Greeneyes
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Acordei com os roncos altos de Max que se propagava no quarto amplo, olhei para o relógio no criado mudo ao lado da cama e desejei sumir com meu melhor amigo naquele momento. O relógio marcava três e quarenta e dois da manha e eu sentia como se mal tivesse pregado os olhos. Max não tinha medo de dormir sozinho, mas segundo ele o quarto de hospedes que o Sr. Percie disponibilizara pra seu uso era amplo demais e que ele precisaria dormir com alguém ao menos na primeira noite. Eu garantiria que fosse somente na primeira realmente.
Levantei-me então e resistindo ao desejo de pisar no rosto de Max — que esparramado no colchão no chão engasgava entre seus roncos — caminhei ruidosamente para fora do quarto. Meus ouvidos abraçaram o silencio do corredor vazio e eu caminhei lentamente em direção a cozinha. A casa era enorme e qualquer pequeno som se tornava desnecessariamente agudo ali, mas não me preocupei com os ruídos repetitivos de meus passos no piso de madeira firme, ninguém estaria acordado numa hora daquelas, eu poderia jurar até ver a luz ofuscante da cozinha acessa. Meus passos se tornaram subitamente cautelosos, não esperava ladrões ou algo do tipo, afinal se algum entrasse ligaria mesmo a luz? Mas aderi ao instinto. Percebi um som com a aproximação, um cantarolar de uma musica familiar e sorri ao reconhecer a tal musica, nunca gostei de Natalie Cole, mas This Will be era o tipo de musica sempre bem vinda em uma noite de porre. Encostei-me à soleira da entrada da cozinha e observei Julia que vestida apenas com uma blusa grande com o emblema da banda AC/DC se esforçava para alcançar um armário alto. Tentei não prestar atenção as suas pernas desnudas, mas não fui feliz na tentativa.
Um bolo já pela metade, restos de biscoito junto a seus fragmentos e chocolates junto a suas embalagens vazias se espalhavam pelo balcão no centro da cozinha. Ainda cantando, Julia finalmente alcançou um recipiente com tampa e sem me notar o encheu com chocolates e biscoitos.
-.. An everlasting love for me, whoa, hoo. Loving you. – Desafinou ela.
- In some kind of wonderful- Eu a completei.
Julia se sobressaltou com minha voz rouca, que pareceu alta demais no ambiente vazio.
- Assustei você? – Eu quis saber.
- Um pouco. – Ela deu de ombros e continuou a arrumar os doces no recipiente.
- Estocando mantimento? Vem furacão por aí?
Eu sorri e ela fez o mesmo.
- É um habito., estranho. Eu sei, admito.
Mantive o sorriso e neguei com a cabeça, isso a fez me observar curiosa.
- Não vai perguntar por quê?
- Eu gosto de carambola — Ela ergueu uma sobrancelha. — Com sal. – Eu sorri e seu rosto franziu-se em uma careta.
- Argh.
- Não te julgaria por estocar comida.
- Não estoco. Apenas me sinto melhor tendo algo pra comer sempre por perto.
Eu assenti com a cabeça.
- Hábitos de uma gorda. – Disse eu.
- Hábitos de um louco.
Nós rimos e ficamos em silencio por um breve momento.
- Tem treinado? – Ela foi a primeira a falar.
- Tenho me esforçado nos testes psíquicos mas é.. difícil, quase impossível.
- Sei como é. Tive que quebrar a perna para descobrir a telecinesia.
- E como isso aconteceu? – Eu quis saber.
- Fui atropelada e tive que interromper os testes, ao menos os práticos por algumas umas horas até ficar por completo recuperada.. eu estava com fome, a comida estava longe e eu precisava pega-la então..
- Hábitos de uma gorda. – Repeti.
Eu sorri a imagem que se formou em minha mente.
- Eu não sou gorda! – E não era realmente. As curvas do corpo de Julia eram ideais, nada exagerado, na medida eu diria e notórias até sobre a blusa larga que usara, sua mão na cintura erguia ainda mais o pouco comprimento do tecido deixando suas coxas ainda mais visíveis. Ela não notara que eu a estava avaliando então desviei o olhar antes que o fizesse.
