Guardian Angel

1 Capítulo Único


Olhou nos olhos da menina que o encarava com um misto de curiosidade e desconfiança. Engoliu em seco, se batendo internamente por ter se deixado distrair, permitindo que fosse flagrado dessa forma. Era no mínimo humilhante.

Diversos adjetivos eram atribuídos a ele. Corajoso, alegre, bondoso, gentil, atrapalhado, e até mesmo bonito. Poderia pensar em mais dez adjetivos que já ouviu ao longo de seus muitos anos de vivência. Contudo, esperteza e inteligência certamente não entravam na lista.

Coçou a nuca, sorrindo amarelo, enquanto forçava sua mente a trabalhar rápido, buscando desesperadamente por uma desculpa no mínimo plausível para estar em frente ao banco em que a moça estava sentada, encarando-a de forma tão descarada. Realmente não esperava ser visto.

“Er... sabe, eu acho que te conheço de algum lugar. Você não me é estranha.”

A menina piscou duas vezes, assimilando as palavras do rapaz, que sentiu vontade de se estapear. Onde ele poderia tê-la vista? Do caminho da escola para a casa dela? Ele sabia que ela pouco mudava esse percurso. O fato de naquele momento ela estar ali, sentada em um dos bancos da pequena praça, com diversas crianças correndo ao redor, era algo inédito, completamente diferente do que ela costumava fazer. E foi essa quebra de rotina que fez com que o loiro baixasse a guarda e se aproximasse de forma tão vulnerável.

Porque ele sabia tudo sobre ela. Sabia seu nome, sua idade, a escola em que estudava, o local onde morava. Conhecia seus sonhos, seus desejos, seus medos e o sofrimento que guardava dentro de si, fruto da maldade alheia. Sabia que ela sempre prendia o cabelo em um rabo de cavalo alto, reclamando baixinho sobre o comprimento do cabelo, e sabia que ainda assim ela não iria cortá-lo. Sabia que gostava de ler livros de fantasia e ouvir músicas internacionais, se desligando da letra e apenas apreciando a melodia.

Sabia tudo sobre ela. Por dentro e por fora. Era aquele que mais a compreendia.

Contudo ela não poderia nem em sonhos saber sobre isso. Só o fato de tê-lo visto era um erro gravíssimo.

“Eu... eu não sei de onde você pode me conhecer.”

Ele ouviu a voz, baixa e calma, como sabia que era. Sorriu um pouco mais abertamente. Já havia começado uma mentira e decidiu dar prosseguimento a ela. Já iria ser punido por isso de qualquer forma.

“Ahh, você estuda na mesma escola que eu visitei semana passada.” Disse apontando para o uniforme da garota, “Eu me mudei recentemente e estou procurando uma escola para me matricular. Devo tê-la visto por lá.”

Terminou a frase com um sorriso brilhante, como se esse não fosse o momento mais constrangedor pelo o qual passou.

Observou a menina dar um pequeno sorriso, enquanto juntava suas coisas, se preparando para levantar.

“Deve ser. Desculpa, mas preciso ir.”

O loiro anuiu, movendo-se para o lado e dando espaço para a moça passar. Suspirou aliviado, pela primeira vez agradecendo pela personalidade introspectiva da menina.

Observou enquanto ela se afastava, e escondeu o rosto nas mãos, passando-as em seguida pelos fios claros, aliviado. Essa foi por pouco. Precisava ser mais cuidadoso.

Observou ao redor, notando que ninguém reparava em si. Fechou os olhos e se concentrou, sentindo a energia percorrer seu corpo inteiro, sentindo cada célula se agitar, e se concentrando em seu peito. Assim que a sensação sumiu, abriu os olhos e olhou a própria mão, enxergando somente a paisagem através da mesma. Sorriu satisfeito.

Não poderia se descuidar dessa forma e tornar-se visível novamente.

Balançou a cabeça animadamente, decidido a ser mais atento.

Olhou na direção que a moça havia seguido, sabendo para onde a mesma iria. Começou a andar na mesma direção.

Em sua mente ainda rondava a sombra do risco que havia corrido. Anjos da guarda não devem ser vistos pelo seu protegido.

Devem acompanha-los, guarda-los, aconselhá-los.

