Guardiã do Rei
8 A Água da Taça
Notas iniciais
Bitter and hardened heart
Aching, waiting for life to start
~ Bend & Break
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Percy se olhou no espelho, arrumou mais uma vez a roupa, mas ainda acreditava estar torta. Ou talvez sua expressão tediosa fosse quem piorava a situação.
Então Sally entrou em seu quarto. Ela vinha com a intenção de lhe dizer alguma coisa, mas calou-se diante dos olhos cansados do filho. Inspirou profundamente e trocou um olhar com ele pelo espelho. Percy virou-se para ela, e a rainha começou a arrumar corretamente os botões de sua roupa.
Sally mexeu em seus cabelos e lhe jogou um pouco de perfume.
– Anime-se querido. Por favor.
– Vou estar animado quando isso acabar – ele retrucou.
Sua mãe o encarou com reprovação.
– Se não faz isso por você, faça por seu pai e eu.
Percy rolou os olhos.
– Vou tentar.
– Seja bonzinho.
A mesa estava ricamente posta. Travessas de salada, potes de molhos e um grande frango assado no centro indicavam um jantar longo, muito longo. O relógio acima da cabeça de Percy, na parede, mostrava oito horas da noite – o jantar já começaria, mas não havia sinais dos convidados.
Paul olhou para sua família. Sally e o filho encolheram os ombros. Os três sentaram-se, desconfortáveis.
– Não acredito nisso – Percy bufou – vão se atrasar de novo.
– Vão, não – respondeu o rei – Já se atrasaram.
– Quietos – repreendeu Sally – o conde Bobofit teve apenas um contratempo, só isso.
– Pela sexta vez? – perguntou Percy – E eu estou contando.
– Graças a Deus, este é o último jantar – Paul fechou os olhos, tentando acalmar-se.
– Para o senhor, não é? Para mim, são apenas os primeiros – reclamou Percy.
– Por favor, filho, não será tão ruim. Veja: sua mãe e eu também fomos arranjados e não morremos com isso.
– Quer mesmo comparar?
– Calados, ambos! – exclamou a rainha, corada – Eles chegaram.
Percy olhou para a família com vergonha. Os Bobofits eram a família mais extravagante do reino, tanto pelo patriarca, o senhor Gabe Ugliano Bobofit ter cheiro de tripas de cavalo quanto por sua esposa Helia e a filha sardentas serem extremamente vaidosas e sem o mínimo de senso do ridículo.
Nancy sentou-se pesadamente ao lado de Percy, ignorando por completo sua existência. Quando Sally olhou para Nancy e depois para ele significativamente, Percy entendeu e tentou cumprimentá-la de modo cortês.
A única resposta foi um “humph”, seguido de uma chuva de cachos vermelhos sendo jogados de propósito em sua cara quando a filha do conde virou-lhe o rosto. Percy pôde sentir a raiva crescer dentro dele, mas engoliu em seco e tentou suportar o jantar em amor a seus pais.
Nancy não era a única culpada. Seus pais eram piores. Helia tinha uma voz esganiçada e um nariz parecido com um gancho, e tratava a rainha Sally quase como uma empregada. Já Gabe era, além de feio e arrogante – e fedido -, estranho. Percy nunca se sentia a vontade com ele por perto. Era como se estivesse constantemente desejando que o castelo explodisse e toda a família real morresse na tragédia. Certo, ele não tinha nenhum direito ao trono, mas algo nele era tão esquisito que Percy temia, de verdade, o fato de ele ser capaz de qualquer coisa para ter o que quisesse – seja lá o que for.
Gabe e o pai conversavam sobre política e economia. Ambas as mães pensavam em detalhes do casamento, e Nancy dava pitacos durante a conversa, algo que irritou até Percy. Ele imaginava em sua mente como ficaria um casamento onde cortinas vermelhas deveriam combinar com madrinhas vestidas de roxo e rosas amarelas espalhadas pelo chão. Com o resultado, Percy perdeu o apetite definitivamente.
