Greco-Romana
16 Não temos passagem pela polícia
-O que? Como assim? Em plena às quatro horas da tarde, das férias de verão não tem um ônibus nessa jossa que nos leve até Nevada! Cadê a eficiência?- Essa era eu dando chilique quando fomos ao terminal rodoviário e o atendente disse que não tinha nenhum ônibus naquele dia que iria até nevada.
-Desculpe minha querida, a culpa é do sistema. Próximo?- Ele falava com uma voz mole, era magrelo, cabelo caído no olho e barba sem fazer. Achei que ele fosse um bêbado.
-Próximo? Ta vendo se tem mais alguém aqui? Não! Somos só nós e vocês dizem ainda que não tem uma droga de ônibus até Carson City. Aloo! Isso aqui é Nova York!
-Eu sei trabalho aqui.- Ele disse com a mão no rosto e mascando um chicletes.
-Moço, arruma um ônibus até qualquer cidade de Nevada.
-Não temos, já disse.
-Romana, deixa. A gente pega um ônibus que vá perto de lá. Depois descemos e seguimos até nevada por outro ônibus. -Jay disse.
-Isso. Escuta seu namorado e da certo. -O cara falou.
-Moço, ela não é minha namorada. Eu sou gay, ok? E antes que eu te denuncie por agressão moral é bom não me dirigir a palavra, a menos por necessidade. Agora me veja qual é o destino mais perto de Nevada que você tem passagens.
-Eu...quer dizer...- O moço ficou espantado com a atitude de Jay. Na verdade eu fiquei. Mas o cara só procurou os destinos.- Temos para o Nebraska. Quantas querem?-Ele pareceu mais prestativo de repente.
-Nenhuma!- Berrei.- Vamos embora, galera.- Sai andando como uma loca. Eu fiquei irritada. -Como assim sem nenhum ônibus para Nevada. E Nebraska? Não mesmo.
-Porque não vamos até Nebraska? Vamos poder ganhar tempo. Se ficarmos aqui, os caras que estão atrás de você, Romana, podem nos achar. -Disse Tresh.
-Quero que eles se explodam. Literalmente. Vamos passar a noite aqui e amanhã vamos pegar o ônibus.
-Aqui? Tipo...aqui no terminal rodoviário de Manhattan?- Tresh pareceu preocupado.
-Não. Mas isso te deixaria incomodado?
-Acho que sim. Muita gente suspeita.
-Mas ai essas pessoas iam encobrir o nossos cheiro dos monstros. -Jessy Disse. Eu ri.
-Quem vai querer uma filha de Mercúrio chata, um filho de Apolo, uma lutadora fracassada e um gordo Zé ninguém?- Falei. Fui sincera.
-Fracassada? Quando você estiver dormindo, bem...Não poderá ver o que vai ter acontecido com você, sua...sua...
-E eu não sou Zé ninguém Eu...eu...só não achei o meu progenitor olimpiano. -Acho que naquela hora deixei Tresh triste.
-Ei cara! Não fique assim. Foi uma brincadeira. Você é muito gente boa. Eu até passei a te odiar menos. -Sorri para ele.
-Sério?
-Sim.
-Que ruim, pois eu ainda te odeio.
-Mas...Ora seu...eu estava te ajudando. Te odeio mais ainda!
-Romana, Tresh. Parem. Romana, já sabe o que vamos fazer?- Disse Jay.
-Sim. Vocês vão conhecer o método de sobrevivência alá Romana!
No começo ninguém entendeu nada. Mas é que eu ia leva-los para algum edifício e íamos montar acampamento em cima do telhado de lá. Eu fiz muito isso.
-Esse beco ta bom?-Jessy perguntou.
-Sim. Olha, vamos andar e disfarçar. Ao escurecer a gente sobe nesse prédio. -Apontei o da esquerda.
-Mas e o vento?
-Espero que tenha trago o necessário contra isso. — Não estava mentindo. Eu sabia que dormir sobre a brisa requer proteção. A minha estava comigo.
O resto do dia foi tranquilo. Demos uma andada no bairro e ficamos de alerta para ver se não aparecia nada suspeito. Jessy acabou ferindo a mão na luta com o ciclope e só a tarde vimos o resultado do corte.
-Bem, foi um corte não tão profundo. Mas pelo que vi está cheio de bactéria. Preciso de água.
-Tenho uma garrafa na bolsa, espera ai.- Falei.- Epa...só tem para beber. Jay, tem como esperar vinte minutos?
-Para que?
-Para eu entrar em um apartamento e pegar. É rapidinho.
-Romana...-Antes que Jay falasse algo eu já estava descendo a escada e dentro de um apartamento. Nele tinha uma senhora de idade dormindo e um garoto de mais ou menos 13 anos jogando video game. Ele nem viu eu entrando pela janela do quarto, afinal, entrei por onde a senhora dormia. Peguei água e um pouco de comida da geladeira.