Tornarem-se visíveis? Isso não era permitido.

E Naruto sabia perfeitamente bem disso.

Mas se importava?

**

Entrou em casa, sabendo que a encontraria vazia. Passou direto pela entrada da cozinha, com fome, mas sem vontade de cozinhar algo. Pensou em pedir algo por telefone. Uma pizza, talvez. Tinha direito a comer besteira uma vez ou outra.

Subiu as escadas, entrando em um dos dois quartos do corredor, fechando a porta com um leve “clique” e jogando com delicadeza a mochila pesada sobre a cama. Sentou-se na cadeira giratória em frente à sua escrivaninha de estudos e suspirou.

Apoiou o cotovelo sobre a madeira e repousou o queixo sobre a mão, pensando no estranho encontro com o garoto loiro no parque.

Ele havia chegado de forma repentina. Não o vira se aproximar, apenas o encontrou ali, parado e a observando, com expressão neutra. Como se o chão tivesse sido aberto e ele tivesse pulado de lá, tudo em fração de segundos.

Riu de leve. É claro que ele não havia se materializado. Ela quem estava distraída demais com seus próprios pensamentos e não notou sua aproximação.

Ninguém se aproximava dela dizendo acha-la familiar. Sabia que isso acontecia com outras pessoas, mas não com ela. Girou na cadeira e olhou-se no espelho, grande, antigo, grudado à parede, ao lado da cama. Viu um par de olhos castanhos a encarar de volta. Sorriu tristemente.

Sua única característica que a diferenciava das demais estava sempre assim, escondida. Esconder seus olhos claros por trás de lentes castanhas era como arrancar as asas coloridas de uma borboleta, fazendo-a parecer somente outro inseto qualquer. Gostava da cor de seus olhos. Tão diferentes, tão peculiares. Mas estava cada vez mais difícil aguentar as piadas. Seus colegas de sala inventando histórias para seu tom perolado, espalhando boatos sobre uma cegueira que não existia. Em pouco tempo as pessoas passaram a procurar pela menina quase cega que frequentava a escola.

Analisou seu rosto. Era comum. Cabelos negros, rosto claro, ligeiramente fino. Era como qualquer outra japonesa. Não via em seu reflexo nada que se destacasse. Não a ponto de chamar a atenção do rapaz loiro.

Finalmente deu de ombros, puxando a mochila da cama e pegando o caderno e o pesado livro que emprestara da biblioteca da escola. Abriu-os sobre a escrivaninha, sem vontade para trocar de roupa. Decidiu primeiro fazer seu trabalho. Depois pensaria em se trocar.

**

Sorriu enquanto observava a morena se olhar no espelho. Apesar de conhecê-la a fundo, não podia ouvir seus pensamentos, enquanto se ocupava em imaginar o que ela estaria pensando ao se olhar com tanto cuidado.

Em seu íntimo rezava para que ela parasse com esse costume bobo de usar lentes.

Fez uma careta quando a viu começar seus estudos, frustrado por não ver os olhos perolados. Jogou-se sobre a cama fofa da menina, sabendo que ela não notaria o movimento. Olhou para o teto, soprando a franja dos olhos, sentindo-se entediado.

Era sempre entediante quando a protegida começava a estudar.

E céus, ela passavamuitotempo estudando.

Cruzou os braços sob a cabeça e observou a moça. Era melhor que encarar o teto.

**

Observou a morena largar a mochila no chão, sem o menor cuidado, e sentar-se pesadamente sobre a cama, olhando na direção de Naruto, mas não para ele, que se encontrava invisível aos seus olhos. Viu quando as primeiras lágrimas desceram pela face pálida, pingando na mão da moça, sendo logo seguida por outras iguais.

Abaixou-se em frente a ela, observando seu rosto de frente, vendo os olhos vermelhos pelo choro e pela alergia que a lente estava causando. Suspirou, totalmente sem ação.

Fazia de tudo para que Hinata fosse feliz. Implantava sonhos bons enquanto ela dormia, para que acordasse de bom humor. Sussurrava palavras boas e gentis em seu ouvido, para que se sentisse bem. Protegia-lhe sempre para que nenhum mal lhe acontecesse. Fazendo-a parar antes que um carro em alta velocidade a atingisse. Contudo, não tinha como a proteger das palavras dos outros.

