Guarde seu coração
3 Sucumbir
Notas iniciais
Observo Estevão encarar seu jantar por mais tempo do que seria considerado normal. Se eu fosse o filé em seu prato, estaria corada. Minha mãe está obrigando Pietro a comer vegetais e ele está claramente incomodado, fazendo careta ao mastigar o brócolis.
— Gostei do vestido – Elogia meu pai, aprovando meu vestido vinho de manga comprida e ombros de fora. – Não trabalho tanto para minha única filha usar jeans e moletom. Grave isso, Elisa.
Resisto ao impulso de revirar os olhos, concentrando-me no cardápio à minha frente.
— Como tem se saído na escola?
Não sei como reagir à toda essa interação paterna. As sobrancelhas de meu pai se elevam, aguardando minha resposta. Eu o observo por alguns instantes. Seu cabelo grisalho está perfeitamente arrumado, o terno caro cheirando a novo. Um homem impecável. Charmoso para sua idade. Sério e frio.
— Bem.
Ele corta um legume ao meio, separando os alimentos de forma metódica em seu prato.
— Quando lhe fizer uma pergunta, quero que me responda com algo além de um monossílabo estúpido.
Não posso deixar de notar a expressão de desgosto no olhar de minha mãe.
— As notas dela são excelentes. É a número um no ranking do colégio. – É a primeira vez nessa noite que Estevão diz algo por livre e espontânea vontade, sem que alguém lhe tenha feito uma pergunta. Ainda assim, desde o incidente em nossa sala de estar, ele não me olhou nos olhos nenhuma vez.
— Agrada-me saber que seu namorico não tem influenciado suas notas negativamente.
Eu quase engasgo com meu suco de uva. Eu nunca contei ao meu pai sobre meu namoro. Observo a postura de Estevão ficar tensa. Traidor.
— Cristopher é inteligente. Tem me ajudado com as matérias.
— Não tive a oportunidade de conhece-lo melhor. Traga-o para almoçar conosco amanhã.
Eu travo. Minha casa fica numa cidade de porte médio, próxima ao mar. A razão de eu quase nunca ver meu pai é porque ele mudou-se para a capital do estado há doze anos, deixando-nos aqui, onde ele considera ser mais seguro e um ótimo lugar para se desenvolver. Para mim, essa é a sua forma doce de dizer: “Não os quero perto de mim, atrapalhando meus negócios. Fiquem aqui e sejam gratos por minhas visitas mensais.” Se tem uma coisa que não quero, é envolver Cris nos meus dramas familiares.
— Creio que ele não poderá comparecer.
Olavo ignora minha resposta.
— Seu irmão está muito preocupado com seu relacionamento. Quis até que eu fosse conversar com Fábio. E eu o farei se esse rapaz não aparecer amanhã ao meio dia e me provar suas verdadeiras intenções. Fui claro?
— Sim, senhor. – Respondo com cuidado. Poderia ser bem pior, afinal. Ao menos meu pai está me dando um meio termo. Estevão se contorce na cadeira, claramente desconfortável. Isso está me matando. Ele não está nada bem. O suor em sua testa, as mãos esfregando-se uma na outra, os dentes rangendo...
— Tem tomado os remédios, filho?
Opa. Meu pai toca no assunto proibido da nossa família, os problemas de Estevão. Meu irmão fica ainda mais nervoso, encarando seu prato. Pietro escapole para a área infantil do restaurante, ansioso para descer no escorregador. Pela primeira vez que me lembro, minha mãe não se opõe. Seu rosto está mais pálido que o papel.
— Acho melhor deixarmos este assunto para...
— Não podemos mais adiar isso, Genevive. — Meu pai a olha com dureza – Você precisa comprometer-se com o tratamento, Estevão.
— É só uma fase, Olavo. Além disso, os remédios tinham mais efeitos colaterais do que resultados propriamente ditos.
