Greeneyes
4 Capítulo 4
Quando acordei Julia não estava na cama ao lado da minha porem em seu lugar estavam cheetos, chocolates e embalagens desses mesmos produtos vazios. Eu levantei e após executar o habito de higiene matutino percebi que no chão próximo a minha cama um recipiente com café coberto por um pano se escondia quase que debaixo dela, após bebê-lo sorri a sensação costumeira posterior ao café da manhã. Era um costume de infância, minha mãe sempre tomava café logo que acordava e um dia por curiosidade resolvi provar e... Paixão. Café se tornou minha bebida favorita a partir daquele momento e eu ficava feliz por ser também meu único vício. Mas como Julia sabia que eu gostava de café? E onde ela estaria agora?
Coloquei o blazer novamente e beliscando o conteúdo do pacote de cheetos, fui procurá-la, assenti com a cabeça sorrindo ao vê-la no fim do corredor, mas ela não o retribuiu, apenas correu em minha direção, sua expressão indicava alerta e subitamente me mantive cauteloso.
– O que houve? – Perguntei
– Eles sabem que estamos aqui.
– Como? – Eu quis saber, mas ela não respondeu. Apenas me puxou de volta ao quarto, fiz cara feia quando o puxão fez meu cheetos cair no chão mas ela não viu.
Julia vestia um short jeans e uma blusa preta, discreta demais pra ela, somente as botas de plástico coberta de joaninhas por toda ela, lembrava minimamente a garota que combinara roxo e verde limão anteriormente.
– Gostei das botas. – Eu disse quanto ela me virou de frente para ela, já no quarto.
– Jura...? – Ela sorriu e o tom doce de sua voz me fez sorrir igualmente, mas logo ela sacudiu a cabeça, se concentrando.
Eu ri.
– Eles estiveram aqui ontem à noite. Não me viram mais eu os vi, acho que ainda estão aqui, no quarto 46 — Ela disse como se já houvesse planejado algo. – Eu os distraio e você tira o jeep e se eles atirarem,você acelera. Eu te encontro.
– Atirarem? – Repeti.- Sabe Julia.. acabei de decidir que não quero mais continuar essa carona.
– Você não vai morrer John. Hoje. – Julia disse e saiu.
– Ah claro.. hoje. – Assenti algumas vezes porem ela voltou em um baque e eu me sobressaltei.
– Aguarde meu sinal. – Ela disse e bateu a porta.
Peguei o recipiente com o café e o bebi quase que completamente antes de ir para o corredor.
Enquanto olhava para o estacionamento do hotel, sorri para um casal que ao passar por mim retribuiu meu sorriso. Assenti com a cabeça para uma moça cujo os trajes lembravam verão inadequado para o outono frio de Washington, ela perguntou se eu queria um programa.. eu não entendi então mantive o sorriso. Ao voltar o olhar para meu jeep, pude vê-lo levitar , de uma forma discreta paralelo ao chão, corri até ele e ao me aproximar seus pneus voltaram a tocar o chão. O sinal. Adentrei-o e dei partida lembrando de repente que não devolvera a chave do quarto.
Acelerei de volta a rodovia. Minhas mãos apertavam o volante, eu ofegava e minha nuca arrepiada agora escorria suor, eu olhava para os retrovisores a cada dois segundo e não conseguia afastar a paranóia de perseguição, onde aquele meio metro tinha me metido? Entre esses pensamento olhei novamente pelo retrovisor, resistindo ao instinto inacreditável de voltar ao hotel e ter certeza de como Julia estava, mas ao dar mais uma olhada no retrovisor lateral, vi o mesmo quebrar-se, os cacos de vidro caíram se espalharam pelo asfalto e meu instinto inicial foi me abaixar, quase perdi o controle do jeep porem o recuperei na estrada estranhamente tranqüila para uma manhã de quarta-feira. Procurei a origem do que pensei ser um tiro e ao me virar vislumbrei que o sedam preto da noite anterior me seguia, tentei acelerar ainda mas meu pânico costumeiro me veio novamente, me impedindo de passar dos 89 Km/h, agora meus ofegos eram altos e intensos, peguei minha bombinha no bolso lateral do blazer e aspirei o ar limpo para meus pulmões mas quando olhei para o sedam ele estava parado no meio da pista como na noite anterior, enquanto avançava observei o congestionamento que sua parada causava, de repente sabia que Julia estava por perto, agora eu a procurava.
