em prática! Ultimamente andava tendo um vaga de inspiração, e por isso queria aproveitar casa segundo.

Assim sendo sentou-se na sua secretária separando os materiais necessários para o estudo. Uma vez tudo pronto, reuniu todas as suas capacidades de concentração, e lutando contra a dor dedicou-se ao que estava à sua frente. Só ao fim de longas horas com direito a pausa para o almoço conseguiu decretar vitoria. Tinha conseguido terminar porém os custos tinham sido elevados. Toda a sua cabeça latejava implorando por um momento de paz. Tinha chegado ao seu limite!

Não aguentando mais a dor, deitou seu corpo na extensa cama de lençóis castanhos e fechou os olhos. Uma forma de fugir ao mal-estar que o consumia. Era uma dor tão forte, que a sua cabeça assemelhando-se a uma bomba relógio, aparentava querer explodir a qualquer momento. Uma sensação que ele não sabia descrever, apenas que era muito pior do que qualquer dor física que ele já experimentara.

Uma forma de escape que em nada melhorou. Por fim sentiu que seu corpo não aguentaria mais ao notar a sua temperatura corporal subir, e mesmo assim não conseguir controlar os tremores do seu corpo. Tentou chamar por sua mãe, no entanto a sua voz soou demasiado fraca e sem a força para que ela pudesse ouvir no outro lado da casa. A única resposta que obteve foi o som do miar claro de Tumbinho.

De repente tudo escureceu!

Tudo o que sentia anteriormente transformara-se em uma grande sensação de paz, que de alguma forma o fazia lembrar da sua infância. Lentamente, abriu os olhos, obrigando-os a adequar-se à escuridão à medida que analisava o espaço á sua volta. Daniel ainda estava em seu quarto. Seus posters e livros encontravam-se no mesmo sítio, intocáveis aguardando novamente o dia em que seriam lidos novamente.

A janela aberta mostrava um leve movimentar de cortinas originado por uma fraca corrente de ar. E descansando em seu parapeito destacava-se uma criatura branca olhando serenamente para o céu. Ao se aperceber que seu dono acordara, seus olhares colidiram, fazendo o moreno perceber que os da criatura possuíam uma ténue luz incandescente. Vendo Tumbinho daquela forma quase parecia uma criatura mágica.

— Acordou? — Uma voz doce ecoou em sua cabeça o deixando confuso. Não havia mais ninguém naquele quarto além deles os dois, então de onde poderia ter vindo tal voz? — Parece que sim! Ainda bem, alguns humanos não conseguem se adaptar bem à ligação, mas estou feliz que tudo correu bem! — Ele não conseguia acreditar. — Oh estou a ver está confuso. É normal! Mas é isso mesmo que está passando por sua cabeça. É a sua costelinha que lhe está falando!

Costelinha era o nome original de Tumbinho sendo este ultimo um apelido carinhoso pelo qual a passara a chamar depois de um evento muito especial em sua vida. Naquela situação, isso o tinha feito duvidar. Poderia ela estar se comunicando com ele de verdade? Não, isso era pouco provável. Tudo aquilo não deveria passar de um estranho sonho.

— Não exatamente! Pelo menos não como os que costuma ter. Eu me precisava comunicar com você, assim que a conexão estivesse completa, então criei uma ilusão dentro da sua mente uma vez que conseguisse adormecer. Peço desculpas desde já por isso. Sei que não foi correto, mas se não o fizesse você continuaria sofrendo de dor, já que este não foi um contrato como os demais. — Ela o fitou analisando a sua expressão. — Mais uma vez peço desculpas! Sei que tem inúmeras perguntas a serem respondidas. Eu irei explicar tudo devidamente.

Ele se encontrava sem palavras. De repente parecia estar dentro de uma história de fantasia. A sua mente negava tudo o que se estava ali a passar, mas a sua intuição lhe dizia o contrário. Mesmo com uma parte sua afirmando que ele era louco, decidiu confiar nos seus instintos, e entrar no jogo. Mesmo que aquilo não desse em nada pelo menos ele teria tentado.

