Notas iniciais
Olá pessoas! No finalzinho da noite eu apareço por aqui. Desculpem não ter sido mais cedo, mas é que eu fiquei fora o dia todo hoje e quando cheguei não consegui me concentrar para fazer a revisão. Só consegui agora, depois de muito protelar (e ainda assim acho que deixei passar alguma coisa), mas espero que vocês gostem do novo capítulo... o Não vou me demorar muito, porque estou caindo de sono, mas deixo logo avisado que eu comecei a responder os comentários, mas fiquei sem internet (na última atualização) e acabei preferindo respondê-los todos quando atualizasse outra vez, mas estou caindo de sono aqui e acho que não vai dar para fazer isso hoje. Amanhã, sem falta, todos receberão suas repostas à la mim: maiores que os próprios comentários... Enfim, espero que gostem do capítulo e muito obrigada por todo o carinho!!! OBS: Agradecimento especial a Felipe ( https://fanfiction.com.br/u/141481/), que me ajudou muito na formatação da parte do envio das mensagens. Você é demais, amigo. Obrigada mesmo!!!

Julia encarou a tela do computador por um tempo, sem esboçar qualquer reação e mesmo que Anitta gritasse do outro lado — e balançasse os braços para que a ruiva a olhasse — demorou um pouco para que ela voltasse a si.

— Ele falou comigo — sussurrou ao telefone. — O que eu faço?

— Fala “oi” — respondeu Anitta. — Agora eu tenho que te ensinar a paquerar? Fala sério, July.

— Não estou paquerando. Eu só quero saber o que está acontecendo e nada mais além disso. Não confunda as coisas — retrucou emburrada.

— Sei! Então vai direto ao ponto.

— Excelente ideia — Julia pigarreou. Anitta sabia que vinha uma interpretação digna de Oscar por aí. — “Oi, como você está? Estive sonhando com você nessas últimas semanas, o que não é nada estranho, e recentemente descobri que você e meu pai se conhecem e brigaram feio por algo misterioso e que me dá medo. Poderia me dizer o que está acontecendo, por favor? Não esquece de me explicar o porquê do terremoto”.

— Olha, parece bom para mim.

— Vai te lascar, Anitta — A jovem respondeu enquanto a outra gargalhava. Até que Julia ouviu a voz da mãe da amiga chamar.

— Julia, eu preciso ir. Mamãe precisa de mim — se explicou como quem se desculpa.

— Está tudo bem. Boa noite e obrigada.

— Por nada — ela sorriu. — E me conta tudo pela manhã, quero saber de todos os detalhes.

— Eu conto.

— E quando eu digo: “todos os detalhes”, eu quero dizer: “todos os detalhes mesmo”. Se ele mandar fotos sem camisa, me envia pelo celular.

— Boa noite, Anitta. Tchau — Julia apertou o botão de desligar e colocou o celular em cima do criado mudo. Pegou o notebook e deitou-se na cama com ele. Respirou fundo, olhando para a saudação do jovem.

Antes que pudesse sequer pensar no que digitar, o celular vibrou na cabeceira da cama. Uma nova mensagem havia chegado.

Anitta
Não acredito que você desligou na minha cara, dona Julia Adams, mas eu entendo sua reação. Não é todo dia que um Dylan Norton nos chama no facebook. Não esquece de me manter atualizada sobre o que conversarem.
19:37

Julia respirou fundo e colocou o celular, novamente, onde estava. Voltou a encarar o notebook.

Julia
Oi, Dylan!
19:39


Escreveu, letra após letra. Perguntava se deveria responder ou apenas ignorar. Estava quebrando sua própria promessa de não confundir os relacionamentos. Dylan deveria ser apenas o parceiro de laboratório e só. Estava tudo errado ali.


