Guardião
4 Mentiras, terremoto e Facebook
Notas iniciais

Assim que Bruno liberou a turma de Biologia, Dylan desapareceu tão rápido e misterioso quanto havia surgido. Nem sequer despediu-se de Julia ou falou nada com o professor, apenas pegou seu casaco e saiu da sala.
A ruiva sorriu discretamente para o pai, enquanto seguia para a aula de Educação Física com o treinador Ortega. Era um homem alto e forte, embora carregasse uma barriga saliente e muito mal escondida pelo uniforme.
Ele fez com que todos os alunos se apresentassem e quis conhecer o condicionamento físico de cada um. Por isso, mandou que todos dessem trinta voltas na quadra, mesmo que o céu estivesse nublado e tendo uma chuva pronta para cair.
Quando a décima volta foi completada, as gotas de água começaram a molhar tudo e todos. Os gritos das meninas, na tentativa de impedir que o cabelo ou o penteado fossem desfeitos, fez Julia rir da situação. O treinador gritava dizendo que ninguém era feito de açúcar, mas elas pouco se importavam. Já corriam desesperadas, com as bolsas na cabeça, na direção do pavilhão mais próximo. O treinador não viu outra alternativa a não ser liberar a turma e dizer que o próximo treino seria na quadra coberta e que não haveria desculpa.
A jovem seguiu tranquila, mesmo que a chuva agora estivesse forte, e pegou sua mochila. Colocou nas costas e voltou para o prédio das aulas. Passou na diretoria e deu o recado de Anitta sobre a falta. Depois foi até a secretária e lhe entregou o papel com as assinaturas dos professores. Por fim, sentou-se nas escadas esperando que as turmas fossem liberadas.
Infelizmente Tina e Marie não tiveram a mesma sorte que a irmã e teriam aulas até o último horário. Só então poderiam chamar o pai e irem para casa.
Na realidade, o ponto de encontro era mesmo no estacionamento, mas tendo em vista que a chuva ainda caia do lado de fora, Julia não teve outra alternativa a não ser esperar por ali mesmo.
Enquanto buscava alguma coisa para distrair, em sua mochila, o monitor dos corredores se aproximou com suas mãos para trás. Era um senhor, que aparentava ter mais de cinquenta anos, vestindo uma calça marrom e uma camisa creme.
— Não deveria estar em aula, mocinha? — perguntou. Julia elevou os olhos até ele e sorriu.
— Mas eu estava em aula — mostrou seu uniforme molhado que ainda vestia. — De Educação Física, mas o professor liberou a turma por causa do temporal.
— Deixe-me ver sua grade — pediu, esticando a mão. A ruiva prontamente a entregou. Ele analisou e, por fim, a devolveu. — Não deveria esperar aqui dentro, mas como parece que o mundo vai desabar lá fora — deu uma pausa e olhou pela janela, reparando em um trovão — permitirei por hoje apenas. Não se acostume.
— Obrigada, eu acho — o homem novamente ergueu a cabeça e continuou sua patrulha pelos corredores. Julia revirou os olhos, um gesto particular seu, e buscou ver se o celular ainda estava vivo ou havia se afogado com toda aquela água. Para sua felicidade, ele ainda estava intacto, mas o bloquinho de anotações não teve a mesma sorte. Ela o retirou da bolsa e suspirou de maneira pesada. Estava completamente encharcado e todo borrado. A sorte era que ela se lembrava de alguns dos sonhos, mas não de todos.
Resmungou jogando-o novamente na bolsa e olhando para os corredores. Dois minutos depois o sinal tocou e os alunos começaram a deixar suas salas de aulas. Tina foi a primeira a encontrar Julia sentada. Ela vinha conversando com as meninas populares e a líder vinha logo atrás, de cara amarrada. Julia riu ao perceber o que estava acontecendo. Marie veio logo em seguida, trazia a outra metade das meninas.
Definitivamente, a Tiffany havia perdido a coroa de rainha.
— Ju, temos que levar as assinaturas dos professores na secretaria. Poderia chamar o papai? — Marie pediu aproximando-se da irmã e lhe dando um beijo no rosto. A ruiva assentiu e levantou-se de onde estava.
Caminhou pelo meio dos alunos, que guardavam suas coisas nos armários, e seguiu até a sala onde ela sabia que seu pai daria a última aula. Antes de entrar, percebeu vozes alteradas ali. Por isso encostou-se na parede, ao lado da porta, para ouvir o que acontecia.