-Aqui.- Dei uma garrafa de dois litros com água.
-O que tem na vasilha?- Jessy perguntou.
-O nosso jantar.- Falei.
-Não é digno roubar comida.
-Digno é a gente passar fome. E olha que temos comida. Daqui a gente só come o queijo.
Passei o tempo vendo Jay limpar o ferimento de Jessy e ela gritando. Depois fui para o lado de Tresh e começamos a discutir porque ele disse que queria um tempo para ele. Por fim a noite realmente veio.
-Queria ver estrelas. -Falei quando olhei para o céu.
-Te dou uma pancada na cabeça se quiser. -Jessy sorriu.
-Disse estrelas, não cometa.
O espaço do telhado daquele pequeno prédio era grande. Resolvemos fazer uma cama improvisada para nós quatro. Já que Jessy não tinha nada que a protegesse do frio. A noite estava fria.
-Quem fica no primeiro turno de vigia?-Jay perguntou.
-Eu fico.- Se ofereceu Tresh.
-Eu te acompanho. -Falei.
-Não. Eu fico. -Disse Jessy.
Não discordei dela. Mas antes de dormir fui até a onde eles estavam sentados. Tresh me viu chegando e saiu de perto.
-Porque mesmo você quis vir nessa missão? -Perguntei para Jessy.
-Porque eu tive essa oportunidade.
-Teve?
-Sim, soube que mais um campista poderia ir. Ai falei com Tyler e ele deixou.
-Você pode morrer.
-Eu sei. E estou com medo disso. Não quero deixar Tyler.
-Vocês se gostam né?- Perguntei para ela.
-Mais do que possa imaginar. Acho que ele foi uma ótima pessoa para mim. Eu me sento mais bonita perto dele.
-Mais? Jessy, você é toda bonitona. Só é rude e grossa. Fora isso, já disse que você serve para ser modelo.
-Romana, não tenta me agradar. Você matou um campista. Eu realmente não te bato porque prometi para Tyler.
-Que não ia me bater?
-É.
-Me lembra de agradecê-lo.
-Não gosto de você.
-Obrigada. Ninguém nunca gosta.- Dei um sorriso forçado.
-Você já namorou?
-O que? Não é da sua conta.
-Acho que você precisa de amor, Romana.
-Acho que eu vou dormir.- Ia virado as costas para ir embora.
-Espere.
-Pra que?
-Porque você e Tresh não se dão bem? Vi como ele saiu de perto de você agora.
-Não sei. Como eu disse ninguém gosta de mim. Não sei porque Jay está comigo. Na verdade sei, mas ele é muito paciente. Ta aqui porque simplesmente...simplesmente...
-Romana, você ainda vai aprender muita coisa com os gregos. Vá dormir.
“Você ainda vai aprender muitas coisas com os gregos”. Claro que vou. Vou aprender que ninguém nunca vai ir com minha cara.
Jessy e Tresh ficaram de vigia até as três da manhã. Depois foi minha vez e a de Jay. Na verdade, a de Jay. Eu acabei dormindo.
-Vamos comer.- Jay me cutucou. O sol da manhã já se erguia em meio aos prédios.
Comemos um pouco do queijo que eu tinha pego. Tresh tinha levado uma garrafa com suco.
-Tresh você tem presunto?- Perguntei.
-Não. Porque eu teria presunto? Só porque eu sou gordo?
-Talvez.
-Mas não tenho.
-Tem sim. Quero ver sua bolsa.
-Boa sorte.- Ele me deu a bolsa.
-Bingo!- Tirei um plásticos que havia presunto fatiado.
-Você...você colocou isso na minha bolsa?
-Se encontrar alguma roupa intima ai, não se assuste.
Ao olhar para a cara de Tresh eu percebi que ele queria me socar. Depois de comermos, fomos embora para pegarmos as nossas passagens.
Jessy e Jay foram na frente. Eu estava afim de arrumar minha imagem com Tresh.
-Obrigada por ter pego minha Adaga da testa do Ciclope. -Falei.
-De nada.
-Obrigada por deixar eu colocar as coisas na sua bolsa.
-Eu não deixei. Mas já que colocou, não vou tirar de lá.
-Porque não gosta de mim?
-Te faço a mesma pergunta.- Tresh retrucou.
-Porque me machucou.- Falei.
-Isso é passado.
-Ta. Por me julgar, por reclamar, por as vezes ser rude e...
-Rude? Romana, olha para você. Olha, vamos parar com esse assunto porque a gente vai discutir de novo.
-Calem a boca!- Jessy disse.
-Rude! Você foi rude! Seja uma dama!- Falei.
