Guardian Angel
12 Calor humano
Notas iniciais
Apenas uma continuação do encontro na visão do Patrick, espero que gostem ><
Acho que eu nem lembrava que existia uma praia a poucos quilômetros daquela cidade. Talvez tivesse ido uma ou duas vezes com minha mãe, quando nós ainda tínhamos paciência para conviver um com o outro. Depois deixei de ir. Achava pessoas seminuas se torrando no sol uma coisa meio idiota. Ainda assim, gostava do mar: era enorme, imenso, estava ali para mostrar que não somos nada.
–Se importa se eu tirar a camisa? — Jorge me acordou do meu transe que acompanhava as ondas indo e vindo. Tínhamos trazido uma esteira e nos acomodado atrás de uma duna, meio longe do mar. Ia anoitecer em breve, e já não tinha mais ninguém lá. –Fica a vontade. — Sorri, já fazia uma semana desde o nosso primeiro beijo. A gente se via quase todos os dias. E estranhamente eu tava sentindo algo bom em mim. Tinha medo de não saber reagir as coisas legais que ele falava. Na verdade eu não sou muito bom em “reagir”. Fico pensando em todas as coisas que poderia dizer/fazer e todas elas parecem não ser boas o suficiente. Mas com Jorge não era assim. Ele nunca me deixava sem reação. Depois do beijo, ele me beijou de novo, disse que me achava fofo, me chamou pra sair outro dia. Ele não se importava se eu ficava mudo pra maioria das coisas. Sei lá, mas eu sentia que ele era mais legal que a maioria das pessoas que eu conhecia. (não que precise de muito pra ser mais legal que a maioria das pessoas, mas ele era). Ele tirou a camisa. Sinceramente, não entendo o que faz as pessoas serem loucas por músculos e um abdômen definido e essa coisa toda. É só carne. Jorge até tinha alguns, não digo que não era bonito, mas o sorriso dele me chamava mais atenção. E ele sorria o tempo todo. –Se importa em passar nas minhas costas? — Talvez a cena do protetor solar estivesse em aproximadamente 40% dos filmes de comédia romântica ruim que a minha mãe assistia nas noites que meu pai saia pra trabalhar. Mas apesar de ser 'só carne” a sensação de tocar era boa. Sabe, calor humano. Era legal tocar algo que também tivesse vida. Acho que a outra maior interação com outro corpo masculino que tive até então foi tentar praticar karatê (um desastre, é claro).–Quer que eu passe em você também? — Talvez eu refletisse 90% da luz que batia em mim, tão branca era minha pele. Aceitei. As mãos deles eram fortes, mas ágeis. Ele tirou minha camiseta. Não gostava que me vissem assim, meu corpo era feio, ainda assim. Ele parecia não se importar. Eu gostava de sentir as mãos dele, quentes. –Quer apostar quem chega primeiro na água? — Ele disse se levantando. Eu sorri. Começamos a correr, acho que nunca faria isso com outra pessoa, talvez ficar correndo e rindo na beira de uma praia parecesse patético, mas eu não me importava, estava feliz. Estava na frente, mas as pernas dele eram mais ágeis. Ele me agarrou por trás e me derrubou. Ali na areia molhada a água fria ia e vinha debaixo de mim, fazendo cócegas na minha pele. Ele estava por cima, sorrindo, me olhando nos olhos, tão perto que eu sentia ele respirar, estávamos ofegantes com a corrida. Ele me beijou. Dessa vez foi diferente de tudo. Ele me envolveu nos braços. Da primeira vez foi doce, agora era salgado. O vento soprava frio sobre nossas cabeças, ainda assim ele me mantinha aquecido. Ali eu descobri o que é ser amado. Acho que essa era melhor lembrança que eu tinha sobre o que era calor humano. Tão simples, porem tão bom. Agora Leo me abraçava, o vento soprava frio como aquele dia. E o abraço dele era tão quente quanto o de Jorge, ele me lembrava tanto o Jorge, em tantas coisas. O mesmo sorriso, o mesmo toque das mãos. O mesmo calor. Nos beijamos. Eu não lembro de ter chorado de felicidade