-É a Amanda!

-Tresh, como você pode saber que é a garota de muitos anos atrás?

-Romana, eu gostava dela. Como não iria saber?

-Ta, e o que pretende fazer?

-Não sei. Acho que nada, ela não vai me reconhecer.

Durante o almoço me senti muito incomodada em saber que a nova campista era uma menina que Tresh morria de amores no passado.

-Vamos voltar para a quinta coorte. — Falei quando nós terminamos de comer.

-Não ia fazer as atividades?

-E vou, só irei te acompanhar.

Chegamos até a quinta coorte e Tresh se deitou.

-Cuidado fazendo suas atividades. Não se machuque.

-Tudo bem. Não faça eu te mandar de volta para a enfermaria. – Dei um tapinha em seu ombro.

-Romana, confie em mim, ta? – Ele soube que estava falando dele fazer algo a respeito de Amanda.

-Não tem como. Eu quero, mas nada ajuda. Simplesmente, não é fácil deixar seu namorado em uma cama e do nada a garota que ele gostava é uma meio sangue e aparece na vida dele!

-Romana...

-Descanse, passo daqui mais tarde. – Dei um beijo em sua testa e fui para minhas atividades.

Jay voltou fazer suas obrigações de coortes, mas ainda era enfermeiro de Tresh na hora em que ele precisava de alguns cuidados. Fui conversar com ele entre as trocas de atividades.

Contei tudo para ele. A antiga história que Tresh quis ter com a Amanda e sobre ela chegar no acampamento.

-Então quer dizer que a menina que ele gostava apareceu?

-É.

-Menina, que babado! – E o lado bicha de Jay estava de volta.

-Jay, Tresh agora tem condições de ficar com ela e se...

-E se você parar com isso? Cruzes, você é muito insegura. Isso faz você perder o macho, sabia? Não sabia? Então fique sabendo. Você é Romana, se garanta. – Ele olhou profundamente para mim segurando em meus ombros. – Querida, se eu tivesse um leque, eu me acabava abrindo ele para dar ênfase nessa frase digna.

-Tenho que ser segura? – Disse rindo.

-Sim. Só seja segura. Tenho que ir, se vemos mais tarde. – Ele me beijou no rosto e saiu correndo.

Como meu horário era cuidar dos cavalos decidi que ia cavalgar. Relâmpago não estava disponível, então peguei um outro cavalo. Era um marrom, robusto e forte. Era a coisa mais linda.

Assim que montei nele e comecei a cavalgar, minha mente foi se abrindo. Eu realmente precisava ser mais segura de mim. Ia ser difícil, mas era um risco.

Após correr várias vezes pelo Campo Marte vi Tresh andando por perto. Fui até ele.

-Precisa de carona? – Falei parando na frente dele com o cavalo.

Tresh estava com a cara inchada por ter dormido. Ele estava coçando os olhos, como sempre fazia.

-Adoraria. – Ele disse bocejando, com a voz sonolenta.

Ajudei-o a subir, o que foi um pouco difícil. Ele passou os braços pelas minhas cintura e deitou a cabeça em meus ombros. Não corri nem nada afinal, ele estava se recuperando e eu não queria correr naquele minuto.

-Dormiu bem? – Perguntei.

-Uhum. Romana, posso te pedir uma coisa?

-Pode.

-Eu... eu quero falar com a Amanda. Tudo bem para você?

Confesso que odiei a decisão dele. Fiquei uns minutos sem falar.

-Isso é um sim? Não? – Sua voz ainda era de sono.

Eu tinha que me garantir, só isso. Mas começou sendo difícil. Segurei firme na rédea e comecei a correr com o cavalo. Tresh só se segurou firme. Depois de correr um pouco parei perto das coortes.

Quando parei o cavalo Tresh ainda estava de olhos fechados e segurando firme.

-Pode descer, se quiser. – Falei.

-Romana, está tudo bem?

-Sim. – Disse séria. – Espero ter agüentado o passeio.

-Achei que tinha que falar com você antes de falar com ela. – Ele ainda estava montado junto comigo.

-Que bom que fez isso. – Eu ainda estava brava.

-Você está brava. Confie em mim.