O barulho dos jovens era muito grande e a garota mal conseguia entender o que seu pai dizia ou quem era que estava com ele, até que reconheceu a voz e ela pertencia a ninguém menos que Dylan Norton. Desejou ser uma mosquinha para ver sobre o que falavam. Depois de alguns minutos, os corredores foram sendo esvaziados e apenas ela permaneceu ali.
— Eu não vou permitir que isso aconteça outra vez, está me entendendo? — o professor falou. Julia apurou os ouvidos na tentativa de ainda pegar o rumo da conversa. Olhou pelos detalhes de vidro na porta — Você já não fez mal demais a essa família?
— Eu fiz? — o jovem perguntou. — Faz muito tempo, mas me lembro bem que desafiei a todos e lhes dei cobertura enquanto fugiam. Eu traí o meu povo por causa da sua família. Eu sou tão vítima como qualquer um de vocês.
— Mas você não perde nunca. Nós é que sempre perdemos. É justo isso? — o mais velho perguntou. Julia percebeu o jovem passar as mãos nos cabelos e encarar seu pai sem nem ao menos piscar. Era possível ver que ele mantinha uma respiração pesada e descompensada. Dylan estava furioso.
— Eu não perco?! Você quer me fazer rir, Bruno?! — gritou. O chão começou a tremer aos pés de Julia, os armários sacudiam como se ela estivesse no meio de um epicentro de um terremoto de grande magnitude e a garota não sabia o que fazer, por isso encolheu-se onde estava. Ainda assim conseguia ouvir os gritos do jovem — Eu sou o que mais perco e nenhum de vocês pode mensurar a dor que é. Você ainda tem a sua família unida e mesmo que aconteça sempre, vocês permanecem unidos. Eu sou caçado pela minha por causa do que escolhi antes. Eu sou sozinho. Tanto de amigos como de família, mas principalmente de amor. Quem sofre mais com tudo isso?
— Até parece que se arrependeu de ter feito o que fez — o professor continuou. As coisas chacoalhavam com mais ferocidade e até para ele foi difícil ficar em pé.
— Jamais! Eu fiz e faria tudo outra vez se fosse possível.
— Está bem, se acalme — mandou o homem. Os tremores de terra foram cessando devagar até não ter mais resquícios de que ele aconteceu. O que entregava eram poucos armários danificados e só. Julia olhou em volta assustada, enquanto se colocava de pé. Buscava ver se tinha alguém ferido por ali, mas não viu ninguém. Dessa forma, achou prudente ver como seu pai e Dylan estavam. Parecia que nada havia acontecido porque ainda discutiam — Desculpe. Eu entendo. Só peço que se afaste, não deixe que aconteça novamente.
— Da última vez deu muito certo, não foi? Eu permaneci longe e aconteceu do mesmo jeito — Dylan rebateu. Sua voz estava mais calma, mas ainda assim havia nervosismo ali.
— Sim, mas demorou três anos a mais. Quando você está por perto, parece que tudo é acelerado. Eles o seguem, Dylan. O que me garante que já não estão aqui, espreitando? É só questão de tempo agora?
— Eu estou aqui para fazer o meu trabalho, Bruno. Eu jurei e vou cumprir — respondeu. — Não vai acontecer dessa vez, é uma promessa.
— Você já prometeu tanto, filho. Já não sei se acredito — o professor sussurrou. Julia sabia que estava acabando aquela conversa e, mesmo contra a vontade gigante de permanecer ali e descobrir mais sobre o que falavam, ela dirigiu-se rapidamente até a saída do pavilhão. De lá ao estacionamento, dando graças a Deus que a chuva parou. Tina e Marie já aguardavam ali e sorriram quando ela se aproximou.
— Falou com ele? — perguntou a mais nova. Julia pensou que poderia abrir o jogo com as irmãs, falar o que havia acabado de ouvir, mas alguma coisa a impediu.
— Não o encontrei — respondeu desviando o olhar delas e encostando-se ao carro molhado. Já estava encharcada e mais ou menos gotas não faria a menor diferença.
— Eu vou procurá-lo. Já venho — informou Tina deixando a mochila com Marie e seguindo em direção aos grandes prédios do colégio. A ruiva apenas limitou-se a pensar na conversa entre Dylan e seu pai. Se não tivesse tanto barulho, talvez tivesse escutado tudo desde o começo. Pelo que chegou a ouvir, sabia que o rapaz tinha feito alguma coisa há um tempo atrás e que o seu pai não gostou nada. Talvez tenha sido aí que ela conheceu Dylan, mas de alguma maneira não lembrava-se dele.