O sinal ficou vermelho e eu parei obedecendo a indincação, logo a porta do carona se abriu e passando entre os carros ela correu rapidamente até adentrá-lo.
– Você esta bem? – Perguntamos juntos.
– Estou e você? – Ainda em conjunto.
– O dardo não te atingiu, certo? – Julia quis saber.
– Dardo? – Perguntei.
– Eles têm um dardo, com um soro, nele contem sangue humano e isso misturado a nosso sangue nos mata... – Ela se interrompeu. – Me mata. Quero dizer.. – Julia praguejou e eu estreitei os olhos para ela.
– E porque um dardo com sangue humano, como o meu, me mataria?
– Por que.. Por que.. Ah, você é um Komam John, meu Komam.. Merda! O meu Komam parceiro.
– Como é?
– “Como é?... como é?” Eu também não queria ta legal!
– Eu tenho poderes. – Falei de repente anestesiado, numa calma inacreditavel. – Não sou humano. – Continuei agora me esforçando para me manter tranqüilo – Preciso de café.
O sinal ficou verde e eu prossegui com o carro.
– Jamais se perguntou por que nunca se quer se machucou na vida? Poupe-me John.
Suas palavras me lembraram de um momento na minha infância, onde tentando fazer café me queimei porem nem dor nem queimadura me surgiram, na época achei que tivesse sorte e não que era um mutante dos olhos verdes super poderoso que tinha medo de barata.
Eu a olhei ainda confuso e ela pegou uma caneta no porta luvas, eu não entendi inicialmente porem mantive meus olhos na estrada até Julia enfiá-la em minha mão — a que segurava o volante.
–Ei!. – Exclamei mas nada senti, recolhi a mão machucada por instinto e observei o liquido escuro sair do local onde a caneta havia penetrado porem logo vi o pequeno buraco entre meu dedo polegar e indicador se fechar diante de meus olhos.
– Santo Deus! – Foi tudo que pude dizer.
– Você é um Komam, Bonitão.
– Como?
– Meu pai sabia de você. Ele te descobriu depois de alguns anos que me achou. Ele não sabe ao certo como nascemos mas sabe que temos talentos adicionais como esse desde muito pequenos fora o dom principal que é o que descobrimos quando fazemos dezoito anos.
– E quais são meus.. dons?
– Não sabemos. Por isso estamos indo para Seattle, meu pai vai descobri-lo.
Era planejado é claro e eu devia saber mas eu não me surpreendi, por isso tudo foi tão repentino pois se não fosse assim ou Julia era extremamente confiante ou eu aparentava ser muito ingênuo. Ok, segunda opção.
– E o que vão fazer comigo? Vou passar por testes?- Eu quis saber.
– Exato. – Ela sorriu.
Esperei um ataque súbito de asma porem nada me veio, eu agora encarava a estrada sem nada dizer.
Recapitulando... Eu tinha uma origem desconhecida, uma irmã/parceira neurótica e cafona, eu não me feria e nem sentia dor, meu ponto fraco era sangue puramente humano e mesmo me sentindo órfão a vida toda, pelo que eu sabia descendo de parentes quase completamente extintos o que era algo familiar diante tudo aquilo porem a única “parente, que conhecia era também a que eu queria em extinção naquele momento o que é besteira diante do fato de que agora minha vida estava em risco e que um desconhecido estaria disposto a fazer testes comigo para a descoberta de poderes também desconhecidos para mim naquele momento. Esqueci algo?
– Não. – disse Julia. – Não acredito que vai me deixar mergulhada nesse silencio profundo unicamente por ser da minha espécie.
Revirei os olhos.
– Minha mãe sabia o que eu sou?
– Meu pai nunca me disse nada sobre isso John. Sinto muito.
Silencio.
– Vou te deixar em Seattle e esquecer essa loucura. – Decidi.
– Esta louco? – Agora ela berrava. –Se me deixar eles vão vencer John, nossa espécie vai ser extinta!
– E?
Houve uma pausa.
– John, se não me ajudar quando chegarmos a Seattle o farei sem você e se eu morrer, você morre junto comigo. Onde estiver.
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