-Tresh, cale a boca. Faça o que tem que ser feito. Eu confio em você, confio em mim. Você disse que gosta de mim, certo? Porque dúvidas? Eu me garanto. – Minha voz não deixou isso claro. – Desculpe pelo cala a boca.

-É verdade o que você disse?

-O cala boca? Sim, mas me arrependi.

-Não. Você se garante?

-Acho que sim. Olha, vai logo falar com ela antes que eu mude de ideia.

-Obrigada. Foi importante ouvir isso. Olhe para mim.

-Não quero.

-Olha aqui, vai, olha. – Ele começou a me cutucar.

-O que é? – Virei.

Quando virei ele segurou me queixo e me deu um beijo. Dói beijar com seu pescoço quase torcendo. Eu estava beijando meu namorado bonitão, então não liguei.

-Estou confiando em você. Não me decepcione. – Falei para ele.

-Vou te mostrar que pode confiar em mim. Assim como você me ensinou a confiar em você, ou quase.

Ele desceu e vi ele procurando a garota. É claro que eu iria ver no que isso ia dar. Guardei o cavalo rapidamente no estábulo e sai à procura dos dois.

Soube que como a menina estava em probatio ela ficaria na quinta coorte, que por destino é a mesma que a do meu namorado. Fui até lá e os dois estavam na coorte. Ele ainda não tinha ido falar com ela. Fiquei observando.

Eles estavam em sua cama e ela sentada em outra cama. Fiquei perto da janela ouvindo e olhando. Estava com medo do que poderia ouvir e ver.

Vi ela andando pelo quarto. Tinha cara de oferecida. Já estava limpa. Usava calça jeans e uma blusa acampamento.

-Oi, eu sou Amanda. – A voz da menina era irritante. Fina. Irritante de mais. Ela ficou na frente de Tresh.

-Oi.

-Você é um menino bonito. Tem namorada?

-A gente não se conhece?

-Não respondeu minha pergunta. – Ela riu. – E eu lembraria de conhecer um garoto bonito como você. – Ela passou a mão nos cabelos.

-Eu falei isso para ele quando não o conheci! – Sussurrei.

-Como é seu nome, bonitão? – Quis socar a cara dela, ali mesmo. Me contive.

-Não me chame assim, ta?

-Porque? Você é bonitão, afinal. – Ela foi se aproximando dele. Meus sentidos diziam para entrar e socar ela. Me contive novamente.

-É, eu sou. – Ele se levantou. Era a primeira vez que Tresh soará convencido.

-Adoro meninos convencidos, e que ainda são lindos! A gente iria combinar, olha para mim. Sou linda, né?

-Você não faz meu tipo. – Ele disse parando na frente dela.

-Me fala qual o seu tipo e eu serei. Ou farei bem melhor que seu tipo.

-Gosto de garotas duronas.

-Ta ai uma coisa que eu sou. Durona. Precisa ver eu brigando. – Ela sorriu, aquele sorriso para conquistar alguém. No caso, meu namorado.

-Já matou alguém? – Eu não acreditei na pergunta dele.

-Não é tipo de coisa que se pergunta quando vai flertar com alguém.

-Não estou flertando com você. Matou alguém alguma vez?

-Não. Eu não sou uma assassina.

-Desculpe, você não faz o meu tipo. – E naquela hora eu quis abraçá-lo. — Sabe, nunca fui bonito, as pessoas me ignoravam por ser gordo.

-Eu não ignoraria. – Ela colocou as mãos no rosto dele. – Mais uma vez quis socá-la.

-Mentirosa! – Tresh gritou com ela. Primeira vez que vi ele gritando. Ele tirou a mão dela do rosto. – Olhe bem nos meus olhos. – Ele segurou os braços dela com força. Tresh nunca segurou em mim com tal ‘violência’.

-Eu vou olhar sim. Adoro que me segurem firme. – Ela se aproximou.

-Olhe para mim! Mas olhe bem! Você acredita que uma vez, uma garota me desprezou em um baile de primavera por eu ser um gordo? Você acredita? Você faria isso?

Eu vi ela hesitar em responder. Ela ficou com os olhares nele.

-Você agora está me lembrando alguém. – Ela disse.

