Greatest Love
1 Greatest Love
Notas iniciais
Uma noite quente de verão como outra qualquer em Londres – era o que Elizabeth repetia para si mesma, infinitamente, desde o momento que pusera os pés para fora de casa. As ruas estavam terrivelmente movimentadas com o trânsito de carruagens seguindo para uma mesma direção, coisa que ela também estaria fazendo em questão de minutos, já que era um dos muitos nomes constantes na lista interminável de convidados de Lady Smith.
Seu pensamento não estava inteiramente errôneo, afinal, encontrava-se em Londres, e a noite mostrava-se extremamente abafada; o que só piorava ainda mais devido àquelas intermináveis camadas de tecido sobrepostos, sem contar o espartilho e demais aparatos ditados pela moda atual. E o que dizer sobre a cor? Azul! Onde estava com a cabeça quando pensou que aquele tom, de alguma forma, combinaria com o negro de seu cabelo e o castanho de seus olhos?
Ah! A quem ela queria enganar? Azul não só era sua cor preferida, como condizia perfeitamente com suas características. A verdade era que não havia nada errado com seu vestido de cetim belamente bordado. Era aquela noite que nada tinha de comum – e a forma como seu coração parecia especialmente acelerado. Quantos anos haviam se passado? Imaginara que o suficiente para que não mais se agitasse como uma donzela às vésperas de seu debut. Mas estava enganada – o que não era novidade alguma; enganos fora o que mais cometera em sua vida.
Quando pequena, esperava que tudo fosse tão diferente. Primeiramente, aos sete anos, desejara do fundo do coração, que seu primo, Joshua, desaparecesse da face da Terra, e acima de tudo, parasse de destruir o cabelo de suas bonecas de porcelana; aos nove, que sua irmã mais velha, Grace, se casasse o mais rápido possível, para que saísse de casa e não mais implicasse com a quantidade de bolos que ela comia no chá das três; e por fim, aos onze, que seu vizinho, Ethan, desistisse de tentar assustá-la com sapos e insetos.
Bem, de fato, Joshua logo se mudou para a América, devido aos planos de investimentos do pai; Grace, casou-se no verão seguinte e logo estava grávida, ficando ocupada demais com seus bordados para contar quantos pedaços ela havia comido; e sobre Ethan, este último fora um pouco mais complicado. A infância se fora, mas juntos, começaram uma nova fase.
Entre uma discussão e outra, ou uma tarde de cavalgadas e lições de piano, havia aquela troca de olhares e sorrisos que apenas dois adolescentes, desentendidos das verdades do mundo, poderiam compartilhar, e no fim das contas, passaram tempo demais na companhia um do outro para que seus corações saíssem ilesos.
Foram bons tempos aqueles; que mais tarde, acabaram completamente destruídos com a partida dele para Eton¹. Naquela manhã em que Ethan viera se despedir e lhe contara sobre seus sentimentos, deveria ter sido menos tímida, e lhe dado em resposta mais do que um rápido beijo na bochecha, seguido de uma desesperada fuga para o próprio quarto.
Dias depois, presumira que poderia concertar isso na próxima vez que o visse, sabia que ele entenderia suas inseguranças; mas este dia nunca chegara. A família dele logo se mudara, fixando residência e Mayfair², e do colégio, Ethan seguira para Oxford³, e passara a ocupar-se com as atividades típicas de cavalheiros universitários – dentre estas, visitas ao Whites⁴.
Claramente, os planos daquela garota acabaram despedaçados devido ao tempo – mas o tempo não conseguira despedaçar a garota que ainda residia nela, em algum lugar lá no fundo.
Antes que se desse conta, sua carruagem já havia flutuado pela avenida, e em um curto espaço de tempo, as luzes do jardim da mansão Smith já iluminava seu rosto parcialmente escondido pelas sombras da cortina escarlate. Procurou mascarar sua respiração, que em algum momento tornou-se irregular, quando colocou-se a caminhar para a entrada, onde o Visconde e a Viscondessa recepcionavam os convidados. Onde Ethan Smith estaria ao lado dos pais.