Dylan
Não tive tempo de me despedir hoje cedo. Desculpe. Eu tinha algumas coisas urgentes para resolver.
19:39

Julia
O que poderia ser tão urgente? Um prédio em chamas? — brincou, mas se arrependeu em seguida e enviou outra mensagem.
19:40

Julia
Desculpe, não é da minha conta. Foi mal.
19:40


Dylan
Tudo bem, não se preocupe. Foram coisas antigas. Problemas não resolvidos, mas está tudo bem agora.
19:41

Julia
É sobre meu pai?
19:42


Esperou a resposta, mas ela não veio. Demorou alguns longos minutos antes que ele pudesse sequer se pronunciar. A verdade era que ele escrevia, mas não sabia mesmo o que falar e então apagava a mensagem enquanto buscava as palavras certas.


Dylan
O que sabe sobre isso?
19:47

Julia
Eu fui chamá-lo, quando a aula acabou, e vi vocês dois discutindo — escreveu apressada, temendo que ele simplesmente se desligasse do computador. Queria respostas e queria naquele momento. Completou o restante da mensagem com a pergunta crucial:
19:47

Julia
O que estão escondendo de mim?
19:48


Dylan
Não é nada, Julia. Desencana.
19:48

Julia
Essa vai ser sua resposta? — A jovem insistiu, perdendo a paciência ao perceber que tentava evitar o assunto. Estava na cara que ele e o seu pai a estava fazendo de besta. Ela odiava se sentir enganada e era exatamente essa sensação que tinha, naquele momento.
19:48


Dylan
Foi um assunto comercial, que aconteceu há alguns anos. É só
19:49

Julia
Que mal o meu pai lhe acusa de ter feito a minha família — perguntou. Novamente Dylan demorou a responder.
19:49

Julia
Droga, não faça isso. Eu odeio esperar.
19:54


Dylan
Desculpe. Vou ser sincero com você. Estou ponderando para ver se devo te contar ou não.
19:55

Julia
Eu quero saber, Dylan.
19:55


Dylan
Porque não pergunta a seus pais? É mais fácil
19:56

Julia
Porque eu não confio mais neles.
19:56


Julia só percebeu que chorava quando as lágrimas molharam as teclas do notebook.


Dylan
Então confia em mim?
19:56

Julia
Não tenho outra opção. Por favor, só me diz o que aconteceu.
19:57


Dylan
Eu não quero falar sobre isso no computador. Podem estar nos espionando.
19:57

Julia
Quem?
19:57


Dylan
Poderia me encontrar amanhã, na saída do colégio, em frente a quadra?
19:58

Julia
Eu nem sequer te conheço. Eu disse que não tinha outra opção se não confiar, mas não abuse da minha boa vontade.
19:59


Dylan
Eu sou o único que sabe o que você quer saber. A não ser que vá perguntar a seus pais.
19:59

Julia
Essa não é uma opção
20:00


Dylan
Então te vejo amanhã, na quadra. Estarei de moto.
20:00

Julia
Eu odeio moto
20:01


Dylan
Isso nunca mudou — respondeu colocando um boneco sorrindo e enviou uma última mensagem naquele dia:
20:01

Dylan
Até amanhã, Julia.
20:02

Julia
Até amanhã, Dylan.
20:02

____ ღ ____

Julia adormeceu ainda no computador enquanto tentava descobrir mais sobre o terremoto misterioso que atingiu Cambridge High na manhã anterior. Em todos os sites de notícias, a mesma resposta foi dada para o tremor inexplicável: possível terremoto na área ou má fundação do terreno. Nenhuma dessas era uma explicação que ela aceitava.

Levantou-se cedo e deixou o quarto. Tudo o que queria era apenas pegar suas roupas, comer alguma coisa e ir para o colégio. Não iria no carro do pai, então tinha que sair cedo já que a única forma de chegar era pedalando. Não podia se atrasar.

Entrou em seu quarto pisando leve, para não acordar as irmãs mais novas, abriu o armário e escolheu o que vestiria. Pegou uma sapatilha e virou-se dando de cara com Tina. A jovem mantinha os braços cruzados na altura do peito e olhava fixamente para ela.

— Oi Tina — cumprimentou. — Tchau Tina. — Despediu-se.

