Green

7 Tomar coca-cola com você


Notas iniciais
Talvez tenha sido o capítulo mais romântico que eu tive o prazer de escrever até agora.Espero que gostem!

O sábado amanheceu chuvoso e surpreendentemente frio para o verão.Eram oito horas da manhã e Sofia dormia ainda com os fones de ouvido, que já não tocavam música alguma.Taylor estava acordado há mais de duas horas e suava treinando com sua tábua de transferência (cama para cadeira).

É o mínimo que posso fazer por ela.

Seus braços fraquejavam e espasmos tomavam conta de suas pernas a cada minuto, mas o rosto de Sofia em seus pensamentos trazia consigo força para que ele sempre tentasse mais uma vez.

_Filho!Por que não tocou o sinal para avisar que estava acordado?

_Não, pai!Fecha a porta, por favor_Pediu arfando, pingando suor.

_Tem certeza?

_Tenho, pai.

_Qualquer coisa me chame!

Taylor não reclamava em nada dos pais que tinha, mas havia apenas uma coisa em Malcolm que ele detestava: piedade.Nunca havia deixado nenhum enfermeiro ou cuidador ficar por conta de Taylor, preferiu ficar em casa e ele mesmo cuidar do filho.Taylor havia sido desenganado pelos médicos, passou por diversas cirurgias e recuperações dolorosas e entrou no colégio dois anos atrasado por conta delas.Ele sempre vencia, isso era fato.Malcolm parecia não ver por esse ângulo, e sim por aquele que colocava seu filho como uma vítima, alguém frágil que precisa de todos os cuidados: o que não era cem por cento verdade, nem cem por cento mentira, pois apesar de suas diversas limitações e de realmente precisar de cuidados a mais, Taylor não era, nem de longe, uma pessoa frágil.Era forte, tinha garra, e apesar de fraquejar algumas vezes (principalmente quando havia uma garota envolvida), confiava em si mesmo.

_CONSEGUI!EU CONSEGUI, PORRA!Eu não acredito...PAI!

Malcolm subiu as escadas tropeçando nos próprios pés e, ao ver a cena, emocionou-se.Taylor não conseguia se transferir sozinho de lugar algum desde os seus dez anos.Malcolm colocou uma das mãos sobre o rosto, deixou que as lágrimas rolassem e abraçou o filho, que também chorou sem conseguir conter a emoção, agarrando com força o pano de sua camisa.O garoto já pensava nas próximas independências que conquistaria.Tudo por ela.

Após tomar banho e fazer toda a sua higiene pessoal, ligou para Sofia:

_Alô?

_Ahm...Sofia?

_Taylor!Oi!

_Escuta, você não quer vir aqui em casa?Tenho uma coisa para te mostrar.

_Vai ser difícil...

_Por que?

_Eu contei sobre a gente e eles piraram.

_Ah...

_Quer saber?Me espere que chego em alguns minutos.

Taylor abriu um sorriso escancarado.Essa era mais uma das coisas que ele amava em Sofia: ela sempre fazia o que queria, não importava se quem a tentava impedir fosse o Papa, o Batman, ou até mesmo seus pais.

Ela colocou um sobretudo vinho, uma touca e sapatos pretos estilo boneca.Abriu a janela de seu quarto, colocou as pernas para fora, andou rente a parede até chegar ao telhado, onde desceu sentada e alcançou a calha, pendurou-se e se segurou na pilastra mais próxima, alcançando o chão agarrada a ela.Olhou para trás, mostrou um dedo do meio para sua casa e apenas um bilhete escrito em sua cama: "Fui alí ser feliz e já volto!"

Em menos de vinte minutos, Sofia estava lá, no quarto de Taylor, que se aproximou dela com a cadeira, ela se abaixou e se cumprimentaram com um beijo.

_E então?O que queria me mostrar?

_Eu consegui fazer a transferência da cama para a cadeira com a tábua.Quer dizer, minha cama é motorizada, se eu usar o controle a parte debaixo da minha cabeça levanta, fazendo com que eu não precise fazer força para me sentar, mas ainda assim, não conseguia antes.

_Isso é fantástico, Tay!Vamos, me mostre.

Taylor estacionou a cadeira ao lado da cama, pegou a tábua com a mão com mais mobilidade, colocou-a debaixo de uma das pernas e aconteceu o primeiro espasmo, e dessa vez foi um espasmo de corpo inteiro.Era tudo o que ele temia, não queria que Sofia o visse tremendo, com os músculos contraídos e a pior expressão facial possível.Pensou ter colocado tudo a perder, pensou que Sofia sairia correndo dalí e, depois de mais algumas tentativas falhadas, conseguiu.

_Eu preciso de mais treino, e, droga, eu..._Começou como forma de se desculpar pelos espasmos e demora para realizar o processo.

Sofia apenas sorriu, deitou-se ao seu lado na cama e o beijou enquanto acariciava seus cabelos.

_Taylor...

_Sim?_Disse ainda bufando pelo esforço.

_Eu te amo.

Taylor olhou em seus olhos e seu riso chegou a fazer som diante da imensa e incontestável alegria que ele sentia.Nunca pensou que pudesse ouvir isso de uma garota.

