Grunenwald - Origens De Um Pesadelo
9 Capítulo 9 - Zachary Maraunder
Notas iniciais
Pararam de rodar e rodar, quando se viram numa sala circular, com paredes de pedra, cortinas de veludo, estantes de madeira cheias de livros, uma escrivaninha cheia de livros empilhados, uma lupa, uma luminária, uma pena e um tinteiro. Um grande caderno localizado no centro da escrivaninha, escrito na mesma caligrafia das cartas que Peter recebera, fina, inclinada e garranchosa. Peter finalmente estava ali, junto com Savah e Amero. Mas não havia ninguém ali pra lhe dizer o que fazer. Então, olhou pra uma cadeira de couro negro, era realmente tentadora. Queria se sentar ali, sentia o impulso de se sentar, dirigiu-se a ela, por trás. Acariciou o braço direito da poltrona, puxou-a pra trás e observou seus botões ligeiramente esfarrapados, a tentação era grande, tão grande, que ao sentar, sentiu-se como um rei. Com a luminária apontando para o caderno cheio de cartas, na letra garranchosa, começou a ler. A letra estava cada vez mais apertada, e difícil enxergar, só conseguiu ler as primeiras frases:
Se não for altamente qualificado, não leia nenhuma das seguinte instruções. Se for qualificado, sob seus olhos, os garranchos irão se se limpar, se souber o que fazer.
Se souber o que fazer? O que fazer? Peter subiu os olhos para Savah, aparentemente confusa, sem saber o motivo de estarem ali. Amero, estava com a aparência congelada, incapaz de falar. Voltou a olhar o caderno, e a letra feia e pequena. De relance, viu uma sombra projetada pela luminária, uma sombra de vidro, a sombra da lupa. Será que era aquilo? Pegou-a e ajustou, apontando para o caderno, imediatamente a letra garranchosa se limpou, e tudo era mais legível.
Então, você é altamente qualificado.
Marque no caderno qual a sua personalidade. Se não compreende, escreva seu nome no espaço em branco e as informações a seguir serão liberadas para ler sem a lupa, se estive entre as 50 pessoas autorizadas a ler este arquivo.
Pensou muito se deveria escrever seu nome. “Zaqueu colocou muitos obstáculos.”.
- Talvez não tenha sido Zaqueu. – disse Savah, parecendo um pouco mais à vontade, mas ainda assim, confusa.
- É a mesma letra. A probabilidade de não ter sido ele é pequena.
- Então por que ele não está aqui? Ele estaria.
- Você não sabe se realmente estaria. – ele agarrou a pena, molhou-a no tinteiro e escreveu com a melhor letra que pôde: Peter Campbell Maraunder.
- Esse não é seu nome. – disse Amero, descongelando.
- Claro que é. – respondeu Peter, teimoso. De fato, a letra em que escrevera o nome não desaparecera como deveria, e as informações, não surgiram. – Tudo bem. Mas... Como eu faço pra apagar o que eu escrevi?
- Assopre. – respondeu Savah.
Assoprou. As letras se espalharam, e sumiram. Molhou mais uma vez a pena no tinteiro e escreveu: Pettero.
- Qual meu sobrenome em Grunenwald?
- O mesmo. – disse Amero.
Pettero Campbell Maraunder. As letras sumiram e deram lugar a um desenho muito normal, de um castelo, um riacho em volta, uma ponte levadiça, sombras, vultos e muita fumaça envolviam o castelo.
- É o que precisamos destruir. Sem contar com isso. – diz Savah, apontando pra uma parte da imagem quase tão escura quanto os vultos. Um exército estava adentrando os muros.
- É a Távola de Prata. Estão vindo. São fortes. Comandados por Ernie Baghshot. – diz Amero, firme, mas com medo.
- Eles estão ali mesmo?
- Estão. E precisamos sair por aqui, e ir pro porão. Lá tem arcos, facas e espadas. Se duvidar, o estoque de fósforos e granadas ainda estão guardados.
- Mas, Savah... Usaremos tudo isso pra matar a Távola de Prata. Mas e os Caçadores? Como se combate fumaça?
- Você não entende, Pettero? Você só precisa ser feliz. E acreditar em você mesmo. Caçadores não podem sugar felicidade absoluta e inabalável. Concentre-se em ser feliz.
- Mas e se eu não conseguir? E se eu não conseguir me concentrar?
- Pare e pense. Caçadores trazem seus sentimentos ruins à tona. Se não puder ser feliz, esqueça todos os seus problemas. Enfrente-os como se sua vida dependesse disso. E depende. – ela continuou. E como esquecer do pai que o abandonou? Do sentimento de prisão enquanto estava com Bridget? Da tortura que foi estar sem Ever?
