Guarde seu coração
6 Meu amor
Notas iniciais
Observo Cris dormir ao meu lado enquanto ligo para o meu pai. É quase meio-dia, então ele já deve estar pensando em me buscar no colégio. O que não pode acontecer já que não vou conseguir chegar a tempo.
— Oi, pai.
— Oi. Eu já ia te ligar... você pode voltar pra casa com algum colega seu? Tenho umas coisas pra resolver agora.
Não fico surpresa e me pergunto se meu pai já ouviu falar no sistema público de transporte. Vulgo ônibus.
— Tudo bem. Vou almoçar na casa da Júlia.
— Certo. Eu não esqueci do almoço com seu namorado, ouviu? Vamos deixar pra amanhã... Elisa?
— Sim?
— O que houve com seu piano? — Percebo a hesitação em sua voz e o medo de ouvir a verdade. Ambos sabemos que só Estevão faria algo assim.
— Hã... Estevão ficou nervoso. Por falar nisso, ele está bem?
Silêncio. Um, dois, três segundos. Responda, pai...
— Está dopado em casa. Falo com você depois. E vou ligar pro colégio pra saber se você foi à aula de tarde, ok? Tchau.
Ele desliga antes que eu possa dizer mais alguma coisa. Fico apreensiva. Sua demora pra me responder não é normal. Meio dormindo, Cris me abraça e enfia o rosto em meus cabelos. Vejo nossas roupas espalhadas pelo chão e me lembro dos detalhes de cada toque, da naturalidade dos acontecimentos. Estamos em seu quarto. Viemos pra cá depois que nossos amassos na praia tornaram-se urgentes. É claro que eu fiquei surpresa pelo auto controle dele de conseguir dirigir, subir normalmente as escadas e fazer com que minha primeira vez fosse perfeita. Cris fez questão que acontecesse numa cama, na sua cama e não na areia da praia. Admito que depois de um tempo eu nem ligava mais pra isso.
— Cris?
— Hmmmmmmmmmm? — Seu braços me apertam mais ao seu encontro e eu quase cogito a possibilidade de ficar mais um pouco.
— Eu tenho que ir.
— Hum.
Dou risada e beijo sua testa. Enrolo-me nos cobertores enquanto tento desvencilhar-me de seus braços. Já estou quase fora da cama quando ele me puxa de uma só vez e eu desabo em seu peito.
— Cris!
— Onde a senhorita pensa que vai?
— Me arrumar para almoçarmos. Tenho que estar no colégio uma e meia.
Cris assente enquanto seu Eu responsável fala mais alto. Nos arrumamos em seu pequeno apartamento e almoçamos num restaurante ali perto.
— Isso é tão bom... – Suspiro de prazer. A comida tem o gosto caseiro que nunca existe nos almoços em minha casa, já que minha mãe é paranoica por calorias. Posso dizer que a base da minha alimentação é salada.
— Fico feliz que tenha gostado. Você está meio magrinha.
Ergo uma das sobrancelhas e afasto uma mecha de cabelo molhada do meu rosto.
— Achei que gostasse do meu corpo.
Cris sorri maliciosamente e sinto sua mão em minha coxa, por baixo da mesa. Fico vermelha instantaneamente. Ele nunca foi afeito a contatos físicos em público. Bem, pra qualquer efeito ninguém está vendo.
— Eu amo seu corpo e amo você, por isso a quero saudável.
Limpo minha boca com um guardanapo.
— Você o que? – Pergunto docemente ao encarar seus olhos. Cris passa a mão em meu cabelo e a repousa em minhas costas.
— Amo seu corpo.
Sorrio de forma sedutora.
— Pode repetir? Acho que não ouvi bem.
Cris ri baixinho e bebe seu último gole de Coca, os olhos vidrados em mim.
— Depois eu mostro a você o quanto amo seu corpo, Elisa Nicole.
Sinto a intensidade de sua voz e já quero voltar a seu apartamento. Penso nas desculpas que posso dar pra faltar a aula sem que meu pai descubra...
— Depois, Lisa. – Cris sorri e vai pagar a conta. Caramba... eu devo ser bem óbvia. Vou ao banheiro do restaurante e me encaro no espelho. Depois do que aconteceu essa manhã, estou me sentindo a garota mais linda do mundo. Aliso meu cabelo com um sorriso no rosto. Não me sinto mais insegura perto do meu namorado porque agora sei o quanto ele me ama e deseja. Sexo serve pra isso, penso. Para confirmar o amor que se sente por alguém. Saio do banheiro e Cris segura minha mão ao sairmos, depositando um beijo na palma. Entramos em seu jipe e em poucos minutos estamos no trânsito engarrafado.
— Eu... andei pintando de novo.
Olho para Cris, surpresa. Ele cursa Direito, mas ama pintar nas horas vagas. E são seus quadros e a pensão do avô que o mantém financeiramente aqui em Demesnia. Seus pais não apoiam sua decisão de estudar aqui. Querem que ele curse a faculdade na capital, numa universidade mais renomada. Ambos sabemos que eu sou a razão para ele continuar aqui depois do término do ensino médio, mas não tocamos no assunto. Ele, porque tem caráter demais pra esfregar isso na minha cara e eu porque me sinto culpada.
Enfim. Cris pinta muito bem, mas não andava muito inspirado ultimamente. Além do que, a faculdade consome seu tempo livre, por isso fico surpresa por ele dizer que andou pintando.
— Qual a inspiração da vez?
— Você verá. Farei uma exposição na capital.
Fico radiante e Cris me encara quando o semáforo a nossa frente fica vermelho.
— Isso é incrível! Você vai fazer tanto sucesso, Cris... nunca vi nada parecido com a suas obras. Amo sua originalidade, suas pinceladas leves e coloridas... eu simplesmente amo.
Os olhos de Cristopher revelam o quanto minhas críticas lhe são preciosas, como se eu fosse alguma especialista em arte. Ele suspira aliviado depois da minha fala e exibe um sorriso.
— Obrigada, meu amor. Você não tem ideia do quanto isso vale pra mim.
“Meu amor.”
“Meu amor.”
Ele me chamou de amor.
O sinal fica verde, obrigando Cris a se concentrar no trânsito. O que significa que ele não vê meu sorriso bobo e largo durante todo caminho até a porta do colégio. Chegamos no destino e encaro os imensos muros do colégio com pesar. Cris me dá um selinho. Aproximo-me mais e aprofundo o beijo, mas ele se afasta e acaricia meu rosto.
— Depois, meu amor.
Olho ao redor. Há adolescentes nos encarando na porta do colégio. Cris não gosta de ceninhas e eu também não. Ambos sabemos que se nos beijarmos com afinco, dificilmente conseguiremos parar. Por isso, beijo sua bochecha, pego minha mochila e caminho pra minha sala exibindo meu melhor sorriso otário até sentir alguém puxar meu braço com autoridade.
— ELISA NICOLE, onde você esteve?!
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