Greeneyes
3 Capítulo 3
Ela não me respondeu. Sua mão se moveu e subitamente o motor do sedam sumiu. Olhei para ela e vi seus ombros relaxarem enquanto o verde de seus olhos tomava a nitidez vasta anterior. Ela recolheu a mão e só então percebi o quanto minha respiração estava acelerada.
- Minha.. minha.. bombin.. – Tentei dizer em meio a falta de ar, tocava os bolsos com uma mão em busca da minha bombinha enquanto guiava o volante com a outra mas inacreditavelmente ela estava em minha boca, eu aspirei o ar limpo vindo dela e quando me recompus percebi que nem se quer tocara nela, tampouco Julia. Gritei, um grito quase feminino. A bombinha flutuava em minha frente, olhei para Julia e ela ria, seus olhos brilhavam como antes. Ela pegou minha bombinha no ar e eu rosnei.
- Meu Deus! O que é você Julia? – Eu quase berrei.
Ela ainda ria.
- Você é estranho John... – Disse ela entre gargalhadas.
- Responde!
- Ok... ok... – Ela ergueu as mãos em rendição. – O que quer saber?
- O que.. O que foi isso? – Gaguejei eu.
- Telecinesia.- Eu a olhei de cara feia e ela continuou. – Desde que tinha oito anos de idade, meu pai me estimulou a percebê-la se não eu só descobriria com dezoito anos, que é quando se manifesta realmente.
- Mas.. como? Isso não existe.
- Como não existe? Você quer sua bombinha de novo? – Ela franziu os lábios e eu sabia que reprimia mais uma gargalhada.
Não falei mais nada.
- Eu sei que parece loucura. – Disse Julia. – Mas isso pode acontecer com qualquer um. – Por mais que sua voz fosse seria agora não acreditava nas palavras dela.
- Acha isso tão normal assim? No meu mundo isso é impossível.
Nenhum de nós falou. Minha cabeça estava a mil e eu não conseguia manter a coerência dos pensamentos. Eu não tinha certeza de que o homem no teto do sedam carregara, mas se era uma arma, por qual motivo atiraria em nós? Como Julia sabia quem eles eram? Ela tinha sido ágil como se já fizesse aquilo antes... e aqueles olhos? Cintilavam, e com certeza sempre que ela usava seus... Poderes. Era possível? E eu que achava tão ridículo alguns filmes de heróis agora estava sendo ridículo também? Porque eu aceitara dar carona a ela afinal? E porque meus instintos não me avisaram. Traído pelos instintos.
Neguei com a cabeça enquanto saia da rodovia e entrava na rua 347th, parando no estacionamento de um hotel cuja aparência lembrava a toca de um tatu, o letreiro em neon indicava seu nome: Cash enquanto as paredes azuis desbotadas, e o indicio de mofo compunha a impressão agora confirmada.
- O que esta fazendo? – Julia não entendeu.
- Parando. Não posso dirigir assim.
- Então dirijo eu.
- Tem algo que não sabe: Só quem dirige meu jipe, sou eu e eu vou parar.
- John, não acho que..
Desci do jeep. Após pagar a diária e pegar a chave na recepção caminhei até o quarto 56 sem me preocupar se ela me seguia, eu precisava relaxar, e a presença dela não me interessava mais. O quarto com cheiro de mofo tinha duas camas, um criado mudo entre elas, uma TV pequena e um banheiro. Deitei na cama sem a menor intenção de dormir e encarei a parede verde musgo a minha frente. Vi que Julia entrou no quarto e mesmo fazendo cara feia fechou a porta cobrindo a mão com a manga do casaco e sentou na cama vaga a meu lado esquerdo.
- Minha mala... – Ela começou a dizer mais se interrompeu, não me virei para saber por que. Coloquei as mãos atrás da cabeça e fechei os olhos.
- Quem eram eles? – Perguntei depois de uns minutos. Eu sabia que ela estava acordada.
- Zoms, caçadores de Komam. – Eu não falei e ela continuou. – Minha mãe é uma Zom e eu uma Komam. É uma espécie extinta, humanos, mas quase extintos, não sou filha dela na verdade mas fui criada por ela até ela saber o que eu era. Meu pai já sabia, me escolheu propositalmente no orfanato – Ouvi um sorriso na voz. – E me treinou até o dia que eu fosse caçada.
- Então você sabia que eles viriam? – Perguntei, eu agora a encarava.
- Eu sabia que eles me procurariam, mas não sabia que essa noite...
Eu a interrompi.
— O que eles querem?
- Me matar. – Eu também queria.
- Porque?
-Os Komam nascem em pares, não como irmãos mas como.. casal. – Ela parecia desprezar a idéia. — Se estão juntos ficam mais fortes e se um morre o outro morre. Nunca nenhum Komam conseguiu destruir a central dos Zoms porque ao nascerem são imediatamente separados, pelos próprios poderes... Eles sempre matam um para que o outro nunca fique forte o suficiente para destruí-los e morra também... eles tem armas, um Komam sozinho nada pode fazer contra tantos Zoms. Eu sou uma ameaça.
- E seu ‘par’... é o seu suposto pai, certo?
Ela não respondeu de imediato.
- É... é ele sim.
- Deixa eu adivinhar... e a fortaleza Zom é em Seattle?
- Exato. – Ela sorriu. O mesmo sorriso que vira a primeira vez que a vi. Desviei o olhar, não ia me hipnotizar novamente.
- Seus olhos...
- Ah é. Eles brilham quando uso meus poderes... Denunciam-me. Acontece quando os descobrimos. Antes eram castanhos, como os seus. – Ela deu de ombros.
- Telesinesia é?
- Sim. E me perdoa. Pelo lance da bombinha principalmente.
Ela riu baixinho e eu a imitei.
- Argh. – Julia gesticulou com as mãos, olhei para ela e sua expressão de nojo me fez rir mais um pouco.
- O que foi? – Perguntei.
- Tem uma barata na sua perna.
Levantei num pulo, sacudindo a perna seguida vezes, a barata era enorme e me lembrava um rato rastejando-se, arrepios constantes arranhavam minha espinha enquanto eu exigia: tira, tira. Bati em um baque surdo minhas costas na parede enquanto Julia entre risadas pedia para que eu me acalmasse.
- John, é só uma barata.
- Cadê? Cadê? – Perguntei quando não a vi mais. Olhando o chão ,minha calça, blazer, tênis...
- Aqui. — A barata flutuava em minha frente.
- AAH! – Meu berro foi gutural. Recuei agora batendo minhas costas contra a porta. – Abaixa isso Julia!
Ela ria.
- É só um inseto.
- Agora! Mata. Essa. Barata. Agora! – No instante seguinte a barata esmagou-se em vários pedaços, Julia ria alto enquanto os mesmos pedaços espalhados se juntavam tornando-se uma bolinha mínima no ar.
Ainda rindo um pouco ela me olhou com uma sobrancelha erguida.
- O que foi? – Perguntei.
- Eu que pergunto. O que foi isso?
- Trauma.. de infância. – Disse entre arfadas.
Ela prendeu a risada com tanta força que seu rosto formou uma careca e não resistindo juntos iniciamos uma audível gargalhada.
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