Aquele era nada mais, nada menos, que um baile oferecido à nobreza, a fim de recepcionar o filho, que há alguns anos, estava a viajar pelo continente – assim como, discretamente, anunciar o retorno de um belo partido às damas da temporada.
Logo dos primeiros degraus Elizabeth pôde vê-lo. O cabelo loiro escuro, perfeitamente penteado; os olhos verde azulados, brilhantes; e o sorriso que diversas vezes fizera com que perdesse o ar; tudo isso, em um perfeito embrulho de roupas confeccionadas sob medida, para um homem, que ao que parecia, crescera não só em altura, como também em maturidade e classe. Um herdeiro completo – mas que já não estava mais ao seu alcance, independente de quantos passos desse na direção dele.
“Oh, veja se não é a Duquesa de Devonshire!” – declarou a mãe de Ethan ao lhe dar as boas vindas.
Sim. Era exatamente isso.
O título recém proferido fizera com que se pusesse novamente em seu devido lugar. Não havia mais Elizabeth Harrison. Há dois anos havia se tornado Lady Elizabeth Richmond; esposa de Henry Richmond, o Duque de Devonshire – o que fazia dela a Duquesa.
Henry era um bom homem, assim como um marido maravilhoso. Dispunha de todos os requisitos considerados necessários para um nobre de sua posição – não que ela se importasse com isso. Era admirado por ambos os lados, damas e cavalheiros. Belo, charmoso, de humor ímpar. Ela o adorava do fundo do coração – mas não o amava. Não ainda, deveria fazê-lo em algum momento; mas antes, haviam pendências a serem acertadas com seu eu do passado.
Os olhos de Ethan se puseram imediatamente sobre ela, perturbados por um ínfimo momento, mas logo recompondo-se da forma como deveria ser. Era a primeira vez que se viam em anos. Talvez ambos estivessem mais ansiosos do que deveriam. O cumprimento dele foi como uma carícia em seu coração; o toque de sua mão carregado de nostalgia. O sorriso encantador, ainda que devidamente contido, de acordo com o que o decoro exigia.
Todo o leque de reações passou-se despercebido para aos que estavam ao redor. Henry jamais cogitaria a hipótese de que sua esposa cultivava algo do gênero, e os pais de Ethan eram completamente ignorantes à história que compartilhavam. Para eles, seu filho e Elizabeth eram apenas antigos conhecidos que apreciaram a companhia um do outro enquanto cresciam.
Naquela noite, quando Ethan lhe solicitou uma dança em nome dos velhos tempos, e giravam em torno da pista de dança; Elizabeth, apesar de insegura e trêmula, confessou aquilo que há muito guardava em seu peito. Quando tentou afastá-la, a fim de buscar seu rosto, ela o impediu, implorou para que não o fizesse. Era seu pedido de desculpas – acrescentou a Duquesa. Um que deveria ter feito logo que ele partira, quando ainda havia tempo, numa época em que seus futuros tinham a chance de tornar-se apenas um. O pedido de desculpas que devia à garota que um dia fora.
A pressão da mão dele contra sua cintura, fora resposta suficiente para Elizabeth quando terminou de falar, acalmando todos seus temores; e o olhar que confidenciaram ao fim da dança, fora o juramento silencioso de que ambos manteriam aquilo no fundo da memória. Uma lembrança a ser esquecida. Um assunto encerrado. Um sentimento a ser erradicado.
Ao deixar o baile de braços dados com Henry, a Duquesa pôde finalmente sorrir ao marido. Dali para frente, todos seus pensamentos seriam sobre ele; seu coração seria completamente direcionado ao Duque. Não haveria mais arrependimentos ou suposições sobre o que deveria ter feito no passado. Sua única preocupação seria a respeito de seu futuro e sobre a felicidade que a aguardava ao empenhar-se em nutrir um novo amor – o maior deles.
Vocabulário:
¹ Eton: Colégio Inglês para garotos, fundado em 1440 por Henrique VI.
² Mayfair: Bairro luxuoso de Londres.
³ Oxford: Universidade Inglesa de grande importância.
⁴ Whites: Um dos mais antigos clubes para cavalheiros, exclusivo para determinados membros da nobreza.
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