Grace Presley And Her Perfects
1 Capítulo 1
Tem três coisas que eu queria realmente que acontecessem nesse exato momento.
Primeiro, eu quero que a diretora da nossa escola – Mrs. Maxwell – anuncie que as entradas para o baile já estão disponíveis. Porque uma garota precisa se preparar pra ficar incrível para um baile, especialmente o de formatura.
Um dos motivos para o meu desespero: o baile tem um tema. Só que ninguém sabe que tema é, então eu estou mantendo meu leque de possibilidades o mais aberto possível. Sarah Lee, a presidente do comitê do baile, disse que o tema vai ser surpreendente, então estou ficando cada vez mais louca por causa disso. Quer dizer – OLÁ! –isso é a última vez que todos nós vamos fazer isso nas nossas vidas. Bem, talvez não seja a última vez de Lauren Bushes, porque ela ficou três meses sem vir para as aulas finais, e isso prejudicou mais do que ela tinha planejado, então os alunos do segundo ano vão ter ela por mais um ano, mas para o resto de nós, vai ser a última vez que vamos experimentar o gostinho de uma última noite juntos, como colegas e amigos etc. Posso até estar sendo meio sentimental, mas:
1-Eu sou uma garota. É normal para uma garota que AMA as tradições da cidade, ficar animada, o que nos leva ao:
2-É verdade. Querendo ou não. E sendo a última vez, eu quero que seja INESQUECIVEL. Tanto pra mim, quanto para os meus pais, que irão amar me ajudar a me arrumar.
Bem, a segunda coisa que eu quero, é que Mariah apareça com a grana para os nossos cupcakes. O negócio é, Mariah é minha melhor amiga, e me enrolou faz uns dois anos na caridade pra competição regional, porque ela queria MUITO fazer cupcakes, mas tinha medo de fazer sozinha, então me chamou para ser sua cúmplice no crime de DETONAR com os cupcakes. Então, dois anos atrás, eu ajudei ela a fazer e engordei dois quilos comendo restos de massa crua de bolinhos, mas a preparação pra propaganda do restaurante do Dave me fez perder o que eu ganhei, por isso não precisei me preocupar por muito tempo. Eu odiava no começo, porque a minha coordenação pra fazer pasta americana parecer fofinha era igual à zero. Mas, me deem um desconto, fazer pasta americana parecer fofinha é um TRABALHÃO. E a minha paciência para aquilo também era ZERO. A única coisa que me fez continuar era que o prêmio era de quatro mil para a equipe vencedora e dois mil para o segundo lugar. A gente pegou o segundo lugar na primeira vez. O que ajudou demais, porque eu fiquei com metade e ela também e isso deu pra pagar o hospital psiquiátrico da minha avó por mais uns seis meses, já que o seguro dos meus pais não cobria internações pra hospitais de GENTE LOUCA. Pelo menos foi isso que a mulher da ajuda pelo telefone gritou depois do meu pai perguntar a mesma pergunta milhões de vezes: “Não dá pra cobrir o St. Mary também, moça?”.
O que foi ridículo da parte dela, porque todo mundo é louco, mas nem por isso nós somos mandados pra hospitais psiquiátricos. Minha avó também não é louca, ela só é diferente e... Bem, tentou bater no médico dela, mas ela só podia estar num dia ruim! Isso não rotula ninguém, não é? Diga isso para a mulher da ajuda pelo telefone, pra você ver palavrão que ela vai te responder. Enfim, ela ficou triste em saber que ficaria mais um tempo internada, mas meus pais ficaram orgulhosos de mim porque era a primeira vez que eu não precisava usar meu rostinho bonitinho pra ganhar dinheiro. E eu fiquei orgulhosa também, por esse motivo, e por ter feito algo com minhas próprias mãos. Mesmo que isso significasse ter meus dedos queimados porque eu VIVIA esquecendo que as formas dos cupcakes estavam quentes.
Ano passado, a gente ficou em terceiro, o que foi legal – porque nós estávamos no ranking – e foi chato, porque não ganhamos dinheiro. E esse ano a gente vai competir também, e eu só estou esperando Mariah chegar pra poder perguntar a quantia de dinheiro que a escola vai dar pra gente. Nosso acordo com a diretora Maxwell foi que, nós botaríamos o nome da escola nas nossas camisetas de time, e eles dariam “patrocínio” para a nossa pequena aventura.
