Guardian Angel
4 Artrópodes
Notas iniciais
Patrick não parecia ser o cara mais legal do mundo, mas sei lá, ele parecia interessante, era a primeira pessoa que, de algum modo, se fechava para mim. Era hoje o dia que iríamos fazer o trabalho, eu não estava muito seguro de como ia convidar ele para minha casa, contanto que ele não invocasse um demônio e arrastasse minha alma do local ( que era o que parecia que ia acontecer quando eu falava com ele) acho que tudo ia correr bem, apesar da rejeição aparente, eu não me lembro dele ter dito um não. Vai ver ele era só tímido.
Felizmente Larissa tinha faltado aula, eu quero dizer, não é que eu não goste dela, mas ela é meio grudenta demais. O meu celular vibra, por algum motivo eu penso em Patrick, aí lembro que ele não tem celular, e mesmo que tivesse, acho difícil que ele me mande uma mensagem.
Larissa: Mor, não deu pra ir na aula hj, acordei tarde demais :(
Eu: Tudo bem mor, aproveita e descança (sic)
Larissa: To com sdd :(
Eu: Depois da aula passo aí para te ver :3
Ela retribuiu com uma série de coraçõezinhos, não daria para ir vê-la, marquei de encontrar Patrick.
–Oi. – Meu coração para por um instante, eu não tinha lembrado do quão grave era aquela voz. Ele surgiu do nada, como se tivesse se materializado no ar, eu não parei para pensar em como ele tinha chegado ali, porque fiquei mais impressionado com o “oi” dele. Tipo, pode não parecer muita coisa, era um oi seco, meio fechado, mas vindo de alguém como Patrick quase que significava “sim, eu deixo você ser meu amigo’, ou mais ou menos isso.
–Eaí, tudo bem? – Perguntei sorrindo, e foi um riso meio sem querer, eu não acreditei que ele tivesse falado comigo primeiro. Mas dessa vez ele não respondeu, talvez não estivesse tudo bem. Percebi que tinha que continuar falando:
–Tudo pronto para hoje né? Você topa almoçar na minha casa?
–Pode ser... – Ele respondeu meio furtivo. –Comprei o que precisava, disse ele, levantando uma sacola que tinha em mãos.
As vezes eu tinha impressão que Patrick não sentia prazer algum em falar comigo, podia ser só impressão, mas ele parecia estar fazendo um esforço enorme para tirar aquelas palavras da boca.
–Que legal. – Sorri. – E então, ouviu a fita? – Decidi puxar assunto, não tinha muito a perder.
–Esqueci... – negou ele. – Desculpe – Ele não me olhou nos olhos. Patrick era como um muro alto, eu precisava descobrir um portão, precisava uma chave, precisava de algo que me deixasse entrar. E não estava dando certo.
–Ah tudo bem, tenho uma cópia lá em casa, a gente pode ouvir enquanto faz o trabalho. -Sugeri, e consegui roubar algum sorriso do rosto dele, aquele sorriso tímido, amarelo, mas um sorriso de verdade. – E bem, eu andei ouvindo algumas coisas do século XIX, e gostei do resultado. – Ri, talvez o portão aparecesse agora.
–O que você ouviu? – Perguntou. Eu não sei se era uma demonstração de interesse, mas já era melhor do que um aceno de cabeça.
–The Lady of Shalott, é um poema se não me engano, que foi transformado em música. – Respondi, embora não me lembrasse exatamente onde tinha ouvido. A resposta simplesmente voou da minha boca. O resultado foi bom, pela primeira vez eu vi uma expressão facial nele, os olhos se arregalaram, a boca fez uma curva deixando os lábios se separarem um pouco, e por eles entrou um pouco de ar.
–É muito bom. – Ele respondeu, e senti um entusiasmo latente. – É sobre mim.
–Como assim? – Perguntei. – A canção era sobre uma princesa fadada a uma maldição, ela vivia em uma torre tecendo uma tapeçaria sem-fim, se ela deixasse de tecer, nem que fosse para contemplar a paisagem, a maldição entraria em ação, e ela morreria. Certo dia, da janela da torre, ela vê Lancelot; encantada pelo cavaleiro, a Lady para de tecer, e desce para encontrá-lo, a maldição se cumpre, e a moça morre em um barco, antes de chegar a seu amado. Era bastante triste, mas não entendia o que Patrick queria dizer com aquilo.
–Você sabe... Eu deveria ter ficado tecendo... –Respondeu ele brevemente. – Eu fiquei surpreso. Patrick talvez tivesse sofrido por amor. Eu queria reconfortar ele, mas não sabia muito sobre o assunto. Amor parece algo tão forte e difícil de entender, que eu nunca me preocupei em parar para pensar.
–Bem... Talvez não termine por aí... Vai ver no final Lancelot encontra o barco e quebre a maldição... – Disse, talvez se desse um final alternativo para a história, ele passaria a se sentir melhor.
Ele sorriu, mas foi o sorriso sarcástico, o sorriso de “pare de falar bobagens” e me arrependi levemente de ter dito aquilo.
