Grey Hollow
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Notas iniciais
— VOCÊ TEM QUE seguir em frente. – Robin estava descuidadamente sentada na poltrona do quarto de seu irmão, que estava largado na cama encarando o teto com os olhos verdes, geralmente brilhantes, agora nublados de melancolia. – Você mal a conhecia...
— Isso foi muito insensível – ele levantou a cabeça para olhar para irmã e voltou para o estado anterior.
— É, eu sei, desculpa. – Robin abanou a mão. – Mas já vai fazer um mês, e se isolar e ficar de cara fechada em todos os lugares que a gente estiver não vai ajudar a encontrar a garota.
Josh suspirou.
— Você não deveria estar morrendo de ressaca no seu quarto?
— Eu estou – e levantou a garrafa de água –, só que no seu, e está passando. Eu sou sua irmã mais velha, você não pode me expulsar.
— Eu sou mais alto e mais forte que você.
— Tudo bem, tudo bem, eu saio – ela disse, se levantando e caminhando até a porta –, é que eu detesto te ver assim.
***
Era um domingo particularmente entediante, Violet tinha mandado mensagem dizendo que a avó dela tinha morrido e que não era para Robin se preocupar em consolá-la porque ela estava perfeitamente bem. Violet nunca estava bem. Ela assistia à amiga se deteriorando e ficava desesperada em não saber o que fazer, porque não importava o quanto ela tentasse, Robin nunca iria entender realmente como ela se sentia a não ser se passasse pelo mesmo, o máximo que ela podia fazer era ouvir.
Percebendo que estava decididamente melhor, prendeu o cabelo com uma caneta e saiu para uma caminhada, andar sem rumo era uma das coisas que mais gostava de fazer, era bom para clarear a mente.
A última vez que Lucy tinha sido vista foi em uma dessas festas perto do pinheiral. Robin poderia ir até lá, seria mais ou menos uma hora de caminhada, mas ela já tinha feito isso várias vezes, desde a época que Violet não tinha um carro. Era outono, o vento gelado e cortante balançava os galhos das árvores cuja copa já começava a ficar alaranjada e levava as folhas secas em direção contrária ao caminho de Robin. A neblina impedia de ver as Montanhas Rochosas dali, mas em dias de névoa menos densa era possível ver as enormes silhuetas que se erguiam.
Ouvindo música, chegar ao destino pareceu não demorar. Ali estava o pinheiral. As árvores eram esparsas na orla, no entanto, adentrando o bosque, este ia ficando cada vez mais denso. Do outro lado do campo, o grande lago escuro parecia calmo, como sempre. No inverno ele se congelava inteiro, atraindo famílias que traziam suas crianças para patinar, casais de jovens namorados e alguns atletas.
Deu-se conta de que estava sozinha, nem mesmo os velhos pescadores com quem ela e Violet fumavam um baseado de vez em quando estavam lá. Tudo estava silencioso, com exceção dos barulhos comuns da floresta e o rugido do vento em seus ouvidos, que causou em Robin um calafrio.
— O que está fazendo aqui?
Robin pulou de susto, o coração disparado, virando para ver de quem era a voz. Um rapaz alto e robusto a fitava com os olhos azuis fixos nos verdes dela.
— É um local público. – Ela disse, dando um passo para trás, quando finalmente recuperou a voz.
— Garotas têm sumido, não é uma boa ideia estar sozinha, especialmente aqui.
— Eu sei, eu... Acabei de me dar conta que foi uma má ideia. – Ela voltou a olhar a floresta. Pensar que Lucy poderia estar ali, possivelmente morta, a esta altura com o corpo decomposto, lhe causou um arrepio na espinha.
— Então pegue seu carro e vá para casa, sim? — Ele colocou os cabelos ruivos, longos na altura do pescoço, atrás da orelha, revelando um brinco de argola e alguns piercings na orelha.
— Eu queria ter um carro. – Robin disse com um sorrisinho, e começou a se afastar para ir embora.
— Ei! – Ele a chamou de volta depois de alguns segundos. – Está com frio?
Ela levantou as sobrancelhas ao virar-se para encará-lo, ele estava com uma expressão um pouco estranha, apesar de saber disfarçar muito bem.
— Um pouco, mas estou de blusa...
— Sua blusa é muito fina. Pegue a minha jaqueta. – O rapaz a tirou com um movimento rápido e se aproximou de Robin.
— Não precisa, obrigada. Eu nem conheço você, como vou devolver depois?
— Só pega – ele disse se aproximando até demais com uma certa urgência na voz, dando uma olhadela rápida para algo atrás dela antes de voltara a encará-la –, a gente se encontra qualquer dia, estou sempre por aqui, vou saber quando você também estiver.
— Mas... você não vai passar frio, ou...
— Pega. – Ele disse firmemente, fazendo Robin se sentir sem escolha e muito desconfiada.
— Ok, ok! – Ela aceitou contrariada e vestiu a jaqueta absurdamente grande e ainda aquecida pelo calor dele. – Obrigada.
— De nada. – Ele disse e expirou, como se antes estivesse prendendo a respiração.
— Tem certeza que...? – A garota começou de novo.
— Vá para casa.
— Certo, certo, estou indo. – Robin deu alguns passos para trás e acenou em despedida antes de se virar e se dirigir até a rodovia, no momento deserta, por onde viera.
Já a metros de distância, ela tentou olhar para trás de maneira casual – sem muito sucesso –, o rapaz ainda estava lá observando-a.
Caralho, ela pensou, que porra que acabou de acontecer? De onde aquele cara tinha surgido? E por que estava agindo tão estranho? Como ele saberia quando Robin estivesse no local sendo que ela nunca o viu na vida?
Uma rajada muito forte de vento afrouxou o coque e fez a caneta cair por entre os cabelos excessivamente lisos de Robin. Ela abaixou para procurar o objeto que sumira entre as folhas, agradecendo mentalmente pela jaqueta. Depois de prender novamente os cabelos, continuou a caminhar na beira da rua. Percebeu que poderia achar algo dele nos bolsos que poderia ajudar a identificá-lo, mas não havia nada. Suspirou. Pelo cheiro, o couro era legítimo e estava bem gasto, havia outro cheiro impregnado na lã que revestia o casaco, de... chuva. Aparentemente, isto era característico do rapaz. Ela duvidava que havia alguma loja que vendia fragrância de chuva.
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