–Então, por hoje é só, estão dispensados. –Ela diz pelas caixas de som espalhadas pela escola, e eu solto um suspiro de irritação. Ela não falou sobre o baile. Mais um dia perdido ouvindo essas baboseiras que ela fala no final da aula. Eu pego minha bolsa e eu vou para a porta, dando de cara com o estacionamento da escola.
Agora, a terceira coisa que eu queria que acontecesse nesse momento, era que Cooper Carmell NÃO viesse buscar a irmã dele – Carly – todos os dias, na última semana. O.K. Primeiro de tudo, o que os pais deles estavam pensando quando botaram os nomes C.C neles? Quer dizer... Cooper é um nome bonito – pra infelizmente, combinar com o cara – e Carly também, mas com o sobrenome Carmell junto, eles fazem a cidade pensar que eles são um tipo de irmãs Kardashian.
Infelizmente, eles não são. Eles são legais, o que me faz querer morrer por ter que ver ele vir buscar ela todos os dias. Pra quê? Me torturar?
Cooper é um ano mais velho, o que quer dizer que ele está na faculdade, e que as amigas da Carly estão babando por ele agora, desde que ele chegou aqui. Elas acham que namorar um cara mais velho é sexy, só que elas PENSAM que Cooper Carmell vai notar alguma delas. Mas elas estão enganadas.
Porque Cooper Carmell não nota ninguém.
Ele era meu melhor amigo... na terceira série. O que era esquisito porque no ensino fundamental, alguém da quarta série não podia olhar para alguém de algumas séries a baixo sem ouvir piadinhas pelo resto da vida; mas ele era diferente. Ele teve que fazer um trabalho interdisciplinar com o pessoal da minha sala e fez comigo – ao invés de fazer com a sua irmã, o que, segundo Mariah, diz muito sobre o que ela chama “Paixão Infinita de Cooper pela Grace.”. – e assim surgiu nossa linda amizade. No começo nós só éramos amigos, e então, perto da sétima série, a coisa toda explodiu e nós vivíamos grudados, como melhores amigos. Porém, nossa tão-linda-amizade acabou dois anos depois quando ele sumiu do mapa, por causa da bolsa na escola preparatória de Nova York, que Carly tinha ganhado. O mais ridículo? Depois de dois anos, ela voltou pra esse fim de mundo chamado Atlanta, pra se graduar aqui. Qual é, ela podia ter se graduado EM NOVA YORK, mas ela voltou há um mês pra cá, pediu transferência pra nossa escola, e agora está estudando como se nunca tivesse saído daqui. Só que, como agora ela é a colegial, Cooper é o universitário, então ele não estuda mais na nossa escola, como nos “velhos tempos”. Ele estuda em uma universidade daqui, porque foi transferido da universidade de ensino de NOVA YORK também.
O que, pode ser uma droga às vezes, mas é legal. Porque evita que a quedinha ENORME que eu tinha por ele evolua mais agora que o semestre está acabando.
Não me culpem. Ele era charmoso.
Ele foi o único garoto da quarta série que falou comigo naquele ano. (Os outros só falaram quando a gente foi pro primeiro ano do ensino médio, aí essa baboseira de “nós somos o máximo porque somos mais velhos” passou e eles ficaram nossos amigos. Mas ainda têm babacas lá, porém mais escondidos.).
E eu era perdidamente apaixonada por ele. Você sabe, coisa de adolescente. Eu sonhava em beijar ele e falar coisas românticas que eu tirava dos filmes legais que passavam na tevê. Só que então ele sumiu, e eu nunca soube se o que eu sentia era recíproco.
Agora, não me entenda mal, eu não estou apaixonada por ele. Aquilo já passou. Eu só... não gosto de lembrar como eu fiquei um caco quando ele foi embora. O que eu faço, quando eu olho para ele, e ele está me encarando.
Como nesse exato momento. Mas graças a deus, Mariah me puxa pela jaqueta e eu paro na frente do meu carro antes que a situação fique mais constrangedora e eu acabe passando pelo meu carro e acabe na saída da escola, que nem uma idiota.
–Conseguiu? –Eu pergunto. Mariah é a barbie fofinha em pessoa. Ela usa uma trança de lado fazendo os cabelos loiros parecerem mais loiros, já que batem contra o sol, e consequentemente, fazem os olhos azuis parecerem mais azuis. Adicione lápis de olhos e pintinhas no rosto e você vai ter uma ideia de como minha melhor amiga é BONITA. Ela não olha para mim, mas eu não preciso seguir seu olhar para saber PARA QUEM ela está olhando.