— Uma fase?! Nosso filho sofre de transtorno bipolar e esquizofrenia leve, Genevive! Quando você vai acordar? Passamos por diversos psiquiatras e todos eles...
— Pare de gritar! – Observo o transtorno no rosto de Estevão. Ele se levanta num ímpeto e puxa a toalha da mesa, fazendo com que todos os talheres e pratos caiam no chão. As pessoas ao nosso redor o encaram, temerosas. Sinto vontade de levantar e defende-lo. Dizer que ele não é assim de verdade, que elas não precisam temer. Esse é meu irmão Estevão, ele é amoroso e atencioso e foi quem me criou desde que me lembro porque minha mãe rejeitou-me ao nascer, após uma profunda depressão pós parto, acreditando que fora eu a causa da morte da minha irmã gêmea, Nicole. Estevão é quieto e exigente e antes de entrar na escola eu já sabia ler e escrever, comunicar-me com precisão e liderar. Quero dizer a todos esses idiotas que eles não o conhecem e não tem o menor direito de olhá-lo dessa forma.
— Não precisa ficar tão nervoso pelo meu atraso, maninho. Prometo que serei pontual da próxima vez. Hei, que tal você se sentar um pouco para curtir a minha presença? – Como num passe de mágica, Charles aparece, pondo Estevão na cadeira. Ele não se opõe, meio em choque. Posso ouvir meu pai suspirar. Um garçom chega a nossa mesa e antes que ele possa abrir a boca, meu pai diz:
— Desculpe pelo transtorno, meu filho é desastrado. Por que não traz para nós mais alguns utensílios? Pagarei o que for necessário para ressarci-lhes do prejuízo.
O homem o encara com indecisão, dando uma olhada no rosto abalado de Estevão. Meu pai sussurra algo pra ele e prontamente o garçom corre em direção à cozinha, voltando com algumas faxineiras, prontas para limpar o desastre. Um suborno vindo de um advogado. Hipocrisia, a gente se vê por aqui.
Charles senta ao meu lado, largando sua mochila no chão. Ele me abraça e diz baixinho:
— Recomponha-se. Parece que você vai chorar a qualquer momento.
Aceno positivamente e beijo sua bochecha. Charles e Estevão são gêmeos idênticos, mas isso se restringe exclusivamente na aparência. Charles cursou biologia e atualmente é professor de crianças do ensino fundamental, além disso tem uma banda de rock alternativo, que é sua paixão. Nós dois somos as ovelhas negras da família. Eu, a nerd silenciosa, ele, o piadista natureba.
— Estou com tanta fome que poderia comer esse filé que está no chão.
— Você sempre está com fome.
Charles dá de ombros, encarando o cardápio.
— Já que Lisa está cheia de gracinhas hoje, o que você sugere pra mim, maninho?
— Um boi inteiro. – Eu sorrio. Estevão relaxa visivelmente, endireitando os ombros, esperando a réplica de Charles. Pela primeira vez nessa noite, ele realmente parece estar aqui, não dentro de sua própria cabeça.
— Engraçadinho. Sabe que sou vegetariano.
— Você acabou de falar que comeria o filé do chão.
— É a fome. Está me matando. Não tem nenhum atendente nessa porcaria de restaurante?
— Preferia estar comendo num daqueles trailers sujos do centro? – Provoca Genevive, encarando as roupas indie de Charles com desgosto. Ele afasta o cabelo dos olhos com a mão.
— Na verdade, sim. Amanhã eu trarei alguns hambúrgueres pra você experimentar. São deliciosos.
Minha mãe franze o nariz.
— Prefiro passar fome.
Charles a encara com seriedade.
— Não fale assim. Há pessoas por aí que dariam uma perna por uma refeição.
— Você ainda trabalha naquele colégio do subúrbio? – Meu pai pergunta e os dois passam a discutir sobre trabalho e futuro. Não presto atenção. O garçom repõe a mesa, mas eu não tenho mais apetite. Só consigo pensar nos olhos vazios de Estevão.