Não demorou muito para que Tina retornasse com a chave do carro na mão.
— Achou? — Julia perguntou.
— Sim, ele está terminando de arrumar as coisas na secretaria e disse que já vem. Nos mandou entrar no carro e esperar lá dentro, antes que volte a chover — a morena apertou um botão que tinha no chaveiro e o carro destravou as portas. Julia sentou-se na frente porque ainda estava ensopada e não queria molhar uma das irmãs. Já Marie e Tina se jogaram no banco de trás.
Dez minutos depois o senhor Adams apareceu andando, rapidamente, na direção do carro. Pegou a chave da mão da filha e ligou o veículo. Não queria mais se demorar na escola. A discussão com Dylan havia lhe esgotado a paciência.
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Julia buscou o seu notebook e sentou-se com ele no colo, encostada a cabeceira da cama. Precisava começar o trabalho de história, mas quanto mais pensava naquilo, mais sua mente divagava na discussão que presenciou mais cedo.
Resolveu relaxar um pouco, visitando sua rede social, e percebendo uma notícia no canto esquerdo. Passaria despercebida se não tivesse a foto de sua escola e a seguinte legenda: “Fraco terremoto atinge zona escolar. Prefeito afirma que foi um fato isolado”.
Julia seguiu lendo a matéria que dizia que não havia explicação para ter havido aquele tremor, somente naquela área. Se fosse mesmo um terremoto, não teria apenas abalado aquele ponto, mas se alastraria por toda a cidade e adjacências. As suspeitas eram de que o terreno em que a escola foi construída estivesse cedendo, o que foi descartado pelos engenheiros que construíram o lugar.
Um pensamento passou pela cabeça de Julia, mas ela sabia ser impossível o que estava em mente. Os tremores aconteceram quando Dylan ficou nervoso e gritou com seu pai. Seria esse a real razão de ter havido um terremoto apenas na escola? Como isso poderia ser lógico?
Fechou a matéria e abriu uma nova guia de pesquisa. Digitou na busca “pessoas com poderes” e apertou o entra. A pesquisa achou algumas páginas falando sobre filmes com mutantes e coisas simples sobre super-humanos. Pessoas com capacidade de resistir à baixas temperaturas, que conseguiam correr mais rápido ou que levantavam mais peso. Existiam até aquelas pessoas que tinham alguma anomalia genética que os tornava mais resistentes, mas nada explicando sobre tremores de terra.
— Você não vem jantar? — Tina apareceu na porta, assustando a irmã que fechou o computador rapidamente. — Algum problema?
— Não, nada. Eu estava concentrada com o trabalho de história e você só me pegou de surpresa. Me assustei.
— Desculpe, é que a mamãe pediu para te chamar, porque ela já serviu à mesa. Sabe como ela é quando se trata do jantar: quer todo mundo lá embaixo — a morena explicou-se.
— Diz a mamãe que eu só vou lavar as mãos e já desço, está bem?
— Okay — respondeu a jovem e piscou. Seguiu em direção a porta e desceu as escadas. Julia reabriu o computador e fechou a página da busca. Retornou para a sua rede social e ficou completamente sem reação ao perceber que Dylan pedia para que aprovasse sua solicitação de amizade.
Julia se viu dividida entre ficar longe, o máximo que conseguia, e de se aproximar para entender melhor sobre o que ele e o seu pai conversavam. Ela não sabia mesmo o que fazer, mas resolveu que tomaria uma decisão depois do jantar. Se sua mãe chamasse uma segunda vez, ela certamente ouviria vários sermões quando chegasse.
Largou o computador em cima de sua cama e seguiu ao banheiro para lavar as mãos. De lá, desceu até a sala onde sua família já estava. Sentou-se sem falar absolutamente nada e começou a se servir.
— Como foi o primeiro dia de vocês no colégio? — perguntou Willa.
— Eu adoro chegar em uma escola nova — comentou Tina. Marie apenas assentia entusiasmada, enquanto se servia de uma porção extra de purê de batatas. — Já somos populares na escola.
— E já temos um grupo — a mais nova comemorou. — Eu adorei.
— E você, Julia? — a mulher perguntou. A ruiva a encarou, percebendo que toda a mesa se voltou para ela. — Se entrosou em algum grupo ou conheceu gente nova?
— Não teve nada demais — respondeu comendo um pouco de ervilhas. — Foi um dia como outro qualquer.
