Greggory Field: A Vingança
18 Capítulo 18 - Forasteiros
Notas iniciais
Um barulho extremamente agudo ecoou na cabeça de Greggory. No inicio, ele não sabia se era real ou um sonho, mas logo descobriu que o barulho era, de fato, verídico.
Ao abrir os olhos, percebeu que já tinha anoitecido e tinha muito mais nuvens do que quando tinham ido descansar. Em seguida, lembrou-se que ainda estava nas alturas, por isso as nuvens estavam parecendo maiores e mais próximas.
Depois, ele percebeu Sr. Payne não estava no mesmo lugar quando fora dormir. O barulho agudo se repetia, longo e continuo, sem tremulações.
– Greg, abaixo de você! – alguém gritou. O menino olhou. Sr. Payne estava quase escorregando, agarrado apenas em uma pata de Chawd.
Greggory deitou-se novamente, de barriga para baixo e esticou o braço.
– Segure-se em mim, vou tentar puxar você!
– Sozinho não vai conseguir, peça uma corda! – ele berrou, tentando, com todas as forças, aguentar firme.
– Não dá! Todos estão muito longe e devem estar dormindo! Vamos, tente! Não vou deixar você cair! – Greg gritou. Uma coisa era certa: Se Roger caísse, ele já tinha tomado sua decisão: Iria junto.
Com um movimento rápido, segurou com firmeza e com as duas mãos o antebraço de Greggory. Este quase escorregou com o peso, mas aguentou firme e começou a puxar. Chawd chegou a grunhir por Greg puxar com tanta força seu pelo, para dar uma base.
Depois de uma certa altura, Sr. Payne conseguiu subir sozinho. Nesse exato momento, um trovão cortou o céu.
– Hyder disse para segurarmos só mais um pouco, Banshee está próxima. Logo logo essa tempestade cessará. Na cidade, só há um clima. E só chove quando necessário para as plantações. As Náiades controlam isso. – disse a Sra. Brown, de súbito. Greggory assentiu, assim como o Sr. Payne, após estar a salvo.
Depois do trovão, Srta. Sanders e Dylan tinham acordado e, sonolentos, murmuraram coisas em sinal de aprovação.
– Desculpe ter te acordado assim... Mas um relâmpago simplesmente veio e eu caí... Eu não consegui gritar... Ou mesmo falar. Talvez esse choque tenha mexido comigo, naquela hora, no momento de falar...
Ele apenas concordou com a cabeça. O fato de ter salvo um homem muito mais velho era bem embaraçoso, então achou melhor ficar quieto, pois não sabia como reagir a isso.
Era estranho não saber o que tinha abaixo dele. Poderia ser uma cidade, poderia ser um enorme terreno verde e vazio... Ou poderia até mesmo não ser nada. Como era uma cidade “encantada”, talvez o meio de chegar lá por criaturas míticas possibilitasse a entrada através de um lugar inexistente, ainda que não tivesse chegado à cidade.
Porém, pouco depois, Greg percebeu que estava equivocado. Algo pequeno e brilhante pousou no topo da cabeça Chawd, que pareceu nem perceber. Ao chegar mais perto para analisar o pequeno corpo fluorescente, notou que era algo semelhante a um vagalume, mas muito menor.
Ao olhar para frente, mais um como esse veio, e aterrissou no ombro de Greggory. Todos tinham acordado para ver esse pequeno fenômeno, todavia, ninguém dizia uma só palavra. Todos olhavam fascinados para essas pequenas criaturinhas, e tentavam adivinhar qual seria sua origem.
A cada minuto que passava, mais deles vinham. A tempestade que cortava o céu tinha quase sido esquecida, na verdade, mal importava. Uma nuvem chegou a ficar totalmente iluminada com eles, e, aos poucos começaram a preencher outras nuvens, e se instalarem nos Heróis. Eram tão leves e suaves, que se não brilhassem, ninguém notaria que estavam ali.
Conforme iam avançando, cada vez mais iam surgindo. Preenchendo o céu, com uma nuvem aqui e outra acolá. Quando todos se deram conta, estavam cercados por uma luz extremamente forte, que agora incomodava, mas não tornara o fenômeno menos bonito de se ver.
