Notas iniciais
Esse capítulo vai ser no ponto de vista do narrador , espero que gostem >< Até o próximo!

Coincidência é o termo utilizado para se referir a eventos simultâneos com alguma semelhança, mas cuja causa não está relacionada. Qual a chance de duas coisas sem relação alguma acontecerem no mesmo lugar e ao mesmo tempo? É intrigante, pois se tais fatos não acontecessem talvez eu estivesse contando uma história diferente agora.
Se na noite anterior Patrick não tivesse dormido tarde, confuso e triste por causa das atitudes do pai, certamente não teria acordado mais tarde, tentando evitá-lo (não queria olhar no rosto dele nunca mais) Por sair de casa mais tarde, Patrick encontra Alex na entrada da escola; Alex por sua vez só estava ali pois o ônibus havia atrasado. O ônibus havia atrasado porque o responsável por entregar o café da manhã dos funcionários –curiosamente, o pai de Patrick — estava de ressaca e teve uma discussão com o filho na noite anterior, se atrasando para seus afazeres.
Larissa por sua vez estava ali porque seu pai, gerente da companhia de transportes, havia sido chamado para advertir o funcionário que se atrasou na empresa de ônibus. Não podendo levar a filha de carro para a escola, ela teve que esperar carona. Leonardo havia dormido tarde porque estava terminando uma pesquisa gigantesca sobre os artrópodes, o que claramente não tem relação com nenhum dos eventos anteriores. Ou seja, o que aconteceu ali foi uma coincidência. A uma série de coincidências, chamamos “destino”.


A chuva caia em gotas finas e geladas, Patrick dava passos rápidos, procurando se molhar o mínimo possível. Tentou entrar na escola pela porta lateral. Estava trancada, teria que ir até a porta principal e pedir para entrar, odiava chegar atrasado. Correu em direção ao outro lado, olhando sempre para baixo, tentando evitar o limo e as poças d’água que se formavam. Foi tudo rápido demais, só sentiu o pé ficando preso em alguma coisa e o corpo encontrando o chão. O frio e a umidade envolvendo suas roupas, virou-se, bufou de raiva. Alex, um dos caras idiotas que implicara com ele. Lembrava Patrick uma versão em miniatura de seu pai – talvez não em miniatura, pois ainda era grande e pesado; mas ainda assim mais jovem. Patrick teve pena dos filhos que ele viria a ter. Alex ria feito uma hiena. Não o haviam deixado entrar, era seu terceiro atraso consecutivo, o limite eram dois.
–E ai veado? Atrasou por que? Tava fazendo hora extra? – Patrick se arrastou pra perto do muro, onde podia levantar. Seus óculos haviam caído longe, agora tinha uma dúvida. Passar em frente a Alex e recuperar os óculos, ou seguir em frente e ignorá-lo? Patrick não considerava a visão algo crucial, portanto preferiu a segunda opção, e se afastou ignorando o acontecido. Não deu certo. Alex o pegou pelo braço:
–Tá indo pra onde? Eles não vão te deixar entrar! – Ele riu mais uma vez, e chutou Patrick nas canelas, fazendo-o cair para trás. Patrick queimava por dentro, mas por fora era como não se importasse. Se limitou a tentar ignorar os insultos que Alex gritava.
–Cara, será que não dá pra se meter com alguém do seu tamanho? -um moletom verde musgo encharcado dava a volta no muro, junto com ele uma voz áspera e o som de passos. Leonardo parou a alguns metros de Alex. Eram quase da mesma altura. Patrick virou os olhos, era a pior coincidência de que precisava.
–Qual é? Veio defender o namorado? – Alex tinha um jeito estranho de rir, o ar passava pelo nariz em sua maior parte, ao invés de passar pela boca, criando uma espécie de rosnado. Apenas Patrick notou isso. Leonardo estava irritado demais.
–Só vaza cara, só vaza. – A voz imperativa de Leo era diferente, era como se alguém não quisesse dar uma ordem, mas fizesse por que é obrigado, e estivesse assim irritado por fazê-lo.
Alex olhou de relance, já havia brincado o suficiente.Saiu andando, queria esbarrar no ombro de Leo quando cruzasse com ele, como pequena vingança, mas Leonardo foi mais rápido, virou-se para o lado na hora desviando o corpo, o que Fez Alex oscilar na horizontal, como um ziguezague, criando uma cena engraçada.
Leonardo juntou os óculos do chão, limpando-os com a barra do moletom. Patrick se afastava em silêncio, como se nada houvesse acontecido.
–Ei, tá tudo bem? Você esqueceu os óculos. –Disse Leonardo, entregando a peça a Patrick, que foi forçado a parar.
–Sim, parabéns Mário, a princesa Peach foi resgatada. – Patrick estava meio irritado. Leonardo se perguntava por que.
–Escuta... Por que você não reclama com alguém? Esse cara tem que parar.
–Ele não vai parar... –Patrick disse, num tom pesado. – Sempre vai ter um Alex – Leonardo ficou triste em admitir, mas Patrick estava certo. Sempre haveria um Alex.
–Eu sinto muito... –Leonardo sentiu uma coisa que geralmente não sentia: empatia. De alguma forma queria que Patrick se sentisse melhor, queria mostrar pra ele que existia um lado “legal’ do mundo. –Tem algo que eu possa fazer?
–Não. – Patrick negou em seco, pôs as mãos nos bolsos, deu dois passos cabisbaixo e se afastou. Isso Leonardo já esperava, odiava se sentir impotente assim, queria ajudar Patrick mas parecia impossível. O que surpreendeu Leonardo foi o que veio depois: Patrick deu mais dois passos, dessa vez voltando a onde estava, e abraçou Leonardo. Abraçou tão forte que Leonardo achou difícil respirar, e não pode dizer nada (na verdade Leonardo já estava sem palavras, independentemente do fluxo de ar que percorria seus pulmões) Mas percebeu que nada precisava ser dito. Em casos como aquele (na maioria dos casos, na verdade), ações valem bem mais que palavras. Leonardo apenas abraçou Patrick de volta, suas roupas ainda estavam úmidas, mas Leonardo sentiu ainda mais umidade, Patrick estava chorando, soluçava enquanto afundava o rosto em seu peito. Leonardo não sabia como agir; diferentemente de muita gente, nunca havia precisado abraçar alguém e chorar, mas sabia o que fazer nesses casos: abraçar mais forte.

