Gregory Snicket e Seu Tutor

4 O Açucareiro, Por Favor!


Notas iniciais
Nada pra fazer, vim escrever mais um pouco ^^ Enjoy it!

O rio começou a ficar cada vez mais largo, pois chegava cada vez mais perto do mar. Eu achava que estava tudo bem, o que era um sinal de que logo algo ruim iria acontecer. Nós estávamos sem fome, sem frio, só um pouco molhados por causa da água do arroio e estávamos felizes, porque assim que chegássemos ao mar, eu mostraria no mapa a localização da Aquáticos Anwhistle e nós encontraríamos o açucareiro.

Foi quando a correnteza ficou tão forte que jogou o barco contra uma das pedras da margem do rio. O barco se despedaçou, e tudo foi por água a baixo, literalmente. A máquina de escrever bateu com força na minha cabeça, o que fez um corte feio na testa, que sangrou, doeu e ardeu muito. Eu me agarrei a um pedaço de madeira do barco para não afundar. Foi quando tudo ficou mais calmo. A água parou de chacoalhar para lá e para cá: tínhamos chegado ao mar.

“Gregory!”, Ouvi Emily gritando. “Onde está você?”

Eu levantei a cabeça e vi os outros. Os dois tinham se agarrado a pedaços de madeira do barco também. Hugo estava a uns dois metros de mim, e Emily estava a uns muitos metros de Hugo. A água estava fria. Parecia até que alguém tinha arranjado um jeito de descongelar a queda d’água da base de operações. Ouvi um barulho de águias, e aquilo não podia ser bom.

Há muito tempo, muito mesmo, C.S.C. passou por uma cisão, isto é, uma briga, em que cada integrante escolheu um lado. O lado nobre ficou com os leões e os salmões, mas os salmões foram pegos pelo Café Salmonela e os leões, descobri mais tarde, quando li o relato de meu tutor “O Espetáculo Carnívoro”, foram capturados pelo Conde Olaf e maltratados até terem tanta fome que acabaram devorando pessoas. O lado ruim da cisão tinha raptado, também, os répteis que ficaram do lado nobre, que estavam a cuidado do dr. Montgomery. Mas um animal que eu nunca esqueci que tinha ficado do lado pérfido foi a águia.

Mergulhando no céu, uma águia enorme veio e me capturou. Outra segurou Hugo e outra agarrou Emily. Elas voaram até se encontrar com outras várias águias, e o que eu vi foi aterrorizante: uma águia segurava o homem com barba mas sem cabelo, outra segurava a mulher com cabelo mas sem barba, e outras seguravam uma rede onde estavam presos os Escoteiros da Neve e o capanga de mãos de gancho de Olaf. Reconheci os escoteiros da Neve porque me disfarcei de um deles no inverno passado. Por isso, sei que eles tinham subido até o Cume das Aflições para ficar o Mastro da Primavera lá. Um deles deve ter fincado com força demais, o que descongelou a queda d’água congelada.

“Águias!”, Bradou o homem com barba mas sem cabelo. As águias pararam, ficaram só batendo as asas para manter a altitude, mas ficaram no mesmo lugar. “Levem os escoteiros para meu amigo Olaf. Ele precisa delas para colocar o nosso submarino em ação.”

Ele assoprou um apito, e as águias que seguravam a rede saíram voando para o leste, obedecendo-o.

“Você não sabe quem encontramos no Cume das Aflições”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “A obsessão do seu tutor: os órfãos Baudelaire.”

“De fato”, disse o homem com barba mas sem cabelo. “Se vocês olharem para baixo, verão que eles desceram o rio com um trenó. Vão se espatifar nas rochas.”

Sem dúvida, não queria obedecê-lo. Mas olhei para baixo. Vi os três descendo com um trenó, como ele dissera. Mas, felizmente, os Baudelaire não se espatifaram numa pedra, como nós acidentalmente fizemos. Eles bateram em um submarino. Eu reconheci aquele submarino na hora. Era o Queequeg, do capitão Andarré. Graças a Deus, ele estava no lado nobre da cisão. Lembro-me dele porque eu e meu tutor passamos as férias de verão naquele submarino. Sentia falta de Fiona, enteada do capitão Andarré. Afinal, ela era uma ótima amiga.

