Greco-romana: O Segundo Lado
8 Dance com lobos e sobreviva
Notas iniciais
Nossa viagem para a Califórnia foi tranqüila. Não tínhamos enfrentado nenhum monstro, talvez porque os lobos estivessem nos seguindo. Jay e Tresh chegaram a um bom senso que iriam ir trocando de lugar um com o outro para que nenhum ficasse sozinho. Então, ora eu estava com Jay e ora estava com Tresh.
Quando chegamos eles me olharam com uma incrível cara de interrogação.
–Porque estão me olhando assim?
–Porque você sabe onde temos que ir. – Tresh disse.
–Vamos andando. Temos que avistar os lobos. Eles irão nos levar a um lugar para ver se passamos no teste.
–Mas você já não passou nesse teste? Quer dizer, você já é do acampamento, então nem precisa disso. – Tresh disse pegando em minha mão enquanto nos dirigíamos para a rua.
–Eu passei um longo período longe, Lupa tem que ver se ainda sou confiável.
–Nós vamos sofrer nessa semana? – Jay perguntou.
–Sinceramente? Sim. Temos que nos superar ou ela nos julga não capazes de irmos para o acampamento.
Avistamos os lobos e os seguimos. O local que eles nos levaram era bem afastado. Andamos muito. Muito mesmo. Chegamos em uma floresta e lá tinha uma caverna. Os lobos entraram e eu já ia os seguindo quando Tresh apertou minha mãe me parando e perguntou:
–Não era para nós ficarmos em um templo, ou coisa do tipo?
–Era, mas isso faz parte do treinamento. Agora faça o que tenha que ser feito e não demonstre medo.
Quando entramos a caverna estava iluminada com algumas tochas. Havia mais lobos lá dentro e todos estavam sentado em volta de um lobo maior. No caso, loba. Era Lupa. A grande loba cinzenta e da mitologia romana. Ela estava maior do que eu me lembrava.
–Então vejo que você não mostrou resistência, Romana. Aprendeu bastante coisas com nosso ultimo encontro, não é? Jay e Tresh, sejam bem vindos ao treinamento de vocês. Coloquem as coisas em algum canto e voltem para fora. – Fiz isso e os dois me seguiram.
Quando chegamos lá fora o forte sol do litoral estava mais quente que na grande metrópole Nova iorquina. Lupa e os de mais lobos apareceram lá fora.
–Primeiro treinamento: Sobrevivam aos lobos, se passarem dessa prova vocês estão aptos para serem treinados. – E ela voltou para dentro.
–O que? Nós mal chegamos e vamos lutar? Cadê as boas vindas? – Tresh ficou agitado.
–Tresh, eu já fiz isso e sobrevivi, calma. Escutem, os lobos não são delicados, então, não tenham dó.
–Mas cadê eles? – Jay perguntou quando todos os lobos entraram na caverna.
– Não vamos lutar contra esses, é contra os selvagens. – Algumas folhas começaram a se agitar. – Fiquem atentos. – Fizemos um triangulo um de costa para o outro. Vi Jay colocar o seu soco inglês, o que se transforma em escudo.
Quando percebi um lobo havia ido para cima de Jay, vi ele abrindo o escudo e o lobo se chocando contra ele. Continuei parada esperando o ataque, Tresh estava olhando nervosamente para mim.
Dois lobos fecharam Tresh e ele logo vi ele com a espada que até aquele momento não o tinha visto com ela. E nem Jay com a dele. Não sabiam o que tinha feito. Mas sei o que Tresh fez.
Um dos lobos atacou primeiro em um só golpe degolou sua cabeça. O segundo lobo, mais feroz investiu contra ele, que se esquivou e o lobo veio para perto de mim. Chutei seu fossinho ele recuou, mas logo investiu de novo. Quando ele deu um salto para me atacar por cima minha Adaga já havia se encaixado certeiramente em seu queixo.