E essas palavras doíam mais que uma queda. Naruto sabia disso. E se sentia extremamente frustrado por não poder fazer nada para evitar isso. Para poder protegê-la disso.

Se ergueu, pulando pela janela aberta, descendo graciosamente até o chão de gramado verde, um andar abaixo da janela da menina. Olhou sobre o ombro, vendo o topo da cabeça morena pela abertura da janela. Não estava gostando nada do rumo que a personalidade de Hinata estava tomando. Não podia ler pensamentos, mas lia sentimentos. E os da protegida estavam cada vez mais sombrios.

Andou na direção já conhecida, decidido a fazer algo quanto a isso. Algo que impedisse que a moça viesse a sofrer mais. E o faria do seu jeito, pois pensava que o jeito correto não estava surtindo os efeitos desejados.

Sorriu de canto quando viu o grande prédio da escola de Hinata.

Nunca havia gostado de seguir regras, de qualquer forma.

**

Hinata olhava para a paisagem que a grande janela da sala de aula mostrava. Observava as folhas laranja das árvores balançando ao vento, algumas indo ao chão. Sorriu levemente. O inverno estava para chegar. Adorava o inverno. Uma época onde todos os estabelecimentos vendiam bebidas de chocolate feitas das mais diversas formas só poderia ser uma época boa.

A moça estava completamente distraída observando o balançar dos galhos. Era algo que lhe trazia paz, e só Deus sabia como ela precisava de paz no momento.

Ouviu o barulho de passos e cadeiras sendo arrastadas, e soube que o professor entrava em sala. Seguiu com o olhar uma folha caindo levemente de um galho já quase nu. Seguiu-a com o olhar até a mesma sumir pelo peitoral da janela. Suspirou quando ouviu o pigarrear do professor, pedindo a atenção da turma, e voltou sua atenção para ele. Notou que ele não estava só e pousou os olhos sobre quem estava ao seu lado, apenas para os arregalar levemente, reconhecendo o rapaz loiro e sorridente em pé ao lado do homem de meia idade. Contudo, ao invés das roupas de tom claro do outro dia, agora o garoto vestia o uniforme masculino da escola.

“Se acalmaram? Ótimo.” Dito isso, o homem colocou sua pasta sobre a mesa e apontou para o rapaz ao seu lado “Este é Naruto Uzumaki. Ele acabou de se transferir, vindo de outra cidade. Espero que deem bem.”

O rapaz, que agora ela sabia se chamar Naruto, alargou ainda mais o sorriso, mostrando os dentes, e fez uma reverência para a turma. Antes que ele pudesse falar algo, foi cortado pelo professor.

“Escolha um dos locais vazios e sente-se. Sinto muito por cortar sua saudação, mas estou com o conteúdo um pouco atrasado.” Apesar disso, o tom do homem não demonstrava nenhum pesar, fazendo Naruto arquear uma sobrancelha. No fim apenas deu de ombros e passou os olhos pela sala, vendo quais as cadeiras livres. Piscou ao achar uma que lhe interessasse e andou até ela.

Hinata observou o garoto caminhar até ela e ficou mais nervosa na medida em que ele se aproximava. Sua mente começou a trabalhar rápido, e ela pensou se ele iria falar com ela ali, naquele momento, na frente de todos. Contudo, ele apenas sentou-se na cadeira em frente a ela.

A morena suspirou baixinho, dividida entre o alívio e a decepção.

E se martirizou por passar mais tempo encarando a cabeça loira à sua frente do que olhando para o quadro, onde o professor escrevia diversas fórmulas.

**

Olhava o professor falando, andando de um lado para o outro, escrevendo diversas fórmulas no quadro e reprimiu um bocejo. Não era nenhum gênio, mas por conta dos anos em que estava rondando pela terra, e havia muitos anos, às vezes o tédio lhe fazia ler o que estivesse ao seu alcance, apenas para passar o tempo. Então não era nenhuma surpresa que aquele assunto de ensino médio soasse fácil para o loiro. Reprimiu um sorriso com o pensamento que poderia usar isso para ser, ao menos uma vez na vida, um dos mais inteligentes do local. Sentiu-se contente, já imaginando o olhar de admiração dos outros quando tirasse nota máxima naquela matéria difícil.