— Portanto você está-me dizendo que eu sempre tive um gato falante dentro de casa, é isso?

— Exatamente, e respondendo à sua próxima pergunta também tenho algo a ver com o facto de você ter começado a ver criaturas estranhas esta manhã. — O moreno sentiu uma mescla de ansiedade com preocupação. Uma sensação parecida ao que sentira no dia em que mostraram os resultados dos colocados na universidade.

— Então sempre é verdade!

— Poderia se aproximar da janela, Daniel? — Ele concordou.

Lá fora milhares daquelas criaturas similares a águas vivas sobrevoavam a sua cidade dançando ao som de uma melodia à qual ele era incapaz de ouvir. Parecia uma grande festa onde elas comunicavam entre si felizes por estarem todas juntas. Estas não apresentavam um núcleo luminoso, o que inicialmente o fez estranhar.

— Estas criaturas que você está vendo são chamados de Phoe. São seres amigáveis que vão absorvendo a essência daquilo que os rodeia. Criaturas fascinantes assim que as conhece. — Uma delas se aproximou se esfregando na cabeça peluda de Costelinha, ao qual ela respondeu com um fraco ronronar. — Elas são as navegantes do portal e umas das poucas criaturas capazes de viajar entre os dois mundos. Infelizmente são também muito influenciáveis. Elas não distinguem as energias que assimilam, então como o fazem com as boas, o mesmo irão fazer com as más. Como deve calcular isso trás as suas consequências.

Daniel observou a paisagem à sua volta refletindo sobre o que ouvia. Não conseguia imaginar como tal criatura poderia passar para o lado negro.

— Essa percentagem de Phoe que capta más energias, uma vez no seu mundo acaba se atraindo criando uma outra criatura, Rey. Este Neste ponto chegamos ao ponto principal da questão. Quando isso acontece, nós protetores dos portais criamos uma barreira que impede os Rey de vir para o mundo humano, desafortunadamente o nosso poder em si tem limites. Os Rey são criaturas extremamente poderosas, capazes de matar um humano em questão de segundos se assim o quiserem. Como pode adivinhar é algo que os humanos comuns não conseguem lidar ou compreender. Por isso precisamos de forças especiais. É por isso escolhemos um humano para fazer a conexão.

— E então do nada você me escolheu a mim!

— Não! Não foi do nada! Você é especial. De alguma forma eles se sentem atraídos por você. Se eu não tivesse feito esta intervenção, você provavelmente a esta hora, já seria uma vítima dos Rey! Foi uma situação de emergência. Não podia permitir que uma pessoa importante para mim acabasse ferido. — Ela o olhou de uma forma triste, para depois mostrar uma cara determinada. — Aceite o contrato! Se sentir curioso, pelo mínimo que seja, permita que eu lhe ajude a resolver este mistério.

Curiosidade não era algo que se pusesse em questão, no entanto ele entendia que ao aceitar, ele teria certas responsabilidades sobre as quais ele ainda não tinha conhecimento. Talvez tivesse sido um acesso de loucura, mas de facto ele mesmo se surpreendeu ao ver o seu corpo concordar automaticamente.

— Então você aceita? — Ele viu seus pequenos olhos ganharem uma pequena luz de esperança. De certa forma sentiu que já não havia volta a dar.— Por favor toque na minha pata. — Hesitante o moreno estendeu a mão tocando na pata dela. Mais uma vez uma corrente elétrica percorreu o seu corpo, alertando todas as suas células, e assim liberando uma corrente de luz verde que percorreu desde a marca em seu braço, todo o corpo do felino.

A grande nuvem, que antes ocultava a vivida luz lunar, desaparecera revelando todo o seu esplendor. Ele não conseguia conter a sua surpresa. Agora ele via com toda a clareza fora da sua janela milhares de Phoe multicoloridos iluminado tudo ao seu redor. Era como ver uma mini galáxia, liberando pequenas ondas de calor que aqueciam cada parte de seu corpo.

