Grabor
15 Capítulo 15 - Maranda Jill
Notas iniciais
POVOADO POMI, SUL DE NAFRA
A primeira hora de sol se completava e a movimentação em Pomi começava: elfos saindo de suas casas para trabalharem, as crianças indo para os centros de ensino, construtores finalizando os últimos edifícios... No pequeno quarto já existente na nova casa central, Clou interrompia o sono de Maranda batendo à porta.
–Senhorita Maranda – dizia Clou com um cansaço indescritível na voz – está acordada?
Nenhum som veio de dentro do quarto. Insistiu:
–Senhorita Maranda... Está acordada?
–Agora estou – disse Maranda rispidamente enquanto se espreguiçava e se levantava de sua cama – o que quer?
–Preciso dormir, estou muito cansado. Fui até cada pescador solicitado para entregar a mensagem. Estarão todos prontos na segunda hora de sol na sede econômica do povoado.
Maranda levantou da cama, vestiu um sobretudo e abriu a porta. Clou se espantou, estava ali há alguns ciclos* e não tinha visto Maranda com outra roupa senão a tradicional armadura azul claro.
–Precisarei levá-lo junto comigo até a reunião, os pescadores vão querer uma explicação sucinta para um elfo negro incomodá-los no meio da noite em meu nome. Depois da reunião pode tirar o resto do dia para si. Agora me siga, vou tomar um banho e preciso te contar algumas coisas.
Maranda saiu e fechou a porta atrás de si. Com passos largos, Clou estava com dificuldade de acompanhá-la.
–Você sempre anda rápido assim?
–Não estou andando rápido. Estou andando normalmente.
Maranda caminhava pelas ruas de Pomi cumprimentando cada cidadão que via. Clou, entretanto, não tinha a mesma mordomia. Os elfos se afastavam o máximo que podiam aterrorizados. Ainda não confiavam em elfos negros, mas Maranda tinha esperança de que confiassem algum dia.
–Onde estamos indo? – Perguntou Clou.
–Para as termas, perto do rio. Quando tenho uma coisa importante pra fazer gosto de relaxar lá. É um excelente lugar, você deveria tentar.
–E você confia em mim o suficiente pra isso?
–Clou, se não confiasse em você, teria feito muito mais além de quebrar seus dedos naquele dia. Acredite em mim.
Clou somente arregalou os olhos, assustado. Seguiram caminhando por mais três minutos, em silêncio. O elfo somente observava as ruas do povoado as quais eram incrivelmente bem cuidadas e preservadas. Maranda realmente sabia como administrar um povoado.
Chegaram, enfim, as termas: era um prédio bem agradável visivelmente falando. Tinha dois andares, janelas somente no andar superior. As paredes de madeira davam a impressão de segurança dentro do local. Não havia porta, somente um arco por onde passavam tranquilamente dois elfos lado a lado. Maranda entrou primeiro com Clou logo atrás.
Entraram em um corredor ligeiramente pequeno com duas salas, uma de cada lado e uma abertura no final do corredor que dava acesso as piscinas termais.
–Esse é o vestiário masculino – apontou para uma porta que estava nas às costas de Clou — cuidado para os elfos não se assustarem contigo. Vou me trocar no vestiário feminino e nos encontramos em uma das piscinas. Boa sorte. – Maranda mal terminou a fala e entrou no vestiário.
Clou ficou ali, parado por algum tempo até decidir entrar no vestiário e por uma roupa mais adequada para um banho. Ao fechar a porta, os três elfos que estavam ali dentro saíram apressados e cochichando todo tipo de insulto: “aberração”, “suma escória”, “ninguém te quer aqui”.
Por um momento a raiva tomou o corpo de Clou, mas se conteve. Estragaria tudo se ferisse alguém, Maranda confiava nele e ele não queria trair essa confiança. Por fim, agora que estava só, entrou em um dos boxes e tirou sua armadura. Tinha um corpo bem definido sem nenhuma cicatriz. Ficou somente com roupas íntimas, enrolou-se em uma toalha e saiu do box. No fundo do vestiário havia armários amplos. Escolheu um, colocou sua armadura ali, trancou e saiu do vestiário em direção as piscinas.