— Espera um minuto aí — a irmã segurou o braço de Julia. — Você agiu daquela maneira infantil ontem à noite e dormiu no quarto de hospedes sem falar com ninguém. Agora me olha e diz “oi” e “tchau”?

— Eu agi de maneira infantil? — a ruiva falou mais alto do que deveria. Marie acordou assustada. Não demorou muito para que Bruno e Willa também aparecessem no quarto. — Eu quero saber quem são vocês, porque nenhum de vocês faz parte da minha família. Minha família não mentiria para mim e não me esconderia nada.

— Julia, filha... — o pai aproximou.

— Não fale comigo — mandou. O homem parou no caminho, ficando tremendamente sério. — Nenhum de vocês. Nunca mais — passou entre sua mãe e seu pai, seguindo na direção do banheiro.

Respirou assim que se viu sozinha. Se olhou no espelho por um tempo, antes de tirar a roupa e entrar no chuveiro. Deixou que a água caísse em sua cabeça, lavando-lhe não apenas o corpo, mas a alma também. Quando se deu conta, chorava encolhida no canto do box. Estava devastada ao ponto de não querer sequer sair de casa, mas precisava ir. Tinha que falar com Dylan e descobrir o que quer que tenha acontecido. Esperava que ele, ao menos, fosse sincero com ela.

Demorou um tempo ali, antes que seu celular tocasse na pia. Desligou o chuveiro, enrolou-se na toalha e saiu. Pegou o celular e percebeu que havia uma mensagem em seu Facebook.

Dylan
Aula cancelada. Tem um monte de repórteres aqui e uma equipe de Engenheiros. Parece que descobriram que a fundação da escola não é lá essas coisas, graças ao temporal que deu ontem. Corríamos perigo e nem sabíamos — dizia a mensagem. Julia percebeu que ele digitava outra, por isso não respondeu.
06:25

Dylan
Então, por causa disso, não poderemos nos encontrar mais tarde.
06:26

Julia
Mas você prometeu...
06:26


Dylan
Te encontro, na frente da sua casa, em quinze minutos.
06:27

Julia
Está ótimo para mim, mas não podemos conversar aqui.
06:27


Dylan
Te levarei a um lugar. Acho que teremos privacidade para conversarmos lá.
06:28

Julia encostou-se na parede. Não sabia mesmo se queria estar sozinha em um lugar onde nem fazia ideia de onde era e justamente com o garoto ligado à sua morte, ao menos nos pesadelos. Para uma pessoa sensata, aquilo seria loucura a se fazer. Para uma pessoa com dúvidas, não seria uma má ideia.


Julia
Onde é esse lugar — perguntou, mas o símbolo verde que mostrava Dylan online desapareceu. Ele havia saído.

Julia não conseguia pensar, queria respostas e só isso importava, mas confiava tanto no rapaz ao ponto de subir em uma moto e ser levada para só Deus sabe onde? Principalmente quando os pais falavam dele de uma forma como se o jovem destruísse tudo o que tocava?

Não sabia mesmo o que fazer.

Enxugou-se e vestiu-se, deixando o banheiro o mais rápido que podia. Foi em direção ao quarto outra vez, dando graças a Deus por não ter ninguém lá. Pegou sua bolsa e de dentro tirou um spray de pimenta. Tinha aquilo desde que algumas moças foram assaltadas, no bairro onde vivia anteriormente. Nunca precisou usar, mas se ele tentasse qualquer coisa não pensaria duas vezes.

Colocou no bolso e desceu as escadas novamente. Iria sair sem ter que falar com ninguém. Achou que essa seria a melhor solução, mas então resolveu tentar uma coisa antes.

— Quem é Dylan Norton? — Perguntou da porta da cozinha. Todos a olharam. Os olhos arregalados de sua mãe pareciam querer dizer que a conversa agora era mais séria do que as outras vezes. Ela estava assustada.