– Acho que não é bem um conto de fadas. – Ele respondeu, grave e pessimista. – Essas coisas não existem.
–Patrick, se existem maldições, também existe algo que as quebre. – Disse, tocando no ombro dele e olhando em seus olhos. Ele tremeu.
O Alarme da escola soou depois de horas de tédio, eu pedi para ele esperar, precisava ir ao banheiro, fiquei com um pouco de medo: e se ele sumisse? Voltei o mais rápido que pude. Ele me esperava na porta.
–E então, vamos?
Ele assentiu com a cabeça. Começamos a andar juntos, vi que o pessoal fazia alguns comentários, inclusive algumas amigas da Larissa, isso não era muito bom, mas eu não me importei, resolveria isso depois. Percebi que ele estava mais solto, mais natural, mas ainda assim distante, eu sabia que não era Patrick, mas sim um buraco em forma de Patrick que se abriu no Universo, eu precisava trazê-lo de volta, sentia que precisava. Mal podia esperar para contar para Yara o que ele disse sobre o poema, falar com ela ia ajudar. É estranho, as vezes eu penso em Yara antes de pensar em qualquer outra pessoa. Nem avisei minha mãe que ele vinha. Decidi mandar uma mensagem, ela responde dizendo que o almoço vai demorar mais, e um pouco irritada comigo por não ter avisado. Decido ir ao parque para matar o tempo.
–Desculpe... Sua casa não era pro outro lado? – Ele perguntou delicadamente, mas na verdade eu quase pude ouvir um “para onde você está me levando?”
–É... Eu só queria dar um tempo pra minha mãe arrumar a casa.. E aí a gente pode fazer uma pesquisa de campo e tal.
–Ah sim, esqueceu de arrumar a cama e não quer que eu veja. – Ele meio que sorriu. Patrick tinha o humor ácido. – Eu ri para concordar.
Quando chegamos no parque ele parou de súbito, eu pude ver que ele parecia triste, mais que as outras vezes.
–Tá tudo bem? – Perguntei. Silencio.
–Tá sim. – Respondeu depois de um tempo, como se voltasse de outra dimensão. Nos sentamos na grama. Ele se abraçou num tronco de árvore, como se quisesse ficar mais confortável.
–Curte vir aqui?
–Na verdade, nunca vim. –Ele respondeu, em seco. O Parque era a duas quadras da casa dele. – Perdi muito?
–Ah, eu gosto de parques, é o mais perto da natureza que dá para chegar na cidade... e tem algodão doce – eu ri. – Você quer?
–Como é feito?
–Ah?
–Como é feito o algodão doce?
–Ahhn... Eu nunca parei para pensar... Acho que vai açúcar... – Respondi, nunca parei para pensar mesmo.
–E você come algo cuja origem desconhece? — Ele acusou. Ele tinha um jeito estranho de puxar assunto. Dei de ombros. – Ele continuou, contando com os dedos:
–Esportes radicais: 1 – Alpinismo, 2- Rafting, 3- comer, se você for o Leonardo. – Eu ri, eu nunca sabia como reagir quando ele falava, e isso é bem novo pra mim.
–Pelo menos para comer não precisa de capacete. – Eu ri de novo. Achava eu sorriso meio idiota, mas ficava meio sem reação quando ele falava.
–Eu gosto de capacetes... São a maior prova que humanos são uma espécie estúpida.
–Como assim? – Mais uma vez ele me surpreendia.
–Bem, acho que o que estava acontecendo, é que os humanos estavam se envolvendo em atividades que acabavam por machucar gravemente suas cabeças. Em vez de – como seres sensatos – evitarmos de fazer tais atividades, inventamos um dispositivo para continuar com as atividades que potencialmente quebrariam nossos crânios. Meio estúpido.
Eu me senti obrigado a concordar. Essa era a coisa legal com Patrick, nunca dava pra saber o que tava passando pelo cérebro dele. Quer dizer, não que eu consiga ler as mentes das outras pessoas, mas elas eram meio previsíveis. Patrick era um emaranhado de pensamentos, nunca dava pra saber ao certo o que tinha lá dentro.
–Nunca parei para pensar nisso. – Admiti, com um riso.
–Quase como a internet. – Ele completou. – É a solução para todos os problemas que não existiam antes dela existir.
–Agora acho que saquei o lance do século XIX. – Eu respondi. Antes achava que Patrick era um tipo de alien, que sua mente trabalhava em outro plano, agora percebi que ele só via as coisas de um jeito mais profundo que a maioria das pessoas.
–Já imaginou alguém com facebook e com fé na humanidade? Pois é, o único que existia se matou de desgosto. – Disse ele, examinando uma pequena formiga que escalava uma folha de grama. – Patrick era surpreendente.
–E então... Como acha que podemos fazer o artrópode? – Continuei, não sabia puxar assunto com Patrick, isso era muito diferente para mim.