Todos se sentiam felizes e ficavam sorrindo, à medida que cada grãozinho brilhante ia surgindo. Quando os conglomerados foram se tornando cada vez mais frequentes, Greg se viu obrigado a fechar os olhos, e aos poucos, todos também tiveram a necessidade de fazê-lo, pois a iluminação era fortíssima.
Ainda com os olhos fechados, podiam perceber que a claridade ainda era absurda, então permaneceram assim por alguns minutos.
– Podem olhar, pessoal! – disse a voz da Sra. Brown, entusiasmada.
Lentamente, Greggory ia abrindo os olhos. Ao fazê-lo completamente, ficou espantado com o que viu.
Um belo vilarejo abaixo de si, onde as casas tinham formatos engraçados e cores vivas, ainda sim notáveis apesar da noite. Pequenas pessoas lá em baixo os observavam cortar o céu, quando algumas delas simplesmente levantaram vôo.
Carregavam pranchetas e usavam roupas exóticas, feitas aparentemente de recursos naturais.
A que chegou mais perto, foi a com o cabelo preto totalmente puxado para trás e chegava a brilhar, preso em um rabo de cavalo, que mostrava seu cabelo cacheado. Também havia uma tiara cor de prata presa em seus cabelos. Após encarar um a um com os olhos cor de amêndoa, ela disse:
– Auto lá, forasteiros! Estão entrando na cidade de Banshee, propriedade da Suprema Corte de nossa Rainha, Gwerth VI! Se conseguiram entrar aqui, não são Normais, como os abomináveis Humanos. Exijo, por estarem em terras fora de vossa posse, que identifiquem-se, e já. Se a resposta for negativa, condeno-lhes a morte!
– Tanto não será necessário. Somos Heróis, e viemos em busca de abrigo e alimento para essas pobres Harpias, que estão em uma longa viagem, e pretendem alimentar seus filhotes. Sabendo que só é viável encontrar Sucebros aqui, não deve ser incomum forasteiros virem em busca de comida. – disse a Sra. Brown, escolhendo as palavras com cautela. Eles sempre eram cordiais com que não conheciam. Só falavam normalmente com pessoas que confiavam. As Ninfas, por serem muito frágeis, eram desconfiadas de tudo e todos, por isso, era raro falaram informalmente com povos que não entre elas próprias.
– Não está equivocada, forasteira. Mas porque tantos para apenas alguns alimentos? – a Ninfa rebateu, analisando, novamente, cada um.
– Somos leais, assim como estas Harpias. Não abandonaríamos nossos soldados, e se todos não puderem entrar, então nenhum entrará. – Ágata disse. Nesse momento, ela se comunicava com Hyder, discretamente, que lhe dava informações sobre o que dizer. As Ninfas não gostavam de Sucebos, por tanto, adoravam quando as Harpias os vinham colher. Porém, precisavam de Humanos, ou de espécimes próximas deles (no caso, Heróis), para entrar no mundo das Fadas. Nenhum Herói poderia entrar sozinho, assim como nenhuma Harpia, só, faria tal proeza.
Ao pensar melhor, a Ninfa disse:
– Pois bem. Revistem todos e confisquem tudo que venha a ser suspeito. Assim que a revista acabar, se instalarão na casa de Bartira. – ela disse para as outras Ninfas, que revistaram cautelosamente, Herói por Herói, mas acabaram confiscando uma lata de sopa enlatada, que parecia suspeita. Elas os fitavam de um modo engraçado, quase que com medo e curiosidade ao mesmo tempo, como quando alguém entra um território desconhecido.
– Os nomes das Fadas são estranhos mesmo. Geralmente, têm significados. – o Sr. Payne disse, após as Ninfas terminarem a revista, alisando sua blusa.
A Ninfa deu alguma direção para a Sra. Brown, que explicou para sua Harpia, e as outras apenas seguiram.
Algumas casinhas tinham uma plantação do lado de fora. Passaram por uma grande floresta, que mesmo sobrevoando, sua extensão era notável. Repleta de árvores e flores, com uma divergência de cores, tamanhos e espécimes. Apesar da altura, Greg jurara que podia sentir o cheiro das plantas.