-Ser uma dama? Romana, você arrotou no meio do café da manhã, nós estávamos comendo.- Ela retrucou.
-Vai me dizer que nunca arrotou na frente do Tyler.
-Foi uma vez só.- Ai eu e ela começamos a rir.
-Elas são mesmo meninas, ou colocaram um espírito de garotos nelas?- Tresh disse.
-Sei lá. Acho que sou mais feminino que as duas juntas.- Jay disse.
-Você é gay. Não conta.- Tresh falou.
-Galera, olhem ali.- Jay apontou para um policial.- Ajam normalmente, eles geralmente encanam com meio-sangues.
Enquanto passávamos o policial nos olhou das cabeças aos pés. Ainda abaixou os óculos para ver melhor.
-Crianças!- Ele disse. Nós paramos.
-Sim, senhor.- Disse Tresh.
-Estão indo para um acampamento?- Perguntou ele apontando para nossas camisas.
-Sim. Estamos indo até minha casa para meu pai nos levar. — Tresh disse.
-Legal. E vocês lavam as vassouras para fazerem limpeza?- Se referiu a espada.
-É. Bota limpeza nisso- Ri.- A gente tem que ir porque se não a gente se atrasa para a cerimônia de abertura.
-Califórnia, né?
-Como é?
-Você é de lá. Típico bronzeado da praia.
-Ah.- Sorri nervosa. Tudo bem, meu bronzeado não era lá um bronzeado. Ou aquele cara já me viu, ou ele...- Galera, vamos! Até um dia, senhor.- Iamos andar e ele falou de novo.
-Ta. Cuidado, vocês podem se machucar no tal acampamento.- Ele disse.
-É, a gente não só se machuca, como machucamos os outros. Agora, boa patrulha.- Saímos como se nada houvesse acontecido.
-O cara é curioso, não é?- Tresh falou.
-Ele é estranho. Califórnia? Como ele sabia?-Falei.
-Porque ele é policial e você é encrenqueira. Ele deveria ter visto você na delegacia.- Tresh ria.
-Engraçadinho.
-Gente, você tem ficha criminal?- Jay perguntou.
Respondemos que não.
-A, então o policial se interessou na gente. Ta farejando encrenca. Olhem. -E lá vinha o cara. Com a mão no cassetete e a outra mão no óculos.
-Monstro?-Falei.
-Acho que sim. Isso meio que resolve a situação dele saber que você é da Califórnia. -Jay falou.
-Ele acenou para mim. -Falei.
-Olha, a gente vira a esquina e sai correndo, de acordo?- Tresh disse.
-Eu zoaria você mas eu concordo com a ideia. -Falei.
Viramos a esquina. Começamos a correr. Olhamos para trás e ele não estava mais a nossa vista. Paramos.
-E ai crianças!-Ele estava bem na nossa frente.
-Aaaah! -gritamos.
-Mas que susto, não é? Ainda bem que vocês não estavam a toda a velocidade, não é?
-Pois é!-Ri nervosa.- A gente tem que ir. Tchau.
-Então, -ele entro na nossa frente quando viramos as costas para ir em outra direção- não vão sair sem uma luta, não é, semideuses?
-Só podem estar brincando com a nossa cara!- Falei.
Estávamos encurralados, nossa única chance era lutar.
-É uma pena que não vão concluir a missão de vocês.- Ele começou a se transformar. Seu corpo foi substituído pelo corpo de um leão de pelagem bem ruiva, e a cauda era de escorpião, que infelizmente, lançava espinhos.
Quando ele veio para cima nós quatro nos separamos. Ele foi primeiro para cima de Tresh. Tresh desviou do golpe e o monstro acabou acertando um hidrante. A água começou ir pela rua toda.
Tentei ir ajudar Tresh. Minha ideia foi totalmente errada, pois a hora em que cheguei para atacá-lo por trás ele se virou. Com apenas um golpe ele me atirou no vidro de um pequeno mercado. O resultado foi trágico. Um atravessei o vidro, tinha varias partes do meu corpo cortada e o sangue escorria. Meu corpo estava doendo. Perdi o controle dele e desmaiei.
Enquanto estava desmaiada , Jay e Tresh tentavam distrair o monstro.
-Romana!- Jessy ergueu minha cabeça.- Você pode me ouvir?
-Minh...Min...- Eu estava quase voltando ao normal. Mas minha cabeça girava.
-Não faça esforço. Escute bem, se acontecer alguma coisa hoje, saiba que nunca quis seu mal. Depois, cheque sua bolsa, ok?
-Vo...-Eu fui falar, mas minha visão turvou. Embora eu tivesse entendido tudo o que Jessy tinha dito, o impacto da batida foi mais forte. Acabei desmaiando de novo.
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