Grunenwald - Origens De Um Pesadelo
3 Capítulo 3 - O Velho Túnel
Notas iniciais
- Então vocês sonhou com essa tal de Ever de novo? – pergunta Cameron, obviamente interessado.
- Isso. Eu me chamava Pettero. – disse Pet.
- E o que estavam fazendo? – pergunta T, entonando ciúmes.
- Então, aparentemente Came estava certo. – responde Peter, constrangido. Terrence pareceu no mínimo insultada.
- Eu disse! – ele comemora.
- Mas ela estava indo embora, alguma coisa sobre me deixar porque ela sabia o que isso traria e que iria perseguir as ambições dela, e quando alguma coisa acabar ela iria voltar.
- E o que isso significa? – pergunta Cameron.
- Se eu soubesse...
- Acho que deve fazer uma sonoterapia. – diz T, decidida. – Isso! Os médicos poderiam dizer o significado dos seus pesadelos.
- Ou então procurar um psicólogo, ou psiquiatra. – Came argumenta.
- Não estou doente pra isso. Eu mesmo posso tentar entender o que significa.
- Faça o que você quiser, então. – diz T, que se levanta e vai pra cozinha.
- Ela está com ciúmes. – diz Came.
- Por que teria ciúme de mim? Isso é besteira.
- Você é cego, Peter. – diz Cameron, que se levanta e faz os mesmos passos de Terrence, pra cozinha.
Peter, que demora 5 minutos pra se levantar, finalmente vai à cozinha, tomar café da manhã.
- O que você está fazendo, T? – pergunta Pet.
- Chama-se waffles, conhece? – diz ela, sarcástica.
- Comia disso na minha avó. – diz ele.
- É bom que prove os meus waffles. São os melhores num raio de 400 Km. – ela sorri, pela primeira vez desde o dia anterior.
- É bem provável, os da minha avó sempre queimavam. – Peter, T e Came, riem.
- Não seria bom você procurar emprego hoje? – pergunta ela.
- É, seria. – diz Peter, lembrando-se do infeliz acontecido.
- Eu te levo na Kombi da T. – diz Came.
- Não precisa, eu vou sozinho.
- Você não tem carteira. – diz Cameron.
- Tá. – aborrece-se Peter, que nunca teve dinheiro suficiente pra fazer autoescola.
- Por que não aprendeu com a escola?
- Porque a carteira da escola é temporária e precisa de um adulto supervisionando.
- Ok. Quer que eu te ajude a juntar pra autoescola?
- Não vou abusar de vocês. – responde à Cameron.
- Eu estava aqui pensando, o que vamos fazer hoje além de ajudar Peter? – pergunta T.
- Verdade, a gente não tem nenhum plano pra hoje. – diz Came.
- Que tal visitarmos o Velho Túnel? – pergunta Pet.
- Aquele parque de diversões? – pergunta T.
- Isso! Fica há uns 40 minutos daqui!
- Boa ideia. Eu topo. – diz Cameron.
- Então fechou. Depois do almoço eu e Peter vamos pedir emprego no Boliche enquanto T faz o almoço, voltamos pra comer e depois vamos pro Velho Túnel! – Cameron comemora como se o dia fosse ser essas coisas todas que ele espera. Quando Terrence começa a cozinhar macarrão com queijo, umas 2 horas depois, Pet e Came vão ao Boliche pedir emprego pra Peter. Um tempo depois, Peter volta pra casa já empregado com Cameron.
- Está pronto. – diz T, botando a tigela na mesa.
Comem, e vão tomar banho pra se preparar pro dia que os espera. Peter, lembra-se de que o dia podia ter sido muito melhor se o pai não tivesse voltado.
- Vamos logo? – diz T, de novo com a roupa que estava por cima do biquíni no dia anterior. Peter é tomado pelo pensamento “Ever, senti tanta a sua falta...”. Percebe no que acabou de pensar, e voltando a realidade, entra na Kombi, logo depois de Cameron.
- Direto pro Velho Túnel? – pergunta Terrence.
- Obviamente. – diz Cameron, respondendo por Peter, quando percebeu que o amigo estava mais que pensativo, ele estava lembrando de todos os pesadelos que teve nos últimos dias.
Peter ficou em silêncio por todo o percurso até o parque. Pensando em Grunenwald, em Ever e na incrível semelhança entre Ever e T, pensando também o que o levou a ter pesadelos com esse castelo que ele nem sabia se existia.
- Chegamos, Pet. – diz Terrence, num tom atencioso demais para ser a voz dela. Ele olha pro lado, através da janela da Kombi, o Velho Túnel, o parque de diversões. Não estava lotado, mas tinha tanta gente na fila do Trem Fantasma que Peter considerou não ir, mas lembrou-se de que é, definitivamente, a melhor atração do parque, e que não se pode ir no Velho Túnel, sem sentir a agonia e o medo que os falsos espíritos agourentos do Trem.
