Gritos no Silêncio
5 Capítulo 5 - Grito abafado.
Assim que acabou a aula, partiu direto para a biblioteca de New Steom, uma pequena construção de vidro de longas paredes brancas e sóbrias. Havia apenas 3 computadores lá, então havia uma certa espera para ocupá-los. Claire decidiu andar entre as fileiras de livros enquanto esperava, e acabou indo parar nos fundos da biblioteca, aonde havia apenas duas e pequenas estantes. "Cópias dos registros de New Steom e vizinhança" — dizia uma pequena placa. Havia vários documentos lá, maioria falava sobre a Virgínia, Massachussets e algumas cidades extintas. Pelo jeito, New Steom era bem mais velha do que Claire imaginava. Havia ainda alguns livros que pareciam muito antigos, mas um chamou a sua atenção. Era grosso e comprido, a capa um vermelho escuro e desgastado. Estava prestes a pega-lo quando alguém bateu de leve em uma das paredes de vidro atrás de si.
Steven sorria do outro lado, o cabelo arruivado desarrumado e os óculos um pouco sujo. Um cachecol verde estava preso no pescoço. Ela saiu da biblioteca à seu encontro.
– Oi, oque você tá fazendo aqui? -perguntou apressadamente de forma rude.
– Desculpe, eu não sabia que estava te atrapalhando. É que você saiu tão apressada hoje da aula e nem me esperou para acompanha-la que pensei que tinha algo errado. — os olhos verdes-caramelados dirigiram-se pro chão, enquanto uma mão passava pelos cabelos. Claire revirou os olhos, e depois sorriu.
– Tá tudo bem, é que eu to meio confusa com o período de provas que se aproxima e esse clima cheio de ventos... — deu um riso abafado, e bufou. — Bem, agora que você está aqui, vamos entrar, tá frio aqui fora.
Ela entrou e ele a seguiu, limpando os óculos na blusa preta e colocando o cachecol dentro da mochila. Sentaram-se na primeira mesa vaga que viram, enquanto os computadores não desocupavam. Steven falou primeiro:
– Hãn, você continuou tendo aqueles pesadelos? — assim que perguntou isso, Claire ficou corada. Não sentia-se à vontade falando daquilo e ele obviamente percebeu. — Ei, não precisa ter tanto medo. Todo mundo tem algo de estranho em si. Isso é completamente normal e ter pesadelos constantes assim que se muda é aceitável. Não precisa ter medo, Claire.
Ela assentiu, respirou fundo e falou:
– Eu meio que sonhei com um nome. Foi algo meio rápido e estranho, eu acho.
– E esse nome era o meu, espero. — Steven deu uma piscadela e ajeitou o cabelo como o James Dean faria, oque fez Claire rir. Depois ele pareceu assuntado, arregalou os olhos e disse: — Não me diga que sonhou com o nome "Freddy Krueger"? — Riram mais ainda, e então ambos se sentiram mais à vontade.
– Eu não sabia que você tinha assistido "A Hora do Pesadelo". Quer dizer, aqui não tem nem cinema!
– Ah, pelo amor de Deus, Claire. Esse filme foi lançado quando, há uns 10 anos atrás? Minha tia trouxe o DVD logo depois que lançou!
Claire pensou por um tempo, será que devia falar sobre 'Agnes Beryl'? Antes mesmo que pudesse decidir, algo passou por seus lábios:
– Quantos anos New Steom tem? Digo, há quanto tempo existe esse vilarejo?
– Há muito tempo. — Steven deu um sorrisinho — Uns 300 anos, 200? Pra que você quer saber?
– 300 anos? Há 300 anos isso daqui é um vilarejo? Nunca virou uma cidade?
– Ah Claire, pequena Claire. Você quer que eu, justo eu, fale de história com você? Eu durmo em todas as aulas de história desdo sétimo ano, minha querida. — respondeu Steve, mas Claire continuava a fitá-lo, apreensiva. — Tá bom, tá bom. Esse vilarejo foi fundado por volta de 1675-1680, por aí. Rapidamente tornou-se uma cidade, mas devido à umas crenças pagãs que tinha, foi rapidamente abandonada. Só vieram voltar aqui por volta de 1800. Nem me pergunte mais que eu só sei disso.