E então chega a nossa terceira coincidência, que ia acabar com a cena gerada pelas duas primeiras. Larissa saia do táxi e abria o guarda-chuva, embora o que caísse agora fossem apenas gotas que estavam acumuladas nas folhas das árvores.
–Leo, é bom você ter uma boa explicação por ontem... Quem era aquele? — Ela dizia, ao ver ao longe a figura de Patrick se esgueirar até o portão. Ele soltou os braços de Leo com um tímido "desculpa" ao perceber que Larissa chegara.
–É.... é um primo. Ele tá na oitava serie... Ele tava com saudade e tal. Nem sabia que ele estudava aqui. — Mentiu Leo, que não queria admitir, mas estava um pouco decepcionado por Patrick ter ido embora.
–Ah. — Leo ficou feliz pois Larissa parecia acreditar, ou ao menos não duvidar. — Mas enfim, não vai escapar do xingão. Eu fiquei a tarde inteira esperando por você. — Dizia ela, cruzando os braços num gesto emburrado.
–Descuulpa — Disse Leo na voz doce, que apenas ele sabia fazer. Eu tava terminando o trabalho de Biologia... Não tive tempo... E eu sempre fui mal nessa matéria... Foi mal mô. — Se Leonardo tivesse um espelho naquele momento, ficaria feliz em perceber que seu olhar de arrependimento derreteria o coração de Margaret Tatcher se necessário.
–Aw tudo bem mô. Mas da festa de hoje você não escapa viu? — Larissa estava ansiosa para desfilar nos braços de Leo em frente a todo mundo que conhecia. Na verdade, era mais ou menos por isso que Larissa inventava alguma festa: mostrar alguma coisa que ela tivesse e suas amigas não.