- No que vamos primeiro? – pergunta Cameron.
- Na barraquinha dos tickets, Came. – diz T.
- E depois? – pergunta Peter, finalmente se sentindo feliz, pra variar um pouco.
- Na Montanha-Russa. – diz T. – Quero ver Cameron vomitar todo o biscoito que comeu no caminho. – ela ri.
- Eu nem comi tanto assim. – mente.
- Foram só uns 5 pacotes, né? – pergunta T, irônica.
- Vamos logo, gente. – diz Pet, saindo da Kombi.
Quando todos saíram da Kombi, dirigiram-se à barraca de tickets.
- Em pleno 30 de julho, e este parque está assim? – pergunta Came.
- Está fechando. – diz a moça que lhes entregou 20 tickets para irem às atrações.
- O Velho Túnel está fechando? – pergunta T, intrigada.
- Falta de visitas. – ela responde.
- Como o parque está sem visitas? Ele lotava totalmente! – disse Peter.
- Houve uma morte no Trem Fantasma. – disse ela.
- E as pessoas continuam indo? – Pet pergunta.
- Apesar de tudo, continua sendo nossa melhor atração. – responde. – Tenham uma boa tarde. – ela entrega o troco à T e eles saem em direção à Montanha-Russa.
- Como assim fechando? Esse é o único parque da cidade! – diz T, ofendida.
- Eles só estão pensando naquela morte no Trem Fantasma. Tudo bem que é uma coisa preocupante, mas nenhum funcionário do Velho Túnel seria capaz de matar um cliente! – diz Peter, claramente protestando.
- Como pode ter tanta certeza, Pet? – pergunta Cameron, que tinha a expressão e a voz indignadas.
- Verdade, o Sr. Aza é um velho psicopata. Ele me dá medo. – diz T.
- Só que ele não trabalha no Trem Fantasma. Ele sempre ficou no Túnel do Amor, motivo pelo qual eu nunca levei nenhuma namorada pra lá. – Peter responde.
- Você nunca teve namorada. – diz Cameron.
- Isso também. – ele respondeu.
Chegaram na Montanha-Russa, e Peter viu Cameron de relance, se contorcendo, sabendo o que o esperava.
- Eu e Peter vamos logo atrás de você, Cameron. – diz T.
- Por que eu não posso ir com vocês?
- Não queremos ser vomitados! – Terrence ri.
- É verdade, cara. Ninguém mandou você comer um monte de biscoito.
- A culpa á toda da Terrence! – disse ele, se acomodando e afivelando o cinto um assento a frente de T e Peter. – Aquele macarrão com queijo dela estava borrachudo e grudento, eu não comi nem a metade!
- Isso é mentira, Cameron! Peter comeu tudo, não é Peter? – pergunta ela.
- Na verdade, a minha planta comeu. E aposto como ela também não está muito contente por isso. – Peter arrisca contar a verdade.
- Eu cozinho bem! E aqueles waffles? – ela pergunta.
- Uma única coisa que você sabe fazer direito não quer dizer que você cozinha bem. – Cameron já estava passando um pouco dos limites de Terrence.
- Tá. – disse ela.
- Tá. – respondeu ele.
- Senhoras e senhores! A Montanha-Russa parte em 3, 2, 1... – disse uma voz em tom robótico e musicado, quando ela disparou numa curva à frente. E logo em seguida tinha um looping, Peter estava com as mãos no ar, Terrence agarrava a barra de segurança, e Cameron levara as mãos à boca de um modo bem visível, o menino de uns 11 anos sentado do seu lado estava em dúvida se ria de Came ou se ficava preocupado com sua pele, que logo estaria completamente suja de vômito.
- Cameron você está bem? – grita Peter, que agora tinha levado também as mãos a boca, mas em volta, pra abafar o som de modo que fosse audível.
- Ele vai vomitar! – gritou o menino, tão alto que uns 4 carrinhos atrás deles ouviram e as pessoas dentro deles tentavam se proteger com as mãos como se Cameron já tivesse vomitado.
- Que droga, Cameron! – disse Peter, quando Came finalmente colocou tudo pra fora, em outro looping, que fez Peter ficarem sujos.
- Foi mal aí, Pet. Não deu pra segurar mais. – disse ele. Depois da Montanha-Russa, foi a vez de andarem no Trem Fantasma, já que metade das atrações tinham muita fila, ao invés de ser no Trem Fantasma. Pelo visto, a notícia da morte se espalhou, pensou Peter.