— Por favor, Julia. Não é nada grave, nós te garantimos isso — a mãe respondeu em um tom baixo de voz.

— Mas eu quero saber — ela gritou. — Será que vocês não entendem ou não enxergam que esse segredo só está me fazendo ficar com raiva dessa família? Se não é nada grave então me digam: Quem é Dylan Norton? — repetiu a pergunta. Bruno levantou-se da cadeira e ficou de frente para a filha.

— Alguém que trouxe a desgraça a essa família — respondeu por fim, no mesmo instante em que a buzina tocou na frente da casa. Julia assustou-se, já que mantinha a atenção presa em seu pai. O homem esticou-se pela janela da cozinha para ver quem era, arregalando os olhos ao perceber que se tratava do motivo daquele assunto. Voltou-se para sua filha, mas ela já não estava mais lá. — Julia! — gritou, mas a ruiva já havia batido a porta e corria na direção da moto.

Dylan lhe entregou o capacete e ela, prontamente, o colocou na cabeça. O abraçou pelas costas e ele ligou o veículo.

— Está tudo bem? — perguntou para ela.

— Julia, não faça isso — o pai pediu uma última vez, ainda estava na porta.

— Só me tira daqui, por favor — implorou, encostando a cabeça nas costas dele.

Dylan aceitou o seu pedido e saiu o mais rápido que conseguiu daquela rua.

____ ღ ____

A moto entrou por uma estrada de barro e parou assim que chegou ao final dela. Dylan a parou na garagem da casa que se encontrava ali, ao lado de um carro importado. Retirou o capacete e desceu da moto. Em seguida, auxiliou a ruiva a fazer o mesmo.

— Quem mora aqui? — Julia perguntou enquanto os dois seguiam até a entrada da casa.

— Eu moro — respondeu, tirando a chave do bolso e abrindo a porta.

— Onde estão seus pais? — perguntou ainda do lado de fora, mesmo que Dylan tenha dado espaço para ela entrar.

— Eles morreram — respondeu, deixando claro que se entristeceu com o rumo da conversa — Foram assassinados durante um assalto. Desde então eu moro sozinho.

— Eu sinto muito — Julia abaixou a cabeça ao perceber o que fez.

— Foi há muito tempo, não se preocupe — ele forçou um sorriso. — Eu sugiro você entrar. Vai cair uma chuva forte em alguns minutos. Não quero que se molhe e que fique gripada.

— Eu não sei se devo...

— Confie em mim, Julia — pediu. — Eu jamais lhe faria algum mal. Não precisa ter medo de mim.

Ela assentiu, respirou fundo e entrou na casa em seguida. Era tudo muito bem organizado para a casa de um rapaz sozinho. Dylan colocou a chave em um cinzeiro e tirou o casaco, pendurando em um gancho preso na parede.

— Você fuma? — a ruiva perguntou.

— Não — respondeu aproximando-se e sentando na poltrona. Apontou o sofá para a garota. — Eu vi esse cinzeiro em uma casa que vende pequenas coisas e comprei. Eu gostei dos detalhes.

— Comprou apenas porque gostou? — ela perguntou sorrindo, sentando no sofá.

— É um excelente porta-chaves — respondeu também colocando um sorriso no rosto. A garota olhou em volta, percebendo a casa ao seu redor. Haviam dois quartos no final do corredor, um banheiro ao lado de um deles e um closet aberto, onde tinha várias roupas masculinas. Incluindo ternos.

— Você tem irmãos? — Julia perguntou. Dylan não desviava a atenção dela.

— Bem mais do que eu gostaria — respondeu. — Eu tenho três irmãos: um mais velho que eu, um mais novo e uma irmã.

— Eles vivem aqui com você? — continuou com o interrogatório. Queria conhecê-lo antes de, finalmente, perguntar qual era o assunto tão sério que havia tido com o seu pai.

— Não. Tem muito tempo que não vejo meus irmãos e, para ser sincero, espero que nunca mais volte a vê-los.

— Não se dá bem com eles?