***
Não consigo dormir. Faz apenas algumas horas que chegamos do restaurante. Ninguém mais falou sobre os problemas de Estevão. Encaro o teto e suspiro. Estou com medo. Há cada dia vejo a sanidade do meu irmão esvair-se lentamente. Estou sofrendo. Muito. Quero que ele volte a ser como antes. Meu irmão amoroso e calmo. Meu pai de verdade. Sinto o celular vibrar em minhas costas. Visualizo as mensagens.
Jujuba: Elissss, vc me ama?
Reviro os olhos.
Eu: O que vc quer?
Jujuba: Leva o trabalho de história amanhã plisss. Eu copio na aula de artes.
Eu: Ok.
Jujuba: Tá dormindo com o boy?
Fico corada.
Eu: Não, claro que ñ.
Jujuba: Hahahaha aposto que ficou vermelhinha.
Reviro os olhos novamente.
Jujuba: Não revire os olhinhos, Elis
Ofego.
Eu: Você é uma bruxa ou oq?
Jujuba: Eu te conheço hahahaha
Eu: Tá né. Te vejo amanhã, então.
Jujuba: Nãoo esqueça o trabalhooooooo de históriaa. O teacher tá p*** cmg
Despeço-me de Júlia, voltando a encarar o teto. Ouço vozes do andar de baixo. Sorrateiramente, abro a porta do meu quarto e paro nos primeiros degraus ao ver Estevão e meu pai na sala. Meu irmão engole uns comprimidos sob o olhar de perito de Olavo. Eles percebem minha presença. Estevão enfia as cartelas de remédio no bolso da calça, constrangido. Engulo em seco.
— Você deveria estar dormindo. Não tem aula amanhã?
— S-sim, senhor. Só vim pegar um copo d’água.
Vou para cozinha, minhas mãos trêmulas. Não sabia que meu irmão tinha que tomar tantos remédios, haviam no mínimo quatro em sua mão. Estevão começou a mudar há uns cinco anos. Não que ele fosse otimista ou animado. Sempre foi sério, direto e pessimista. Essa sempre foi sua personalidade. Os problemas começaram quando seu mau humor tornou-se agressividade, oscilando entre boas e más emoções.
Minha mãe nunca aceitou sua doença. Estevão é seu filho perfeito, o único que traçou o futuro que ela sempre ansiou. Advogado, conseguiu concluir a faculdade com vinte anos. Notas excelentes, comportamento exemplar e o que Genevive mais amava: Ele a ouvia. Ela chorava em seu ombro. Eu e Charles nunca entendemos muito bem a relação deles. Para mim, sempre pareceu doentia. Ela o trancava em seu quarto, desabafando sobre seus problemas, dividindo bombons de licor de cereja. Tinham uma cumplicidade que eu jamais imaginaria ter com minha mãe. Não foi pra ela que eu corri quando ralei meu joelho ou perdi uma partida de vôlei, nem mesmo quando fiquei menstruada pela primeira vez. Foi para Estevão. E não é como se Charles e eu tivéssemos uma relação distante. Não é isso. Nós sempre fomos muito próximos, mas ele nunca foi minha referência paterna.
Meu pai e meu irmão já foram pra seus quartos. Respiro fundo. Não é hora de ser covarde. Subo as escadas e entro no quarto de Estevão. Está um breu aqui dentro. Caminho até sua cama. Meus pés já gravaram o caminho, após dezenas de noites repetindo o gesto. Ergo o cobertor e deito ao seu lado, me enrolando. Ele parece estar dormindo, seu corpo encostado contra a parede, deixando muito espaço livre em seu colchão enorme. Deito a cabeça em seu braço esticado. Sua respiração pesada me acalma e já estou sucumbindo ao sono quando ouço baixinho:
— Me desculpe.
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