Notas iniciais
Mil anos sem postar, eu sei. Sou um péssimo ser humano, eu sei. Se você já acompanhava a estória e decidiu não abandona-la como eu fiz, obrigada. Muito, muito obrigada. E muitas desculpas também. Não prometerei dias de postagens ou coisas assim. Mas prometo tentar É isso

Entro em casa um pouco molhada. Coloco minha mochila no cabineiro ao lado da porta. Pietro corre em minha direção e abraça minhas pernas. Beijo o topo de sua cabeça e o pego no colo. Suas mãozinhas se fecham em meu pescoço. Caminho até a sala de jantar e levo um susto ao ver minha mãe. Ela me olha com indiferença e volta a comer. Fico parada a encarando. Seus longos cabelos loiros foram reduzidos a um corte joãozinho, com alguns fios emoldurando seu rosto. Pietro desce do meu colo e se senta ao lado dela, em silêncio. Saio do meu transe e começo a pôr comida em meu prato.

— O que foi? – Minha mãe pergunta com rispidez e eu franzo as sobrancelhas, parando de pôr salada em meu prato de porcelana.

— Como assim?

— Você está me encarando como se nunca tivesse me visto.

— É que... você está diferente. Seu cabelo, quero dizer. – Ela me dirige um sorriso amarelo e eu me sento em silêncio.

Ouço a porta da frente ser aberta. Sei que é meu pai chegando; ele disse que viria da capital hoje.

Uma das empregadas entra na sala e enche nossos copos de suco. Meu pai entra no cômodo e entrega seu paletó de qualquer jeito pra coitada que tenta equilibrar um copo, uma jarra e a roupa.

— Já fui melhor recepcionado nesta casa. – Ele resmunga olhando para mim. Sei que está pensando em quando eu era pequena e saía correndo para a porta para abraça-lo. Não me importo e volto a comer normalmente. Não sou mais uma criança desesperada por atenção, correndo atrás do papai ocupado. Ele dá um tapinha na minha cabeça e na de Pietro. Seu forte não é toques físicos, abraços, essa coisa toda. Seus olhos param em minha mãe e ficam.

— Que diabos você fez com seu cabelo? – A reprovação fica explícita em sua voz.

— Eu cortei. Algum problema?

— Céus, Genevive. Você podia ter me consultado. Parece que acabou de sair de um tratamento contra o câncer.

Bebo um gole do meu suco. Meu pai vai começar a agir como se todo mundo tivesse que pedir autorização a ele até para respirar e eu não estou nem um pouco afim de ouvi-lo. Levanto da cadeira, mas seu olhar me faz sentar novamente.

— Ao menos eu não saio de madrugada e chego em casa fedendo a bebida. – Minha mãe diz tranquilamente e vejo meu pai engasgar com o suco. O sangue se esvai de meu rosto e eu seguro a mesa com força, tencionando meus dedos. Não acredito que ela disse isso. Ainda mais desta forma.

— Do que você está falando? – Questiona com a voz ácida.

— Fui acordar Elisa esta manhã, você tinha que ver a cara de ressaca dela. E o pior, me deu uma risadinha sarcástica antes de fechar a porta do banheiro na minha cara! Só Deus sabe o que ela andou fazendo enquanto estive no sítio. – Genevive cruza os braços e espera que meu pai ateie fogo em mim. Para minha surpresa, o olhar que ele me dirige é de mágoa e não de raiva.

— Você andou bebendo?

Hesito e fica óbvio que sim. Repreendo-me internamente por não saber mentir.

— Eu... fui dançar algumas noites. Numa boate do centro. Mas voltei sempre com Seu Gilberto e dormi em casa toda noite.

— Sozinha ou acompanhada? – Minha mãe questiona com a sobrancelha erguida e eu fico ofendida. Tenho cara de quem anda trazendo macho de festa pra casa?

— Sozinha, é óbvio.

— Você está de castigo. – Meu pai decreta, sem querer ouvir mais sobre minha saídas.

— Eu não fiz nada demais. – Não vou ficar presa nesta casa cheia de memórias do meu irmão sozinha.

— Não fez nada demais?! Você tem dezesseis anos e acha que pode sair quando e como quer? – Meu pai grita, se ergue da mesa com os olhos arregalados de raiva. Me irrito também e levanto num ímpeto.

— Que direito você tem de falar alguma coisa? Foi pra capital e me deixou em casa com ela! – Aponto para minha mãe que faz cara de pobrezinha, apertando meu irmão contra seu peito como se eu pudesse ser perigosa – Ela me deixou sozinha por duas semanas e o que você queria que eu fizesse?! Ficasse em casa trancada olhando as fotos de Estevão?

Meu coração se comprime por ter dito o nome de meu irmão em voz alta e luto para não chorar. Meu pai bate as mãos espalmadas sobre a mesa. Parece querer bater em mim.

— Eu tive que trabalhar! Não sou uma adolescente mimada que tem tudo na mão e acha que pode falar o que quer! Olhe só pra você. Só consegue me olhar com indiferença. A única pessoa que você ouvia era Estevão, mas agora que ele não está aqui, você vai ter que me escutar quer queira quer não!

Respiro com dificuldade. Minha máscara começa a se desfazer e luto para manter a frieza habitual porque é muito mais fácil fingir que não me importo com o que dizem. Mas é mentira. E as lágrimas acumuladas que descem por meu rosto são prova disto. Penso no fato dos meus pais terem tido seus lutos cada um em seu canto, sem me levar em conta. Lembro de como choraram sem se importar com o fato de que eu estava sofrendo e grito de forma esganiçada:

— Eu também tenho sentimentos! – Um soluço cresce em meu peito e eu abandono meus pais me encarando de forma surpresa e dolorosa. Saio pela porta de casa e corro até o final da rua, parando na pequena praça bem arquitetada do meu bairro.

Sento embaixo de uma árvore e abraço meus joelhos. Sei que não me procurarão aqui. Nenhum dos dois tem a menor ideia dos lugares onde costumo ir e do quanto gosto dessa praça. Simplesmente não me conhecem. Penso no olhar de estranheza que meu pai me dirigiu ao dizer que eu só o olhava com indiferença. Como se eu não sentisse nada ou fosse capaz de sofrer. Penso em Estevão e choro mais um pouco. Ainda bem que é meio-dia e a praça está vazia. Não quero que me vejam assim.

Quero sumir.

Notas finais
Sorry se ficou triste demais