— De maneira alguma — respondeu soltando o ar dos pulmões. Não percebeu que apertou os punhos até sentir a pele da palma da mão doer. — Somos incompatíveis. Eu penso de maneira diferente e eles não aceitaram isso.

— É um assunto delicado para você. Sinto muito ter tocado nele.

— Não se preocupe — respondeu levantando-se e dirigindo-se até a cozinha. — Está com fome? Posso preparar alguma coisa.

— Você sabe cozinhar? — ela o seguiu.

— Sim, eu sei — respondeu. — E, modéstia à parte, muito bem. Viver sozinho me ensinou muitas coisas — cruzou os braços a frente do corpo e encostou-se no balcão. — O que vai ser, senhorita Adams? Alguma comida francesa, eu presumo.

— Um sanduíche está ótimo para mim — respondeu. — Deixa a comida francesa para outra ocasião.

— Seu desejo é uma ordem, mademoiselle — respondeu imitando um sotaque francês. Julia sorriu divertindo-se.

— Obrigada — agradeceu. Virou a cabeça, analisando o lugar a sua volta e por isso sequer percebeu que Dylan a admirava. Os olhos castanhos chegavam a brilhar enquanto percebia cada traço de curiosidade que ela deixava transparecer. Riu quando percebeu o spray de pimenta no bolso da sua calça.

— Se quiser olhar a casa, pode ficar à vontade — comentou, voltando sua atenção rapidamente ao pão em sua frente.

— Não. Estou bem aqui — respondeu sorrindo. — Quer ajuda?

— Não se preocupe. Eu dou conta de um sanduiche — sorriu e Julia encostou-se na parede, percebendo assim ter uma visão privilegiada do lado de fora da casa. Pela janela, conseguia ver os veículos estacionados.

— De quem é o carro? — quis saber.

— Meu, mas pouco o uso. É mais um mimo que insisto em ter, como um objeto de colecionador.

— Não são todos que possuem uma Ferrari como objeto de colecionador — respondeu. Dylan sorriu.

— Não julgue um livro pela capa, Julia — O jovem terminou de montar o sanduiche e o entregou, em um prato, para ela. — Eu tenho muito mais dinheiro do que essa casa, a moto ou a minha aparência dar a entender.

— Não estou te julgando. Não agora, pelo menos — respondeu com sinceridade.

— Suco ou refrigerante? — ele perguntou sem desviar os olhos dela.

— Suco — respondeu por fim. Dylan deu um passo em sua direção e a encarou com um sorriso brincando nos lábios pequenos. Os olhos nem sequer desviavam-se dos da ruiva. Do mais profundo e encantador azul que trazia ainda mais brilho ao seu rosto. A respiração acelerou-se e Julia, instintivamente, levou a mão ao spray. Não o tirou do bolso, mas já estava preparada.

— Poderia me dar licença? — O rapaz pediu olhando para algo atrás da garota. Ela desviou a atenção dele e olhou o que era por cima do ombro. Riu quando percebeu estar na frente da geladeira. Deu um passo ao lado, tentando esconder que ficou tão rubra quanto seus cabelos. — Pêssego, Laranja ou Uva?

— Laranja, por favor — respondeu agradecendo por não ter gaguejado. Era um bom sinal. Dylan encheu o copo em sua frente, para mostrar que não tinha colocado nada nele, e a entregou. Encheu um para si mesmo, guardou o restante de volta a geladeira e seguiu para a sala outra vez, sentando-se na mesma poltrona de antes. Julia acomodou-se no sofá novamente e colocou o copo em cima da mesa de vidro, que ficava no centro. Entre os dois jovens. — Está muito bom o sanduiche — comentou quando deu a primeira mordida.

— Obrigado — agradeceu. A ruiva reparou na televisão grande, presa na parede e na estante logo abaixo dela.

— Você tem um videogame. Qual é a marca?

— Xbox One — respondeu.

— Você está brincando, não é? Esse Xbox ainda não lançou — a ruiva mantinha os olhos arregalados. Estava surpresa com o que encontrou.