alguma outra vez, mas também não lembrava de como era gostar de estar vivo. E aquele beijo me fez gostar. E a água saiu por meus olhos. –Patrick, eu não sei o que to sentindo. — Ele pegou meu rosto com as mãos e me olhou nos olhos. E continuou: – Acho que você imagina que eu nunca senti isso por um cara, mas eu te digo que eu nunca senti isso por uma pessoa. Eu to assustado, eu queria saber o que tá acontecendo. Talvez, signifique que eu goste muito de ti. E eu só queria pedir desculpas por todos os erros que eu cometi até agora. Ele me abraçou de novo. A expressão dele era preocupada. Ele sussurou baixinho “desculpa”. Como se quisesse perdão por algo. –Tá tudo bem, na verdade Leo, não gosto de admitir isso. Mas você é uma ótima companhia. — Geralmente eu evitava dizer que gostava das pessoas. Fazia me sentir frágil, mas não me sentia frágil quando estava com ele. –Que tal um crepe?–Procedência? — Perguntei, ele sorriu.–Originários da frança, feitos a base de farinha, ovos e leite. A massa possui um pouco mais de gordura que as panquecas comuns, para facilitar a prensagem. — Ele disse, levantando um dedo pro ar e fazendo uma expressão inteligente. Eu ri. Leo me fazia rir. — Espero que não derrube tudo agora senhor desastrado. Ele trouxe dois, um de chocolate, um de doce de leite. Escolhi o de chocolate. Mas dividimos: ele pegou um pedaço do meu, e eu peguei um pedaço dele. Fomos andando até em casa, enquanto descobria outro aspecto da personalidade de Leo: as piadas ruins:–Posso contar uma piada pra puxar assunto? — Ele perguntou, percebendo que eu fico longos períodos em silêncio. –Fique a vontade. — Respondi.–Ok, você quer animais? Signos? Estereótipos ou filmes?–Animais, parecem ser as menos ameaçadoras. — dei um sorrriso sarcástico.–Sabe como se descreve geometricamente um leão morto? — Ele perguntou entusiasmado. Fiz que não sabia com os ombros. –É uma ex-fera. — Ele riu. — Entendeu? — Ex-fera de esfera – Disse ele desenhando um circulo no ar.
Eu precisei dar um tapa no meu próprio rosto depois dessa. — Ok, próxima. –Sabe como se faz para matar um elefante roxo?–Não faço ideia.–Usa uma arma para matar elefante roxo. Eu pisquei. –e sabe como se faz pra matar elefante branco? Não me dei ao trabalho de perguntar.–Sufoca ele até ele ficar roxo, aí usa a arma pra matar elefante roxo.–Ai deuses.–E sabe como se mata um elefante vermelho?–Como Leo, me diga.–Dá um susto nele até ele ficar branco, aí sufoca ele até ele ficar roxo, e usa a arma pra matar elefante roxo. — Ele terminou com um sorriso hesitante. Eu comecei a rir, não sei porque,talvez fosse a sensação de ter beijado um potencialmente retardado mental. –Quer ouvir mais uma?–Claro, quero ouvir sobre elefantes de todos os comprimentos de onda possíveis. –Confessa, foram engraçadas.–Quase tive uma convulsão de tanto rir. –O.k., piadas talvez não tenham sido muito boas. — Ele se resignou. — Quer tentar outra coisa?–Se você fosse um animal, qual seria? — Perguntei.–Que?–Responde. –Err... Acho que um leão, gosto de leões. São grandes e tal. –Pff, leãozinho. Eu seria um pinguim. –Por que?–Tem poucos humanos na Antártida. Ele riu.–Acho que pinguins não sentem tanto frio assim. Eu tava tremendo um pouco, tinha esfriado mesmo–Deixa que eu resolvo isso. Senhor pinguim. -Ele tirou a jaqueta e colocou sobre meus ombros. Tava quente com o calor do corpo dele. Ele me olhou nos olhos, e começou a rir.–Tem chocolate no seu rosto. — Ele passou o polegar no canto da minha boca e depois chupou o dedo. Já estávamos na porta de casa. Ele me deu um beijo antes que eu entrasse. Tinha gosto de chocolate. Pela primeira vez me sentia quente de novo. E não era só pelo casaco.
Notas finais
E aí, curtiram?
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