— Estão felizes porque o reconheceram como guardião! Esta é a sua maneira de lhe darem as boas vindas! — Aos poucos a luz foi desaparecendo. — Parece que os meus poderes chegaram ao limite. Penso que já vai sendo hora de acordar.

E foi num instante que tudo desapareceu! Quando voltou a abrir os olhos a sua mãe encontrava-se ao seu lado retirando uma toalha molhada da sua testa. Segundo ela, tinha vindo ao seu quarto ver se estava melhor da dor de cabeça e o encontrara murmurando coisas sem sentido, enquanto ardia em febre. Ele estivera nesse estado durante algum tempo antes de voltar a estabilizar. Se não tivesse melhorado naquela hora provavelmente agora estaria em uma cama de hospital.

Ele tinha dormido varias horas seguidas, sendo que já se encontrava de noite. Tumbinho havia desaparecido não a voltando a ver até à tarde do dia seguinte. Onde se encontrava deitada no muro, que cercava a sua casa examinando as pessoas que passavam na rua. Ele ainda não tinha parado de pensar no que sonhara aquela noite. Teria o seu subconsciente inventado toda aquela história, devido ao desespero por respostas?

Novamente aquela voz doce ecoou em sua mente falando consigo.

­— Você pensa demasiado nas coisas! Deixe se levar, vai ser mais fácil para a sua adaptação. — Certamente aquilo não era uma invenção da sua cabeça. — Eu contatei com outro protetor do portal desta região. Eles podem o ajudar a entender o que se está passando!

Talvez ela tivesse razão. Porque não? O que ele teria a perder com isso? Daniel a viu se espreguiçar depois que ele concordou em segui-la. Pensou que ela o levaria por uma trilha secreta que apenas ela conhecesse, porém o caminho que percorriam lhe era bem familiar. Aquela rota daria a um pequeno parque, muito frequentado pelas crianças e adolescentes da cidade.

Não trocaram nenhuma palavra até lá chegar, e isso o estava deixando desconfortável. Pensou que ela fosse falar, mas depois percebeu o motivo ao ver que se aproximavam de outras pessoas. Afortunadamente o espaço não se encontrava muito movimentado, e poucos segundos depois Costelinha identificou as pessoas com quem queria falar. Num dos cantos mais afastados, encontrava- se Luna sentada debaixo de uma arvore lendo o mesmo livro que a ultima vez. Ao seu lado um gato preto brincava alegremente com as pequenas criaturas entre os arbustos.

Estava surpreendido! Eles realmente se tinham encontrado novamente. Talvez até mais rápido do que ele esperava. Luna assim que sentiu as suas presenças mostrou um pequeno sorriso e consequentemente o gato preto que a acompanhava voltou para perto dela esperando que eles chegassem.

Visto por outras pessoas aquilo parecia uma reunião amigável entre dois amigos que passeavam seus animais. Como ele desejou que isso fosse verdade, infelizmente a realidade era outra. Os dois gatos se encaravam fixamente e ele esperava que isso fosse desencadear uma luta a qualquer momento. O gato preto quebrou o silêncio a provocando.

— Ora, ora! Bons olhos a vejam! Nunca pensei que lhe voltaria a ver depois daquele incidente! O que a fez mudar de ideias?

— Como a vida dá voltas não é verdade? Mas penso que você sabe muito bem o motivo.

Ele se calou, desviando o olhar para Daniel. Alguns segundos se passaram antes que ele voltasse a dizer alguma coisa. Em seus olhos ele conseguiu ver um conflito interno, algo estava fazendo ele hesitar, e mesmo não sabendo o que poderia ser, percebeu que era algo demasiado grave ao ponto de não o querer dizer à frente de um desconhecido.

— Para você ter arranjado um guardião, é sobre aquilo, não é? Qual o seu codinome garoto?

O moreno a olhou confuso. Não sabia o que dizer! Num pequeno sussurro levado pelo vento ouviu a voz de Luna lhe dizendo para falar o primeiro que viesse à sua cabeça. De alguma forma, apenas se lembrou de uma palavra!

— Nifrido!

Notas finais
Espero que tenham gostado :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.