–Se ele não desviar o olhar, vou ser obrigada a quebrar contato entre o olho dele e a sua bunda.
–Ele não está olhando para minha bunda. Pare de olhar, Mari. –Ela finalmente olha pra mim e balança o envelope, que grita um feliz “boas notícias” para mim.
–Maxwell deu quinhentos dólares. –Eu quase tenho um ataque cardíaco. Isso é o recorde de patrocínio que nós já conseguimos. Eu estreito meus olhos em sua direção.
–Como, por Deus, você conseguiu arrancar quinhentos dólares da mão da diretora Maxwell?
Ela deve ter concordado em participar de um ritual satânico, ou vendeu a alma pro diabo mesmo. A última vez que nós pedimos patrocínio, ela deu CEM PRATAS. E na primeira vez, ela deu cinquenta dólares. Eu espero para ver a reação de desespero de Mariah, porque é agora que ela vai me contar o que ela fez pra conseguir isso, mas sua expressão fica ofendida.
–Dá um tempo. Nós só temos que fazer propaganda na escola para as câmeras da tevê.
–Com ela dando quinhentos dólares, eu até digo que amo a escola. –Eu respondo animada e aliviada por não ter que fazer alguma loucura em troca do dinheiro dela. –Você fica com a grana ou eu fico?
–Você fica. Estou de mudança, lembra? Esse dinheiro é precioso demais pra ser perdido entre meus livros de filosofia que eu nunca mais vou usar na vida. –Ela revira os olhos, mas no fundo vai sentir falta do nosso professor-fumante-de-maconha-nos-intervalos, o senhor Jones. Era o único que deixava a gente xingar Platão sem expulsar a gente da aula. Eu pego o envelope e verifico o dinheiro. É isso aí, quinhentos dólares. –Acho que você devia ir falar com ele, ele não para de olhar pra cá.
–Ele só deve estar te encarando, porque você está encarando também. –Eu explico, mas ela balança a cabeça.
–Ele nem está OLHANDO pra mim. Ele está te COMENDO com o olhar, Grace.
–Não se preocupe, é a minha bunda. –Ela ri e eu rio, fazendo a situação parecer uma piada, mas internamente, se isso é possível, estou me sentindo corar de animação. Aquela sensação esquisita de conseguir alguma coisa que queria muito. O que é meio estranho, considerando que fazer Cooper Carmell olhar minha bunda não estava na minha lista de coisas que eu queria muito fazer. Mas se ele está, já é alguma coisa.
–Mais tarde, -Mariah fala, jogando a trança para trás. –Eu te ligo, pra gente ver quando podemos fazer os cupcakes que vão ser vendidos antes da competição.
–Tudo bem, só não me liga em casa, as linhas estão sempre ocupadas agora.
–Por quê?
–Meu irmão arranjou uma namorada.
–NÃO ACREDITO! –Ela grita, e antes de começar a rir que nem uma louca, eu dou uma olhada no estacionamento, e acho todo mundo encarando a gente. Então eu começo a rir. Meu irmão começar a namorar é um fato chocante mesmo.
–Pode acreditar.
–Isso parece uma piada. Quer dizer... FRANK namorando? Quantos anos ele têm... Doze?
–Quatorze. Jesus, Mari! Até parece que ele é um E.T. –Eu intercedo por ele, mesmo sabendo que ela está certa. E que, pelo jeito que é esquisito, talvez seja mesmo um E.T. –E a gente não pode perder a esperança, lembra? Douglas começou a namorar no último ano com Natasha. No baile, pra falar a verdade.
Douglas é meu outro irmão, um pouco mais perdido que Frank, mas que conseguiu ficar com uma garota no baile de formatura dele. O que me faz cada vez mais ansiosa para o MEU baile, já que, quem sabe, eu não conheça o amor da minha vida nele, como meu irmão? Só rezo pra que ela não seja tão esquisita quanto Natasha, mas então... ela e Frank se completam. Então tudo bem o amor da minha vida ser esquisito, desde que me faça feliz como o Douglas é com ela.
Dou uma olhadinha para o lado e vejo Carly entrando no carro de Cooper, e ele me olha por dois segundinhos antes de ir embora da escola.