Ele, como um anjo, ainda que de baixa patente, não deveria pensar dessa forma egoísta. Mas quem disse que ele se importava com o que devia ou não fazer?

Prova disso era ele estar ali, como um humano, sentado em frente à sua protegida.

Passou praticamente a aula inteira pensando em uma forma eficiente de abordar a morena atrás de si. Sabia que a melhor forma de fazê-lo era usar como desculpa aquele encontro constrangedor no parque.

Enquanto via o professor arrumar seu material e sair de sala, decidiu que faria isso.

Os demais alunos se agitaram assim que o superior saiu de sala. Alguns andavam pelo local, outros pularam do assento para a mesa, conversando com os colegas ao redor. O loiro notou que a garota atrás de si não fez nenhum movimento grande como o dos outros. Ela apenas virou a cabeça para a janela, na mesma posição que estava antes de ele ser apresentado à sala. Fez uma careta. Aquilo era errado. Ela deveria estar conversando com um grupo de amigas. E não estar ali olhando para a janela. Ela era uma adolescente de 17 anos. Não fazia sentido esse isolamento.

Com isso em mente, o loiro virou-se na cadeira, cruzando os braços em seu encosto e apoiando o queixo sobre eles, olhando para a menina com um sorriso. Esperou que ela notasse que ele lhe observava.

Hinata sentiu seu pescoço esquentar, sensação típica de quando achava que tinha alguém lhe olhando. Desviou o olhar da paisagem e encontrou um par de orbes azuis lhe encarando. Arregalou os olhos e empurrou o tronco pra trás, encostando-se no encosto da cadeira.

Estava virando um hábito, ser observada por ele.

Notando a reação, Naruto sorriu, como em uma desculpa.

“Não queria te assustar.” Sorriu mais abertamente, fazendo Hinata pensar se era possível o lábio se esticar tanto daquele jeito. “Então, somos da mesma sala. Me chamo Naruto.”

Falou isso sem perceber que o professor já havia lhe apresentado à turma. Hinata tampouco se atentou àquele detalhe.

“Hinata Hyuuga” Disse quase no automático, sem conseguir tirar os olhos dos azuis do outro. Era normal alguém ter olhos nesse tom?

“Prazer!” Naruto se ergueu um pouco e passou uma das pernas pela cadeira, sentando-se completamente de frente para a garota, com os braços ainda apoiados no encosto. Decidiu apenas falar o que viesse à mente. “Então, me mostra a escola depois? Quase me perdi pra chegar na sala hoje mais cedo.” Mais uma mentia para sua lista, que já estava tão extensa que ele simplesmente parou de contar.

Hinata piscou, sem saber ao certo o que dizer. Ouviu baixinho ao seu lado um grupo de meninas cochichando. Conseguiu captar algumas frases, como“Eles se conhecem?”e“Ai, que inveja.”Inveja? Finalmente desgrudou os olhos dos orbes azuis, e olhou a face do loiro como um todo. E entendeu a fala da outra. Ele era bonito.Muitobonito.

Essa constatação apenas a deixou ainda mais constrangida.

“Mostrar a escola? Acho que você deveria falar com o chefe de turma.” Ela apontou timidamente um rapaz sentado algumas cadeiras à frente. Ele estava deitado sobre a mesa, com o rosto escondido nos braços e Naruto tinha certeza que dormia. Arqueou a sobrancelha e pensou como uma pessoa daquelas era chefe de turma. Olhou Hinata, fazendo um pequeno bico.

“Ah não. Quero que você me mostre. O que custa?” Olhou rapidamente para trás “Sem contar que o chefe de turma está bem cansado, hein.”

Hinata encarou o loiro, que apenas sorriu mais abertamente. A morena finalmente sorriu levemente e confirmou com a cabeça.

**

Ainda ouvia diversos comentários. Comentários maldosos como sempre foram. Agora havia um assunto novo, comentado principalmente entre as meninas. Sobre o rapaz loiro que andava sempre pra cima e pra baixo com a morena estranha.