_Eu também te amo, Sofia, eu te amo muito.

Sofia voltou a beijá-lo, colocou uma das mãos em sua nuca e a outra repousava em seu peito.Suas respirações estavam ofegantes, o corpo de Sofia estava sobre o dele.

_Sofia, eu...

_Ah, meu Deus, me desculpa, você não...pode?

_Posso, quer dizer, não...eu...eu não sei.

_Deixa eu te fazer descobrir?

_É que...você pode se assustar.

_Me assustar com o que?

_As minhas pernas, elas são bem piores sem calças.E meu corpo é estranho, eu não sei se consigo.Eu quero, quero muito que seja com você, mas tenho medo de te perder depois disso, entende?

_Não, não entendo.

_É assustador, Sofia, eu sei que você é uma garota forte e que me ama, mas talvez eu não seja o que você espera.

_Você é tudo o que eu sempre esperei, você é muito mais do que eu sempre quis, afinal, "somos só carcaças, e a vida é ampla e maravilhosa demais para nos importarmos apenas com aquilo que podemos ver."

Taylor sorriu.

_Então elas te contaram...

_Contaram, e eu acho que você tem toda razão.Que tal colocar essa teoria em prática agora?Até porque eu adoro essa sua carcaça, sabia?

Taylor riu e inclinou a cabeça para que ela o beijasse e tudo voltou ao ponto inicial: dois corações batendo, respirações ofegantes, uma mistura incrível de olhos e bocas.

Sofia começou a desabotoar a camisa de Taylor enquanto o beijava.Estava apreensiva e não sabia ao certo como seria, mas não deixou transparecer.Após desabotoar o último botão deu um beijo em seu peito, em seguida tirou o próprio sobretudo e levou a mão de Taylor em sua cabeça para que sua touca fosse tirada por ele.Tirou os sapatos de Taylor e os dela.A parte das calças foi a mais difícil, mas ambos a fizeram com risadas e a paciência que o amor exige.

Seus seios nus estavam contra o peito dele, contra sua respiração.Ele passou as mãos e ela as colocou em todo o seu corpo.Ele sentia o calor úmido em seus dedos.

O corpo de Taylor era marcado e cheio de cicatrizes, principalmente em suas pernas, ainda mais finas sem as calças, que contavam com duas linhas grossas, disformes e fundas em suas laterais.Seu pé esquerdo e coluna também haviam passado por diversas operações.Sofia beijou cada uma de suas cicatrizes, observou suas pernas por uns segundos, olhou fundo em seus olhos e disse:você é lindo.

Uma lágrima brilhou no rosto de Taylor enquanto um sorriso brotava em seus lábios, uma onda de calor irradiou seus corpos e gemidos baixos preenchiam o silêncio.Agora eram um só, Taylor ocupava um espaço em seu corpo e alma.Sofia ocupava cada um de seus átomos.

_Eu te amo com todas as minhas forças_Ele sussurrou em meio aos beijos.

Taylor se sentiu inteiro, mais inteiro do que nunca.Passou até a gostar de suas cicatrizes e de sua cadeira de rodas.Passou a gostar de si por ser digno de ser amado por ela.

Sofia sabia que não havia lugar mais certo para estar.Era ali que ela pertencia.Não queria chorar, queria sorrir para sempre.

"Porque tudo de mim

Ama tudo em você

Ama suas curvas e todos os seus limites

Todas as suas perfeitas imperfeições"

All of me — John Legend

...

Taylor e Sofia ficaram na cama, entrelaçados.Conversaram sobre música, poemas, filosofia e sobre o "nós" que agora era mais forte que nunca.

_Você me deu o paraíso_Disse ela enquanto brincava com os cabelos dele.

_Eu nunca vou conseguir te agradecer o suficiente...

_Me agradecer pelo quê, amor?

A evolução de "Tay" para "amor" ainda lhe provocava borboletas no estômago.

_Pela paciência comigo, com o meu corpo...você entendeu melhor como ele funciona em uma semana, do que eu em dezenove anos.E não é só por isso, é por tudo.De algum modo você faz com que eu me aceite do jeito que eu sou.

Dessa vez eram os olhos de Sofia que estavam marejados.

_Eu não vou deixar que nada nos separe, eu prometo isso a você.E eu que agradeço por me tirar daquele inferno e me trazer para o melhor lugar da face da terra.

_Minha casa?

_Não necessariamente, pode ser até no deserto do Saara contando que você esteja lá.

_Isso me lembra um poema...e consequentemente me lembra você.

_E qual seria esse poema?

"Tomar coca-cola com você é ainda mais divertido que ir a São Francisco, Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne, ou estar mal do estômago na Travesseira de Grácia, em Barcelona, em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor, mais feliz. Em parte por causa do meu amor por você. No ar quente das quatro da tarde em New York vagamos em círculos um entre o outro sem parar, como uma árvore respirando por suas oftálmicas. E a exposição de retratos parece não ter qualquer rosto, só tinta. Pergunta-se por que alguém deu-se ao trabalho de fazê-los, olho você e preferiria olhar você a todos os retratos do planeta."