–Ele não podia chamar menos atenção? As líderes de torcida estavam quase tirando a roupa pra fazer as pessoas prestarem atenção nelas em vez de encarar Aquele-Que-Não-Pode-Ser-Nomeado.
–Harry Potter? De novo? –Ela faz uma careta.
–A hora que eu vou rir da sua cara ainda vai chegar, Presley. –Ela disse, e então o pai dela chega pra pegar ela e ela sopra um beijo pra mim, esquecendo que devia estar brava comigo.
O caminho de casa é rápido, no máximo uns dez minutos se o trânsito estivesse ruim, o que felizmente não está hoje, porque eu estou louca pra me jogar na cama e dormir. É incrível como a escola tira a vida de você. De repente, tudo começa a girar em torno das tarefas, trabalhos e projetos que você tem que fazer pra escola. E então, quando você menos percebe, está dizendo não para ir à festas porque tem que estudar trigonometria.
Mas, é claro, no momento que eu percebi o que eu estava fazendo, eu totalmente entrei no clima pra festa que John Sully deu. E foi demais. Ninguém sabe do meu lado nerd, só Mariah, e ela nem deve se lembrar, porque eu só deixei esse meu lado nerd evidente por umas duas semanas antes de esconder embaixo dos vestidos pras festas.
A maioria das pessoas a essa altura do campeonato, já tem seus “grupinhos” e “panelinhas” formados. Aquela coisa de sempre.
Tem os nerds. Que não são tão esquisitos como aparentam ser nos filmes, só são muito difíceis de conversar, já que eles conseguem trazer física quântica pra qualquer assunto que você esteja falando, e vamos ser honestos por um minutinho: ninguém gosta de física quântica. Bem, eles gostam. Tanto faz.
Tem os populares, que podem ser divididos em subcategorias, já que temos as líderes de torcida, os jogadores de basquete, as garotas Givenchy (ricas, belas e esnobes) e os garotos bonitos demais para serem considerados esquisitos, não importa o grau de esquisitice deles. Falando assim, parece realmente uma coisa de filme, mas não se engane, eles sabem ser legais com as pessoas e não são todos uns babacas populares sem coração. As coisas não são tão preto no branco como aparentam ser.
Tem os maconheiros, os tatuados que vão pra escola de moto, e os que gostam de fantasmas também, e todos esses se enquadram na categoria esquisitos. E então...
E então tem eu. Ou melhor, eu e Mariah, mas ela tem um namorado legal e é líder de torcida, então esqueçam isso, só tem eu mesmo.
Faltam algumas semanas para a formatura, e eu ainda estou tentando descobrir aonde eu me encaixo nesse mundo que parece gigante chamado ensino médio. É uma pergunta que todo mundo parece fazer.
Quem eu sou?
Tem gente que fala que é líder de torcida, ou amiga, ou namorada, ou esposa, ou grávida (no vídeo de formatura do ano passado Berry Scoop respondeu à essa pergunta dizendo “uma garota grávida” o que foi hilário e bateu os recordes de visualizações de vídeo de formatura do site da escola de todos os tempos) e eu tenho inveja deles porque essa gente parece ter TANTA certeza do que é e do quer ser que quando eu penso sobre minha resposta eu só penso em...
...nada.
Quem eu sou?
Um monte de nada que vai se formar.
Tomara que me deixem botar isso no vídeo porque senão deixarem eu realmente não sei mais o que dizer... ou vou começar a me insultar e isso não resulta em nada bom, nunca.
Então, esse é um dos motivos pelo qual eu estou esperando fervorosamente o baile de formatura. Porque eu só preciso de uma luz pra me dizer que eu não estou perdida nesse mundo. Eu me adapto à qualquer “grupinho”. Eu consigo sobreviver sendo uma idiota fútil como as garotas da Givenchy, e consigo – nem que seja por alguns poucos minutos – falar sobre física quântica com os nerds. E quem sabe, quando a garota nerd for legal, a gente pode falar sobre o garoto que tirou os aparelhos na semana passada etc.
Eu só estou tentando entender o que é que eu estou fazendo nesse mundo, antes que seja tarde demais, e eu acabe indo fazer direito e odeie ser advogada pro resto da minha vida. Eu só quero ter algum significado, enquanto eu ainda posso ter um. Eu quero fazer a diferença.