Porque desde o dia em que entrou na escola, Naruto não desgrudou mais de Hinata. A morena não tinha mais tempo para ficar sozinha. Quando ele não estava com ela, mandava mensagens (Sempre com diversos erros. Naruto não se dava bem com o aparelho).

E ela havia se acostumado a isso. A sempre ter alguém consigo. Sorrindo, se preocupando, pedindo sua opinião.

Quando pensou sobre o assunto, chegou à conclusão que nunca foi tão feliz. Ter um amigo fazia uma diferença que ela não imaginava ser possível. E isso era tudo o que ela precisava.

Ou ao menos era o que queria acreditar. Ignorava tudo o que sentia e considerava impróprio para se sentir por um amigo. Ignorava os batimentos acelerados, as mãos nervosas quando ele se aproximava. Ignorava a forma como os pelos do pescoço se arrepiavam quando ele a abraçava de surpresa, como forma de dizer bom dia.

Não queria e não iria pensar no assunto.

E teria tido sucesso, caso Naruto não fosse tão irreverente.

Hinata se olhou no espelho, suspirando aliviada assim que retirou as lentes dos olhos. Aquilo estava lhe dando alergia, deixando os olhos vermelhos e lacrimejantes. Guardou as lentes e se preparou para puxar os livros da mochila, quando ouviu a campainha. Franziu o cenho.

Ninguém visitava sua casa. Morava apenas ela e o pai. E seu pai saía cedo, antes dela acordar, e voltava tarde, quando Hinata já estava dormindo.

Movida pela curiosidade, desceu as escadas com certa pressa e abriu a porta, dando de cara com os conhecidos orbes azuis.

“Oi Hinata!”

“Naruto! O que você faz aqui?”

“Vim te ver.” Disse dando de ombros. Fixou os olhos no rosto da menina e reparou nos olhos claros. Sorriu abertamente. “Seus olhos!”

A menina paralisou, lembrando que havia tirado a lente. Antes que pudesse dizer algo, o loiro entrou na casa, sorrindo e fechando a porta atrás de si, como se ele próprio morasse ali. Teve vontade de rir ao pensar isso. Era típico da personalidade dele.

Ia dizer que tirou a lente, já se preparando pra explicar o motivo de esconder a cor dos olhos. Mas parou quando sentiu um toque quente na lateral de seu rosto.

Naruto segurou o rosto de Hinata, erguendo a face da garota, para olhar melhor os olhos perolados. Olhar de perto, como sempre quis fazer. Acariciou de leve a maçã do rosto, em um impulso que não quis controlar.

“Seus olhos são lindos. Não deveria escondê-los.”

Hinata sentiu seu rosto esquentar e soube que estava extremamente vermelha. Queria esconder o rosto nas mãos, ou ficar de costas para o loiro, contudo, a mão que a segurava no rosto a impedia. Não era um toque forte, ela poderia se desvencilhar com um leve movimento da cabeça. Mas havia uma força interior que a impedia de fazê-lo. O toque quente, gentil, a deixava paralisada.

E ela gostou tanto de sentir a mão em seu rosto. Gostou de olhar os olhos azuis assim, tão de perto. Podia sentir o cheiro suave que vinha dele, cheiro de madeira, de grama molhada. Era incomum uma pessoa ter esse cheiro. Mas eratãobom. Ela gostou de senti-lo.

E isso ela não conseguiu ignorar. E foi nesse momento que o plano ruiu.

Deixou de usar a lente e não se importou com os comentários dos colegas de classe. Sobre como falavam que ela era falsa, como queria mudar a cor dos olhos. Os boatos sobre cegueira desapareceram, já haviam tido tempo e oportunidade de notar que ela enxergava e bem. Ela dizia para si mesma que não se ligava porque gostava de seus olhos. Porque gostava como eles eram e porque o que os outros achavam não importava. Mas ela sabia a verdade. No fundo, ela não se importava porque Naruto gostava dos olhos dela. Ele dizia isso. Com certa frequência até.

E isso a deixava feliz. Muito.

E isso a assustava. Ela se apaixonou. Mas nada lhe garantia que um dia pudesse vir a ser correspondida.

