Estou numa guerra. Árvores queimando, carros explodindo, pessoas se matando... Estou escondida num beco atrás da lixeira, esperando que meu pai volte para me buscar e levar para algum tipo de “abrigo”. De tanto esperar, adormeci, e acordo com minha irmã mais velha me acordando aos berros, apontando para o fim do beco. Admito que não queria mais acordar depois de ver aquela cena. Meu pai está morrendo, com um tiro no peito, lutando para conseguir falar conosco. Estou desesperada, sem conseguir entender o que ele fala, quando finalmente presto atenção em algo. “Vocês nunca estarão sozinhas, existe um Guardião esperando por vocês.”

Acordo suando frio desse pesadelo horrível. Ao perceber que foi apenas um sonho, rapidamente levanto e corro para o quarto dos meus pais, onde o vejo sentado em sua escrivaninha fazendo algumas anotações sem importância. Não importa, pulei em cima dele e comecei a gritar que o amava, com o meu coração batendo freneticamente.

-Lyana! O que deu em você? –disse ele, rindo e me dando um beijinho na testa. Comecei a falar sobre o meu pesadelo. Minha mãe sai do banheiro ouvindo a frase que supostamente meu pai disse no sonho, antes de morrer.

Eles se entreolharam, preocupados com não sei o que. É como se eu estivesse em outro sonho, sendo encaminhada pra algum tipo de missão fictícia que envolve criatividade de criança.

-Bom, vamos conversar o.k.? Chame a sua irmã, e nos encontre na biblioteca. –Minha mãe se arrumava enquanto falava comigo, olhando pro nada, com olhar de preocupação.

Vou até o fim do corredor e bato na porta de Minna, minha irmã mais velha. Percebo que ela acabou de acordar, porque além de seu cabelo desarrumado e olhos inchados, ela começa a gritar comigo, sabe, coisa normal...

-Lyana, será que você pode esperar até umas... três horas pra falar comigo? -Disse Minna, quase voltando para a cama.

-Não quero falar com você. –ela me olha com uma cara de quem acabou de ser pego numa daquelas brincadeiras sem graça e está pronta para se vingar- nossos pais querem. É alguma coisa sobre meu sonho... Guerra... e guardiões.

Sua expressão muda completamente, parece que todo mundo sabe de alguma coisa que eu não sei. Já estou acostumada, na verdade...

Descemos até a biblioteca e nos sentamos no sofá de veludo, esperando meus pais começarem a conversa. Eles andam pra lá e pra cá, suspiram, se entreolham... quando no fim, meu pai começa:

–E se te dissermos que você não é normal? –nossa, obrigada, sei que sou um pouco estranha, mas desse jeito? –Há alguns anos, quando sua mãe ainda estava grávida de você, ela ficou doente — consigo ver uma lagrima escorrendo dos olhos da minha mãe.- .. na verdade, muito doente. Ela estava quase perdendo você. – minha mãe começa a choramingar no ombro de Minna, que abaixa a cabeça e olha de lado para mim.

- E o que aquele sonho teve a ver com isso?

-Bom, quando ela estava quase no ultimo suspiro, um espirito a visitou. Disse que podia salvá-la, e salvar você também. – confesso que achei isso meio demoníaco.

-E como? Fazendo um pacto?

-Basicamente. Ele as salvaria, e em troca você seria levada para o acampamento AFTA. Nem nós sabemos o que é, mas ele disse algo importante. – ele se levanta e pega um livro antigo, foleando até parar numa página com um desenho estranho, mas eu me identifiquei. –Esse acampamento não é normal. É um tanto... mágico. Não sabemos muita coisa, mas ele nos disse que você seria levada na véspera de seu décimo aniversário. Ele nos mandaria uma mensagem, por você.

Não entendo. isso não seria quando eu tivesse 10 anos? Eu ainda tenho 7. Essa coisa toda é muito esquisita para mim. Como eu poderia ter alguma magia? Sou só uma criança.

- O.k. pai, tanto faz, mas eu vou fazer 8 anos amanhã. O que isso tem a ver? – sinto os olhos de meu pai, preocupados, com um tom de consolação. Os olhos dele me lembravam uma cascata, numa praia paradisíaca, como se fosse uma terapia de relaxamento. O que não está acontecendo agora.

-Não sabemos, mas essa pode ser a mensagem, Lyana. – Até esqueci da presença de minha mãe e minha irmã ali. Quer dizer que vou ter que abandonar a minha família, para ir para algum acampamento magico, fazer sei lá o que? Que ridículo. Não pedi nada disso, nem pedi para nascer.

Ficamos em silencio por alguns minutos, minha mãe se acalmou e Minna foi pegar alguns biscoitos para distrair um pouco. Não entendo pra quê o drama, se é só eu ir para um acampamento “mágico”, e voltar daqui umas semanas, ou meses... Ou anos. Finalmente o silencio foi quebrado com discursos de consolação, de que tudo vai ficar bem etc.

- Você pode aprender coisas novas. E lá é mágico, imagine o que você pode aprender?! – Minha mãe, falando isso mais para ela do que para mim. O emocional dela sempre foi fraco, por qualquer coisa ela desabava. Imagino o que ela esteja sentindo agora. – Sei que você é pequena, mas não podemos fazer nada.

-Espere até a hora de dormir, vamos ver o que acontece. –meu pai deixou o livro aberto na mesa e saiu para a cozinha, minha mãe e minha irmã o seguiram. Fiquei lá sentada beliscando os biscoitinhos, que ficaram intactos.

Estava quase saindo da sala quando resolvo ver o que era aquele livro. Elementos. Agua, Fogo, Terra, Ar. AFTA. A página estava aberta no começo de um capitulo: Fogo. Comecei a ler. Páginas e mais páginas sobre poderes, imunidades e fraquezas de um ser “fogo”, sobre o acampamento, e outras coisas monótonas que me lembram um folheto de turismo. Até que algo me chamou a atenção.

-A origem? –disse eu, sussurrando. Resolvi ler, é claro. Saber sobre o lugar que estou indo de ultima hora não é má ideia. E com certeza, deveria ter lido isso.

Notas finais
identificação dos personagens é ao decorrer do texto mesmo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.