“Droga!”, Exclamou o homem com barba mas sem cabelo. “Seria realmente muito divertido ver os Baudelaire morrendo hoje.”

“Seu doente!”, Não pude deixar de falar. “Você é patético, querendo que os outros morram enquanto se acha o maior vilão que o mundo já viu! Mas adivinhe: você não passa de um idiota! Incendiou meu lar na minha frente e eu ainda não tenho medo de você!”

Emily e Hugo me olharam da forma que olhariam para um louco. Afinal, bastava um sopro no apito para que as águias nos derrubassem no mar. E, daquela altura, a queda seria horrível.

“Falou bem”, disse o homem. “Ainda não tem medo de mim. Mas vai começar a ter, sabe por quê? Porque estou atrás de um tal açucareiro, e encontrei três pirralhos que sabem a localização dele. Só que aposto que eles não vão me dizer onde ele está, e quando pessoas omitem informações que eu quero saber eu fico muito, muito bravo.”

“Pode fazer o que quiser comigo”, eu disse, com uma coragem nascendo em mim, “eu não direi a localização daquele aparelho de chá.”

“Você acha que somos idiotas?” Perguntou a mulher com cabelo mas sem barba. Fiquei tentado a responder “sim, tenho certeza disso”. “Se nós queremos a informação de você, não faremos nada a você. Mas, nada nos impede de fazer algo ao herpetologista Hugo ou à garota loira.”

A águia que segurava a mulher foi chegando mais perto da águia que segurava Emily. Um momento de tensão se prolongou enquanto a mulher olhava no fundo dos olhos verdes tão lindos de Emily. A mulher, de repente, deu uma bofetada no rosto da garota, deixando a bochecha atingida vermelha.

“Que pena”, disse a mulher. “Um rosto tão bonito”. Depois se virou para mim, notou meus olhos cheios de lágrimas. “Realmente uma pena". Óbvio que ela não tinha pena de nada.

“Você é repulsiva!” Eu disse, exaltado. Hugo não falava nada, de puro medo, e Emily chorava de dor. A cena me partiu o coração, meus dois amigos destruídos, uma por fora, o outro por dentro. Foi então que me lembrei dos Baudelaire, que agora, aposto, estavam sendo muito bem recebidos no Queequeg. Onde estava o meu tutor? Um tutor deve proteger as pessoas que está cuidando. Onde estava o meu, então? Ao invés de me proteger da perfídia, estava por aí, correndo atrás dos três órfãos que estavam só alguns metros embaixo de mim. Senti uma raiva nascer dentro de mim. A paixão de Lemony por Beatrice sempre foi obsessiva, quando ela era viva e ele ficou triste com seu casamento, e agora, quando ela está morta, e ele fica correndo atrás dos filhos dela para registrar cada momento da vida deles como uma forma de pedir perdão à Beatrice pelo incômodo causado pela sua imensa paixão não correspondida. Até pouco tempo atrás, eu conseguia compreender e perdoar esse sentimento intenso que deixava meu tutor cego, mas agora, que isso começa a me afetar de forma negativa, só me sinto cada vez mais frustrado e deprimido.

“Se você fosse esperto”, disse o homem, “passaria menos tempo nos xingando e mais tempo falando onde está o açucareiro para que sua namorada se machuque menos.”

Olhei a face vermelha de Emily e as lágrimas que escorriam por seu rosto.

“O que me garante que vocês não nos largarão aqui depois que eu disser o que você quer?”

“Encare dessa forma:”, disse a mulher, “nós vamos precisar de alguém para torturar. Sabe? Para passar o tempo.”

Refleti rapidamente: se eles nos largassem ali, eu causaria o fim de C.S.C., mas se eles nos levassem, nós arranjaríamos um jeito de pegar o açucareiro e fugir.