**

Naruto a puxou pela mão na direção do balanço. A praça estava vazia, sem a presença das diversas crianças que sempre corriam de um lado para o outro. Hinata notou que estava frio demais para que as crianças brincassem lá. A neve caía levemente, não o suficiente para atrapalhar, e o frio estava presente.

Puxou o cachecol sobre o nariz, para cobrir o rosto do frio que batia em sua face por conta dos passos rápidos, sendo guiados pelo ritmo de Naruto.

Ao chegar onde queria, Naruto a colocou de frente para o balanço, indicando para ela se sentar. Hinata o fez, com um sorriso divertido no rosto, imaginando o que o outro estava planejando.

O loiro sentou-se no balanço ao lado e deu impulso, levantando os pés e sentindo o vento no rosto, causado pelo movimento. Sorriu para ela e fez um movimento com a mão, incentivando-a a se balançar também.

E ela o fez. Não conseguia negar nada que o outro lhe pedia. Assim que ergueu os pés, sentiu o vento no rosto e sorriu largamente, gostando da sensação.

O anjo sorriu ao observar a cena. Tudo o que fazia era para fazê-la feliz. Tudo o que falava, tudo o que planejava era para vê-la sorrindo. Sabia que há muito isso deixou de ser uma obrigação e virou uma necessidade. Como o inconsequente que sempre fora, não se questionou quando notou que os sentimentos mudaram. Apenas os aceitou. Não poderia fazer nada a respeito. E se pudesse não o faria do mesmo jeito. Porque gostava da sensação. Gostava de amar.

Nunca havia experimentado esse sentimento. Amava, era verdade. Amava a neve, amava as nuvens. Amava o cheiro de grama molhada (e passou a amar mais quando Hinata disse que sentia esse cheiro vindo dele, ficando extremamente vermelha em seguida). Amava muitas coisas. Mas esse amor que os humanos sentem, esse amor que os faziam pensar sempre na mesma pessoa, tomar atitudes que não tomariam, apenas por causa dessa pessoa. Isso ele nunca sentiu em seus mais de 100 anos.

Então quando notou que amava, por mais que soubesse que era contra as regras, não considerou errado. Pois em sua concepção, algo tão bom, que fazia tão bem, um sentimento tão bonito, não poderia ser errado.

Sentiu-se feliz em notar a felicidade na expressão de Hinata. Durante anos como anjo protetor da garota, nunca conseguiu fazer com que essa expressão aparecesse no rosto dela. Por mais que lhe enviasse sonhos bons, que a protegesse. Foi somente quando interagiu de fato com ela que conseguiu alcançar seu intento. Ele poderia viver feliz o resto da eternidade, se ela fosse feliz assim. Ainda que não fosse com ele.

Porque ele não se iludia quanto a isso. Ele sabia que não poderia ficar com ela. Ele não envelhecia. Não era humano.

Balançou a cabeça e espantou esses pensamentos. Não era hora nem lugar para eles aparecerem.

Quando voltou a si, notou que a menina o encarava, com um pequeno sorriso e a expressão curiosa.

“Pensava no quê?”

“Em como você parece feliz.”

Hinata abaixou um pouco a cabeça, ligeiramente envergonhada. Naruto sempre foi sincero e nunca escondeu o que pensava. Ela queria muito ser assim.

Naruto a encarou por alguns segundos e se inclinou para ela, os dois balanços parados, lado a lado, próximos. Ergueu o rosto dela pelo queixo, e correu os olhos pela face que amava. Os olhos perolados, as bochechas avermelhadas pelo frio, os lábios finos, os cabelos negros escapando do coque que Hinata havia feito mais cedo. E tudo era simplesmente lindo para ele. Lindo demais para resistir.

Nem sequer pensou nos contras. Apenas mandou tudo pro fundo da mente e decidiu fazer o que queria.

Nunca foi um bom anjo mesmo. Sempre foi egoísta demais.

Se aproximou sem aviso prévio, e roçou os lábios nos dela.

Hinata suspendeu a respiração, sentindo a maciez da boca do outro. E aquilo não parecia real. Parecia uma imagem de um sonho.

Quando percebeu que ela não o rejeitou, Naruto subiu a mão pelo rosto dela, em um carinho suave até a têmpora esquerda da garota, para em seguida escorregar a mão para a nuca dela, puxando-a delicadamente contra si, aprofundando delicadamente o beijo.