— Bruno... — a senhora Adams o incentivou.
— O dia foi comum. Apenas algumas discussões com alunos insubordinados. Apenas isso.
— Quando o senhor fala “alunos insubordinados” o que o senhor quer dizer? — Julia parou de comer e o observou seriamente.
— Alunos que não quiseram obedecer. Isso é lógico — os olhos azuis de Bruno encararam os da ruiva — Por que a pergunta, filha?
— Por nada, apenas fiquei curiosa sobre os fatos — respondeu levando uma garfada de comida até a boca. Engoliu antes de prosseguir. —Vocês ficaram sabendo sobre o terremoto no colégio?
O pai engasgou-se com alguma coisa, enquanto a mãe apenas a olhava. Julia permaneceu prestando atenção em seu prato quase intocável.
— Terremoto? Eu não senti nada — respondeu Bruno. A garota o encarou sem nem ao menos piscar. Ela sabia que ele mentia, percebeu o quão difícil foi para ela se manter em pé, enquanto o pai conversava com Dylan. Não era possível que não tivesse sentido.
— Engraçado, o senhor ainda estava na escola quando isso aconteceu. Foi um pouco antes de Tina o encontrar. Dizem que não tem uma explicação científica para isso.
— Se realmente houve, deve ter sido alguma coisa com a fundação da escola. Porque eu não senti absolutamente nada aqui em casa — Willa respondeu.
— Foi exatamente o que dizia uma matéria na internet. Entretanto, os engenheiros responsáveis pela obra afirmam que o terreno é sólido como rocha. Foi um tremor sem explicação — olhou para o pai novamente. — Tem certeza que não sentiu nada?
— Claro que não, Julia — o homem respondeu rispidamente. Sabia que havia alguma coisa por trás daquela conversa. Ele conhecia a filha o suficiente para saber que ela estava impressionada com aquele assunto. A garota assentiu, respirou fundo e colocou o guardanapo, que mantinha no colo, em cima da mesa.
— Sinto muito, mas essa conversa me fez perder o apetite — afastou a cadeira e a colocou no lugar. — Com licença — pediu.
Todos a observaram se afastar, antes que Tina ameaçasse ir atrás, mas o pai a impediu. Julia fingiu que subiu, em direção ao seu quarto, mas se encostou na parede do corredor. Queria ouvir o que diriam sobre a atitude dela.
— O que aconteceu, afinal? — Perguntou Willa.
— Dylan aconteceu — respondeu Bruno.
— Dylan? — Tina expressou-se surpresa ao ouvir o nome do rapaz.
— O que ele está fazendo aqui? — foi a vez de Marie perguntar. Julia encostou-se na parede sem acreditar que todos o conhecia.
— Você sabe muito bem o que ele faz aqui, filha — a mãe comentou. — Está acontecendo novamente. Eu tive a certeza quando os sonhos de Julia começaram — deixou os talheres caírem na mesa, chocando-se contra o vidro do prato.
Tudo o que a jovem queria era que alguém pudesse chegar até ela e não ter medo de contar o que acontecia. Custava muito que ela também participasse daquele assunto? Sua família lhe escondia coisas, estava na cara isso. Como todos sabiam sobre esse rapaz, menos ela? Pior ainda: por que agiam como se ela fosse louca, quando lhes contava sobre os sonhos, se sabiam que ele era um sinal para o que quer que fosse?
Julia os odiou naquele momento.
Deixou o lugar onde estava e subiu as escadas correndo, pisando firmemente. Bruno ainda conseguiu vê-la passar e percebeu que ela os havia escutado. Julia correu ao seu quarto, pegou o computador, o celular e trancou-se no quarto de hospedes.
— Julia, abre — mandou o pai. Ela apenas encolheu-se na cama, sem dizer nenhuma palavra. Queria ficar sozinha naquele momento e não suportaria ouvir mais mentiras. O homem bateu mais algumas vezes, porém desistiu quando percebeu que ela não abriria de maneira alguma.
A jovem levantou-se, sentou no chão e ligou para Anitta. Da janela do quarto onde estava, dava para ver diretamente a janela do quarto da amiga.
— Alô! — a jovem atendeu depois do quinto toque.
— Pode conversar? — perguntou prendendo um choro que mal conseguia manter na garganta. Sentia como se fosse sufocar a qualquer momento.
— Claro, Julia. O que houve?
— Está acontecendo alguma coisa muito grave. Só não sei o que é — respondeu soluçando. — O pior é saber que todos da minha família sabem e de alguma maneira eu sei que isso vai acabar se voltando contra mim, Anitta. Eu não quero morrer.