Assim que terminou de falar isso, Steven olhou pela janela, o sol estava se pondo além das colinas, tingindo de roxo todo o céu. Ele virou-se para Claire e anunciou calmamente
– É melhor andarmos logo, já tá escurecendo. — Ela assentiu e se levantaram. Um computador vagou no momento em que Claire atravessou a porta da biblioteca.
Mal chegaram na entrada do bosque que dava acesso à casa dos Daan que o sol já desaparecera por completo, e apenas luzes amareladas e fracas mostravam o caminho até a casa. A garota pálida de longos cabelos castanhos parou rente à trilha, e engoliu à seco. Steven percebeu isso, e então se ofereceu para acompanha-la, que não recusou. Eram vinte minutos de caminhada, e ele era uma companhia agradável. Por precaução, Claire Daan decidiu que era melhor pararem à alguns metros da entrada (Não queria ouvir piadinhas toscas sobre o novo amigo) então ela apenas agradeceu e deram um rápido abraço.
Na cozinha, a mãe preparava uma torta leve de camarão. Sally Daan ainda estava muito abatida devido ao câncer que acabara de deixa-la, mas a cor da pele já estava devolta e os cabelos negros e curtos pareciam cada vez mais saudáveis. Ela sorriu, e todos sentavam-se na mesa em seus lugares de costume. Alice mantinha os cabelos loiros presos em um laço rosa, e o pai até abandonara um dos montes livros que lia e esperava à mesa. Charlie ajudava nas coisas, e pela primeira vez desde que mudara-se para lá, Claire sentiu-se em casa novamente. Na verdade, pela primeira vez em 4 anos, sentiu-se feliz. Era como quando tinha 11 anos, só que com leves diferenças: Os cabelos loiros do pai apresentavam mais fios brancos, Charlie estava maior e Alice mostrava cada vez mais a sua beleza. Depois do jantar e de ficar na sala com os irmãos, ligou para Jenna, que contou que pretendia namorar com Leo em alguns meses. Depois do "Amém" da garota, conversaram mais um pouco e Claire deitou-se na cama, e logo caiu no sono. Talvez, só por hoje para variar, não tivesse um pesadelo.
Uma mão comprida tocava o seu corpo, branca como neve. Tocava sua boca, seus seios, suas coxas, seus braços... A tocava lá. Ela queria se livrar daquilo, mas algo a prendia. Um peso caiu em seu peito, sentiu como se alguém observasse oque aquelas mãos faziam. Nojo, um nojo terrível a invadiu. Sentiu raiva, humilhada. Pare. Pare. Pare. Pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare, por favor pare. As lágrimas escorriam de seus olhos, uma atrás da outra. Queria vomitar, queria tirar aquele peso que esmagava o seu peito. Uma música cantada por uma voz infantil planava ao redor do quarto.
Ando pela frente, pela frente
Para trás não posso olhar
É melhor não se arriscar
Crianças más, crianças más
Ele vem as pegar.
Se em você ele tocar, cuidado para não gostar.
Para longe ele as leva, para longe ele as leva.
Quando segura a mão dele consigo ele vai levar:
A sua inocência, a sua alma. Elas nunca mais irão voltar!
Claire sentiu o ar esvaziar-se de seus pulmões, e então acordou, em um grito abafado. Parecia que o grito havia sido roubado quando estava prestes a sair pela sua boca. Aquela sensação ainda a contaminava. Suja. Nojo. Alguém havia a tocado. Nojo. Nojo. Afundou o rosto no travesseiro, e começou a chorar. Soluçava até sentir a sua cabeça doer e então, adormeceu e aquela sensação de nojo esvaziou-se, junto com a música.
Mas algo a observava pela janela.
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