— Eu tenho alguns amigos com bastante influência — explicou como se fosse algo simples. Julia sorriu. — Quer jogar comigo?

— Posso? — perguntou entusiasmada. Os olhos chegaram a brilhar com a proposta. A menina adorava todos os tipos de consoles e saber que tinha a oportunidade de jogar em um que nem estava no mercado ainda era quase como um sonho.

Ele colocou o copo de suco em cima da mesa e ligou aparelho, entregando um dos controles para ela. Durante as horas seguintes, se divertiram juntos. Julia ganhou algumas partidas e Dylan outras.

A ruiva ria como nunca e o rapaz desejou apenas que o tempo parasse ali. Tudo o que queria, tudo o que desejava do mais profundo de seu coração, era que ela fosse feliz daquele jeito. Que o sorriso de menina nunca se apagasse daquele rosto e que pudesse sentir aquela euforia o tanto quanto fosse possível para um humano sentir.

— Eu venci novamente — vibrou, erguendo os braços acima da cabeça. Comemorava. Isso fez Dylan sorrir largamente. — Sua vez, senhor Norton. Não me desaponte.

— Receio que terei que fazê-lo, Julia — respondeu. O sorriso diminuiu gradativamente. — Já está escuro lá fora e a chuva já passou. Deve ir para casa — colocou o controle do console na mesa e levantou-se — Te levo de carro até lá. Sei que odeia moto.

— Não posso ir ainda — comentou, também desfazendo-se do seu controle. — Você não me disse nada e eu preciso de resposta. Não posso voltar para eles sem saber o que escondem de mim.

— Sua família te ama, Julia — explicou enquanto colocava uma mecha do cabelo vermelho da jovem para trás de sua orelha. — Não seja tão severa com eles.

— O que há entre você e minha família? O que você fez de tão grave? Porque brigou com a sua família e porque tenho sonhado com você?

— Você tem sonhado comigo?

— Desculpe, não era para eu ter dito isso — abaixou a cabeça. Estava envergonhada.

— Eu prometi te contar e vou fazer, mas antes quero que venha comigo a um lugar especial para mim. Onde gosto de ir para pensar — esticou a mão para Julia e esperou que ela a pegasse. — Lá te conto tudo. Prometo.

— Está bem — respondeu se deixando ser guiada por Dylan. Ele sorriu e, antes de deixarem a casa, pegou o casaco de couro e o colocou nos ombros da garota. Sabia que o tempo estava frio lá fora e não queria que ela ficasse doente por isso. Caminharam por um caminho de barro, no escuro, e finalmente chegaram a um banco de madeira coberto nos fundos da casa. A lua cheia já aparecia brilhosa no céu, deixando tudo apenas na mais perfeita penumbra.

— Pode sentar ali — Dylan mostrou o banco e Julia assim o fez.

— O que fazemos aqui? — perguntou.

— Quero te mostrar uma coisa, mas você vai ter que fazer silêncio.

— O que? — Dylan pediu novamente para que fizesse silêncio, dessa vez apenas levando um dos dedos a boca. Julia respirou de maneira profunda e olhou para sua frente, para a mesma direção onde o rapaz olhava. Foi então que viu a primeira luz fraca brilhar. Logo após veio outra, outra e mais outra. Várias nos minutos seguintes. Tantas ao ponto de parecer que as estrelas desceram dos céus e brilhavam para eles na terra.

— Vaga-lumes — Julia sussurrou em meio a um sorriso.

— Centenas deles — o jovem respondeu na mesma proporção de voz. — Mandei que colocassem esse banco aqui para que pudesse admirá-los quando precisasse pensar.

— São lindos — a jovem falou alto e todos apagaram ao mesmo tempo. Dylan sorriu.

— Tem que sussurrar — ele advertiu tão baixo quanto podia.

— Sim, senhor — a ruiva também o fez, voltando sua atenção para a frente.