Ele até tentou entrar na conversa do pai, mas não durou muito tempo. Gabe o fazia sentir um inexperiente, mesmo ele sabendo muito bem do que se tratava o assunto. Então, o príncipe desistiu de vez de tentar interagir. Apoiou a cabeça contra o punho e escolheu entregar-se à sua mente divagante. Porém, antes que pudesse pensar em quê imaginar, um rosto surgiu.
Era bronzeado, tinha cabelos loiros cacheados e olhos cinza como tempestades de verão. Com um susto, deu por si pensando na menina feita prisioneira a quem fora visitar no dia anterior. Não havia mais se lembrado dela até aquele momento, e até esquecera-se do modo estranho como ela o encarara após levantar o véu. O mesmo modo como ela o fez durante o julgamento. Mas isso não o assustava, pelo contrário: o deixou profundamente curioso.
Algo naqueles olhos cinzentos lhe parecia vagamente familiar, como se devesse conhecê-la ou ao menos saber porquê ela estava ali. Ela também parecia não temer o fato da natureza real de Percy. Ela tinha um jeito inteligente e sagaz de ser, tão diferente de Nancy e de outras quaisquer meninas do reino. E ele conversara com ela apenas por alguns segundos, talvez um minuto. Desejou, do fundo do coração, vê-la de novo. Conversar com ela de novo, saber quem era e de onde vinha, e que boas novas trazia. E para onde ia. Queria vê-la, queria tê-la por perto, somente.
Uma cotovelada repentina o acordou de seus devaneios. Era Nancy, cutucando-o para que ele ouvisse a pergunta de sua mãe.
– Meu querido príncipe, está animado com o casamento?
Percy olhou para Helia, refletindo na pergunta por alguns segundos que causaram estranheza a todos os presentes. Era esquisita a ideia de casar-se em pouco menos de dois meses, e ter outra moça ocupando seus pensamentos mais internos.
– Ah, sim... claro, quer dizer... sim – ele gaguejou. Nancy lhe fez uma cara feia – como sempre fazia – e cortou a fala dele.
– É claro que estamos animados, mamãe – ela disse, jorrando falsidade pelos poros – Será o casamento do século, marcará o reinado de Percy. Todos os outros reis saberão, e suas filhas desejarão o mesmo para elas e...
– Certo, acho que todos nós entendemos, meu bem – interveio Paul, olhando para Percy com algo que beirava a dó.
Nancy pareceu satisfeita. Então, deu um sorriso zombeteiro para Percy, de criança que vai aprontar:
– Ah, querido, agora vamos ficar juntos, assim como você me pediu quando tínhamos seis anos!
O conde Gabe e sua esposa caíram na gargalhada. Paul e Sally olharam-se aturdidos, e Percy sentiu sua pele avermelhar-se de fúria. Sally pediu a ele, com o olhar, que tentasse se controlar, mas antes que ele pudesse reagir, a água da taça de Nancy espirrou com força em sua cara, borrando toda a sua maquiagem malfeita e encharcando seu vestido – algo incrível para a pouca quantidade de líquido que havia na taça prateada.
Nancy deu um grito agudo que perfurou o cérebro de Percy. Estavam ainda todos estáticos pelo que havia acontecido, mas logo começaram a rir. Dessa vez, o rei e a rainha também permitiram-se rir a vontade, e até Percy riu levemente, mas no fundo perguntava-se como aquilo haveria de ter acontecido. Ele apenas olhara para taça dela, nada demais.
Talvez apenas uma coincidência. Sim, apenas isso. Helia tentava limpar a maquiagem da filha, que continuava a gritar irritantemente. Os olhos de Percy encontraram os de sua mãe, e ela ria, mas sua risada morreu aos poucos. Seus olhos castanhos pousaram na taça e depois em Percy, e ela engoliu em seco.
Percy franziu o cenho. Mas foi apenas uma coincidência, mãe.
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