- O que vocês acham? – pergunta T – Devemos realmente ir nesse Trem?
- Acho que não vale a pena perder isso por causa de UMA morte em vários anos? – diz Peter.
- Isso pode ser perigoso. – diz Cameron, parecendo bem mais são do que o normal.
- E o Came pode vomitar de novo... – diz T, num tom que deixou claro a Peter que ela estava com medo.
- Acho que já botei tudo pra fora, esse risco não existe. – diz Cameron, sem entender as intenções de T, e levando um chute da amiga na canela. – Caramba, Terrence! – grita ele de dor.
- Tá vendo? Ele já está se doendo todo, acho melhor ficarmos por aqui... – disse ela.
- Qual é, Terrence?! – protestou Peter – A gente não vai morrer! – disse ele, revirando os olhos.
- Me diz, a família do garoto que morreu também não achava que ele poderia morrer! – ela avisou, franzindo a testa.
- Qual a real probabilidade de isso acontecer? – pergunta Peter, claramente impaciente com a amiga. Sentia naquele momento que nada poderia afetá-lo, então qual perigo poderia haver?
- Se você quer ir, vá. – disse Cameron, que parecia ter finalmente concordado com a amiga.
- Então, tá. – disse Peter, decidido a não ser impedido pelos amigos. Saiu andando em direção à fila muito curta, só com um casal ruivo e uma menina de uns 9 anos, de marias-chiquinhas à sua frente. Ficou parado atrás do casal, e quando a porta para a parte de dentro do Trem-Fantasma foi aberta, e as 3 pessoas em sua frente iam entrando, Terrence gritou:
- Não, Peter! Não posso deixar que vá sozinho. Eu e Cameron vamos com você. – e saiu atrás de Peter, seguida por Cameron, que ainda parecia com medo. Entraram e se acomodaram num carrinho no meio do trem, afivelaram os cintos e esperaram o trem começar a andar. Peter sentiu uma adrenalina subir por todo o seu corpo.
- Senhoras e senhores, o Trem Fantasma agradece sua confiança e garante total segurança. – disse a voz robótica.
O trem começara a se locomover lentamente no início, e logo, deu uma disparada, que provocou vários gritinhos, inclusive de T e Came. Ele parou num solavanco, nenhuma luz, porém, ouvia-se respirações ofegantes e terroristas em volta de todo o brinquedo.
- Terrence mantenha a calma! São só funcionários! – gritou Cameron, atordoado, com medo, ingenuamente.
As respirações pararam e deram lugar a um rangido, quase como alguém tentando produzir algum som, que não a voz. Vários rangidos rodeavam o carrinho onde Terrence, Cameron e Peter estavam, e logo uma delas conseguiu produzir um som, que dizia “Terrence... Terrence...”, a garota ficou com um medo absurdo, mas foi salva por outra disparada, Peter escutou a amiga respirar aliviada e ofegante ao mesmo tempo, como se teme-se que outras respirações e rangidos descobrissem seu nome. “Cameron, seu idiota, estúpido!”, Peter a ouviu murmurar, entre os dentes que estavam sem dúvida, semicerrados. O trem não deu outro solavanco, em lugar disso, sentia-se ele diminuindo sua velocidade, e parando lentamente, torturante. Peter agora sentia um medo inabalável, dentro de si mesmo, um medo que ele simplesmente não podia controlar, não era voluntário. Quando o trem finalmente parou, uma luz pálida se acendeu, uma neblina branca agora era perceptível.
- Vê se agora você não grita meu nome, tá? – disse T, com raiva.
- Calma aí, gente, parem de falar. – disse Peter, agoniado.
Uma fumaça negra foi tomando o lugar da neblina, e se aproximando de todos os presentes, atormentando-os, fazendo-os gritar, a menina que fora sozinha no Trem, agora estava encolhida, suplicando “Não vá, vovô! Fique comigo!”, ela gritava, Peter teve a súbita sensação de que aquela não era uma atração do Trem Fantasma, alguma coisa estava acontecendo ali. Um borrão de fumaça preta foi se aproximando de Pet, ele foi tomado por muitas lembranças ruins da infância, e do dia anterior, viu seu pai fechando a porta da frente da casa, a moça da bilheteria avisando que o parque ia fechar, a vez em que bateu a cabeça surfando, lembrou-se de Ever. Em seguida escutou Terrence mandando alguém indo embora, quando induzida pela fumaça: “Vá embora, Theo! Me deixe em paz!”, e Cameron, aparentemente são, estava desnorteado, sem expressão, com os olhos abertos na verdade. Peter temeu que estivesse morto. Mas foi invadido por outro borrão de fumaça preta, que o fez lembrar de quando sua mãe morreu, ficando mais pálida e fria, soltando Peter de seu colo na cama do hospital...