Talvez seja por isso que eu queira fazer cupcakes com Mariah. Porque fazendo a diferença (já que se a gente ganhar, posso dar o dinheiro para o meu pai pagar o hospital da minha avó) eu posso, de alguma maneira, descobrir o significado da vida ou algo assim. Só quero... uma luz. Eu não sei nem o que eu estou procurando direito, só sei que vou procurar até achar, e quando eu achar, eu acho que então eu vou verdadeiramente ser feliz. Não que eu não seja. Eu só quero... viver o que eu tenho que viver. O que o destino deve estar planejando para mim, e as vezes eu não paro de pensar em como agora, indo em direção à minha casa, eu possa estar perdendo uma grande chance do destino de mudar minha vida e só esteja muito concentrada em não bater o carro pra descobrir o que é. Mas também, se eu batesse o carro, eu provavelmente morreria, então isso também deve ser um sinal do destino me avisando que eu não posso morrer ainda.
Tem um caminhão parado na vaga de estacionamento do lado da minha casa, então eu tenho que estacionar o carro mais para frente, o que eu faço, xingando o motorista um pouquinho. Ninguém merece ter que andar mais do que o normal para chegar em casa, só porque tem um BABACA estacionado na sua vaga. Só não chamo o guincho porque meu pai ia me matar, já que o seguro dele também não cobre isso.
Às vezes, o seguro do meu pai parece cobrir só morte acidental, ou seja, um ônibus bateu em você e você bateu as botas. Só isso.
–Grace. –Minha mãe diz, quando eu abro a porta.
–Oi, mãe. –Dou um beijo na bochecha dela, e subo as escadas. Frank está cantando no banho, enquanto meu pai está arrumando a gravata. –Vai sair?
Assim que eu pergunto, ele desiste de apertar o nó, e chega mais perto, para eu fazer isso para ele.
–Tenho uma reunião. –Eu termino de fazer o laço.
–Boa sorte.
–Como foi na escola?
–Mesma porcaria. –Dou de ombros. –Mas Maxwell deu quinhentos dólares pra patrocínio esse ano, para os cupcakes. –Eu respondo animada e o meu pai responde com um sorriso.
–Fico feliz por você, criança. Tenho que ir.
–Tchau pai. FRANKIE DÁ PRA SAIR DO BANHO? EU QUERO IR NO BANHEIRO. –Eu grito pra ele, e como resposta, eu ganho a bela voz dele cantando cada vez mais alto um hit da vez, que estourou nas rádios, mas ninguém sabe o nome da música.
A casa está silenciosa, e eu não me acostumei ainda. Geralmente, quando Douglas ainda morava em casa, a casa ficava uma bagunça e ninguém parava quieto. E uma vez que você aprende a viver com o caos, agitação e barulho, o silêncio chega a ser assustador.
Minha mãe sobe as escadas com a cesta de roupas sujas.
–A diretora anunciou o tema do baile?
–Ainda não.
–Mas o que você quer ser?
De novo, essa pergunta. Eu posso ser o que eu quiser, mas nada que eu vestir vai me fazer me sentir mais verdadeira comigo mesma. Então... eu deveria ser nada. Faz sentido. Eu não vou de coisa nenhuma para o baile, e é exatamente isso que eu respondo à minha mãe.
Óbvio que minha mãe não acredita quando eu digo aquilo pra ela, mas eu não posso culpa-la.
Eu tenho sonhado com o baile de formatura a minha vida inteira. Provavelmente desde que a possibilidade de eu me formar entrou em órbita, ou seja, alguns anos atrás. No começo, meus pais acharam que era uma obsessão normal e passageira, já que eu só estava animada por algum dia, me graduar da escola, finalmente.
E então, um ano depois de eu ter começado a falar sobre minha animação, eu CONTINUAVA falando dos meus vestidos e acessórios, e então eles começaram a acreditar que, talvez, eu realmente fosse fã de baile de formatura. Mas... se tinha algo que eu falava mais do que tecidos pro meu vestido, era sobre meu acompanhante.
Essa parte é meio delicada para mim, já que eu terminei com meu último namorado há UM ANO. E eu nunca mais beijei ninguém, namorei ninguém, sequer falei com alguém que não fosse um amigo. E ninguém demonstrou interesse em mim, então eu presumi que passaria pelo último ano sozinha. O que não era tão ruim, se não fosse pelo fato de que a formatura está chegando.