O corredor terminava em uma escada dupla que descia até as piscinas. Havia quatro no total, dispostas em forma de quadrado e separadas por meias-paredes. Maranda estava na piscina do fundo à esquerda. Desceu as escadas apressado e foi até seu encontro.
–Posso entrar? – Perguntou Clou meio sonolento.
–Por favor, fique à vontade.
Maranda observou cautelosamente o corpo de Clou enquanto ele entrava na piscina. Clou percebeu e ficou corado. Não era tímido tampouco gostava de ser alvo de olhares.
–Você tem um corpo bonito – Declarou Maranda percebendo que o elfo tinha ficado corado o que contribuiu mais ainda para isso.
–O... Obri... Obrigado! – Gaguejou Clou. Maranda apenas riu levemente.
Clou sentou-se na piscina sem jeito, não sabia o que fazer ou dizer e Maranda estava o deixando constrangido.
–Desculpe Clou, estou te constrangendo. Pedi sua companhia até aqui porque quero desabafar. Confio nos meus capitães, mas acredito que você seja a melhor pessoa pra conversar no momento. – Maranda soava convincente e sincera.
–Mas eu sou somente um elfo negro... Você vai confiar em mim a todos os outros? – Clou perguntou confuso.
–Você é em quem eu confio no momento.
–Eu estou aqui há uns três ciclos... Seus capitães estão com você desde... Desde sempre...
–Clou! – Maranda o interroumpeu. O elfo fixou seu olhar na elfa – Eu confio em você, é o suficiente.
Clou se deu por vencido. Apenas relaxou e escorou-se na parede da piscina. Seu sono tinha ido completamente embora o cansaço ainda permanecesse.
* * *
Em Cordol, Nun chegava ao solo juntamente com Padma, Fríope e todos os elfos responsáveis pela administração da cidade. Jorkin, que estava próximo observando a cidade, foi ao seu encontro.
–E então senhores, como foi a reunião? – Perguntou Jorkin com um sorriso no rosto.
–Obtivemos sucesso com os administradores – começou Padma – todos concordaram em entregar os poderes administrativos para você com a condição de fazer um juramento onde você jurará proteger a cidade e seus cidadãos, custe o que custar.
–Nosso governo – continuou Fríope – não foi capaz de parar uma invasão, logo não obtivemos sucesso em proteger a cidade. Só queremos que nos garanta segurança. Se a tropa branca chegar até aqui e encontrar a cidade neste estado ela não perdoará vocês e temo pela vida dos cidadãos que aqui moram.
Jorkin fitou o grupo de administradores por um momento antes de falar novamente.
–Sabe, admiro muito isso em vocês elfos: mesmo com uma oligarquia que, cá entre nós, se aproveitou de sua posição vocês continuam enxergando todos como uma única família e querem proteger a todos – Jorkin justificou-se – também tenho um grande apreço por essa cidade, afinal, foi onde passei excelentes momentos da minha vida. Se querem meu juramento o terão. Nun, venha até aqui. – O mago obedeceu à ordem.
Jorkin desembainhou sua espada e entregou a Nun, em seguida ajoelhou-se sobre ambos os joelhos de frente para todos os administradores da cidade.
–Eu Jorkin juro solenemente proteger a cidade de Cordol e seus cidadãos contra ameaças externas enquanto o poder administrativo dessa cidade residir em mim! – Ao final, Nun tocou na cabeça e no coração de Jorkin com a espada e se afastou.
–Está feito. – Disse Nun.
Jorkin levantou, pegou e embainhou sua espada e fitou os administradores esperando por uma resposta. Lentamente todos se olharam e se ajoelharam em seguida, Fríope e Padma foram os últimos. Quando todos se ajoelharam Jorkin esboçou um largo sorriso.
–Falo por todos aqui ajoelhados – começou Fríope – assim sendo, nós não temos outra opção senão entregar plenamente os poderes administrativos de todos os cunhos dessa cidade a você. Esperamos que cumpra com seu juramento e promova uma excelente administração para todos.
–Tudo bem, levantem-se.
Todos se levantaram em seguida e fitaram Jorkin.
–Esse aqui – botou a mão no ombro de Nun – é Nun, um dos melhores magos do mundo e está do nosso lado. Tratem-no com respeito.
Nun assentiu e todos o reverenciaram.