— Seu pai trabalhava com o meu irmão mais velho. Eram sócios em uma empresa, há uns cinco. Lembra o que ele fazia antes de ser professor? — perguntou ainda em um fio de voz. Julia negou. — Ele tinha uma empresa metalúrgica com minha família, mas acontece que meu irmão nunca foi confiável e tentou aplicar um golpe. O alertei antes disso e seu pai teve tempo de fugir da cilada que meu irmão havia armado. A empresa afundou depois disso e Bruno me culpa por não ter tentado persuadir o Bill a desistir do plano e essa é a razão que não falo com minha família também. Eu destruí o patrimônio deles.

— Então você fez um favor a minha família. Porque o meu pai o trata assim ? — virou-se, completamente, na direção dele. Esperava uma resposta agora que parecia que as perguntas seriam respondidas.

— Existem duas razões: A primeira delas é porque quando não aceitou o acordo, ele perdeu absolutamente tudo que tinha investido — a encarou. — Não sei como pode não lembrar disso. Segundo Bruno, foi uma era negra para família de vocês — respirou de maneira pesada. — E a segundo foi porque me apaixonei por uma de suas filhas.

— Quem?

— Não acho que seja tola e que não tenha percebido, senhorita — respondeu. Julia ruborizou imediatamente.

— Minha mãe disse que sabia que você estava de volta, porque os meus sonhos começaram. Porque ela diria isso? Porque toda vez que eu durmo eu tenho pesadelos com você?

— Não se lembra mesmo? — perguntou. A jovem negou.

— Há cinco anos você sofreu um acidente de carro e ficou internada por dois meses, não foi? — Dylan a encarou com seriedade. Olho no olho. Julia sentiu-se tonta enquanto os admirava. Depois de um tempo, assentiu. — E algumas coisas de sua vida foram esquecidas. Eu fui uma dessas coisas — Levou suas mãos até o rosto de Julia e acariciou com carinho a pele macia — Eu dirigia aquele carro. Você tinha aceitado fugir comigo.

— Como poderia ter dirigido um carro. Qual a sua idade agora, dezoito?

— Eu tenho vinte e dois — respondeu sorrindo. — Tinha dezessete na época. Por isso foi um absurdo para sua família. Você tinha feito treze anos — Julia levantou-se do banco, assustando os vaga-lumes que voltaram a se apagar, e voltou pelo caminho de barro sozinha. Dylan correu até ela, segurando-a pelo braço. — Não me deixe sem saber o que está se passando em sua mente.

— Isso não explica o porquê de só agora ter começado, visto que o acidente aconteceu há tanto tempo — constatou séria. — Também não explica o porquê de, em meus pesadelos, você estar comigo quando eu morro.

— Eu estava em Aspen quando vocês estavam de mudança. Provavelmente deve ter me visto por lá e sua mente me reconheceu. Guardou meu rosto e se manifestou nas semanas seguintes. Esses pesadelos não começaram quando você chegou a Cambridge?

— Sim, exatamente no dia em que cheguei — concluiu.

— A mente humana é fascinante, Julia. Nunca duvide disso. — ele sorriu. Principalmente quando um vaga-lume acendeu bem entre eles. — E sobre você se ver morta, isso é obvio. Eu provoquei o acidente que quase te matou. É quase como uma resposta biológica que lhe diz para se afastar de mim, porque pode acontecer outro acidente. Uma defesa de sua mente. — Julia respirou fundo e assentiu.

— Eu não entendo porque não me disseram isso. Que mal há?

— Acho que não queriam que soubesse sobre o acidente ou sobre já ter me amado — Dylan a encarou. — Agora eu acho que posso te levar para casa. Tudo está explicado afinal.

— Obrigada — agradeceu. — Por ter sido sincero comigo e me contado a verdade, coisa que a minha própria família me escondeu.

— Por nada, mas não fique chateada com eles. Estavam tentando te afastar de mim.

— Não deu muito certo, não é?