Só reduziram a velocidade quando chegaram a uma montanha, mas não chegaram a ir ao topo, pois um pequeno aglomerado, um pouco mais afastado dos outros, ficava ao pé do morro.
– Pessoal, bem-vindos ao Vilarejo Real de Banshee! – a Sra. Brown disse, enquanto a altura diminuía.
Um leve vento, que se tornou mais forte durante a aterrissagem, açoitava os cabelos de Greggory, que sorria involuntariamente a essa sensação de libertação. Era esplendida.
Chawd fixou suas patas traseiras no solo, logo em seguida, todos tinham pousado.
Ao redor, viam-se as luzes das casas — que eram bem maiores do que Greg tinha imaginado-, acesas, e curiosos olhos se voltavam para os forasteiros.
Então, uma moça, um pouco maior que Greggory, com cabelos pretos e cacheados, mas muito, mas muito branca, apareceu. Seus olhos eram escuros como o céu, mas sua pele era clara como o luar. Tinha um nariz um pouco alongado, e era magra e elegante, apesar de usar roupas bem simples. Mas não eram roupas comuns. Eram roupas feitas de coisas achadas ali mesmo, como folhas, frutas, e tecido também, mas pouquíssimo, e, era a maioria seda (graças ao bicho-da-seda).
Atrás dela, vinha uma moça com um ar modesto e algo como um chapéu de chef de cozinha. Logo se deduzia que ela era uma das empregadas de Bartira.
– Pelos céus! Olhem esses rostinhos! Parecem famintos e cansados... Vamos andando, vou mostrar onde é minha casa, vocês ficarão lá até sua estadia acabar. Marquize vai deixar as Hárpias no nosso seleiro. Aliás, belas Harpias Ocípedes, por sinal. Muito bem tratadas. – Bartira disse, conduzindo a todos para sua casa. Sinalizou para sua criada pegar as Harpias e então Marquize sumiu.
Caminharam pelo vilarejo, e algumas Ninfas saíram de suas casas para ver o que se passava. Suas residências eram feitas de flores gigantes, frutas enormes, plantas grandes e resistentes.
Olhavam estranho para eles, em sua maioria, com expressão de desaprovação total. Sabiam que não eram de lá, apesar de qualquer um que olhasse, não notaria a diferença entre Ninfas e Heróis. Porém, elas eram detalhistas e minuciosas, e logo distinguiam quem era o que.
Em geral, havia mais mulheres do que homens, e poucas crianças. Sra. Brown e Bartira conversavam sobre algo, enquanto todos caminhavam em silencio, explorando o local.
Havia algo como vagalumes por lá, as mesmas fontes de luz que os transportaram para Banshee, só que em menor quantidade. Postes com luzes azuis tremeluziam em seus pedestais. Era uma noite agradável, repleta de estrelas, com diferentes formatos, tamanhos e intensidade, e a lua estava cheia.
Depois de caminharem um pouco, pararam em frente a uma casa com o formato de um cogumelo gigante. O teto era constituído de um vermelho muito vivo e intenso, notável mesmo com a penumbra da noite.
– Por aqui. – ela disse, abrindo o pequeno portão que havia e esperou todos entrarem para, só então, fechá-lo. Mason andava com um braço ao redor dos ombros Srta. Sanders, que ainda estava um pouco assustada com tudo aquilo. Dylan caminhava lado a lado de Sabrina, que olhava fascinada para todos os cantos. Sr. Payne e Sra. Brown iam à frente, para caso houvesse uma emboscada ou algo do gênero, pudessem avisar a todos. E Greg ia por ultimo, bem atrás, pelo mesmo motivo. O ponto ruim era que ninguém podia vê-lo.
Ao entrarem na casa, perceberam que era maior do que pensavam. Tinha dois andares, uma sala grande e aconchegante, praticamente toda revestida de madeira, e um tapete redondo no centro, com cores pasteis, para quebrar um pouco o colorido da casa.