Nunca tinha visto Jay lutar com tanta garra. Três lobos o cercavam, mas ele os manteve longe com sua espada e escudo. Dois lobos investiram de uma vez, mas ele recuou. Na segunda investida dos dois lobos Jay parou e desferiu a espada os acertando de uma vez. O terceiro o arranhou e rasgou o lado de sua camiseta. Ele foi para cima do lobo e os vi rolando no chão. Vi um sangue escorrendo no chão. Entrei em desespero, mas logo me acalmei quando vi a espada da barriga do lobo.
Ficamos lutando por dez minutos sem trégua com vários lobos. Eu e Tresh estávamos sempre um de olho no outro para ver se um precisava de ajuda. Nós também sempre olhávamos Jay, mas ele estava se saindo bem.
A luta acabou quando Lupa saiu lá fora e percebemos que não havia mais nenhum cadáver de lobo nem sangue deles caído no chão.
–Passaram no primeiro teste. – Ela disse.
Estávamos um trapo.
–Odeio ficar suado! – Jay disse passando a camisa pela testa. – Aquele lobo rasgou minha camiseta! – Ele tinha alguns arranhões e suava muito e ainda estava sujo por rolar no chão.
Tresh estava com uma mordida na perna, mas andava normalmente. Ele também tinha uns arranhões no rosto.
Eu estava com o cabelo todo armado e com saliva de lobo. Tinha arranhões nos braços e sangravam um pouco.
–Romana, você está bem? – Tresh perguntou.
–Da primeira vez foi pior. Imagino o quanto sua mordida está doendo.
Entramos e continuamos de pé.
–Vou levar vocês em um lugar para se limparem. – Lupa disse.
Saímos da caverna de novo e entramos na mata. Após andar alguns minutos chegamos em um lago. Ele era incrivelmente transparente e em voltas tinha algumas flores. Lupa nos deixou lá com nossas coisas e disse para quando terminamos era para nós voltarmos.
–Não beba essa água. – Segurei o ombro de Tresh quando ele ia abaixar para beber. – Não somos os únicos seres vivos a querer beber água, há outros animais. Ta vendo aquela pedra enorme? Ali tem uma bica d’água e é cem por cento limpa. Eu bebia lá. Tomem banho e quando eu voltar será minha vez. Vou encher nossas garrafas.
–Eba, vou ter ver nú! – Jay riu.
–Você tem um namorado e Romana é ciumenta. – Tresh retrucou.
Eu devo ter demorado, pois Jay estava enxugando seus cabelos e Tresh estava colocando as coisas dentro da mochila.
–Sumam. É minha vez de tomar banho. – Dei as garrafas deles a cada um.
–Eba, Romana vai lavar o cabelo! – Jay disse.
–Precisa, eu sei.
–Tresh, vamos. Tenho que passar remédio nessa mordida.
–Onde vamos?
–Entrem no mato. E Jay, não leve isso no duplo sentido e agarre meu namorado.
Depois que eu entrei na água me lembrei porque só tomei banho no meu ultimo dia de treinamento.
Quando voltamos para a caverna os lobos anunciaram que iríamos procurar comida. Achamos frutas e acabamos as comendo.
Naquela noite ficamos lá fora em volta da fogueira com os lobos. Lupa contou história da mitologia romana. Tresh e Jay estavam bem atentos. Os lobos estavam me deixando desconfortável, pois eles me olhavam como se quisessem me matar.
A semana foi bem difícil e cansativa. Caçarmos animais para comermos, escalar rochedos, montar armadilhas, lutar com os lobos todos os dias e ir caçar monstros. Também tivemos que acender fogueira todas às noites.
Na hora de dormir íamos para a caverna de novo. As tochas eram apagadas. Podia ser verão, mas aquela caverna era fria e dormíamos com nossos moletons. Usávamos nossas roupas dentro da bolsa como travesseiro. Pelo menos Tresh e Jay faziam isso. Eu me deitava em cima do peito de Tresh e adormecia com ele passando a mão em meus cabelos embaraçados.
–Se quiser tenho escova para pentear aqui. – Ele me falava.
Às vezes eu escutava Jay falando o nome de Fred dormindo. Ao mesmo tempo, que era fofo era também de cortar o coração.