–Agora – recomeçou Jorkin – eu preciso de mais um favor de vocês. A população geral ainda não confia em mim. Peço que vão de casa em casa e os convença disso. Também chame os responsáveis por cada família para o parque central para que eu apresente meu discurso. Entenderam? – Todos assentiram – Ótimo! Fríope e Padma, por favor liderem todos. Dispensados.
Assim que todos saíram Nun puxou Jorkin para um canto mais reservado onde pudessem conversar.
–Onde está Mary? Não a vi em lugar algum. – Perguntou Nun visivelmente preocupado.
–Ela detectou uma magia poderosa que foi executada próximo daqui. Pedi pra ela e Platos irem verificar.
Nun, em um momento de descontrole, segurou Jorkin pelo pescoço e o empurrou até a parede mais próxima. Com a mão livre preparou um feitiço: uma bola transparente com raios pretos que se chocavam a todo o momento em seu interior. Aproximou aquilo do rosto de Jorkin e disse em tom ameaçador.
–Como você a deixou ir sozinha para o meio da floresta? Ela não sabe se virar sozinha... Mary precisa de mim...
Jorkin, o mais rápido que pode, preparou um contrafeitiço. Envolveu sua mão com uma película de magia negra e tocou o abdome de Nun, fitando-o em seguida.
–Se controle mago – devagar foi organizando a energia que estava dentro do corpo do mago – isso muito bem. Agora retraia a energia do feitiço – a bola que estava na mão de Nun desapareceu – recomponha-se.
Após isso, Jorkin afastou sua mão e Nun voltou a si. Imediatamente caiu de joelhos pedindo desculpas pelo acontecido. Jorkin apenas se abaixou, ficando ao seu nível, pôs a mão em seu ombro e o confortou:
–Nun, está tudo bem. Não precisa se desculpar você precisa é aprender a controlar esses seus ataques. Sei o quanto gosta de sua irmã, mas só a deixei ir porque sei que ela é capaz de se defender sozinha. Platos está com ela, Mary está segura. – Jorkin falava de modo acolhedor. Gostava muito de Nun.
–Me desculpa comandante – Nun chorava levemente – preciso aprender a me controlar, desculpa, desculpa.
Jorkin apenas o abraçou, confortando-o.
–Você está certo – disse Nun enquanto saia do abraço de Jorkin – ela sabe se virar. Desculpe-me novamente comandante.
–Está tudo bem – levantaram-se – venha, vamos sair daqui, ainda temos muito o que fazer antes de partir... Nem decidi ainda quem vou deixar em meu lugar.
E assim, os dois voltaram para as ruas da metrópole.
* * *
–Sabe Clou – começou Maranda – minha vida não foi nada fácil. Eu não nasci em nenhuma das metrópoles conhecidas, muito pelo contrário. Tem uma vila mais ao leste, uma vila minúscula. Se chama Jill, por isso recebi esse sobrenome.
Maranda começou a contar sobre a vida dela para o elfo negro com o simples intuito de ganhar a confiança dele. Ainda não tinha contado completamente seu plano sobre uma convivência pacífica entre as duas raças e ele estava sendo sua cobaia.
Clou escutava a tudo atentamente. Fazia o que lhe era mandado não por livre e espontânea vontade, mas porque temia por sua vida caso desacatasse alguma ordem.
–Nunca conheci minha mãe, pois ela era uma prostituta e quando deu a luz me deixou na porta da casa do meu pai. Agora meu pai é um grande homem. Me assumiu como sua filha e sempre trabalhou duro pra botar dinheiro lá em casa.
Nesse momento, um velho elfo ameaçou entrar na piscina termal onde estavam.
–Dona Maranda. Se importa se me juntar a você? – O velho tinha ignorado completamente Clou.
–Na verdade me importo. Estamos tendo uma conversa em particular aqui – apontou para Clou e depois para si – e não gostaríamos de ser interrompidos. Se precisar falar comigo mais tarde eu lhe procuro.
O velho corou de vergonha.
–Mil perdões dona Maranda. Vou me retirar imediatamente!