- MÃE! – e tomado por um medo, e sendo afogado em suas más lembranças, desmaiou. Era uma sala bem iluminada, muito melhor do que a sala que estava com Ever. “Ever...”, ele pensou. “Deixe de ser trouxa, Pettero. Ela não vai voltar pra você.”, mas logo alguém interrompeu seus pensamentos. Um homem velho acabara de entrar na sala, aparentava seus 40 anos.
- Olá, Pettero. – disse o homem velho.
- Olá, Zaqueu. – Pettero respondeu, esperando alguma outra coisa que saísse da boca de Zaqueu.
- Sinto muito por Ever tê-lo deixado. – ele disse, surpreendo Pettero.
- Ela disse que seria melhor para nós dois. – ele refletiu, só a lembrança já o torturava, e fazia sua cabeça doer, como se tivesse levado um pedrada, ou sendo consumido pelas más lembranças trazidas pelos Almeaters. – E para Grunenwald.
- Ever tem razão. – Zaqueu disse, misteriosamente. – Grunenwald está passando por uma guerra, Pettero. Ela sabia muito bem disso, e você, pelo que vejo, não tenta nem se conformar com a situação.
- Sinto muito, mas Grunenwald é minha casa. Não suporto ver Almeaters sugando a felicidade do povo, e nem Cavaleiros do Norte destroçando nosso reino.
- Você sabia que isso aconteceria. Ever é a única que tinha o poder de fortalece-lo para a batalha final. Mas ela também sabia que você não lutaria se ela estivesse aqui, iria querer protege-la de tudo. Mas ela não é fraca, e além de tudo é mais sábia do que muitos pensam. Ela foi embora para que você salve Grunenwald das mãos da Távola de Prata.
- Então você sabe aonde ela foi?
- Obviamente, sei. E não me pergunte, porque não lhe direi. Termine a guerra, salve o reino, e terá Ever novamente.
Tomado por um calor, Peter abriu os olhos, e viu Terrence chorando, com as palmas das mãos no rosto.
- Terrence? – perguntou Peter.
- Meu Deus, você está bem! – ela limpou suas lágrimas e o abraçou com força.
- Onde estamos? – ele quis saber.
- No Hospital St. Barbra.
- Por que estamos aqui?
- Por causa... do Cameron. – ela deixou outra lágrima escapar.
- O que houve com ele? – ele perguntou, erguendo-se e finalmente percebeu que estava deitado numa cama de Hospital.
- Ele teve um infarto. – T pareceu ficar ainda pior depois que disse aquilo, e Peter lembrou-se de relance do medo que sentiu ao ver Cameron sem seus sentidos.
- Ele morreu?! – Pet sentiu como se o mundo fosse desabar se T confirmasse aquela pergunta.
- Não, não. – mesmo triste, e sofrendo, ela parecia sincera. – Foi por pouco. Quando a nossa sessão do Trem acabou, eu era a única que estava consciente. Liguei pra ambulância. Foi bem a tempo. Menos pro casal na nossa frente, eles morreram, de pânico. Aquela menininha também enfartou, mas os médicos conseguiram reanimar Cameron e ela.
- Quem era aquela menininha? – perguntou ele.
- Uma órfã, estava num passeio do orfanato onde mora, disse pra mim que o nome dela era Emma. Tem 9 anos.
- Onde é esse orfanato?
- É aquele que fica a um quarteirão da escola.
- Ela nunca vai ser adotada. – disse Peter.
- Por quê diz isso?
- Porque aquele orfanato é responsável pela adoção de crianças salvas do tráfico de pessoas.
- Tem razão... – ela ponderou. – Mas afinal, o que era aquela fumaça negra no Trem Fantasma? – T perguntou, ainda com a voz chorosa.
- Almeaters. – respondeu Peter lembrando-se da conversa de Pettero com Zaqueu.
- Teve outro pesadelo?
- Sim. A coisa está se concretizando. Tudo parece mais real agora. Aquelas coisas são Caçadores de Alma, ou, Almeaters.
- Da última vez que eu perguntei o que é, você me disse que não sabia o que era.
- Agora eu sei. São criaturas da Távola de Prata, que são os inimigos de Grunenwald, que é um reino. Na Távola de Prata tem os Almeaters, que são apenas um monte de fumaça preta que fazem você lembrar de tudo de ruim que já aconteceu com você, e o torna incapaz de lutar contra. E tem os Cavaleiros do Norte, que matam os aniquilados por Almeaters.
- Isso está cada vez pior, Peter. Já pensou se isso se tornar real?
- E vai, Terrence. – ele afirmou, com calma e certeza. — Por isso é importante que eu me concentre em ter pesadelos.
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