A cozinha podia ser vista da sala, e também era enorme. Tinha um fogão, mas era um pouco diferente. Não era à lenha, era apenas um pouco mais rústico que no mundo dos Normais.
Não havia TVs, ou qualquer tipo de equipamento eletrônico, o que deixou Dylan um pouco desapontado, pois estava doido para mexer em um computador (já que na S.A.H. não podia).
– Esta é minha casa, fiquem a vontade. Sente-se. – ela disse. — Nós, Ninfas, temos o bom hábito de acordar cedo TODOS os dias. O café da manhã é servido as sete em ponto, e se quiserem ficar aqui, terão que ajudar em nossas tarefas, e em troca, receberão hospedagem. Façam por merecer. – Bartira falou. – Pois bem, eu vou me deitar. Se quiserem tomar um banho, ou se aliviar, é a terceira porta a direita, subindo as escadas. – e ela saiu da vista de todos.
– Poxa, aqui é bem... Diferente de tudo que eu já vi. – Sabrina comentou.
– Pois é, mas isso não pode ser uma distração. Vamos ficar no máximo três dias. – o Sr. Payne falou, rígido. – Vamos descansar um pouco, quem quiser tomar banho, que vá. – ele disse, com um aspecto cansado. Parecia ser muito mais velho do que de fato era, com tantas preocupações martelando em sua cabeça.
Aos poucos, as pessoas se dispersaram para os quartos, e Greggory, que não estava com sono algum, decidiu tomar um banho. Ele ia ficar no mesmo quarto que Dylan. Antes de sair da sala, o Sr. Payne falou com ele:
– Amanhã começaremos o seu treinamento. Lamento dizer, mas não será nem um pouco fácil. Prepare-se. Trate de comer bem, dormir bem... Você vai empenhar-se totalmente. Precisarei de toda sua energia. Temos muita coisa em jogo para relaxar. Vir para Banshee foi só um contratempo, mas será um bom lugar para treino. – falou, bagunçando um pouco o cabelo de Greg.
Em seguida, ele subiu as escadas, e contou três portas... Mas acidentalmente esqueceu de contar a primeira, pois reparava nos degraus feitos de verídicas copas de árvores. Ao abrir a porta, teve uma surpresa: Ali não era o banheiro. Era um quarto. E tinha alguém no quarto.
Tinha uma menina lá. Simplesmente a garota mais bonita que ele já tinha visto em toda sua vida. Seu cabelo era ruivo, muito vivo (quase laranja), assim como seus cílios e sobrancelhas. Tinha pequenas sardas por todo o rosto, e olhos cor de mel. Ela tinha uma beleza estonteante, apesar de estar de pijamas e bem furiosa.
– QUEM É VOCÊ?– ela exclamou, dando uma espiada na porta. – NÃO RESPONDA. CAI FORA! – disse, enxotando Greggory, que ficou totalmente sem ação.
Após ficar um tempo parado, conseguiu se mover novamente, e percebeu que a menina tinha fechado a porta na cara dele. Por uns segundos, ele fechou os olhos e sorriu de leve com a imagem dela fixada em sua mente. Então, encostou o ouvido de leve na porta, mas nada ouviu, mas pela fresta da porta, viu a luz se apagar. Ela tinha ido dormir, então talvez fosse a hora de Greg fazer o mesmo.
Acabou desistindo do banho quando percebeu que Dylan tinha entrado no banheiro, e sabia que o amigo ia demorar, afinal, fazia tempo que ele não via sua amiguinha água.
Apenas caminhou vagarosamente, arrastando os pés pelo corredor, e a achou um quarto vazio. Ao abrir a porta, percebeu que tinha uma pequena sacada, duas camas de casal aconchegantes, e um grande armário de madeira, com alguns cobertores quentes. Como fazia uma temperatura agradável, ele tirou sua camisa e se deitou, com a luz da lua iluminado o quarto. Quando Greggory encostou-se ao colchão macio, parecia que cada partícula do seu corpo dizia um enorme obrigado, então relaxou de verdade. Suspirou fundo, e logo sua respiração ficou regular. Naquela noite, ele dormiu tão bem quanto um anjo.
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