— Julia, pare — a amiga mandou. — Respira fundo e me conta, tintim por tintim, o que está acontecendo — a ruiva então começou a história, do início. Desde o primeiro sonho até o momento em que conheceu Dylan. Depois concluiu contando sobre a conversa estranha entre o rapaz e seu pai, além do jeito como sua família agiu minutos antes no jantar. — Meu Deus.
— É só isso que você tem para falar? “Meu Deus”?
— O que queria que eu fizesse? Comemorasse? — Anitta respirou fundo. — O que posso dizer é que você está coberta de razão quando diz que sua família lhe esconde alguma coisa e se eu fosse você tentaria descobrir.
— Acha que devo perguntar a eles?
— Pirou? Claro que não — a amiga respondeu exaltando-se brevemente. — É obvio que eles mentem para você e vão continuar assim. Duvido muito que comecem a falar a verdade agora. Eu acho que só tem uma pessoa a quem você pode perguntar.
— Quem?
— Dylan — ela respondeu como se tivesse resolvido alguma coisa que, aparentemente, não havia solução. — Se todo o assunto gira entorno dele, acho que é o único que pode responder suas questões agora, não concorda?
— O que eu vou dizer para ele, Anitta? Eu mal conheci o garoto — ela respondeu.
— Eu tomei a liberdade de pesquisar sobre ele no Facebook. Achei alguns Dylans Norton, mas acho que o que procuramos é o perfil que está escrito bem grande “mora em Cambridge, Massachussets” — Julia ouviu a amiga digitar alguma coisa. — Você é amiga dele e não me disse?
— Eu não sou — respondeu a menina. Pegou o seu notebook e abriu a página da sua rede social. A pendência que ela havia deixado foi aceita. — Eu não o adicionei. Como pode ter acontecido? — Ela não se lembrava mesmo de ter aceitado o garoto. Na verdade, tinha total consciência de que havia deixado para fazer isso depois.
— Na certa você clicou sem querer, amiga. Acontece — a jovem tentou achar uma explicação —, mas voltando ao assunto garoto tentação.
— Anitta...
— Desculpe July, mas você já reparou nessa foto de perfil? Ele é um pedaço de mal caminho. Vamos combinar, né? — continuou sorrindo. — Mas então, minha amiga. Você tem a faca e o queijo na mão. Chama o gato no chat e manda ver.
— Isso não é uma coisa simples que podemos perguntar no chat do Facebook, Anitta! — a repreendeu.
— Então marca um encontro para depois da aula. Simples assim.
— Eu já te disse que mal o conheço?
— Você sabia que é assim que se conhece as pessoas? Ficar trancada em seu quarto não vai ajudar em nada — A menina apareceu na janela. Pegou uma pedrinha, em um dos seus caqueiros, e jogou na janela da casa vizinha. — Anda, chama ele no chat que eu estou esperando. Depois me manda a conversa para eu ter certeza de que você fez e não me enganou.
— Não vou chamá-lo no chat, Anitta — Julia se aproximou da janela, reparando a amiga emburrar a cara. Ela voltou para dentro, pegou o computador e começou a digitar algo. — O que você está fazendo?
— Mandando uma mensagem para ele e dizendo que você precisa encontra-lo depois da aula amanhã. Vou dizer que você não está conseguindo acessar o Facebook, porque sua internet está uma droga.
— Você não faria isso, faria? — a ruiva perguntou.
— “Olá, Dylan” — começou a narrar o que estava escrevendo — “Eu me chamo Anitta e sou a melhor amiga de Julia, sua colega de classe”.
— Você era minha melhor amiga, se não largar esse notebook agora mesmo — a jovem mandou.
— Você quer descobrir o porquê de sua família esconder esse assunto de você ou não?
— Quero.
— Então senta essa bunda na cadeira e chama o rapaz para sair — mandou por fim. Julia respirou de maneira profunda e rendeu-se. Sentou-se de qualquer maneira, ainda sob a vigilância de sua amiga, e abriu a página de Dylan. Quando preparou-se para digitar algo, uma mensagem chegou:
Dylan
Oi, Julia!
19:32
Ele havia dado o primeiro passo. Seria questão de tempo até a ruiva descobrir, finalmente, o que estava acontecendo. Por algum motivo sentiu o estômago embrulhar, principalmente quando comprovou a afirmação de Anitta sobre a foto de perfil do rapaz.
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