Mas essa nem é a parte delicada. A parte explosiva, que contém um bocado de confusão (e um pouquinho de mágoa) é que Cooper Carmell prometeu me levar no baile. Dá pra acreditar? Eu não sei COMO eu acreditei que isso seria possível naquela época, já que a maioria dos garotos que acompanham as garotas são namorados delas e também estão se formando. Até parece que Cooper iria com uma garota mais nova, pra acompanhar ela no baile dela, sem ter a obrigação de ir.
Tipo, ninguém mais faz isso, e eu só tenho que conviver com essa dura realidade. Não que eu tenha esperanças de abrir a porta e ver Cooper vestido com terno e gravata pronto para me levar para a minha formatura. NÃO MESMO. E eu nem quero. Mas agora, eu tenho que achar alguém para me levar. Ou eu vou sozinha. Mas é vergonhoso demais e depois de um tempo, fica sem graça, porque você não vai ter ninguém pra conversar, já que todos os seus amigos estão com seus acompanhantes.
Se nada der certo, chamo Frank pra ir comigo.
Não que ele fosse concordar. Pra falar a verdade, as chances de eu ir com Cooper são maiores que as chances de Frank concordar em ir comigo.
Segundo ele, os colegiais são MAIS VELHOS. Como se isso não fosse óbvio, eu respondo, sempre que ele fala isso. Mas então ele explica que mais velhos é um modo de dizer “chato”, que é meio insultante porque eu sou MAIS VELHA. Frank só me deu um tapinha nas costas e saiu porque era a vez dele de jogar vídeo game.
Então é isso aí, eu vou aparecer sozinha naquilo e vai ser a pior noite da minha vida. Provavelmente eu vou ter que levar Mariah desmaiada de tanto tomar ponche com álcool pra casa, ou alguém vai vomitar no meu vestido.
Tudo bem, isso é um pouco de exagero, porque se eu quiser, eu posso ter um acompanhante. Não é impossível encontrar um cara legal em toda a escola, é? Quer dizer... um cara de saiba combinar uma gravata legal com o terno, por favor. Tem gente que não sabe diferenciar laranja e vermelho e acabam usando LARANJA com um terno AZUL. Quer dizer, isso não é uma personificação de algum time de basquete amigo, não se usa laranja com azul para ir pra um baile, NUNCA.
Eu tenho inveja de Mariah. Esse teve o mesmo namorado o ensino médio inteiro, e eles vão pra universidade de Berkeley juntos. Era isso que eu precisava que acontecesse comigo. O ruim de ter que escolher alguém pra ir no baile com você, é que você NÃO conhece a pessoa, e se descobrir que ela é legal, vocês tem menos de 20% de chance de ver ela de novo, já que a maioria dos alunos vai para universidades diferentes.
Quer dizer, E SE eu conheço o amor da minha vida no baile, e então ele vai morar por três ou quatro anos do outro lado do mundo? O que é que eu vou fazer com isso?
Mariah disse que eu tenho que ir lá e cobrar a promessa de Cooper.
Ela acha que eu tenho a cara de pau de aparecer e falar algo do tipo, “ah, oi, eu não vejo você há séculos, mas como você prometeu, é obrigado a me levar meu baile de formatura que você já deve ter visto como é, já que você já se formou, mas me liga.”
Tipo, não. Não mesmo.
Eu disse pra ela que eu nunca faria isso, e é bem provável que ele nem se lembre de ter dito isso, que foi eras atrás. Nós éramos crianças, como a gente podia saber que ele ia se mudar e depois de sumir por séculos, ia voltar? A gente não é mais melhores amigos, então praticamente todos os planos e promessas que a gente fez três ou quatro anos atrás não valem mais para os dias de hoje.
Tenho que me concentrar em fazer tarefa. Mas eu não estou conseguindo achar minha bolsa, então sou obrigada a ir ver no carro. Eu desço as escadas e vou até o carro, mexendo as chaves nos meus dedos.
As pessoas dizem que isso é mania, mas pra mim, é exercício. Quando você precisa colocar cream cheese frosting em cima dos cupcakes num tempo exato, você precisa confiar que tem uma boa coordenação motora, e precisa confiar que suas mãos estão fazendo um bom trabalho, então mexer nas chaves ajuda a ter coordenação que a gente precisa pra fazer coberturas de cupcakes perfeitas. E vale tudo no amor e na competição dos cupcakes.