Jay e Tresh pareciam estar entrando no clima. Poucas vezes eles reclamavam. Nas noites Jay me abraçava, ele dizia que sentia falta de Fred e que eles quando se encontravam ficavam abraçados por longos minutos. Tresh estava sempre ao meu lado e eu e ele estávamos sempre abraçados nas noites da fogueira. Isso era nossa forma de dizermos: ‘Lobos não vão te tirar de mim’.
Tivemos que treinar na chuva, em uma forte chuva. Foi no nosso penúltimo. Lutar com lobos na chuva foi realmente ruim. E escalar rochedos? Pior ainda.
Naquele dia pegamos poucas frutas, então decidi pegar meus típicos suprimentos comestíveis na bolsa. A fogueira foi acesa dentro da caverna, e o clima estava um pouco fresco. Ainda assim, frio lá dentro.
Jay estava bem emotivo naquela noite e qualquer coisa o fazia falar sobre Fred.
–Vocês tem sorte de ter um ao outro. Fred sempre me disse que vocês merecem ser felizes. Ele me disse que quando eu voltar para ele iremos ser iguais a vocês. Só que ninguém vai sair brigando com os outros. – Ele riu se referindo a mim.
–Então não vai haver outra Romana? – Falei.
–Outra igual ao seu temperamento não é uma boa ideia.
–Então como vocês vão ser iguais a nós? – Perguntei.
–É porque vamos mostrar aos outros como nos gostamos. O acampamento todo sabe o quanto vocês dois se gostam. Tresh sabe, mas você talvez não, dá para ver que vocês se gostam só pela forma de agirem, da forma que se expressam os seus olhares, Romana.
Eu só hesitei. Não sabia que aquilo acontecia.
–Vocês vão ser um casal maravilhoso! – Falei.
Na hora de dormir Tresh arrumou o travesseiro improvisado e se deitou. Esperei que Jay dormisse para me virar para o lado de Tresh e dormir. Não dormíamos longe. Eu dormia no meio deles na verdade. Às vezes eu deixava Tresh, pois Jay também tinha que ter a quem abraçar de noite.
–Eu estou cansada. Que bom que nossas roupas secaram logo na frente do fogo. – Me disse virando para Tresh e deitando em cima de seu peito.
–Eu estou saindo melhor do que eu imaginava.
–Está mesmo. – Eu ri. – Tresh, me desculpe por não ter reparado antes o que Jay tinha dito.
– Em qual parte?
–Sobre demonstrarmos o que sentimos.
–Não tem que se desculpar. Importante é que você demonstra. Ou você acha que eu não reparei seus olhos não desgrudarem de mim na hora em que comíamos? Ou como ficou surpresa quando tirei minha blusa no banheiro e a te dei. Sou filho da deusa do amor, sei quando os sinais estão apitando.
–Meus sinais não apitam.
–Não mesmo. Eles gritam quando estão do meu lado. – Ele riu e assim virou para mim e ficamos cara a cara. – Sabe, eu até acostumei ver você acordar toda bagunçada. Sempre com cara de mal humorada.
–Tresh, eu sou um caco quando acordo. Todos somos. Ninguém é lindo quando acorda. Nem mesmo você, filho da beleza.
–Eu sei. E o seu jeito bagunçado de ser em tudo inclusive na forma que acorda não me assusta.
–Obrigada, eu acho. – E ficamos ali. Um na frente do outro. Eu deitada em seu bíceps e meu braço em seus peitos. Os braços dele me aqueciam mais quando me cercou. Foi à melhor sensação do mundo.
O ultimo dia foi marcado por um ritual no final da tarde. Passamos no treinamento. Quando o sol estava se pondo acendemos a fogueira lá fora.
Recebemos um colete com pele de lobo para colocarmos. Fomos carimbados com tinta natural com a pata de um dos lobos na palma da mão.
Imagine três adolescentes uivando como lobos quando o sol sumiu. Pois é, foi uma cena estranha e muito engraçada. Jogamos na fogueira o nosso casaco como tributo aos próprios lobos. Lupa contou uma ultima história sobre mitologia romana. A fogueira naquela noite não foi apagada, ficou queimando lá fora. Entramos e dormimos, pois naquela manhã iríamos ao acampamento romano.
Fale com o autor