- Talvez fofa seja o termo correto.
Ela me olhou furiosa então e eu agradeci por não sair raios lazeres daqueles olhos.
Mais um minuto se passou em silencio enquanto após estocar os doces, Julia abria a embalagem de macarrão instantâneo e o punha para cozinhar. Quando achei que me ignoraria por completo ela se virou e perguntou:
- Como é isso de carambola com sal?
Exibi o melhor e mais largo sorriso que dispunha antes de pegar duas carambolas na fruteira a minha esquerda e caminhar até o balcão ao lado de Julia. Eu a sentia me olhando enquanto eu cortava as carambola em fatias, as deixando com formato de estrelas sobre o prato onde estavam.
- Sal? – Eu pedi e prontamente Julia colocou o recipiente em minha mão. – Tá ok, abra a boca.
Ela negou com a cabeça e eu ri de sua expressão.
- Não é ruim. – Garanti.
- Então coma você primeiro.
Peguei uma fatia da fruta e passei no sal cujo recipiente se mantinha aberto e a pus na boca, sorrindo enquanto mastigava o conteúdo peculiar.
- Viu? – Disse após engolir.
- Argh, John!
- Sua vez. – Eu mergulhei a estrela de carambola no sal e coloquei entre os lábios hesitantes de Julia que o mastigou lentamente. Estranhamente sua expressão não me disse nada foi o que me fez perguntar:
- E então?
- Não é ruim...
Logo Julia substituíra o macarrão instantâneo pelas carambolas salgadas.
Ela cantarolava partes de musicas porem sem a letra cantada de fato e me pedira para adivinhar cada uma delas, eu fui péssimo no jogo, mas ela não era boa tampouco. Julia ria a cada erro, fosse ele meu ou dela, sua risada era aguda e incomum, e ela engasgava um pouco mas sempre associava as carambolas que comia a uma risada não contida.
- Você não usa seus poderes para.. cozinhar? – Eu quis saber em meio a uma pausa na brincadeira. Ela me olhou e sorriu um pouco.
- Não sou preguiçosa John, ainda gosto de me mover, me sentir humana, sabe. — Quando apenas assenti, ela continuou. – Meus poderes são como um membro de meu corpo, eles só são usados quando necessário, quando tenho que usá-los.
Eu não respondi e mais um minuto se passou.
Porque eu não conseguia achar esse membro em mim? Será que eu era um Koman sem poderes? O Koman imprestável?
De repente eu queria achar aquilo em minha mente, me esforcei o máximo que pude para achar uma estrutura na mesma. Eu não tinha nenhuma certeza se meu dom se manifestaria física ou mentalmente eu só sabia que naquele momento eu o queria e como pratica não era uma opção, o exercício mental me pareceu correto e espontâneo.
Eu não sei quanto tempo se passou e só notei que estava suando quando minhas mãos em meu rosto ficaram meramente úmidos, logo porem algo muito quente tocou meu rosto e eu obedeci ao toque erguendo-o. Os dedos de Julia eram leves em meu queixo porem ele a obedeceu de boa vontade. Seus olhos estavam verdes como na noite em que ela arrancara o motor do carro do Zom que nos perseguia mas por algum motivo encarar aqueles olhos não me cegava como deveria. “Concentre-se” ela sussurrou para mim e eu me esforcei, me agarrando aos limites de meu cérebro, empurrando para fora o que quer que fosse a se manifestar sem ser capaz de desviar meu olhar do dela.
Fitando aqueles olhos era fácil se concentrar, quase fácil demais porem ainda assim era um esforço inútil, pois não havia nada em que eu pudesse me agarrar nada em minha mente que eu pudesse estimular ou forçar a se expandir, não havia nada e eu só fui capaz de dizer quando senti sua pele na minha.
- É.. Impossível. – Sussurrei á Julia. E só percebi nossa aproximação quando pude sentir meus lábios moverem-se sobre os dela após minha fala.
Alguém pigarreou e Julia deu um salto para longe mim.
- Pai – Ouvi-la dizer e o brilho verde de outrora se apagou deixando a cozinha meramente mais sombria.
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