Gregory Snicket e Seu Tutor

1 Procurando Lemony, Achando Emily


Notas iniciais
Qualquer dúvida sobre a história, me pergunte nos reviews, pois Desventuras em Série é um pouco confuso mesmo. Well, enjoy it!!

Há muito tempo, foi fundada uma organização. O nome dela e de quase tudo que ela usava podia se abreviar nas iniciais C.S.C.* Meus avôs fizeram parte dela, meus pais também, e eu entrei para ela quando era criança.

O que faço nela? Simples. Registro tudo o que os outros voluntários me pedem na máquina de escrever, pela minha incansável vontade e incrível rapidez na datilografia.

Você só precisa saber que tenho quinze anos, cabelos negros, olhos azuis, e minhas iniciais são G.S. Fui separado de minha mãe para viver no vale das Correntezas que Sopram Constantes, pois meu tutor, Lemony Snicket, estava lá, cuidando de um tal açucareiro que aos meus olhos era inútil pela razão de eu não saber o que ele continha. Só sabia que ele era extremamente importante.

Era muito bom que Lemony Snicket fosse meu tutor. Ele era gentil, divertido, estava sempre me contando histórias sobre seu passado e foi ele quem me ensinou a registrar e pesquisar sobre todos os fatos com precisão e persistência. Nosso lugar preferido era a biblioteca, onde nós líamos nossos livros favoritos um para o outro, Lemony me contava sobre sua história, desde quando ele foi separado da família até o dia em que se apaixonou por Beatrice. Ele me ensinava tudo que sabia sobre escrita e C.S.C., e isso só fazia com que eu me apaixonasse cada vez mais pela vida que estava levando. Além do mais, sempre amei o frio ‑ e eu nem preciso dizer que a base de C.S.C. nas Montanhas de Mão-Morta era extremamente fria. Ele sempre saía e ficava dias fora para pesquisar o paradeiro dos Baudelaire, filhos da mulher que ele sempre amou, enquanto eu às vezes viajava para tentar encontrar os Quagmire. Mas esse paraíso que era minha vida acabou, quando o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba chegaram.

Para não lançar muita fumaça no céu, eles incendiaram sala por sala o lugar que fora meu lar. Lemony e eu estávamos na cozinha quando eles vieram. Meu tutor, temendo que o incêndio afetasse aquele maldito açucareiro, atirou aquele aparelho de chá pela janela, enquanto eu, pensando nos outros agentes, fiz o Colóquio Secreto Criostático* na geladeira da base de operações. Mais tarde alguém veria aquilo. O açucareiro caiu no Arroio Enamorado e foi levado pela correnteza. Foi quando me separei de meu querido tutor e de todos os outros membros de C.S.C.

Enquanto ele seguia o curso do arroio para chegar ao açucareiro ‑ ou ia para o leste, tentar encontrar os Baudelaire, não sei ao certo ‑ eu desci as Montanhas de Mão-Morta e fui para o sul. Ouvi falar de madame Lulu, uma mulher que via a sorte de todo mundo que lhe pedisse. Talvez pudesse me falar onde estava meu tutor, ou os Quagmire, ou os Baudelaire, ou o açucareiro, e talvez um tal de dossiê que Lemony e seus irmãos criaram, e estava sempre distraindo meu querido tutor.

No desespero da fuga, só consegui pegar um casaco, um saco de pão, geléia, um mapa e uma pequena, porém pesada, máquina de escrever. Andei o dia todo naquele maldito sertão quente, nem sei por que levei o casaco, e não consegui mais andar quando anoiteceu. Como eu poderia andar mais depois de quinze horas assim?

Finalmente, arranjei uma utilidade para meu casaco: serviu de travesseiro. Deitei no chão frio enquanto o crepúsculo azul e lindo do sertão ainda acontecia. Afinal, quanto mais cedo dormisse, mais cedo acordaria, e mais cedo eu chegaria a algum lugar com algum outro ser humano. Esperar que eu, Gregory, fique sem falar com ninguém durante um dia inteiro é pedir demais.

(...)

Acordei no amanhecer, e a semelhança dessa hora com o crepúsculo me fez pensar que não tinha dormido nem um minuto sequer. Quando vi que o céu ficava mais claro, e não mais escuro, percebi que tinha dormido até demais. Retomei a caminhada.

Mais doze horas de puro nada. Só o chão quente do sertão e mais absolutamente nada. Será que eu estava indo na direção oposta? Não, eu me mataria se estivesse. Eu tinha um mapa, não podia ter cometido um erro tão terrível!

Já era crepúsculo de novo, e eu não aguentaria mais um dia só andando.

Também não posso descrever a minha felicidade quando, logo após ter esse pensamento, vi uma pessoa a alguns metros de mim. Cheguei mais perto e vi , tristemente, que ela estava rodeada por vários escombros do que, um dia, foi o parque Caligari. Reconheci o lugar porque meu tutor o descrevera para mim: a montanha-russa e seus carrinhos cheios de hera, e a cabine telefônica um pouco mais longe. Mas no lugar das tendas e trailers estavam montes de cinza.