“Aquáticos Anwhistle”, eu falei. “Gruta Gorgônea.”

“Ótimo”, disse o homem com barba mas sem cabelo. “Vocês ouviram, águias”, disse ele, e assoprou o apito mais uma vez. As águias que levavam os vilões foram primeiro, e as que levavam os nobres foram por último.

“Lamento muito, muito mesmo”, eu sussurrei, e só meus amigos conseguiram me ouvir e me entender.

(...)

As águias chegaram ao seu destino em menos de vinte minutos.

A Aquáticos Anwhistle era linda, eu sei disso porque vi figuras no livro que li quando era menor, na história da chave de fenda. Era como se fosse um prédio que se erguia do mar, e a Gruta Gorgônea era como seu subsolo, assustador e proibido.

Agora, o que restavam eram escombros carbonizados das paredes. O único lugar que tinha um chão em bom estado era o que podia se chamar de “térreo”. Era o piso que estava no nível do mar, ou seja, não queimou porque a água do mar sempre apagava o fogo. Agora, o piso do “térreo” estava alagado, porque as paredes tinham caído, deixando a água do mar entrar. Mas o nível da água não ia além do calcanhar.

As águias nos deixaram no piso inundado, e nós contemplamos as paredes enegrecidas que um dia protegeram vários voluntários, mas hoje não agüentava nem um vento mais forte. Não havia absolutamente nada além de chão e restos de parede. Absolutamente nada.

“Bom, para descermos naquela maldita gruta”, disse o homem, “temos que ter trajes de mergulho. Águias! Vão ao porto mais próximo e roubem cinco trajes de mergulho”, ele assoprou no apito e as águias foram.

“Por que cinco trajes?”, Eu perguntei. “Vamos com vocês?”

Os dois riram.

“Mas é claro que sim!”, Disse a mulher. “Vocês são pirralhos muito enxeridos. Se ficarem aqui sozinhos, arranjarão um plano contra nós.”

“Além disso”, disse o homem com barba mas sem cabelo, “Você sabe tão bem quanto eu que naquela gruta há o fungo mais letal que o mundo já viu. Sabe também que a gruta tem uma parte que não está inundada, e é lá onde o fungo brota. Vamos usar os trajes para nos protegermos do fungo, não para nadar.”

“Como desceremos até lá?”, Perguntou, para minha surpresa, Emily. Ela já tinha se recuperado da dor do tapa, mas Hugo ainda estava paralisado de medo.

“Felizmente”, disse a mulher, “Os voluntários que aqui viveram não era tão estúpidos quando o resto. Eles construíram canos, que começam no térreo e vão por uma boa parte até chegarem perto do chão da gruta. Para descer, é só escorregar por eles, e, para subir, as águias nos ajudam.”

Todos ficamos quietos, esperando as águias virem com os trajes. Como, em apenas alguns minutos, nossa situação foi de ótima para deplorável?

“Como, em apenas alguns minutos”, disse a mulher, “nossa situação foi de ótima para melhor ainda? As águias estão trazendo os trajes, as outras estão levando os Escoteiros da Neve para Olaf, e as outras estão destruindo uma maldita casa móvel auto-sustentável a ar quente cheia de voluntários idiotas.”

“Os Quagmire!”, Falei. “Como ousa pensar que está destruindo todos nós? Acha mesmo que os Quagmire vão ser vencidos por umas águias burras? Acha que Olaf vai triunfar sobre os Baudelaire?”

“Como você ainda fala conosco nesse tom de voz?”, disse o homem. “Vou te torturar tanto que vai pensar duas vezes antes de falar comigo de novo!”

As águias voltaram, com três trajes azuis e dois vermelhos. Os homens vestiram o azul e as mulheres vestiram os vermelho, por cima da roupa. Parecia que nós íamos participar de um torneio amigável de meninos contra meninas, e não arriscar nossas vidas descendo aos confins obscuros de uma gruta cheia de fungos mortais para achar um açucareiro que causara tanta desgraça em tantas vidas.

Notas finais
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