Eu puxo a minha bolsa, fecho o carro e dou de cara com alguém. A julgar pelo cheiro de pirulito de morango, eu não preciso perguntar quem é pra saber que eu esbarrei em Carly Carmell.
–Foi mal. –Eu digo, levantando.
Carly Carmell é legal. Antes de ela se mudar, ela era uma das melhores amigas que eu e Mariah tínhamos. É claro que isso também foi a muito tempo, mas era legal naquela época, já que nos éramos... vizinhas.
Não.
Por favor, que não seja o que eu estou pensando.
–Tudo bem, eu meio que esbarrei em você também, me desculpa. –Ela é bonita também, com o cabelo liso e enorme, preto. A boca dela é estilo Angelina Jolie+alguns quilos de botox só que é completamente natural. Eu sei disso porque desde que nasceu ela tem uma boca ENORME. Ela tem olhos castanhos super claros e pele de Branca de Neve. Eu não estou brincando.
–O que você está fazendo por aqui? –Estou tentando parecer inocentemente curiosa e bastante animada.
Mas a realidade é que eu estou massivamente curiosa pra saber. Eu quero que ela responda que veio pra visitar alguém, ou pra me ver (há, não) ou estava passando por aqui. Eu só não quero que ela responda que voltou para a casa ao lado.
Porque aí minha vida estaria acabada.
Não por causa de Carly – ia ser legal, como nos velhos tempos, ter ela de volta – mas por causa de Cooper. Porque ele deve estar em casa também, já que a universidade é perto daqui. Eu não quero ser vizinha de Cooper... de novo.
E se ele achar que as coisas vão voltar a ser como eram antes? O.K, não, mas... e se ele tentar falar comigo? Como eu vou falar com ele ignorando a vozinha na minha cabeça que ia gritar para mim toda hora que eu era apaixonada por ele? Com a minha sorte, é capaz de eu congelar.
Ou então eu correria para bem longe, e então no outro dia Carly me perguntaria o que tinha acontecido e todo mundo ia rir de mim. Minha sorte que ela e eu temos aulas diferentes. Só que no recreio ela senta comigo e com Mariah então... droga. Estou ferrada.
–Vim pegar umas caixas que a gente deixou no caminhão de mudanças. São as últimas.
Não grite. Não grite.
–Vocês estão voltando pra cá? Todos vocês? –Me pergunto se minha está tão tremida quanto eu escutei.
–Sim... mas só voltamos com meu pai. –O tom de voz dela me diz que ela não quer falar sobre isso, e eu fico quieta. Alguma coisa deve ter acontecido com a mãe dela.
–Vocês voltaram mesmo? Tipo, mesmo, mesmo? –Acho que ela acha que eu estou animada, porque a expressão dela se ilumina.
–Mesmo, mesmo. Vai ser tão legal! Como nos velhos tempos!
Ela me abraça. E eu fico quieta, porque não penso em nada inteligente pra dizer. Ou porque se eu abrir a boca eu grito. Quando ela me solta, um estrondo vindo do caminhão de mudanças assusta a gente, e eu vou junto com ela até lá, ver o que está acontecendo.
–Tem alguém aí dentro? –Eu pergunto, tentando abrir a porta do caminhão, que está fechada e é pesada demais para alguém como eu abrir. Carly fica atrás de mim, segurando as caixas fortemente, com se quem quer que esteja dentro do caminhão, fosse roubar os diários dela de dentro das caixas.
De repente, a porta sobe, e de lá sai Cooper.
Eu queria ignorar o jeito que meu coração começou a bater mais rápido de nervosismo ou a vergonha que eu sinto olhando para a cara dele. Ele sorri quando olha pra minha cara de vergonha e depois pra cara de assustada da irmã.
–Você é um idiota. Eu estava achando que tinha um assassino aí dentro. –Ela diz pra ele, e eu quase respondo um “isso aí” mas fico quieta. E é nesse momento que ele me olha.
–Grace — Ele diz, normalmente. Mas EU percebo a ansiedade na voz DELE.
–É... Oi. Tenho que ir, — Eu digo, pra acabar com isso de uma vez. –Foi bom ver você. – Eu falo para ele, e para Carly eu digo. -Falo com você depois.
Ela me dá um abraço amigável e eu entro. Mas que DROGA eu vou fazer tendo COOPER CARMELL como meu vizinho agora?
Fale com o autor