Grief
1 Until your distress sleeps feel me up with your...
Notas iniciais
O seu peito ardia, a cabeça girava e não sentia o ar penetrando seus pulmões. Sua mente não processava, mas os fatos haviam lhe atingindo como o mar que bate nas rochas: violenta e interruptamente.
As lágrimas mornas e salgadas desciam a face agora úmida. Os braços envolviam o colo apertando-o com força, enquanto que, ajoelhado de qualquer jeito sobre o assoalho de madeira, ele arfava em busca de oxigênio.
Os ofegos eram baixos, oscilando na rouquidão de sua voz grave que, já há um certo tempo, não era pronunciada.
A verdade era... inacreditável.
Havia tantas coisas que queria poder dizer. Voltar atrás e ter atitudes que não tivera antes.
Mas ele... ele não iria voltar para ouvi-lo, não é? Não há nada a se ouvir de uma voz murcha, muda.
No meio daquela imensidão escura, nebulosa e úmida, os olhinhos escuros perdiam-se por um momento, imaginando onde o loiro pudesse estar. Será que estaria mais feliz, já que havia partido? Ainda pensava nele? E se pensava... eram pensamentos bons, agradáveis? Ou infelizes e amargurados?
Cogitar na segunda opção fez seu peito, já apertado, doer mais ainda.
Quando sentiu o gosto salgado que vinha de seus orbes, seu corpo pesou e uma lufada de ar fora expelida de seus pulmões.
Uruha era a pessoa que lhe causava toda essa dor, mas era nele que pensava numa tentativa de amenizá-la. Era ele quem Ruki queria agora, para abraçá-lo e fazê-la passar.
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Os olhos cor-de-mel miravam os próprios pés enquanto estes caminhavam pelo asfalto molhado, receosamente. As mãos nos bolsos do casaco preto encharcado remexiam-se um pouco inquietas, inseguras com a decisão que o loiro tomara.
“O que estou fazendo?” era uma pergunta que sua mente processava e repetia sem cessar. “Por que o estou fazendo?”
A rua abarrotada de pessoas e guarda-chuvas parecia ser invisível a ele e seus ouvidos não captavam nenhum som. Seus pensamentos estavam distantes, vagando e desenterrando coisas... memórias que deveriam ser mais importantes do que as que há pouco apertavam seu peito.
Sentiu os orbes arderem com as lembranças que vinham à tona, e não foi capaz de conter as lágrimas que transbordaram destes, misturando-se com a chuva que umedecera e ainda caia sobre seu rosto.
A cólera embaralhava-se com a melancolia. Aquela angústia estava enlouquecendo-o.
Fechou os olhos e interrompeu seus passos. A imagem de Ruki aos prantos de súbito viera em sua mente e, mais do que a dor que sentia por ter que deixá-lo, era ainda saber que o pequeno sofreria com tudo isso. Não fizera aquilo porque era seu desejo, e sim porque achava que seria o melhor para ele... E só Uruha sabia o quanto havia ansiado para que estivesse errado.
E talvez estivesse.
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Sua cabeça estava pendida para trás, sendo sustentada pela almofada do sofá macio atrás de si. As lágrimas haviam secado em seu rosto, mas a aflição não havia passado. Pelo o contrário, só parecia ter aumentado, dobrado de tamanho. Quanto mais o tempo passava, mais dor sentia.
Antes acreditava que o tempo era capaz de curar as feridas, mas agora já não tinha tanta certeza. O máximo que poderia fazer seria se conformar, aceitar. Entretanto, aceitar que Uruha tinha partido era a última coisa que queria fazer neste mundo. Apenas de cogitar a possibilidade de nunca mais vê-lo, sentiu uma pontada desesperadora no peito, e o ar lhe faltou.
No meio da pequena sala de estar, sentia-se perdido. Os orbes escuros vagavam pelo cômodo, parecendo procurar por uma saída, como se pudesse ser salvo, mas a única pessoa que poderia salvá-lo fora a mesma que tinha lhe deixado nesse estado deplorável e patético.
Era dependente dos sentimentos de Uruha, mas nunca se arrependera disso. Ele foi sempre o único que, desde que se conheceram, fora capaz de enxergar através de si. Foi o único que conseguiu ver através da aparência extravagante e do jeito impassível até chegar ao verdadeiro “eu”, conhecendo seus sentimentos: uma pessoa um tanto insegura, mas gentil e carinhosa, que só queria alguém para amar e ser amado de volta. E havia sido essa simplicidade que vira nele que o tinha feito se apaixonar completamente pelo pequeno de madeixas ruivas.
O loiro era tão precioso porque tinha sido o único que Ruki não precisou descrever-se, pois quando tentou pela primeira vez, as palavras que saíram dos lábios bem desenhados dele foram: “Não precisa se explicar pra mim. Eu conheço você, meu pequeno.” e com isso, ele sorrira.
Sentiu o peito arder, dessa vez, como se tivesse em chamas. Essa sensação horrível não teria um fim, não é?
Esfregou as mãos nos olhos e levantou-se devagar, receoso com a hipótese de acabar cedendo com a abundância da lástima que o envolvia.
O corpo permaneceu estático quando as duas esferas negras de seus olhos pairaram em direção a porta da frente. Estava tão distraído afogando-se na própria mágoa que nem ouvira o som da chave, muito menos o da porta batendo, e, também... não acreditava no que estava vendo. De primeira cogitou em ser uma ilusão causada pela falta que Uruha estava fazendo agora e pela dor que consumia seu corpo, mas a hipótese se desfizera quando perdera o controle sobre suas próprias pernas e jogara-se em direção ao loiro, pressionando o rosto com força em seu peito úmido.
As lamúrias que voltavam a acumular-se nos orbes misturavam-se com a chuva presente nas vestes do mais alto, e este, por sua vez, não pudera conter as próprias lágrimas, deixando-as escorrer ao aproximar o rosto dos cabelos ruivos do pequeno.
Ruki sentia uma das mãos latejarem por apertar a veste de Uruha com tanta força, mas não se importava. Não queria soltá-lo, não queria ser deixado de novo. Se aquilo fosse uma ilusão, ele teria se apegado a ela com toda a sua determinação sem nem mesmo pestanejar.
Ofegou em busca de ar, pois o choro arranhava e obstruía sua garganta.
Uruha segurou o rosto rechonchudo entre os dedos largos, admirando-o. Os olhos negros, ao se encontrarem com os do mais alto, puderam enxergar todo o sofrimento ali contido, a angústia espelhava-se nos orbes.
Depois disso, nenhuma palavra foi necessária. Os lábios se consumiram pela própria necessidade de acalmar a frustração aparente presente em ambos. A dor ainda não os deixara, e agora, ela os cobria.
Envoltos na amargura, eles haviam descoberto o que o amor realmente era.
Algo mais profundo que a dor.
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