-Me responde, faria isso se eu fosse um gordo?

-Você...Impossível!

-Lembrou do seu coleguinha de sala? O tal gordo que você ria? O que você disse que nunca ia ter uma chance com você? Ao menos lembra o meu nome?

-Tresh... Tresh Slaterton.

-Oi, Amanda! Quem diria, um dia iríamos nos ver novamente.

-Você não está mais gordo.

-Pois é! E você disse que nunca iria ficar comigo. O que estava acontecendo com você à uns minutos? – Tresh a soltou.

-Não acreditou no que eu dizia quando eu era criança? Crianças não sabem de nada. Vamos falar sobre nós. Ainda gosta de mim. Se machucou, não é? Eu vou cuidar de você. – Ela colocou as mãos nos ombros dele. Tresh recuou. – Está me recusando? Sempre me quis, não é?

-Sempre? Não. Só naquela época. Eu não preciso mais de você. Arrumei uma pessoa.

-É? Claro, como sou boba. Você é muito lindo, ia arrumar alguém. – Ela riu.

-A gente começou a namorar quando eu ainda era um gordo.

-Ela sabe sobre sua identidade?

-Sobre eu ser meio-sangue? Sim, ela é uma.

-Ela é bonita como eu?

-Não. – Aquilo me veio como uma pontada no peito. Não era mentira, eu não era bonita como ela. Mas ele poderia ter mentido.

-Eu sou bonita. Você é bonito. Vamos ser um casal?

-Minha namorada não é bonita como você.

-Obrigada pelo elogio.

-Não foi um elogio. Foi uma ofensa. Minha namorada é bonita naturalmente. Você é forçada. – Eu comecei rir lá fora.

-Eu não sou forçada!

-É sim. Quando estudávamos juntos você passava maquiagem, toda borrada. E eu te achava linda.

-Sempre fui linda!

-E forçada. Com dez anos minha namorada estava viajando por ai com a mãe. Ela estava aprendendo a ser o que é hoje. Minha namorada hoje em dia come se sujando inteira. E você? Tenho certeza que não come se estiver de batom. – Tresh nunca se importou como eu comia.

-Que nojo! Se sujar. Já vi que ela não é para você.

-Minha namorada não passa horas no espelho para arrumar o cabelo. Na verdade, ela nem os penteia.

-Que tipo de menina não faz isso?

-A minha menina. Minha namorada. Ela é natural. Não precisa de um lápis de olho para chamar atenção.

-Essa menina te deu remédio? Vem aqui, vou te curar.

-Se eu fosse você eu não encostava em mim. Ela te bateria com as mãos amarradas. – O que era verdade.

-Duvido. Eu sei lutar.

-Ela sabe atirar facas. Cuidado. Não preciso de você. A verdade é que nunca precisei. Minha namorada gostou de mim gordo, e gosta de mim assim. Ela me aceita e eu aceito ela. Não preciso de você, ao contrario dela, eu preciso dela.

-Isso é um absurdo! Sua namorada é... Eu ao menos posso realizar seu sonho? Você sempre quis um beijo meu.

-Eu vou ir beijar minha namorada. Ela beija muito bem. – Ele nunca me disse isso.

Ele saiu e deixou ela falando sozinha. Eu me escondi. Logo que vi ele subindo, fui ver a reação dela. Ela estava muito arrasada. Ela estava resmungando sozinha.

-Eu vou beijar ele! Eu sou linda e ninguém me da um fora! Nem um ex- gordo, nem um bonitão.

Sai dali se não eu iria bater nela.

Ele ia vim falar comigo, se Jay não o tivesse mandado ele voltar de volta descansar. Até à hora do jantar não os vi. Mas mantinha a garota em minha vista. Ela não era ruim lutando. Mas ainda assim, daria uma surra nela.

Depois que jantamos nos reunimos lá fora.

-Essa noite é especial, pois é a primeira noite de Tresh aqui fora depois de se machucar. – Jay disse sorrindo.

-Sentimos todos sua falta. – Brayan disse.

-Inclusive a Romana. – Louis disse.

-É. – eu ri. Tresh me abraçou e vi a cara de ódio de Amanda, Tresh não olhou para ela nenhum instante. Na verdade ele nem a viu.

