Gritos no Silêncio

2 Capítulo 2 - Olhos de Gelo.


Notas iniciais
*Perdoem-me por qualquer erro ortográfico que possa ocorrer ;)

Claire Daan dormira bem na primeira noite naquela casa. Acostumava-se fácil com novos ambientes, e a cama enorme era nem um pouco ruim. Havia ainda alguns tubos de tinta na mochila. Pegou o rosa-claro, branco-amarelado, diversos tons claros de verde e marrom. Logo após o café, afastou o mínimo de móveis que haviam no seu quarto e começou a dar longas pinceladas pela parede em branco. Depois doque pareceu horas, cerejeiras japonesas destacavam-se entre as árvores cinzentas do lado de fora da janela. Esperou secar a pintura recolhendo as tintas e colocando os móveis no lugar, limpando aqui e ali umas manchinhas de tinta que haviam respingado.

Quando a tinta secou já deu a hora do almoço, e os pais iam comprar ainda a comida. Foram à pé ao mercadinho local: 20 minutos de caminhada só para sair do bosque. O mercado não era muito grande, comparado ao da cidade antiga, mas grande demais para um vilarejo como New Steom. Cada um foi para um lado, a comida que tinham levado para a nova casa era pouca. Charlie ficou com a mãe para comidas principais, Alice com o pai para produtos de limpeza e Claire, a mais velha, fois escolhida para pequenas compras de lanches e baboseiras. Andava pelos corredores do mercado, até que foi parar na seção de cereais. Procurava Floop Loops — o favorito de Alice — quanto sentiu que estava sendo observada. Olhou para um lado. Uma velha senhora olhava diretamente para ela no fim do corredor. Devia ter uns 70 anos, mas parecia ter mais. Vestia um longo manto roxo e um vestido branco. Seus olhos eram extremamente claros, azuis-gelo. Estavam petrificados, grudados em Claire. A boca estava um pouco aberta. Claire tentou ignorar aquela mulher, e voltou a procurar o cereal, mas ela continuou a fitando. Pegou o primeiro cereal que viu e saiu correndo até o outro corredor. A mulher continuou lá, com aqueles olhos de gelo.

Estavam no caixa passando as compras quando Claire ouviu sussuros atrás de si. Virou e deparou-se com duas mulheres e um homem à alguns metros de distância. O cara parecia um lenhador, com longa barba branca e camisa xadrez. As mulheres eram ruivas e pareciam que tinham parado nos anos 50. Olhavam para Os Daan e murmuravam. Será que todo mundo naquela cidade era estranho?

Quando chegaram em casa e almoçaram, Charlie e Alice foram brincar do lado de fora, junto com os pais. Claire decidiu ligar para Jenna. De início, pensou em contar o acontecido no mercado, mas achou melhor não. Só de lembrar nos olhos de gelo daquela velha um frio passava por si. O telefonema acabou cedo: Jenna tinha dever de casa de História e Claire precisava retocar algumas flores de cerejeira que ficaram borradas, mas desistiu. Sentou-se perto do único vitral de seu quarto. Não era bem um vitral, e sim um janelão de vidro fosco e aço que ia do chão até o teto, e ficava do outro lado do quarto. Era bom ficar ali. Colocou algumas velas de morango por perto e travesseiros. Encostou a cabeça no vidro, olhando as árvores. As que tinham copa amarelada desapareciam pouco a pouco. O sol estava se pondo. As árvores eram cinza. Cinza como os dias tristes.

Quando mais Claire ficava olhando as árvores, mas se sentia atraída por elas. Algumas pareciam chorar, com os galhos voltados para baixo ou frouxos. Algumas árvores pareciam simplesmente... duras. Como se tivessem visto muita coisa acontecer. Óbvio que viram;pensou Claire. São árvores centenárias. E algumas delas pareciam morrer.

Só se deu conta do tempo que ficou ali quando a testa, escorada no vidro, começou a doer. A rotina foi parecida com a do dia anterior: Jantar, Brincadeiras após o jantar, jornal da noite. Mas ela não dormiu cedo naquela noite. Optou por ler. Letras douradas anunciavam o título: O Apanhador No Campo de Centeio. Era o livro favorito de seu pai e o livro responsável pela morte do John Lennon e outros caras há um tempo atrás. Estava no meio da leitura quando ouviu um barulho. Virou-se para o vitral. Nada. Do outro lado só havia escuridão. Ligou uma lanterna para espiar as copas murchas das árvores. Três meninas.

Três meninas andavam pela floresta, os galhos secos quebravam debaixo de seus pés. Elas subiam a colina. Andavam entre as árvores, cinzas e altas. Lado a lado, três menininhas loiras subiam a colina. Uma tinha olhos verdes. Estavam petrificados, assim como a velha dos olhos de gelo que Claire viu mais cedo. Eles observavam o topo da colina do mesmo jeito que a velha observava Claire. Pedra. A garota dos olhos verdes usava um vestidinho amarelo. Então ela para de andar com as outras loirinhas, agora está sozinha. Ela corre até o topo da colina em uma velocidade além do possível. Cada vez mais rápido, ela vai até o topo da colina, aonde há uma enorme fenda. Corre em direção a fenda, que a engole. Ela cai. Olhos vidrados, de gelo. Aqueles olhos continuam a observar.

Claire acorda, assustada. Pingos de suor caem no lençol da garota. Sonho. Foi tudo um sonho. Devo ter lido até cair no sono. Sim, foi isso. — e sorriu. Limpou o suor com a barra do camisão que usava como pijama e olhou até a janela.

Os travesseiros continuavam lá, assim como a lanterna, ainda ligada, apontando para a floresta.