- Não vou conseguir. Tem coisas demais na minha cabeça.
- Menos um. – disse uma voz familiar, ergueu a cabeça, e viu Zaqueu, não... era Zachary. Seu pai estava ali. – Pode sair da minha poltrona?
- É de Zaqueu. – respondeu Pettero, com frieza. Zachary apenas ergueu a sobrancelha. – Você é...? Como isso é possível? Isso não está acontecendo... Você é meu pai! Zaqueu não é meu pai!
- Eu sou seu pai. Zaqueu também é seu pai. Resumindo, eu sou Zaqueu e seu pai.
- Mas então... – estava ficando cada vez mais confuso, cada vez mais difícil de entender. – Por que não me disse?
- Pelo mesmo motivo que eu te abandonei. Pra te proteger.
- Me proteger? Você me tornou cada vez mais vulnerável! Triste o tempo todo. Sentindo falta de uma família! Pra me dizer o que fazer, uma ajuda no dever de casa! Eu cresci vendo você indo embora, indo se divertir, enquanto eu guardava tudo o que eu estava sentindo dentro de mim! Um turbilhão de coisas, eu digo! Eu não tenho mãe! Ela morreu porque preferiu me ver uma única vez do que tentar outra! E você simplesmente me desprezou por 16 anos da minha vida! Você saiu da minha vida. Não me criou, não me ajudou, nunca me deu nada. Passei Natais sem presentes, aniversários sem festas, e veja só! No dia 15 d dezembro eu faço 17 e você vai estar aqui, “me protegendo”! Passou pela sua cabeça que talvez eu não quisesse ser protegido? Que eu só quisesse um pai pra me abraçar e dizer que está tudo bem? Foi só o que eu quis por toda a minha vida. E nunca tive um pai pra me fazer isso. Nem pra me contar que eu sou mesmo o cara deslocado que eu imaginava ser. – Pettero olhou fundo nos olhos verdes do pai. Sentia nojo. Via ali o homem que o abandonou, na aparência magra que sempre teve, mas arrependido.
- Fiz isso pra poupar você de uma infância cheia de espadas, cabeças e sangue.
- Não adiantou muito. O que vou viver hoje vai compensar todo o sangue que deixei de ver.
Zaqueu apenas andou até Pettero. Olhou nos olhos do filho e disse:
- Eu amo você, Pettero. Sua mãe também te ama.
- Eu sei que ela me ama, deu a vida por mim.
- Só naquela dimensão. – três palavras, mudaram tudo. “Só naquela dimensão”? Estaria viva, por alguma razão? Não era possível. Viva? Sua mãe?
- Você está mentindo. – disse Pettero, com uma frieza quase irreconhecível.
- Por que eu mentiria sobre isso? Não há nenhuma razão.
- Realmente. Não há razão alguma para que minta sobre a minha mãe. Então chega de mentiras! – gritou Pettero, seu cérebro estava embaralhado levando em conta tudo o que o pai havia dito, era difícil de se concentrar apenas em uma coisa, não se aguentava mais em pé. Caiu ajoelhado no chão de pedra, escutou ruídos de pessoas tentando ajuda-lo, mas uma voz destacou-se no meio da multidão à sua volta, era uma voz preocupada e doce, uma voz conhecida... “Quero que se chame Peter, Zach. Realize este último desejo...” “Faço, meu amor... Eu juro que faço.” “Eu amo vocês, cuide de Peter, não deixe que ele sofra por minha falta, cuide dele, Zachary.” “Sim, vou cuidar com a minha vida.” “Ótimo. Eu te amo tanto, tanto, querido...” Ouvia-se um último suspiro, e em seguida, um homem frágil debulhando-se em lágrimas, uma mulher morta ao dar à luz ao filho, viveu somente para escolher o nome do filho, e para implorar que o pai cuide do garoto. Um amor de mãe, que nunca pôde dar um presente, um abraço, nem um olhar...
- Leve-o para o quarto. – dizia Zachary. Pettero não conseguia prestar atenção em nada... Sua cabeça zunia, não parava de pensar na cena que acabara de presenciar, sentia seus olhos se encherem de lágrimas, e ao mesmo tempo uma confusão mental tão grande, que distinguir pensamentos de realidade era impossível. Pensava na guerra, em sua mãe por aí...
- Ele precisa de uma única certeza, Zaqueu! – gritava Savah, audivelmente nervosa.
- Mas infelizmente não sei onde ela está! – Zaqueu gritava de volta. Era tamanha a confusão mental, que não resistiu. Desmaiou.
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