-Como foi com ela? – Perguntei.

-Com quem? – Louis perguntou.

-Eu iria dar uma bronca nele por ser curioso, mas eu estou também. Quem? – Lottie perguntou.

Tresh explicou rapidamente a história.

-E como foi? – Louis perguntou.

-Lou, não seja curioso! – Lottie o cutucou.

-Amor, eu quero saber. – Aqueles dois eram lindos juntos.

-Bem, eu beijei Amanda. – Tresh disse. Sabia que ele não tinha feito isso. Mas teria acreditado se eu não tivesse presenciado a cena.

Todos me olharam como se eu fosse o matar.

-Romana, eu beijei ela. – Ele falou.

-Estamos quites. Beijei Craig no seu coma.

-Você fez o que?

-Abaixa a bola, gato. Eu só estou brincando. – Falei.

-Como posso saber? – Tresh disse.

-Ela quase matou ele. – Louis disse.

-Louis, pare de ser exagerado! – Lottie disse.

-Mas você beijou a garota? – Louis não se conteve.

-Não! Romana, você beijou mesmo ele? – Tresh estava desesperado.

-Não, já disse. Você quis brincar comigo, só se deu mal. Mas pode me beijar, sabe que pode. – Eu ri.

-É, e posso mesmo. – Ele segurou minha mão. Eu segurei em seus dedos, sem sentir a palma por causa do gesso. Selamos nossos lábios e escutei Lottie, Louis, Brayan e Jay gritando.

-Escandalosos. – Falei.

Enfim, hora de dormir. A noite foi legal, mas claro alguém interrompeu.

-Qual o seu problema? Olha para você, olha para ela! Você é muito para ela. – Amanda entrou na nossa frente. – Eu sou mais que ela! Sou mais do que você imagina!

Minha mão já estava fechada para socá-la, mas Brayan segurou meu pulso.

-Olha para ela, olha para mim, olha para você. Olhe para vocês juntos. Fez isso para me humilhar? Deu certo. Me fez aprender uma lição. Agora me leva para qualquer canto e me beije! Você tem a chance da sua vida de ficar com uma garota ao seu nível. E uma garota acima dessa coisa. – Ela apontou para mim.

Todos olhavam para Tresh para ver o que ele iria fazer. Inclusive eu.

-Vamos Tresh! Sou sua agora! Larga ela e fique comigo.

Aquelas palavras estavam me deixando magoada. A humilhada era eu. Quis de todo jeito bater nela. Mas queria ver o que ele faria diante daquilo.

Tresh estava confuso. Mas ele pareceu saber o que queria quando viu meus olhos com lágrimas.

-O clima esquentou... – Louis disse.

-Louis, fique quieto. – Lottie disse.

-Eu deveria deixar o irmão dela solta-la e te dar umas boas pancadas. – Tresh disse. – Não, você não é do meu nível, e nem no nível dela. Você é bem menos que isso. Baixa, eu diria. Essa coisa, é minha namorada. E é a melhor coisa que eu tenho! Eu não posso bater em você, mas ela pode. – Ele segurou em minha mão. Senti Brayan soltar a outra. – Você não se compara a ela. E nem ela a você. Ela é bem melhor. Se você não sai daqui eu vou chamar alguém para te tirar.

-Vou ter o prazer te brigar com ela. – E Amanda saiu pisando firme.

Tresh me abraçou e comecei a chorar.

-Ei, está tudo bem. Nada do que ela disse é verdade. – Ele beijou minha testa.

-Você não foi chamado de coisa. – Disse.

-Eu vou pegar essa garota. – Lottie disse.

-Dois, meu amor. – Jay falou em seguida.

-Você é minha. Esqueça ela. Estamos juntos e ela e só uma coisa chata no caminho.

Aos poucos me acalmei. Estava chorando por raiva.

Tresh me acompanhou até a coorte. Ficamos sozinhos uns minuto.

-Vocês vão dormir no mesmo quarto. – Falei.

-Confie em mim.

-Confio. – O beijei. – Se eu sonhar com algo, considere-se morto.

-Ta. – Ele riu.

Nos despedimos e fui dormir com as palavras que ele disse de mim para Amanda.