E eternidade nenhuma era melhor que aquilo.

**

Jogou sua bolsa no chão do quarto, sem se importar onde ela cairia, jogando-se na cama logo em seguida. Tinha um sorriso largo no rosto, e sentia o coração bater rápido.

Seus batimentos aceleraram no momento em que Naruto a beijou e não voltaram ao normal até o momento.

Riu para si mesma, encolhendo as pernas e rolando na cama, se sentindo boba, leve, alegre, tudo ao mesmo tempo.

Pensou se era assim que as pessoas se sentiam quando estavam bêbadas.

Riu do pensamento.

Nunca antes fora tão feliz.

**

Observou o sono da morena, sentando na cadeira em frente à escrivaninha de Hinata. Suspirou tristemente, olhando novamente para o papel nas mãos.

É claro que descobririam que ele quebrou as regras.

É claro que saberiam que estava vivendo como um humano, ao lado da protegida.

É claro que descobririam que ele se apaixonou e ainda fizera a humana se apaixonar por si (e confessava que essa parte o fez sorrir. Como já disse, era um egoísta).

É claro que saberiam que ele a havia beijado.

E é lógico que iriam puni-lo por isso.

Olhou para Hinata. Havia sido egoísta. Egoísta além do aceitável. Pensou apenas nele. O que ele queria, o que ele sentia. Não se importava com o que aconteceria consigo.

Mas e Hinata?

Se ele fosse proibido de voltar ao mundo humano, o que aconteceria com ela? Ela ficaria bem? Ele era atrapalhado, mas não era burro. Sabia que a felicidade que ela sentia era por causa dele. Sabia que ela se apoiava nele. E até aquele momento, até ler a carta enviada por seus supervisores, não pensou nas consequências que aquilo teria para Hinata.

E ele sofria por não poder dizer nada a ela. Não poder se explicar ou se despedir.

Andou até a cama e tocou-lhe a testa. Era a única coisa que ele poderia fazer.

E pela primeira vez sentiu nas costas o peso de seu egoísmo.

**

Olhou novamente para a cadeira em frente à sua. Fazia uma semana que o loiro não aparecia na escola. Ele não atendia o telefone, e no prédio do apartamento em que ele morava ninguém sabia onde ele estava.

Hinata primeiro ficou preocupada. Muito preocupada. E se houvesse acontecido algo a ele? Ele estaria doente? Machucado?

Contudo, logo depois apareceram pensamentos mais sombrios. Que ela não fosse o que ele esperava. Que ele tivesse se cansado. Ele era inconstante, afinal de contas. E esses pensamentos foram alimentados pelos comentários alheios, que voltaram a incomodá-la.

“Eu não disse que ele iria se cansar?”

“É claro que ele não ficaria tanto tempo pendurado nela. Afinal, que graça ela tem?”

“Demorou até tempo demais.”

“Aposto que até ele achou esses olhos estranhos demais pra aguentar.”

Estava decidida a ir para casa, se jogar na cama e não sair tão cedo. Contudo, no meio do caminho avistou o parque coberto de neve. O parque onde eles haviam se beijado há uma semana. Como se uma força invisível a puxasse, ela se dirigiu para o mesmo balanço em que havia se balançado naquele dia.

Encostou a cabeça na corrente direita e fechou os olhos. Deixando o vento balançar seus cabelos soltos. Não teve paciência para prendê-los. Não tinha mais lágrimas para derramar. Então apenas ficou ali, de olhos fechados, sentindo o vento frio.

“Uma moeda pelos seus pensamentos.”

Abriu os olhos de súbito quando ouviu a voz. Olhou para frente e viu aqueles olhos. Azuis. E não havia percebido até aquele momento a saudade que sentia daqueles orbes.

“Naruto...”

Ele sorriu abertamente, como sempre, sentando-se no balanço ao lado do dela.

“Tá fazendo o que sentada aí, sozinha? Vem, vamos tomar algo.”

Ela o encarou, incrédula.

“Você sumiu por uma semana.”

Ele coçou a nuca, sem jeito.

“É, eu sei.”