Para a maioria das pessoas a tarde demora mais a passar do que a manhã, não faz sentido nenhum, afinal são seis horas em cada período. Mas nessa história não se discutirá a opinião da maioria das pessoas. não era o caso de Leonardo. Aquela manhã se arrastava cada vez mais lenta, como se na primeira hora houvesse um elefante bloqueando os ponteiros do relógio, na segunda houvesse dois, e assim sucessivamente. Ao chegar no intervalo, Leo já via claramente cerca de quatro elefantes a empurrar no sentido anti-horário os ponteiros do relógio de parede da sala, foi quando Larissa o chamou.
–E seu priminho mô? Não vai me apresentar ele?
–Quem? — Leo estava com uma voz sonolenta. Provavelmente dormiria ali mesmo se Larissa não o tivesse chamado.
–Seu primo, da oitava, que estuda aqui. Alôo?
–Ah sim. — Leonardo não era o tipo de pessoa que costumava apontar defeitos em si mesmo. Na verdade, além de uma espinha gigantesca na ponta do nariz que havia surgido há alguns anos, não consigo lembrar de nenhum defeito em Leonardo. Além de sua memória curta. Leonardo odiava se esquecer das coisas, sentia como se o mundo fosse um jogo onde ele tinha sido escalado apenas no segundo tempo, sem saber o que havia acontecido no primeiro. — Ele deve estar em prova, ele me falou algo assim.
–Ahh, a gente fala com ele outro dia então. — Admitiu Larissa, mas em nenhum momento veio a passar pela cabeça dela que Leonardo estaria mentindo, claramente por 3 motivos: 1- os olhinhos angelicais de Leo diziam o contrário; 2 — ele não tinha motivos aparentes para mentir; 3 — Larissa estava ocupada demais pensando em si mesma. Foi pelo terceiro motivo que sua resposta foi:
–Vamos falar com as meninas, preciso contar pra ela que não vou mais estar solteira na festa. — Larissa riu. Leonardo ficou pensando em Patrick. Ele não estava na aula, reparou cuidadosamente nisso. Será que não o haviam deixado entrar?

Enquanto Larissa conversava com suas amigas sobre suas atividades preferidas: 1- pintar as unhas; 2 a vida alheia; 3- esnobar. Leo se sentiu um objeto. Larissa havia cuidadosamente pedido que a emprestasse seu casaco, não por que estivesse com frio, mas queria que Leo ficasse de regata de propósito, assim as suas amigas poderiam examinar os músculos dele, cuidadosamente posicionados nas mãos dela. Uma boa estrategista, Larissa teria se dado bem nas guerras napoleônicas.
Leonardo até gostava de ter seu corpo admirado e acariciado -particularmente, ele adorava-, mas sentiu-se triste por Larissa ter tomado o moletom dele. Patrick tinha impregnado o cheiro dele ali, junto com as lágrimas. E Leonardo gostava daquele cheiro.
–Eu preciso ir ao banheiro. — Leonardo precisava dar uma desculpa, era melhor sair dali, precisava achar Patrick. Não estava em nenhuma aula, e nem em nenhum lugar que fora com Larissa como um boneco de exposição. Pensou em um lugar onde Larissa não pisaria: a biblioteca.

Foi preciso um olhar minucioso para Leo perceber Patrick. Num canto meio escuro e do lado de uma pilha de livros. Ele lia um exemplar de Romeu e Julieta, tão antigo que Leonardo depois brincou ser autografado.
–Oi. — Leonardo disse meio tímido. Não sabia o que dizer depois daquilo. Esse era o problema com Patrick, ele deixava Leo sem palavras. -Tá tudo bem? — perguntou.
Patrick fechou o livro, com mais um de seus silêncios intermináveis.
–Sim. Tava aqui vendo onde conseguir um padre que me venda veneno. -Patrick sorriu. Leonardo riu de volta.
–Você é sempre engraçado assim? — Leo Perguntou. Para a maioria das pessoas Patrick não era definitivamente alguém engraçado. Mas em momentos como esse a maioria das pessoas não interessa. Na verdade, a opinião da maioria das pessoas é irrelevante para Patrick.
–É... Leonardo, Você não precisa ser legal comigo por pena... Quer dizer, eu agradeço por hoje de manhã, mas tem coisas que tá tudo bem, eu aguento. Eu realmente agradeço as suas boas intenções, mas não precisa dar atenção pra mim, eu fico bem assim, Sério. Além disso, eu não... — Aquele seria o momento da história em que Patrick teria uma fala gigantesca comparada a seus "sins" e "nãos" de costume, mas não era a hora de Patrick falar pelos cotovelos. Leonardo pôs as mãos em seus ombros enquanto forçou suas cabeças a se aproximarem. Tudo em uma fração de segundos, Leonardo o beijou. Patrick não se lembrava do que era isso, mas sentiu um calor envolver seu corpo como um cobertor, que encaixava perfeitamente. Não um calor de sol ou de estufa. Mas sim calor humano, calor vivo. E foi assim que Patrick se sentiu, vivo.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado o/, qualquer coisa, não se esqueçam de comentar hein? Até o próximo capítulo. Prometo não demorar haha