Tirei meus olhos do ambiente e os coloquei na única pessoa que estava lá além de mim. Era uma garota loira da minha idade e da minha altura.

‑ Amigo ou inimigo? ‑ Eu perguntei a ela.

‑ “O mundo aqui silencia” ‑ disse ela. ‑ Isso responde a sua pergunta?

Na verdade, “o mundo aqui silencia” era uma senha usada por todos os membros nobres de C.S.C. Os membros pérfidos, como Conde Olaf ou o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba, não sabem essa senha.

‑ Responde ‑ eu respondi. ‑ Quem é você?

Ela se virou para mim. Olhei no fundo de seus olhos verdes, lindos, porém cheios de tristeza.

‑ Sou Violet Baudelaire.

Eu sabia que alguma coisa estava errada. Meu tutor já me falar sobre Violet, disse que ela tinha cabelo escuro, não loiro.

‑ Não, não é ‑ eu disse. ‑ E se mentir de novo para mim, vou embora e deixo mofando aqui.

Ela encarou as Montanhas de Mão-Morta, vários quilômetros atrás de mim. Parecia estar pensando se falaria a verdade ou tentaria mentir de novo.

‑ Tudo bem, eu posso começar ‑ eu disse. Talvez fosse mais fácil ganhar a confiança dela se eu confiasse nela primeiro. ‑ Sou Gregory. Morei na base das Montanhas de Mão-Morta minha vida inteira, mas ela foi incendiada e eu pensei em vir para o Parque Caligari para perguntar à madame Lulu se ela sabia a localização do açucareiro, do dossiê Snicket e, o mais importante de tudo, meu tutor, Lemony Snicket. Andei um dia e meio, por aí, no sertão, pra chegar aqui e ver o Parque destruído.

Os olhos dela se tornaram mais compreensivos, como se tivesse passado por desgraças terríveis também.

‑ Sou Emily, e morava eu um colégio interno, a Escola Preparatória Prufrock.

Lembrei de uma das últimas coisas que meu tutor tinha me dito antes de nos separarmos.

‑ Os Baudelaire moraram lá! ‑ Interrompi. ‑ Eles foram expulsos porque...

‑ Porque o Conde Olaf se disfarçou de professor de ginástica, mandou eles correrem voltas e voltas a noite toda; eles foram mal na escola porque não dormiram uma noite sequer, foram reprovados e, antes que fossem expulsos por causa das péssimas notas, seus amigos os ajudaram; os amigos foram seqüestrados pelo Conde Olaf, que fugiu, e por causa de toda essa confusão que causaram, os Baudelaire acabaram sendo mesmo expulsos. Eu sei disso. Como eu disse, eu estava lá.

Pude sentir que corei vivamente.

‑ Depois de toda essa corrupção na escola, eu fugi de lá. Afinal, os meus pais não ligavam pra mim; me mandaram para aquele colégio porque achavam que eu era geniosa demais. Queria saber mais sobre os Baudelaire e seus amigos. Queria ajudá-los, depois de vê-los passarem por tanta desgraça. Antes de fugir, pesquisei na biblioteca da escola sobre aquele tal de Conde Olaf. Na biblioteca, havia uma grande coleção de jornais antigos e muitos tinham matérias sobre um antigo escândalo envolvendo uma tal organização que até então era secreta. E acabei descobrindo tudo sobre C.S.C., inclusive a madame Lulu, uma mulher que lia a sorte dos outros e estava no sertão. Vim para cá para perguntar a ela sobre os Baudelaire, o dossiê, e tudo mais sobre essa organização.

Olhei em volta. Obviamente, nenhum pesquisador que se preze estivera lá depois do incêndio que destruíra tudo: ainda jaziam muitos materiais e pedaços de papel no chão que podiam ser úteis para investigação do que aconteceu ali.

‑ Vamos examinar esse lugar ‑ eu disse a ela, ‑ porque só juntos descobriremos tudo o que queremos saber, e acharemos todas as coisas que estão faltando nas nossas vidas.

Notas finais
*O nome da organização é Corporação pelo Salvamento das Chamas *Colóquio Secreto Criostático é um sistema de comunicação de emergência que convoca uma reunião entre os membros de C.S.C. depois de um recente incêndio em uma de suas bases de operação. O sistema é feito pelos alimentos de uma geladeira. Exemplo: o número de azeitonas que um agente deixa na geladeira é um dia; domingo é uma azeitona, segunda são duas, terça são três, etc... e assim ele usa todos os ingredientes para especificar tudo sobre a reunião. Algum agente olha na geladeira da base de operações incendiada e espalha o código na geladeira da casa dos demais agentes, para que todos saibam da reunião.