Quando o velho tomou uma distância segura, Maranda retomou seu discurso:
–Meu pai era agricultor, não sei se ainda o é, faz algum tempo que não o vejo. Desde cedo aprendi a plantar, abrir diques, inúmeras técnicas de plantio. Até porque não havia crianças no vilarejo além de mim, então eu não tinha com quem brincar. Sobrava passar o tempo com meu pai e ajudá-lo como fosse possível.
–Cresci assim, trabalhando duro. Mas tem uma hora que o passarinho quer voar e a mãe, nesse caso o pai, não tem como impedir. A despedida foi dolorosa. Meu pai queria que eu fosse para Colossus e entrar em uma boa faculdade. Mal tínhamos dinheiro pra nós, imagina para cruzar o mar Médio e chegar em Colossus.
–Por fim, quando eu tinha catorze anos me mudei para Nafra, recomecei minha vida. Meu pai me deu todo o apoio e amei ele mais ainda por isso. Entretanto foi muito difícil recomeçar minha vida. Nafra não é uma cidade que sobrevive de agricultura, e sim, de indústrias. Naquela época, em 226 981 a cidade tinha acabado de se industrializar e eu não tinha prática nenhuma com aquilo. – Clou começou a se comover com a história.
–Eu morei na rua pelos primeiros dois anos. Adquirindo prática em como trabalhar em fábricas e sobrevivendo dos perigos das ruas da metrópole. Até que por fim um casal que trabalhava na mesma fábrica que eu, decidiu me acolher: Marg e Will. Eles não ganhavam muito, mas o suficiente para sobrevier. Foram tão generosos durante o tempo que passei lá.
–Um ano mais tarde surgiram vagas para o alistamento da guarda da cidade prometendo um salário três vezes maior do que o que eu recebia. Decidi tentar, afinal, a rua tinha me ensinado muita coisa. Passei no teste em oitavo lugar e abandonei a vida difícil das fábricas. Recebi um treinamento militar rígido e um ano mais tarde já era parte integrante da guarda de Nafra. Foi ai que minha vida mudou. Ganhei muito respeito dentro da cidade, fiz inúmeros amigos.
–Até que decidi sair de Nafra foram mais quatro longos anos. Fiquei morando mais dois anos com aquele casal, ajudando-os da melhor forma e então comprei minha própria casa no centro da cidade. Durante alguns momentos cogitei em ir para Colossus e fazer a tão sonhada faculdade, mas ouvi dizer que o custo de vida lá é muito alto e não suportaria recomeçar novamente.
–Por fim, larguei a guarda e a vida da metrópole e vim para cá. Fundei Pomi com trinta elfos além de mim há doze anos. Dela pra cá o povoado cresceu exponencialmente e chegamos aonde chegamos.
Maranda terminou seu discurso, enxugou as lágrimas que caiam aos montes e encarou Clou, esperando por alguma resposta. O elfo negro enxugou também suas lágrimas e esboçou um sorriso.
–E... E... Eu não sei o que dizer... Sofri também, mas nada comparado a isso. Eles têm razão quando lhe chamam de guerreira.
Ficaram os dois ali por mais algum tempo até que decidiram sair. Tinham uma importante reunião de negócios em alguns minutos.
* * *
A segunda hora de sol se aproximava e a guilda de Nafra continuava a andar, na direção de Cordol. Estavam caminhando em uma boa velocidade e jogavam conversa fora tranquilamente. Andando por mais alguns minutos Grabor fechou a cara e começou a desacelerar a passada.
–O que foi Grab? – Perguntou Amber.
–Estou sentindo uma grande quantidade de energia negra se movendo na nossa direção. Nunca senti algo tão grande.
–Como assim Grab? – Foi a vez de Hila perguntar. A cara de todos estava em dúvida.
–Eu perdi a visão primeva, mas eu ainda consigo sentir a energia ao meu redor. Estão se aproximan...
Seu discurso foi interrompido quando dois elfos negros saíram de trás das árvores a uns cem metros de onde estavam, vindos da direção de Cordol. Era um elfo muito bem armado que fora reconhecido por Grabor imediatamente:
–Platos!
Do lado estava Mary, a maga preferida de Jorkin e uma das mais poderosas do mundo. Ambos abriram um enorme sorriso.
–Então – Mary foi a primeira a falar – de quem é esse grande poder que eu senti agora pouco?
Fale com o autor