“Você sabe... Então você sabe?” Cerrou os olhos para ele, sentindo a ira crescer dentro de si. “Você some por uma semana, aparece como se nada tivesse acontecido, e apenas fala ‘eu sei’?” Se levantou do balanço, fazendo o loiro se encolher. “Seu... seu idiota!” O empurrou com força no ombro, fazendo com que Naruto perdesse o equilíbrio e caísse do balanço, para trás, com uma das pernas ainda em cima do assento. Ela não deu a menor importância, então não viu a expressão de dor no rosto do loiro. “Você não deu notícia. Nenhuma! Nem se deu ao trabalho de responder minhas mensagens! Você só faz o que quer!” Passou a mão pelo cabelo negro, tirando-o do rosto. “Você é um egoísta!”

Virou-se e andou na direção contrária à que o loiro estava, paralisado pela explosão de Hinata, sempre tão calma. Assim que saiu do choque, sorriu minimamente. Gostava bem mais de vê-la com raiva que triste.

Levantou-se rapidamente do chão, fazendo uma careta ao esticar as costas, e correu até onde ela estava, puxando-a pela mão. Antes que a garota pudesse reagir de alguma forma, Naruto colou os lábios aos dela.

Hinata até pensou em empurrá-lo. Mas quem queria enganar? Queria tanto abraça-lo que doía. E foi o que fez, o abraçou quase tão imediatamente quanto ele a beijou. Passou os braços pelas costas dele, o apertando com o máximo de força que conseguia. Naruto, que tinha a intenção de aprofundar o beijo, gemeu de dor com o aperto e arqueou as costas, em uma reação imediata, afastando as mãos da moça, colocando-as sobre os próprios ombros.

Ela piscou, a compreensão a atingindo.

“Está machucado?”

“Um pouco.” Ele sorriu sem graça. “Me desculpe por não dar notícias, mas tive um assunto importante pra resolver. Precisei viajar com urgência e lá não tem sinal, então o telefone não pega.” Tocou levemente o rosto dela. “Não vou mais sumir sem dar notícias. Eu prometo.”

Hinata sorriu, segurando o rosto de Naruto com ambas as mãos, beijando-o nos lábios, levemente.

“Vou cobrar a promessa.”

Ele riu.

“Pode cobrar.” Passou os braços pela cintura dela, que retribuiu, dessa vez tento cuidado para não machuca-lo. “Eu amo você.”

Ela sorriu abertamente, ainda que um pouco envergonhada. Deitou a cabeça no ombro dele, adorando a sensação de ser abraçada por Naruto.

“Também amo você.” Ele sorriu, beijando-lhe o topo da cabeça. Ela permaneceu abraçada a ele, sentindo o cheiro de grama molhada que tanto gostava. Teria permanecido mais tempo assim, caso a curiosidade não tivesse sido maior. “Mas Naruto... Como você machucou as costas?”

Ele sorriu.

“Eu era um anjo e me apaixonei por uma humana. Isso é proibido, então como castigo arrancaram minhas asas e tiraram minha imortalidade.”

Hinata arqueou a sobrancelha, divertida.

“Ah, é? Doeu quando arrancaram?”

“Muito. Não deram nenhuma anestesia.”

Ela riu, abraçando-o novamente.

“Ainda quer tomar algo?”

“Um chocolate quente cairia bem nesse frio.”

Ela concordou e se deixou ser guiada.

Naruto não conseguia diminuir o sorriso, apesar das dores nas costas. Pois o que ele disse era verdade.

Sua punição por egoísta e ter se apaixonado por uma humana e tê-la feito se apaixonar, foi ter a imortalidade retirada, junto com suas asas.

E eles foram bem cruéis em sua remoção. Além da quase interminável bronca que ouviu, sobre ser um péssimo anjo, ser uma vergonha para eles e mais umas dezenas de besteira que não prestou atenção.

Contudo, nenhuma congratulação de seus superiores teria feito o loiro mais feliz que aquela punição.

Olhou para a morena e lhe beijou a cabeça, aparentemente sem motivo nenhum, fazendo-a rir.

Sim, ser humano ao lado da protegida lhe fazia imensamente feliz.

Notas finais
Espero que tenham gostado. :)
Feedbacks e críticas são bem vindos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!