–Podemos matar alguém e usar os ossos das mãos como a perninhas. Podemos usar o pâncreas como o corpo, acho que tem o tamanho certo, pras asas a gente usa um pedaço da pele. – Ele disse, com um olhar sério e sombrio. Fiquei atônito por alguns segundos. – Ooou podemos usar massa de modelar. – Ele riu, revelando o conteúdo da sacola que trazia: massa, tinta, cola e pincéis. Humor negro.
–Acho que vou preferir a massinha mesmo. – Disse com um pouco de espanto. – Ele riu de mim, seu riso era sincero dessa vez: expirou e curvou a boca em forma de “U” enquanto mantinha os olhos fixos em mim. Acho que era a primeira vez que ele me olhava fixamente.
–Toma, tenta fazer. – Ele destacou um pedaço de massinha preta e jogou na minha direção, eu comecei a moldar o material sem nenhum talento, enquanto observava ele fazer o mesmo. As mãos de Patrick eram ágeis, talvez fosse pela habilidade com os desenhos. Minha formiga era disforme, cada perna de um tamanho; a cabeça, ao invés de quase oval, era meio quadrada, com alguns buracos, tinha conseguido produzir um queijo suíço com perninhas. A de Patrick era quase real, não ser pelo tamanho.
–Formigas são legais. – Ele disse, levantando os olhos sem se distrair do que fazia. – Mas não são muito boas pra pele. – ele continuou, dessa vez baixando os olhos em direção a meus braços. Fiquei sem entender por alguns minutos, até que senti que algo queimava meu braço, como se tivessem apagado um cigarro nele, aquele formiga tinha me picado, minha pele ardia como se alguém tivesse enfiado um monte de agulhas ali.
–CH2O2. –Ele disse, com a mesma cara de riso.
–Que!? – Exclamei. Pela primeira vez levantei um pouco a voz, e me arrependi por isso, mas meu braço tava ardendo pra caramba.
–Ácido fórmico, fórmico vem de formiga, ácido fórmico fez sua pele de pêssego ficar assim. – Ele exclamou, meio áspero. Se fosse qualquer outra pessoa eu me ofenderia, mas Patrick era diferente, era só o jeito dele de ser sincero.
Ele tirou algo do bolso, um potinho de plástico com alguma coisa dentro, uma pasta branca, ele pegou um pouco com os dedos e passou no meu braço, foi reconfortante, a ardência desapareceu na hora.
–Obrigado. – Agradeci. – Ele esfregou as mãos uma na outra para tirar a pomada.
–Não tem de quê. Vai ver ela ficou irritada, você não capturou a real beleza dela. –Disse ele, com um riso, e apontou para minha “formiga”; toda torta, uma perna maior que a outra, talvez um pâncreas com falanges humanas fosse mais parecido com um inseto.
–Acho que o pâncreas ia ficar melhor. – Eu ri.
–Vai dar trabalho pra conseguir... Melhor deixar assim mesmo. – Ele riu. – Bem, você cuida do trabalho escrito. Eu cuido das observações. Combinado? – Patrick era bem prático. Ele se levantou como que fosse embora.
–Hey! Espera, você não ia almoçar comigo? – Eu perguntei. Sabia que não devia forçar nada, mas já havia convidado.
–Err... Você sabe, eu tenho umas formigas para observar, umas falanges para arrancar, acho que fica para a próxima. – Ele falou, enquanto saia de cena, fiquei meio decepcionado, mas só o fato de passar aquela hora com ele já era mais que eu esperava. Patrick era um cara legal, só precisava se aproximar mais.
Quando cheguei em casa tive que discutir com minha mãe, ela gritava porque tinha feito panquecas à toa, e foi só ai que lembrei que tinha pedido pra ela fazer o almoço. As vezes eu esqueço das coisas, sem tem nenhum motivo, sei lá, e minha mãe parece estranha as vezes, mas não discuti. Deve ser chato fazer umas cinquenta panquecas e não aparecer ninguém para comer. Queria falar com Yara logo, mas lembrei que tinha que fazer a pesquisa, sabia que se deixasse pra depois ia acabar não fazendo. E não queria ver Patrick irritado. ( Na verdade, eu não conseguia imaginar ele irritado, acho que era impossível)
Os artópodes (do grego arthros ; “articulação” e podos; ‘pé” ) são um filo de animais invertebrados que possuem exoesqueleto rígido constituído de quitina e vários apêndices articulados, cujo número varia com a classe. Com mais de um milhão de espécies descritas, agrupadas em cinco grandes subfilos: insetos, aracnídeos, crustáceos quilópodes e diplópodes, os artrópodes constituem o maior filo de animais existentes, equivalentes a cerca de 84% dos animais conhecidos pelo homem.
Lembrei da formiga que me picou hoje. Patrick estava observando ela nos mínimos detalhes, eu achava irrelevante, e nem prestei atenção, aí ela me picou, e doeu pra caramba, mas ele tinha a solução, é como se ele já soubesse. É isso que é legal e diferente no Patrick, ele presta atenção nas coisas que ninguém mais presta. Parecem coisas pequenas, que não vão fazer a diferença, só que no final ele tá certo. É esquisito, cada vez mais tenho vontade de ouvir o que ele tem pra dizer.
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