— Não, não deu mesmo — ele olhou para o céu rapidamente, percebendo uma nuvem se formando mais ao sul. — Seus pais devem estar loucos, é melhor irmos andando. Não quero dar motivo para eles irem até a polícia e me chamarem de sequestrador.

— É melhor então — ela concordou virando-se e seguindo até a porta da casa. Dylan entrou rápido, pegou a chave e voltou.

— Espera aqui que vou buscar o carro — informou e Julia assentiu. No instante seguinte, a Ferrari vermelha parou em frente a moça. Dylan saiu do carro, correu até o outro lado e abriu a porta para ela. Julia balançou a cabeça enquanto ria e sentava-se no banco do carona. Colocou o cinto de segurança e esperou que seu companheiro de viagem fizesse o mesmo.

Não demorou muito até que o carro parasse em frente à casa da jovem. Os vizinhos olhavam pela janela, enquanto ela se despedia do garoto. Por mais que o lugar fosse bastante calmo e bom de se viver, a vizinhança era muito fofoqueira. Certamente o nome de Julia estaria na boca de todos no dia seguinte.

— Obrigado pelo dia maravilhoso — o rapaz agradeceu. A ruiva sorriu ao ouvi-lo.

— Eu que agradeço. Por tudo — aproximou-se e depositou um beijo em sua bochecha e ele fez uma careta engraçada, porém deixando claro o desapontamento pelo beijo não ter sido onde ele gostaria. A garota entendeu o que a expressão dele dizia e logo abriu a porta do carro. — Boa noite, Dylan.

— Boa noite, Julia — respondeu por fim. Esticou o pescoço quando a família inteira saiu para a frente da casa. Willa estava desesperada e agarrou Julia com força quando essa se aproximou. O pai a encarou por um tempo, antes de dar um beijo em sua testa e seguir até o carro onde Dylan estava. — Olá, professor.

— O que disse a ela? — perguntou sem formalidades. Estava furioso e isso era claro.

— Não se preocupe com isso — respondeu da maneira mais calma que conseguiu.

— Não estou brincando, Dylan. O que você disse? — insistiu com mais ódio em sua voz. O rapaz sentiu o vento ficar tremendamente forte, ao ponto de envergar, violentamente, as árvores com troncos mais resistentes. Parecia a aproximação de um furacão.

Os olhos do professor se tornaram amarelos e Dylan sorria para ele, apertando os olhos vermelhos enquanto fazia isso.

— Eu menti, não se preocupe — respondeu por fim. A ventania sessou gradativamente enquanto a feição de Bruno retornava a habitual calma que mantinha. — Ela parece ter acreditado no que falei, então mantenha a mentira.

— Que história contou dessa vez?

— A mesma que contei anteriormente.

— Deu muito certo antes.

— Daria se sua filha não tivesse se metido. Então, dessa vez, mande Marie ficar de boca fechada — respirou fundo — Também coloquei uma memória falsa nela. De um acidente, para explicar o motivo dos sonhos. Converse com todos e fale sobre esse acidente. Eu estava ao volante do carro quando ele bateu, há cinco anos. Entendeu?

— Sim — o senhor Blowest respirou aliviado. Não esperava esse tipo de colaboração do rapaz. Achou que na primeira oportunidade que tivesse sozinha com ele, contaria o que escondiam há muito tempo — Obrigado por cuidar dela hoje e resolver essa situação.

— Seria bem mais fácil falar a verdade — Dylan encarou a mão ainda no câmbio de marcha.

— Isso está fora de cogitação, sabe as consequências.

— Já disse que não permitirei dessa vez. Confia em mim.

— Boa noite, Dylan — o homem deu as costas para o rapaz e seguiu para dentro de sua casa, fechando a porta ao passar por ela. Dylan encarou a pista por um instante, antes de ligar a Ferrari e desaparecer na noite escura. O homem não havia dito se confiava nele, mas a promessa havia sido feita. Não deixaria nada acontecer com Julia.

Notas finais
É isso, amores! Inté amanhã com as respostas! Beijos e amo vocês!! Bye!!!